A crise dos sete
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A crise dos sete
Porque a cada sete anos todo casal precisa de uma boa conversa.
Capítulo Único
Levou o garfo com um pedaço de proteína a boca.
- Você sabe,Laxus, a Cana e a Erza andam se desentendendo... mas a Mi adora ela e hoje cedo foi ótimo ela atacando a Cana.
- Quanto café vocês deram para ela conseguir a proeza? – indagou o loiro –
- Café? Bebeu, cara? Cafeína não entra lá em casa, a Erza não deixa a Mi saber o cheiro disso!
- Hum... É mesmo, então vocês tem feito Thunder correr, ser babá, cozinhar, cedo sem cafeína? Sem dizer que tiraram a dose noturna dela de algum tipo de álcool?
Jellal deu uma risadinha.
- Pois é, a Erza é quase uma milagreira.
O Dreyar levou seu suco aos lábios e franziu a sobrancelha.
- E você mentiroso.
O outro engasgou.
- Nani?
- A Cana não é uma pessoa sem café, não fica sem bebida, não dorme cedo, não faz exercício matinal nem sob tortura e por mais que a Erza e ela sejam amigas já teriam se matado morando na mesma casa. Então por que não para de mentir para mim a respeito da mulher com quem vivo a sete anos?
O amigo suspirou.
- Olha, vocês dois são estranhos e eu só estou fazendo o que a Erza me pediu... Mas de que adianta esse tempo separado se não para de ficar perguntando dela e o que anda fazendo? E a quanto tempo sabe que estou mentindo?
- Olha, a Cana é um pouco extremista, eu só disse que estava um pouco confuso em relação ao que estávamos vivendo. Sei lá, crise dos sete anos, chame como quiser... E eu comecei a suspeitar quando me toquei que na sua casa não entra cafeína.
- E você por acaso achou que sei lá, aquela paixão avassaladora ia durar para sempre? Velho, isso aqui é a vida real... Conforme o tempo passa os sentimentos se acalmam, se transformam, um casamento longo e duradouro vem disso. Ou será que tem outra garota na jogada?
- Vai se ferrar,Jellal, não é outra mulher e eu sei disso tudo ai que você falou... Só que droga... Eu só queria pensar. Ela que saiu de casa!
- Oh claro porque você aceitaria muito bem sua mulher falar que está pensando sobre o casamento de vocês em dúvida... O sujo falando do mal lavado.
- Eu sinto falta dela. – suspirou – A cama não precisa mais ficar no canto porque ela não está lá cair, cheguei com comida e fiquei mais de uma hora esperando até me tocar que ela não estaria lá para comer comigo, não tem ninguém para conversar, ficar em casa sozinho é um porre, sinto falta dela rindo, acordando mal-humorada sem café, ficando horas de molho na banheira... Rindo da minha cara porque sou muito organizado, tirando da ordem as coisas que ponho...
- Já pensou em falar isso para quem interessa? E no inicio você parecia muito bem.
- Nos primeiros dias nos falávamos todos os dias, ela sempre aparecia para pegar uma coisa que esqueceu... Era quase como se só estivesse viajando... Faz seis dias que não me liga, não manda email, sem mensagens...
O amigo do cabelo estranhamente azul, sorriu.
- E esqueceu o muito deprimido. Por que não liga? Ou manda um email? Ou vai atrás dela e fala o quanto sente solitário sem sua mulherzinha.
- Um: você é última pessoa que tem moral para falar de sentir falta da mulher, não se lembra de quando a Erza viajou? Você tomou um porre e chorou no ombro da garota que estava tentando te seduzir. – riu da cara de babaca do amigo – E dois: não sei onde ela está, pensei que soubesse já que estava mentindo para mim.
- Sinto muito, cara, ela aparece lá em casa e leva a Mi para passear, mas nunca me falou para onde foi.
- Você deixa sua filha sair e não saber para onde vai com dois anos?
- Você não sabe onde sua esposa está, pelo menos minha filha volta para casa.
