A culpa vem do anjo que caiu
1 Meu Anjo
Desde que nasci, eu sabia que não era normal. Mas se é para iniciar uma história direito temos que seguir para o princípio, as ondas e a vontade de sentir esse calor. O começo foi repentino, meu pai me amava muito, ele sempre repetia isso toda vez que me dava banho.
Flashback
Minha casa era pequena afinal apenas eu e meu pai morávamos lá. Antes de completar um ano, a esposa dele apenas foi embora, segundo ele, foi porque não suportava a ideia de ser mãe, de se prender a uma criança por toda sua existência e desistir dos seus sonhos. Nunca nos aprofundamos muito nesse assunto, mas foi por iniciativa minha, pois se ela não queria permanecer comigo, por que devo correr atrás? Voltando da divagação, meu quarto era azul com uma cama encostada na parede, um armário na outra e um baú de brinquedos de cor vermelha com desenhos de brinquedos, era o lugar mágico para mim, mesmo sem apoio materno, ele fazia de tudo para que eu me mantivesse feliz.
Me lembro perfeitamente de tudo, de manhã ele me acordava com um beijo em minha testa, me ajudava a me vestir, a tomar café em nossa cozinha vermelha escura, brincávamos, víamos desenhos na televisão, a maioria eu não entendia nada, mas o clima do lugar era tão alegre que nada disso importava no fim, o nosso sorriso era verdadeiro. Mesmo sendo todos os dias iguais, nunca era monótono, ele trabalhava em casa então nunca precisei me afastar dele para nada, ou seja, um paraíso para mim.
Até atingir os 5 anos, os beijos de manhã não eram mais na testa, eram no canto da boca, eu sentia seus olhares pelo meu corpo antes de me vestir, até tomar café se tornou diferente, ele me observava em todos os passos que eu dava, porém não eram os mesmos olhos, eram ferozes, ardentes, gulosos. Contudo, eu não senti medo, ele era meu melhor amigo acima de tudo, não tinha porque me sentir mal com sua presença, então passei a ignorar eles. As brincadeiras mudaram, sempre terminando com abraços e carícias em minhas pernas, estranhamente apenas os momentos de televisão eram os mesmos, desenhos que eu continuava não entendendo, mas que deixava o clima tenso mais leve como se tudo fosse o mesmo de antes.
Isso durou até o dia do meu aniversário de 6 anos, no dia parecia que tínhamos voltado para os tempos dourados, sorrisos e alegrias para todos os lados, o café, o banho, as brincadeiras e a televisão foram perfeitos, ele sempre me perguntava se eu estava feliz com tudo aquilo e eu afirmava, como poderia reclamar de ele ter pensado em mim o dia inteiro? O que não esperava, era que a noite não seria a mesma alegria, após o jantar ele me levou para seu quarto dizendo que queria me entregar um presente que mudaria minha vida para sempre, era a primeira vez que entrava ali, nunca senti necessidade de entrar naquele cômodo, nem por curiosidade, não sei se por causa disso nunca suspeitei do que ele era capaz ou somente não me importava saber.
Ao entrar eu vejo as paredes pintadas de branco perfeitamente normais se não fossem as fotografias minhas espalhadas, na época eu só apontava para elas rindo pois sabia que era eu nelas, de meus sorrisos em quase todos os momentos, ele percebe que eu não fiquei com medo e com um sorriso de pura felicidade me sentou em sua cama, um pouco impaciente eu perguntei sobre meu presente:
— Oh meu anjo... eu logo lhe mostrarei ok? Mas peço que tenha paciência, tá bom?
Eu adorava aquele apelido, me fazia sentir especial a cada vez que ele usava, não sei se era por ser ele, ou por nunca ter sido chamado daquela forma. Ele foi até seu armário preto e de lá pegou uma caixa simples de madeira que em sua tampa possuía um par de asas destacada, chegou perto de mim colocando o pacote em cima da cama, eu toco as asas achando-as interessantes até que ele a abre, de dentro ele retira um colar dourado com os dizeres:
“Meu Anjo”
Na hora eu achei estranho e ficava me questionando o que fazer com aquilo, era apenas uma criança que esperava um brinquedo ou até um videogame, ele percebe que eu não reagia e resolveu se explicar:
— Este colar era o que eu daria para sua mãe, pequeno. Uma noite antes de ela ir embora eu... pensei em dar um presente para ela ver que eu estava ao lado dela. — Assim que ele falou isso, eu senti lágrimas saindo de seus olhos e em um movimento desesperado o abraço forte, não podia deixar meu pai chorar daquela forma e sem muito demorar ele retribuiu. – Meu anjo... você é tão parecido com ela... mesmos olhos, o mesmo sorriso... meu anjo...
De repente, ele segurou meu rosto e de forma leve, tocou seus lábios nos meus, no começo eu não entendi nada e ele não pareceu se incomodar, ele não parou. Primeiros meus lábios, pescoço, rosto, tudo eu sentia ser tocado por sua boca em uma mistura de desespero e cuidado, eu não sabia reagir então apenas pedia para ele parar:
— Papa!! – Eu gritava seu nome, chorava e esperneava esperando ele me soltar, mas o inesperado aconteceu, ele me deu um tapa.
“SLAPT”
— Anjos não devem questionar seu Deus... – Ele acaricia meu pescoço voltando a falar com uma voz mais profunda que me arrepiava, não sei se de medo ou expectativa – Anjos devem obedecer e cantar para seu Deus, deixe-me ouvir sua canção, meu Anjo...
Depois disso eu só permaneci em silêncio, não queria levar outro tapa dele e sentir meu coração partido mais uma vez, as carícias estranhas não doíam mas havia mordidas, arranhões e marcas em todo meu corpo que me faziam chorar em silêncio pelas dores que causavam, até que uma em específico me fez gritar em plenos pulmões, e que não sei se agradeço ou não, mas graças a ela eu pude enfim desmaiar e não sentir mais aquilo.
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