A crônica de Eastar - O Reino Sirion
2 1 Hora de descer
2.006.000 anos depois
As colisões eram como a explosão de um canhão, os socos faziam Eastar deslizar metros antes de se recompor, ele cambaleava e sentia o gosto ácido e carregado de seu sangue azul na boca. Sabia que estava com o lábio cortado, e provavelmente, o nariz quebrado também — nenhuma novidade até aí, mas ele se recusava a aceitar a derrota.
— Vamos, garoto, chega. Sua mãe vai brigar comigo se você chegar desmaiado de novo. — Seu pai gritou para ele.
— De jeito nenhum! Ai! — Ele voltou o nariz para o lugar. — Eu disse que seria hoje... — Ele ofegava. — e vai ser hoje!
A gargalhada de Aros foi estrondosa.
— Muito bem, então! Já disse que levará mais um milhão de anos antes que você me acerte, e olha que estou sendo generoso, mas tudo bem. — Ele estendeu os braços, convidando o filho a avançar. — Venha! Vamos lá!
Eastar partiu, deslizando pelo espaço com seus longos cabelos negros sendo atirados para trás, ele seguia muito rápido, rápido até mesmo para os olhos do seu adversário.
Diferente do pai, vestido em cota de malha, calça e bota de poeira estelar, o garoto achava que leveza e velocidade eram tudo, então ele mesmo havia feito um simples macacão cinzento de poeira.
Avançou acreditando nessa velocidade, foi com o punho direito erguido, decidido a acertar o velho naquela boca sorridente que ele tanto exibia. O jovem estelar brilhava intensamente, uma luz azulada e quente que continha toda sua vontade naquele ataque.
O comandante ficou com uma expressão séria, aquela velocidade estava além do que ele esperava, de repente seu filho já estava próximo demais, quase não dando tempo para que o comandante aparasse o soco com sua mão esquerda.
Recuperando o controle, ele subiu seu punho direito com uma força extraordinária em direção ao queixo do filho, mas este conseguiu ver o movimento do pai, se inclinou para trás, e o soco passou bem à frente do seu rosto.
O estelar, que tinha agora sua barba ficando grisalha, se permitiu um pequeno sorriso, ele sabia muito bem o que o filho faria antes que seu corpo delatasse o movimento. Uma luta para ele era uma dança, e não se tratava de ser mais forte que seu adversário, se tratava de conhecer a sincronia dele. Entendendo sua dança, você anteciparia seus movimentos. Eastar aprenderia isso um dia, Aros faria com que ele aprendesse.
O jovem continuou girando e, na velocidade de um piscar de olhos, acertou o joelho no rosto do pai.
O comandante foi jogado metros para trás, quando conseguiu se sustentar de novo, estava cambaleando e com a visão turva.
Ele ficou um tempo sem acreditar naquilo, sabia o que viria, conhecia seu filho, e a sincronia dele, apesar de maravilhosa de se ver, ainda era previsível. Mas aquela velocidade não fazia sentido, foi um impulso anormal que não lhe deu tempo de desviar a cabeça. Ele olhou para o filho escondendo o espanto em seu rosto.
— Caramba, garoto. — Ele sacudiu a cabeça e segurou a boca com uma das mãos. — É. Parece que você finalmente conseguiu.
— Tá vendo! Tá vendo! Eu consegui! Espera só até a mamãe saber disso. Rapidinho vou ser tão forte quanto você, velho!
— Nem nos seus sonhos.
Mas de fato ele não sabia, a força daquela joelhada o havia surpreendido tanto quanto a velocidade do filho, ele imaginou se o garoto teria herdado sua força além da velocidade da mãe.
— Oh! Isso seria perigoso. — Pôs os pensamentos em palavras sem perceber.
— O quê?
— Nada. — O comandante cortou, tentando mudar de assunto. — Vamos logo, ou sua mãe vai me arrancar os dentes.
— Talvez ela devesse, faria bem para o seu ego.
— Moleque, você realmente sabe o que falar para merecer uma surra.
— Desculpa, pai.
O jovem sorriu, e seu pai não conseguiu segurar a risada, era impressionante como ele se via no filho, apesar de ele ter a insolência da mãe. Ela estava certa o tempo todo, como geralmente acontecia.
Apesar de ter convivido bastante com os humanos depois que Eastar nascera, ainda era uma sensação bem engraçada, essa de ter um filho. Ele passou o braço pelo ombro do garoto, e os dois se deslocaram rapidamente até onde sua mulher os esperava.
