A cura da guerra
1 Sorvetes são estranhos
Notas iniciais
Sempre me perguntei como os heróis de livros podem pensar em coisas tão aleatórias durante uma batalha. Decidi, então, que a resposta era simples: eles são heróis e ponto. Nunca me vi como uma heroína. Não imagino eu vencendo uma luta contra um inimigo fatal, se participasse de algo parecido, com certeza só estaria na acessória. Não! Eu não nasci para ser uma heroína. Minha vida até agora se resumia no fim do ano letivo e na tentativa de aproveitar o meu verão.
No meio do meu pensamento um bilhete chegou na minha mesa, virei para trás e vi minha amiga Mary olhando para mim. Ela tinha olhos cor de mel e cabelos castanhos claros e sorria discretamente. Estava na última aula de matemática, a professora fazia o seu último discurso, não fazia sentido uma pessoa que trabalhava com números gostar tanto de discursos, deve ser por isso que eram horríveis, suas palavras soavam como “ Adeus pirralhada, espero que não voltem”.
Abri o bilhete:
Karolyn,
Eu, você e o Brook na sorveteria depois da aula, ok?
Mary
Aquela menina sabia escrever um bilhete e ter boas ideias. Sou melhor amiga de Mary desde que me conheço por gente. Já o Brook conheci esse ano, no começo percebi que ele estava bem curioso em ser meu amigo, o que não é muito recomendável, mas ao contrario da maioria da escola não me importava dele ser estranho e andar de jeito engraçado. Sua pele era negra e olhos escuros, tinha um óculos que raramente usava. Diferente de Mary que é baixinha, ele tinha meu tamanho o que não era muito desproporcional para um jovem de quinze anos.
O sinal tocou e com ele o primeiro ano acabou. Saímos da sala e fomos direto para a sorveteria.
Chegando lá um jovem de uns dezoito anos chegou até a nós. Ele tinha um crachá escrito atendente, para um atendente de sorveteria parecia muito sério e concentrado.
– O que desejam?
Cada um pediu o seu favorito, então pedi um soverte de flocos. Depois que o atendente saiu , Mary perguntou:
– Vocês viram o jeito desse cara?
– É. Ele parece muito estranho. — comentou Brook.
Olhei discretamente para o tal atendente que olhava de um jeito sinistro para a nossa direção enquanto esperava o pedido.
– Ele está olhando a gente.
Brook franziu a testa.
– Como?
Então ficamos quietos, o cara estava chegando com os nossos sorvetes. Ele olhou para mim e deu um sorriso estranho, eu fiquei em choque.
– O que vocês vão fazer no verão? — Tentei mudar de assunto.
Enquanto Mary falava de seus planos para a viajem a Roma, ela sempre sonhou em viajar para lá, conhecer as ruínas. Eu fiquei paralisada olhando o meu sorvete, eu tinha perdido a vontade de tomá-lo. Ele tinha uma aparência estanha, os flocos estavam esverdeados. Brook olhou para ele:
– Karolyn, não rele nesse sorvete!
O atendente voltou a mesma no mesmo tempo.
– Algum problema?
– O meu sorvete está estranho.
– Só o gerente pode resolver isso. Quer falar com ele?
Hesitei, não estava com vontade de falar com gerente algum, mas como poderiam vender um sorvete assim?
– Sim, quero.
Ele me direcionou até uma porta e entramos em uma sala, só que ela estava vazia. O atendente estava atrás de mim, e quando virei não vi ele, mas sim um estranho monstro do meu tamanho com as garras prontas para me atacar. Gritei tão alto que tenho certeza que todos que estavam na rua ouviram. Então percebi que alguém estava tentando abrir a porta só que ela estava trancada. "Estou morta", pensei corri o mais longe do monstro.
– Você não vai querer me comer, eu tenho um gosto muito ruim.
De tantas maneiras de morrer porque a minha tinha que ser assim? Felizmente a monstro se movia devagar, talvez não tivesse nada marcado para depois do almoço.
De repente a porta e arrombada por Brook que tinha na mão uma flauta que começou a tocar, o som deixou o monstro destabilizado, logo chegou um menino aparentemente da minha idade com uma espada de bronze na mão, rapidamente ele acertou a espada no atendente/ monstro que se reduziu em pó dourado.
– Rápido!
Saimos correndo da sala e encontramos Mary na porta preocupada. Peguei o braço dela e a puxei correndo para fora daquela sorveteria.
Enquanto corríamos percebi que Brook corria de jeito estranho, mas não mancando como antes. O menino desconhecido nos guiava para longe. Devia mesmo estar seguindo um estranho? Quando parecia longe suficiente paramos. Mary olhou para o menino novo, que tinha cabelos castanhos, olhos escuros, pele clara e era um pouco mais alto do que eu.
– Quem é você?
– Melhor a gente ir para casa, Karolyn está passando mal. — cortou Brook.
– Nem pensar, não vou deixar ela assim. — Gritou Mary.
– Está tudo bem, Mary. Acho melhor assim. — Qual fosse o significado de tudo aquilo, percebi que Brook sabia, era conhecido daquele menino, e não queria que Mary interferisse.
O desconhecido observava o resto da rua.
– Rápido, Brook!
Chamei Mary para um pouco longe dos demais.
– Por favor! Não pergunte nada. Só vá para casa, eu explico tudo depois.
Por incrível que pareça ela não protestou mais, devia estar em choque. Deu-me um abraço e disse:
– Cuidado!- E saiu andado em passos rápidos olhou algumas vezes para traz preocupada. Será que ela ficaria bem? Mary podia parecer sensível, mas nos piores momentos mostrava ser a mais forte. Como quando sua mão morreu, teve que cuidar de suas outras duas irmãs, enquanto seu pai tinha ataques de raiva e logo após momentos de depressão. Não tinha nenhum outro parente próximo, já que seus países vieram da Inglaterra antes dela nascer. O episódio de luto havia passado, seu pai se tratou, dando mais atenção às filhas e Mary pode voltar a viver sua vida normal, quer dizer quase, já que ausência da mãe nunca poderá ser substituída.
Brook me olhou e disse:
– Tomara que sua família saiba a verdade!
Quando Brook diz "família", se resume em meus avós maternos e minha mãe, mas ela não para em casa, está sempre viajando a trabalho, quer dizer, ela teria a opção de se estabelecer na América, mas prefere ficar rodando o mundo, diz que lembrava o meu pai, este era o único assunto onde ela o colocava, nunca me disse nem se quer seu nome.Não temos tempo para conversar sobre isso, e não ouso falar sobre isso com meus avós.
– Ela não sabe ainda?- perguntou o menino que não conhecia.
– Não pude contar até agora. – respondeu Brook.
– O que eu não sei? Quem é você? Tinha um monstro querendo me matar e vocês sabem alguma verdade sobre mim?
– Karolyn este é Noah. Ele veio-nos... ajudar.
– Não temos tempo para apresentações, venham!
Ele guiou-nos até um beco, onde tinham... Pégasos? Tinham três pégasos esperando-nos, Noah subiu em um, Brook e eu subimos nos outros dois. Tive um pouco de dificuldade, mas consegui. Quando todos estavam prontos os três pégasos começaram a voar.
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