A cronica de um espectador milenar
1 A CRONICA DE UM ESPECTADOR MILENAR
Eu não me lembro de meu nascimento, mas acredito que só nascemos de fato quando começamos a registrar memórias e essas eu tenho bastante para compartilhar.
Nasci num momento de reconstrução social, psicológica e espiritual no mundo. As pessoas vindas de terríveis e avassaladoras guerras, cansadas de disputas, mortes e destruição decidiram se unir em prol de um bem maior: a paz. Cresci em meio a uma revolução ambiental que promoveu reflorestamento em massa, conscientização e a evolução do pensamento como um todo. Aprendia observando os amargores e alegrias do que é ser um humano enquanto registrava o tempo e a história em minhas memórias.
Fiz grandes amigos que apareceram no curso da minha vida. Aprendemos juntos, ensinamos juntos, partilhamos e evoluímos criando grandes e firmes conexões. Num certo momento, notei que a movimentação diminuiu. A frequência das visitas ficou cada vez mais espaçada até que cessaram e ponderei sobre os possíveis motivos por muito tempo, até já não importar mais, pois em seguida, fiz outros grandes amigos que permaneceram por um tempo, apenas para que posteriormente também se fossem. Acredito que essa seja a graça da vida, as coisas vêm e vão, nada fica. Só que, depois de centenas de anos passando por esse ciclo, embora pareça que você vai se acostumar e inevitavelmente ficará cada vez mais fácil de lidar, não fica. É ao contrário. Torna-se mais difícil se despedir e é árduo até estabelecer novas conexões, sabendo do final implacável que elas terão. Não é sábio, eu sei, mas nunca disse que eu seria.
O mundo ao meu redor também se transformava e evoluía, para o bem ou para o mal. Presenciei uma nova guerra avassaladora e outras pequenas e infindáveis batalhas cheias de morte, dor e desespero. Foi o mais perto que cheguei de querer morrer, para não ter que presenciar tudo de pior que a humanidade é capaz de fazer contra si mesma e contra o mundo. Todo amor que pude captar; poesias, pinturas, música, romances, tudo foi encoberto por sangue, gritos e fumaça negra. O homem cria, mas destrói dez vezes mais.
Aqui me fechei para o mundo. Fiquei recluso dentro de mim por muito tempo e recusei sair, não queria ver, não queria ouvir nem sentir, pois era ensurdecedor. Aguardei na escuridão que meu momento finalmente chegasse, pois já estava bom. Na minha visão não tinha mais nada para aprender, nem registrar.
Passou-se mais dezenas ou centenas de anos até que me acordassem de novo, um garotinho e seu pai. Não o sei ao certo o que me trouxe de volta... na verdade a quem estou querendo enganar? Eu sei sim: a bendita esperança. O que é a vida sem ela? Mesmo depois de um milênio, eu ainda tinha esperança e conseguia vê-la no rostinho redondo daquele menino e depositava a minha própria nele e na sua geração, o vendo crescer e se tornar um jovem sonhador e inteligente que trazia aquele aparelho digital e lia grandes quantidades de livros em voz alta e muitas vezes falava comigo. Me pergunto se de alguma forma ele sabia que eu estava ouvindo...
Depois, ele veio até mim com uma jovem moça, sua noiva, e novamente presenciei a felicidade que me encheu de alegria para, na mesma medida, ser tomado pela melancolia quando este confidenciou-me que havia perdido o amado pai.
Compartilhou comigo medos e ideais revolucionários enquanto se tornava um homem do povo, um político, até que combinava com o perfil dele. Aos seus sessenta e poucos, depois de muitos anos sem contato, ele veio até mim de novo, desesperado, dizendo que os testes não mentiam, mas que seus superiores não se importavam com os resultados e que uma praga com esse potencial destrutivo poderia dizimar a todos os seres vivos a começar pela humanidade. E dizimou.
Ele vinha cabisbaixo e desgostoso, com semblante sempre sério, pesaroso, os olhos inchados e me passava relatórios sobre o andamento da doença e sobre novas e intensas guerras que eclodiam entre os desesperados com medo da iminente morte. Eu tinha um pouco de inveja desse sentimento, confesso.
Sua esposa e filhos foram ceifados com o passar dos meses e em menos de 10 anos todos se foram, sim, todos mesmo. Ele veio até mim, consumido pela praga e debulhando em lágrimas, um bebê chorão até na hora da morte chorando da mesma forma de sempre. Ele chorou enquanto me abraçava, até que dormiu e ali ficou. Esperei também ser tomado pela doença, já que tudo ao meu redor fora consumido, então só faltava a minha vez. Mas ela não veio. Fui forçado a presenciar a completa deterioração do meu amigo no chão até virar pó e desaparecer, como tudo ao meu redor. É uma maldição viver tanto tempo e presenciar a morte incontáveis vezes, como se ela estivesse sempre a centímetros na minha frente, mas igualmente inalcançável, separada por anos-luz de distância.
O mais irônico é que descobri que não tocar a morte não era a pior das situações. Depois de milênios de existência conclui que a pior coisa que pode acontecer a qualquer ser vivo é ficar sozinho. Não ouço nada, não sinto nada. Não tenho mais propósito, não tenho mais conexões. E ainda estou aqui. Estou fadado a viver a eternidade na solidão e imobilidade? Enfim, ficarei aqui e continuarei esperando. Até por que não tem nada mais que eu possa fazer, mesmo se quisesse...
Registrei essa mensagem para que no futuro alguém saiba que eu estive aqui. Eu senti, eu sonhei, sorri, chorei, ensinei e aprendi. E assim como eu incontáveis seres povoaram esse planeta, viveram, deram frutos e morreram num ecossistema que poderia não ser dos melhores, mas era o nosso. E sobre a humanidade, não pense mal deles, eram jovens e imaturos. Não que a imaturidade justifique a maldade, mas eles não tiveram tempo de aprender. Tempo este que já me sobra como as incontáveis gotas destes oceanos ocos agora sem vida. Quem sabe vocês não façam diferente, ou não, depende de suas escolhas, só sei que, se tem um sentimento que nunca se perde com o tempo, esse é a esperança, e apesar do clichê, quero que saiba que mesmo vivendo incontáveis dias, presenciando o todo e agora o nada, no vazio dilacerante e gélido da solidão, fadado a baixar as cortinas do show de encerramento do grande teatro do mundo, mesmo assim... até o meu último dia de vida, eu tive esperança. Eu acredito em você!
Assinado: A Última Árvore do Mundo.
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