Os dois se encararam, riram e voltaram a comer.
***
Estava insone.
Outra noite sem o menor sono e solitário.
Geralmente tinha Cana e ela não dormia muito cedo, então jogavam, comiam, viam filmes, ficavam conversando abobrinhas... Mas ela não estava lá. Estava sentindo-se ridiculamente solitário e piegas. Mas o pior disso era que eram 2 horas da manhã. Humpf!!
Saiu da cama e foi andando até a sala.
Era uma noite fria, tinha chovido bastante... Em noites como essa a esposa provavelmente se enfiaria debaixo de três cobertas, no mínimo, e se abraçaria consigo porque segundo ela o casamento tornou obrigação esquentá-la. Outro suspiro. Muitas saudades dela.
Largou o copo que segurava e foi até o celular estrategicamente colocado sobre uma bandeja perto da porta junto com as chaves e carteira. Mordeu o lábio inferior e resolveu mandar tudo para o inferno.
Discou o número que sabia de cor e esperou.
Chamou uma, duas, três, quatro... E por fim ela atendeu.
- Olá Spark. – ouviu do outro lado da linha –
[- Te acordei,Thunder?
- Não, mas é melhor falarmos baixinho, a general Erza não perdoa barulho depois das onze. – riu –
[- Ainda bem que nunca ficou hospedada com ela então...
Ela tossiu do outro lado da linha.
- O Jellal é uma velha fuxiqueira, mas então, o que te leva a me ligar?
[- Você não estar onde falou que estaria não é motivo suficiente?
- Não está brigando comigo, então não foi o motivo de ligar. – fungada e som de carro –
[- Está na rua? Isso foi sua alergia?
- Sabe Spark hoje me aconteceu umas coisas bem loucas...
[- Pelo amor de Kami, o que está acontecendo?
- O tempo mudou, minha alergia atacou e você sabe que nunca lembro de comprar anti-histamínicos.
[- Eu costumo fazer isso por você, mas prossiga.
- Pois é, então saí para comprar e já eram mais de onze. E sabe o melhor? Esqueci a receita, sabe como é, andam controlando a compra e venda de remédios... Tive que voltar em casa... E demorei um século lá porque não achava a receita. Quando cheguei na farmácia já tinha fechado, eu fui em mais umas... ATCHIM... seis ou sete e todas estavam fechadas.
[- E onde está agora exatamente?
- É ai que começa a parte engraçada! Eu estava de taxi porque a alergia me deixa meio impossibilitada de dirigir... E o viado do último taxista me deixou enquanto eu fui olhar a farmácia para fazer a corrida para uma garota com um decote enorme. Eu sempre te disse que sair sem decote sempre acaba comigo....
[- Cana, onde você está?
- Num bairro residencial sem linha de taxis, e eu já liguei para todos os taxis que conheço e nada... Faz umas duas horas. Engraçado neah?
[- E ligar para mim nem passou pela sua cabeça?
- São duas da manhã, eu não podia te ligar.
[- E pode ficar sozinha na rua tomando vento no meio de uma crise alérgica? SÃO DUAS HORAS DA MANHÃ!
- Eu não liguei porque ia brigar comigo igual está fazendo agora, mas será que dá para me arrumar um taxi, os daí do condomínio fazem corridas de madrugada.
[- Claro, fala o endereço.
- Setor Cidade velha, rua das Camélia, praça central.
[- Okay, fique onde está.
- Eu garanto que não pretendo passear, obrigada e vá dormir!
Laxus desligou o celular e foi para o quarto, abriu o armário, pegou uma calça e uma blusa de mangas longas, calçou o sapato, pegou as chaves, o celular, os anti-histamínicos e um casaco. Duas horas da manhã e ela nem pensou em ligar para ele? Por que não foi para casa? Ele sempre tinha o remédio dela em casa.
Será que ela não pensava o quão perigoso é uma para uma mulher sozinha num lugar deserto de madrugada? Ela queria se matar? Ou queria matá-lo de preocupação? A senhorita independente eu não preciso que cuidem de mim não pensa em ter o remédio em casa ou ligar para uma entrega em casa!