***
— Olá, vocês dois! — Luriel abriu os braços para os recém-chegados.
Ela olhou para o filho, o cabelo dele chegaria até a cintura se não estivesse flutuando no espaço, estava bagunçado e cheio de nós. Ela suspirou, e a expressão feliz se tornou quase um lamento.
— Eastar, acho que podíamos cortar esse seu cabelo.
— Não. Não comece com essa história de cabelo de novo, tenho algo muito mais importante para contar.
— Tudo bem, tudo bem. Então me diga, como foi a sessão de espancamento hoje?
— É treino mãe! — Eastar revirou os olhos, tendo que repetir pela milionésima vez, mas se lembrou do assunto principal e abriu um sorriso cheio de dentes. — O velho apanhou hoje!
Luriel olhou surpresa para Aros.
— Isso é sério?
— Pois é. Esse pivete conseguiu me acertar no fim das contas. Uma joelhada só, mas até que me impressionou um pouquinho.
— Você ficou zonzo! — disse, indignado
— Eu fingi que fiquei zonzo para você ficar feliz.
— Sim, sim. Sei disso.
Os dois encostaram as testas um no outro em desafio e com sorrisos ferozes nos rostos.
— Meninos, parem com isso, por favor, parecem estrelinhas de cem mil anos.
— E não é essa a idade desse pivete? — O comandante disse, dando tapinhas na cabeça do filho sem desencostar a sua.
— E você tem uma eternidade! — O garoto retrucou, encarando o pai com firmeza.
— Isso faz de mim apenas mais experiente, garoto.
— Pode ser... — Luriel disse para si mesma.
Ela ficou pensativa, lembrando das coisas que aconteceram desde que havia conhecido Aros, ele já era uma estrela poderosa antes mesmo de ela ter energia para entrar na Legião, olhou para os cabelos emaranhados do marido que iam até os ombros e a barba espessa. Antes tão negros, eles agora estavam grisalhos.
— Ei, mãe, quero descer.
Os dois estelares já tinham desencostado suas cabeças e olhavam curiosos para a estelar, que parecia perdida em pensamentos
— Descer? Como assim? — Ela despertou de seu devaneio.
— Descer, mãe, ir ao planeta. Estou cansado de só olhar. Não dá pra aproveitar nada, só posso ficar vendo você e o papai levando o crédito pelas coisas, sem contar tudo o que perco por conta do treinamento. — Começou a girar o braço lentamente, como um aquecimento, e um sorriso desafiador brotou em seu rosto. — Não vejo a hora de entrar para a Legião de uma vez, eu conseguiria dar uma surra em muitos da Tropa Sul!
— Filho, calma, não é uma simples questão de ser forte. — A mãe adotou o tom condescendente que sempre usava para explicar algo simples para ele. — E você sabe porque não deixei você descer na Previsão. Você viu quantos de nós morreram, viu o que seu pai passou, acha que eu conseguiria viver se algo acontecesse a você?
— Amor, aquilo não foi nada, a água ainda estava longe da minha equipe. Mesmo que tivesse amputado a perna, eu chegaria a uma das montanhas.
Mais uma vez Aros tentava convencer sua mulher de que o acidente pelo qual passou eras atrás não era nada. Vários soldados, amigos de longos tempos, morreram soterrados durante o resgate dos humanos, e sua perna quase seria amputada, se não fosse por sua força, o que o permitiu levantar os entulhos com a ajuda de outros soldados.
— Eu jamais deixaria você tomar conta desse garoto insolente sozinha — completou.
— Aros, você sabe que nunca me convencerá de que aquilo não foi nada. E Eastar, entenda...
Ela deslizou para perto dos dois homens que representavam aquilo que mais amava em todo o universo.
— Não foi por ser má, só não achei que você estava pronto. — Sorriu. — Mas não é o mesmo agora, como você disse, conseguiu acertar o seu pai, e jamais faria isso se não fosse capaz de raciocinar bem quando necessário, por isso, é claro que pode descer, além do mais, você já está grandinho demais para que eu diga o que deve fazer.
— Mãe, eu sou desse tamanho há muito tempo.
Eastar vinha se desenvolvendo mais lentamente nos últimos séculos, mas ainda não parecia ter atingido seu auge, um crescimento considerado lento para estrelas, mas para um estelar nascido de outros dois não havia como afirmar se era anormal, pois nunca havia sido visto por Luriel, Aros ou qualquer um que eles conhecessem.
