Meu pai tinha uma livraria no centro da cidade, assim começou meu amor pelos livros, nesta época era comum as meninas da minha idade, se embelezarem, fazer altas produções e passar horas no salão de cabeleireiro, já eu fora do peso com cabelo encaracolado e com o rosto coberto por espinhas não era muito popular no colégio. Com certeza eu não me enquadrava nos parâmetros de beleza, ainda para ajudar tinha um busto gigantesco que era motivo de piada dos colegas de classe.

Com tudo o que acontecia comigo, comecei a criar um certo habito para a crueldade, era comum minhas amigas me convidarem para aniversários e reuniões e como sempre fazia levava algum presente tipo cartão postal de algum lugar que falava para todas que tinha visitado, mas a verdade mesmo que o mais longe que tinha ido era para o sitio dos meus avós que ficava a 40 quilômetros da minha casa. Na verdade, eu fazia aquilo para impressionar meus amigos, pois já feia e ninguém queria namorar comigo, então era um bom disfarce falar que fazia grandes viagens para me tornar importante perante aos meus amigos.

Mas com certeza a maior faceta que eu poderia fazer, era por que meu pai tinha o único exemplar do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato e a todo momento dizia que emprestaria este livro aos colegas de classe, pois nossa professora havia pedido que fizéssemos uma resenha deste livro. Todos os dias algum amigo ou amiga batia em minha porta e pedia este livro emprestado, mas minha crueldade era tanta que sempre dizia que já havia emprestado a alguém. Sempre era a mesma coisa, minhas colegas ficavam com aquela cara de paisagem, sem entender e para mim este olhar era uma fotografia e ficava por horas rindo sozinha, pensando até quando continuaria a insistir pelo empréstimo. Quando eu achava que elas haviam se cansado, lá estavam elas novamente, batendo na porta e perguntando pelo livro se havia possibilidade de empresta-lo. Vale ressaltar que persisti em não emprestar o livro e continuar com esta mentira, muitos podem pensar que eu nunca li este livro, mas ao contrario que todos pensam em li este livro mais de 8 vezes, sabia a historia de traz para frente e vice e versa. Tanto que com certeza já poderia recitar o livro em sala de aula ao invés de emprestar aos meus colegas.

A minha felicidade clandestina, gerada em não emprestar o livro aos meus colegas de sala era um sentimento que escondia na verdade um desejo, que permeava minha vida, uma vontade imensa de convidar a aquelas amigas para entrar e compartilhar do prazer que a leitura me proporcionava, esta alegria que as vezes era apenas momentânea pois gosto mesmo seria vivenciar as histórias lidas com todos os meus amigos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!