Por sorte como era madrugada as ruas estavam vazias, não demorou nem metade do tempo que geralmente levaria para atravessar a cidade. Deu uma volta na praça e notou que não estava tão vazia assim. Havia alguns adolescentes bebendo escondido, provavelmente dos prédios em volta. Melhor.
Desceu do carro e não precisou de dez segundos para ouvir uma sequência de espirros. A viu de costas para si. Se tivesse terminado a volta ao redor da praça teria visto sentada. Caminhou sem fazer muito barulho e ouviu os sons típicos de crise alérgica. Sabia muito bem como era, afinal, teve uma infância cheia de alergias.
- Oe Thunder!
Ela virou o rosto e parecia que tinha visto um fantasma.
- La-Laxus?!
- Anda, vamos embora! Eu nem vou começar a falar, porque sei que sabe que isso foi idiotice.
- Pensei que ia mandar um taxi... Não precisava ter despencado do outro lado da cidade.
- Oh claro, eu ia mandar um taxi de madrugada para buscar minha esposa. Com certeza é algo que eu faria!
A morena tinha os cabelos presos, usava jeans, botas, blusa de mangas longas verdes e um casaco roxo. Tirando o nariz vermelho não parecia muito ruim. Chegou perto e colocou a mão sobre a testa, estava um pouco quente, provavelmente de ficar tomando sereno.
- Já ouviu falar em compras por telefone? As farmácias costumam entregar... Ou talvez ir em casa, sabe que sempre tem seu remédio.
- Não queria te incomodar batendo lá as onze da noite, Spark... E eu ia andar até um barzinho que vi quando vinha, só queria ter certeza de que não passava nenhum taxi aqui.
- Sua casa, não tem hora que incomoda. Vai ficar com febre... – abriu a porta do passageiro –O que ficou fazendo aqui nas últimas duas horas?
Entrou e colocou o cinto.
- Jogando CandyCrush no celular. – mordeu o lábio e pegou o vidro de remédio – E também nem tinha o que fazer lá em casa, sem pressa de chegar.
- Só porque não tinha o que fazer resolveu fazer um Tour pela cidade de madrugada em busca de um remédio que tem em casa?
- Eu não tinha em casa.
- Onde você está provavelmente não, mas na nossa casa, sua casa, tem sim. Na verdade umas três receitas.
- Essa cidade é uma droga, não tem uma farmácia aberta de madrugada.
- Já pensou em procurar longe de bairros residenciais? Tipo mais nas regiões de bares, boates, ou centro... Onde tem gente de madrugada, vai ter serviços de madrugada.
- Eu não costumo mais ir para margaça para me lembrar dessas coisas. Eu estou pro outro lado, não é meu caminho.
- Não sei onde está, não me mandou um cartão com endereço, estamos indo para nossa casa. De onde, particularmente, não devia ter saído.
- Ia ser meio estranho ficar lá...
- Não, não ia. – freou o carro – Mudei de ideia, onde está ficando mesmo?
***
Olhou em volta.
Um pequeno apartamento bem mobiliado, na verdade, pequeno demais, parecia com o que ela tinha antes de casarem. Apesar de ser a herdeira de uma das maiores fortunas daquele país Cana nunca fez o tipo filhinha-de-papai, até porque não tinha uma relação tão boa assim com o velho.
- Parece seu apartamento de solteira.
- É um daqueles que o meu pai pôs no meu nome, você sabe, ele morre de medo de eu precisar de alguma coisa e não ir atrás dele.
- Já pegou mobiliado?
- Não, mas não dava para ficar num apartamento vazio.
- Mobiliar uma casa significa longo prazo, não pretende voltar para nossa casa?
- Não seja dramático, eu só não queria... – espirro – ficar numa casa sem o mínimo de conforto.