— Insolente de novo, está vendo? Agradeça sua mãe, filho! — Virou-se para a mulher e deu um sorriso malicioso. — Por isso digo que você poderia me deixar dar mais umas surras nele.
A estelar ria por ver a felicidade no rosto do filho, até que ele se virou para rebater o pai.
— Será que sou eu mesmo que vou levar uma surra?
— Olha só, me deu uma joelhada de nada e já está se achando. Você ainda precisa crescer muito, garoto.
Luriel fez uma careta e, antes que qualquer um dos dois pudesse sequer cogitar algo, já os tinha puxado pelas orelhas, fazendo com que se abaixassem para ficar cara a cara com ela.
— Chega de gracinhas, os dois, e se continuarem discutindo, a próxima sessão de espancamento será contra mim. Entenderam?
— Mãe! Não é sessão de... Ai! — O garoto sentiu mais um puxão forte na orelha. — Sim, sim, entendi! Desculpa.
O comandante, que também se dobrava, deu sua resposta de sempre:
— Sim, senhora.... Ai! Eu não disse nada!
— Eastar, você pode descer, Aros, você vai com ele dessa vez.
— Mas, mãe!
— Isso aí, garoto! Nós dois juntos. Não vai ter ninguém para se meter com a gente! — O comandante viu o olhar de sua mulher, e um calafrio percorreu suas costas. — Quero dizer, vou cuidar muito bem dele, amor, e não deixarei se meter em nenhuma confusão.
Ficou de joelhos e fez uma continência zombeteira por conta do tamanho da esposa.
— Eu sinceramente me pergunto quem vai tomar conta de quem — disse ela, balançando a cabeça. — Mas eu não tenho escolha, não posso descer, Urion vem precisando de mim nesses tempos.
— Como vão as coisas no leste do planeta? — Aros começou a se levantar. Agora sério.
— Estão estranhas, os últimos reis foram humanos, o que significa que as coisas mudaram bem rapidamente. Foram gananciosos e vem tentando conquistar outras regiões. O reino parece estar indo mal há alguns séculos, o que é triste, mas estamos observando o que acontecerá agora que o último rei morreu.
Ela parou um instante para passar a mão pelos cabelos, era um assunto que vinha sendo bastante discutido em sua tropa. Olhou de novo para o marido e viu que ele ainda esperava uma conclusão da história. Suspirou e continuou:
— O tenente Ziran desceu lá há um tempo e acompanhou o fim do reinado do último rei, se tornando instrutor de seus dois filhos, esperamos que ele consiga amenizar a situação aconselhando o mais velho, assim que for coroado.
— Você e Urion, sempre se envolvendo com a política e, no entanto, não descem para conhecê-los. Creio que posso contar nos dedos quantas vezes você foi a Terra. Deveriam fazer como nós na Tropa Central, descemos, conhecemos eles, rimos e brigamos juntos, mas não ficamos nos envolvendo com qualquer coisinha boba à distância.
— Meu querido, eu sei disso, mas entenda, isso é porque vocês são uns brutos, e todos na legião de Sorya sabem disso.
— Nós não... — Ele cruzou os braços e olhou com raiva para a estelar, que devolveu o olhar para ele levantando uma sobrancelha como que fazendo uma ameaça a uma negação. — Isso... não vem ao caso.
— Não? Muito bem então, senhor comandante. — A mãe piscou para o filho, que segurou a risada. — Quando vocês pretendem ir?
— Agora! — disse Eastar, impaciente pela conversa estar rendendo demais.
— Assim de repente? — Ela se surpreendeu. — Eu posso te explicar algumas coisas sobre o que você vai precisar lá, filho. Seu corpo vai mudar de constituição, por isso você vai precisar...
— Mãe, eu aprendo tudo isso lá, pai pode me contar tudo quando descermos.
— Isso mesmo, amor, você sabe que o Eastar aprende muito mais rápido na prática, assim como eu. — O comandante passou um braço em volta do filho, que revirou os olhos, mas não discordou.
— Entendo. — Luriel tentava se convencer, ainda com certo receio, mas sabia que não dava mais para adiar aquilo. — Muito bem, acho que só posso me despedir agora. Lembre-se, meu filho, cuidado. E juízo para os dois. Ouviram bem?
— Sim, senhora!
Responderam os dois juntos, se ajoelhando para prestar continência. Era uma piada velha, no entanto, os três sempre riam dessa brincadeira boba.
***
Eastar olhou para o pai, que acenou para ele com a cabeça, os dois olharam para a Terra. O comandante escolheu onde desceriam.
— Iremos ao Reino Sirion, eles não aceitam humanos lá, mas como nos consideram seus ancestrais, nos trataram com honra, além do mais, quem governa o reino agora é um jovem descendente de um soldado do meu comando.
— Claro, claro. Pode ser. — O garoto mal ouvia, só queria chegar logo ao planeta.
— Então vamos. Já te expliquei como fazer, não é?
— Sim, concentrar minha energia no ponto em que quero chegar. Esvaziar a minha mente de forma. Sentir os feixes de energia, e me forçar neles. — Abriu os braços e sorriu.
— Isso, mas você vai entender que é um pouquinho mais difícil fazer. Muito bem, me siga!
O corpo do estelar começou a brilhar, linhas curtas de luz amarela começaram a sair de seu corpo na direção do planeta, ele começou a perder a forma, e seu corpo foi se transformando em um feixe de luz que de repente começou a descer com uma velocidade imensa e que assustou Eastar.
Ele balançou a cabeça e se apressou em imitar o pai, esvaziou a mente e se focou no ponto em que ia descer seguindo o rastro de luz do pai, sentiu seu corpo formigar e viu os feixes de luz azul saindo da sua barriga, viu seus braços e pernas desintegrando e se juntando aos feixes
A visão foi tão estranha que o desconcentrou por um segundo, e uma dor pontou de onde ficaria seu pé esquerdo, ele forçou a concentrar-se de novo e, de repente, estava caindo de forma alucinada, mais rápido do que qualquer coisa que já havia visto.
"Nem minha mãe conseguiria atingir essa velocidade" era o que ele pensava quando, de repente, viu apenas verde à sua frente, tentou parar, seguindo os conselhos que seu pai lhe deu de imaginar sua forma voltando e um fluxo de energia contrário, empurrando para acima em vez de para baixo, mas já era tarde demais.
Ele sentiu o impacto e o gosto de terra, sentiu a dor percorrer o corpo. Estava deitado de bruços em um grande buraco que, ao que parecia, ele havia acabado de criar. Tentou se virar e ficar deitado de costas. Percebeu uma gargalhada vinda do seu lado direito, grunhiu bem quando o rosto do pai aparecia em seu campo de visão.
— Entendeu o que eu falei?
— Sim, isso é pior que uma sessão de treino dupla com você. — Ele gemia e tentava se levantar, tirando o cabelo da boca e dos olhos, seu pai assistia ao esforço na borda da cratera. — Aposto que a mamãe também deve estar morrendo de rir da minha cara.
— Eu duvido que ela tenha visto, está tão ocupada com esses probleminhas bestas do leste que duvido muito que veja qualquer coisa que a gente faça. — Se sentou na borda do buraco, cruzando as pernas. — Provavelmente, quando eu voltar, ela vai perguntar por que ainda não descemos.
Ele olhou para o filho deitado no chão, batendo na roupa cinzenta para tirar a terra, aquele macacão já estava acabado, mas o garoto se recusava a se vestir como o pai.
O próprio Aros preferia se manter com a roupa tradicional dos soldados celestiais, com uma cota de malha cobrindo uma camisa grossa em tons de branco e laranja, também usava uma calça e botas que tinham suas texturas diferenciadas através do processo de endurecimento da poeira adensada.
— E agora? — Perguntou o garoto, que se sentia perdido agora que estava lá.
— Agora saia desse buraco, cacete.
Eastar fez menção de subir onde o pai estava e se sentiu travado, virou a cabeça, mexeu os braços, mas continuava parado.
— Claro, que idiota da minha parte. — O comandante deu um tapa na própria testa. — Você tem que se manter de pé aqui. A gravidade não nos permite deslizar, e tenta te fixar ao chão. — Ao ver o olhar de confusão do filho, revirou os olhos e caminhou pela lateral do buraco. — Apenas pense que você tem que levantar a si mesmo sobre as duas pernas.
— Tudo bem.
Eastar se jogou para o lado, depois ficou de bruços, e seu rosto se encheu de terra. Grunhiu algo incompreensível por conta da boca tampada.