- Cana... – suspiro – Se você tivesse me falado o que eu te disse, também piraria um pouco. Mas realmente nunca me passou pela cabeça divórcio, separação ou qualquer coisa do tipo, é só que de repente as coisas pareceram meio sem sentido, aquela euforia toda passou...
- Tudo bem. – disse pegando algo na pequena cozinha –
- Não, não está tudo bem. Você saiu de casa e está num lugar novo só seu, por que parou de ligar?
Jogou uma garrafa pequena de cerveja para o loiro que a pegou no ar.
- Porque estava sentindo sua falta.
- Isso não faz sentido.
- Faz sim, toda vez que ligava me sentia melhor, parecia que sei lá... Um de nós só estava viajando, mas aí me dei conta que não era isso. Você precisava pensar e não me ligou nenhuma vez, o que torna claro que eu estava forçando a barra, então resolvi ligar menos até parar.
- Eu não liguei porque quando saiu pensei que estava brava comigo e achei que só ia piorar, depois não liguei porque você sempre fazia antes e nesses últimos dias estava quase tendo uma sincope e com medo de não querer falar comigo. E não estava forçando a barra coisa nenhuma. Não devia estar bebendo, vai cortar o efeito.
- Não vou tomar um porre, depois tomo mais uns dois e de quebra ainda durmo o sono dos campeões.
- Não tem dormido bem…?
- Quase nada. O vinhedo fechou um mês para detetização e reformas, arrumei um emprego de barmaid, mas nem virar noites acordadas me dá sono... Ficar em casa é chato e estressante. Então larguei o bico e estou esperando o vinhedo reabrir. Ai eu faço coisas igual fazer um tour pela cidade de madrugada.
- Também não tenho dormido direito.
- Quem sabe hoje tenha mais sorte. – colocou a garrafa na mesa – Obrigada por ter vindo, quando sair feche a porta e boa noite.
- Não vou embora.
- Não vou ter um pico de febre, relaxa.
- Vem cá.
- Nani?
- Vem aqui.
Cana caminhou desconfiada e o loiro deu um tapinha nas próprias pernas indicando que ela deveria sentar. Ela franziu as sobrancelhas e ele também o fez, foram duas caretas engraçadas e por fim ela sentou-se. Laxus acomodou a morena de modo que o rosto feminino ficasse próximo a seu pescoço. Abraçou-a e suspirou.
- Sabe, acho que isso é a prova clara de que não funcionamos bem um sem o outro.
- É só uma questão de tempoa gente só tem que reacostumar a ter uma vida individual.
- É ai que entra a beleza da coisa... A gente pode viver sem o outro, mas viver juntos é uma escolha. Agora a gente não está mais dominado por uma avalanche emocional, nem hormonal e mesmo assim eu quero ficar com você. A gente já sabe todas as manias, todos os defeitos, todas as qualidades, já brigamos e voltamos, eu já fiquei putamente doente e você me viu acabado... Eu já te vi acabada de ressaca e com crise alérgica... Não acha a nossa escolha hoje é muito mais consciente do que sete anos atrás?
- Está dizendo que quando nos casamos foi por causa dos defeitos e agora é apesar deles? – a morena o fitou – Há sete anos você era um cara chato, cheio de manias de organização, com uma rotina anotada num quadro e hoje continua assim... E mesmo não estando emocional eu quero continuar mais sete anos para ver se lá vamos nos escolher de novo.
- Sete anos para mim parece bem melhor do que para sempre...
O loiro riu e Cana voltou a deitar.
- Então daqui sete anos a gente tem essa conversa de novo.
- Sem sair de casa. Nosso apartamento é grande o suficiente.
Cana mordeu o lábio e sorriu, fechou os olhos e ficou curtindomomento. Laxus sorriu e acariciou os cabelos escuros da morena antes de leva-la para o quarto, que a propósito estava uma zona e o fez perder mais alguns minutos de sono dobrando a roupa limpa que estava sobre uma cadeira.
O que podia fazer? Não dava para dormir com talvez três semanas de roupas limpas amassadas.
Owari...
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