— O quê? — Seu pai perguntou, confuso.
Ele apoiou as mãos na terra, levantando a parte de cima do corpo.
— Eu disse: Péssima ideia.
O garoto olhou para baixo, viu suas pernas estendidas e começou a dobrá-las, com um pequeno sorriso, ele fixou um pé e então deu um leve impulso para cima. Isso fez com que ele saísse alguns centímetros do chão e então ficasse em pé.
— Rá, muito fa... — Girou os braços enquanto caía para trás, batendo a cabeça no chão. — ...cil.
— Isso te faz pronto para a segunda lição. Equilíbrio. Não basta levantar o corpo, tem que mantê-lo de pé enquanto se movimenta.
— Tá, tá. Já entendi.
Dessa vez, com mais calma, Eastar se pôs de pé, fixando-os bem no buraco. Lá de cima, Aros riu.
— Ótimo, agora suba.
O jovem estelar cruzou os braços e encarou o pai.
— Assim, garoto. — O comandante se levantou e começou a imitar alguém escalando. — Mãos e pés. E depois caminhar. Assim. — Imitou alguém andando.
O garoto assentiu, como um aluno ouvindo uma lição muito importante do professor, e começou a imitar os movimentos do pai, se inclinou para a frente, agarrou nas bordas do buraco e se içou para fora dele, ficando deitado na grama. Levantou-se mais rápido dessa vez e, apesar de cambalear um pouco, rapidamente se firmou.
— Não é tão difícil. — Ele dizia enquanto começava a andar.
Aros acompanhou, enquanto o garoto apressava o passo e dava pequenos pulinhos, até que por fim ficou parado com a mão na cintura, sorrindo para ele.
O comandante revirou os olhos e foi até o filho.
— Agora vamos a Londrian, arranjar comida e bebida. Isso é a coisa mais importante a se fazer sempre que se chega à Terra.
— Por quê?
— Você vai entender rapidinho — disse, querendo posar de misterioso, o que seu filho achava irritante.
Seguiram andando pela clareira e entraram em uma área de arvores com uma pequena trilha. Seguindo a trilha por um tempo, foi possível ver uma ponte branca, com largura para que uma dúzia de homens pudesse atravessar lado a lado, ela cortava um rio e dava para um grande portão.
Eastar seguiu os passos do pai, ainda sentindo o corpo todo dolorido e o gosto de terra na boca, aquilo era uma sensação engraçada devido ao fato de ele nunca ter comido nada. Estrelas viviam da própria energia, não precisavam se alimentar, respirar ou qualquer outra coisa necessária aos humanos.
Enquanto andavam, o garoto se admirava com a beleza de tudo, dos troncos grossos das árvores, da cobertura que seus ramos faziam no alto de suas cabeças, das flores coloridas, era maravilhoso observar tudo aquilo tão de perto, era tão diferente, tão nítido e colorido. Ele desviou seus olhos para a cidade e tentou enxergar além, nas montanhas distantes atrás dela, e percebeu que não conseguia.
— Pai, acho que a queda me fez bater muito forte com a cabeça, ou essa cidade está muito longe, pois é o meu limite de visão.
O garoto se arrependeu de dizer aquilo assim que as palavras saíram de sua boca, seu pai olhou para ele com um sorriso, levantou um dedo e começou a recitar:
— É culpa do planeta, todos os nossos sentidos se tornam menos aguçados aqui. Diferente do espaço, há muita matéria nesse planeta, moléculas, leis físicas — Abaixou o dedo e cruzou os braços. —, essa baboseira toda que sua mãe saberia explicar muito bem, já eu, não posso te explicar direito, isso nunca me interessou muito. — Ele deu de ombros e continuou:
— Ainda temos sentidos mais aguçados que os humanos, então apenas se acostume.
Eles chegaram à ponte, e Aros achou que o queixo do filho chegaria ao chão.
Do outro lado dela, uma grande cidade se estendia, e um portão enorme se encontrava à frente da ponte, tinha pelo menos sete metros de altura e dez pessoas do tamanho de Aros conseguiriam passar pelo portão lado a lado, era de madeira negra, faixas horizontais de ouro o atravessavam com entalhes de batalhas e caçadas — Eastar podia jurar que era seu pai em uma daquelas imagens.
Ao redor desse portão, um muro branco com dez metros de altura se estendia nas duas direções. Atrás do grande muro, era visível as três torres de um grande castelo branco.
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