A criação

1 O Acidente


Notas iniciais
Então pessoal, esse é o primeiro capítulo e espero que vocês gostem. Boa leitura!

Recordo de poucos momentos do pesadelo da noite anterior. Recortes sombreados, vozes estranhas em uma língua desconhecida, rostos indiferentes e ferozes, dentes me abocanhando, mãos me arranhando, um caos imenso, prédios caídos, pessoas mortas pelos corredores de um hospital, gritos e por último uma explosão enorme, a memória tão viva em minha cabeça que chega a parecer real, o mar de chamas vindo em minha direção, seu barulho ecoando pelos meus ouvidos, me forçando a correr, me incomodando e me trazendo para a realidade.

***

— Já estou indo! — Desligo o aparelho celular no mesmo instante, não querendo ouvir a resposta da pessoa com quem eu conversava do outro lado. Continuei dirigindo o fusca antigo, acelerando e forçando-o a ir o mais rápido possível para o centro de Cleveland.

— Uau, sua irmã reclama muito. — Tiffany Bolton, vocalista de uma banda alternativa, sussurrou ao meu lado no banco de passageiro.

Busquei uma resposta, mas não encontrei nenhuma, tinha que concordar com ela, a minha irmã era uma chata apressada. Reduzi a velocidade do carro e virei-me para Tiffany. As luzes dos prédios ao nosso redor faziam seu rosto modelado brilhar intensamente. Seus cabelos negros e ondulados estavam soltos e iam até seus ombros.

Liguei o rádio do carro e procurei uma estação que estivesse boa. Pelo incrível que pareça quase nenhuma estava com o áudio limpo. “Deve ter rolado algum problema com as torres de transmissão, nossa.” Uma voz relaxante transbordou das pequenas caixas de som, finalmente achara uma estação com a frequência boa.

“Centenas de pessoas já deram entradas em hospitais com os sintomas da doença.” O homem falava bem rápido, sendo interrompido a todo o momento por chiados.

— O que será que está acontecendo? — Pergunto para a Tiffany com uma voz estranha e fica mais que claro para nós dois, infelizmente, de que eu estava tentando fazê-la ficar mais grossa, máscula.

— Deve ser só mais uma virose. — Ela responde sem dar muita atenção, nem um pouco comovida com a situação.

— O meu “o que será que estava acontecendo” se referia ao problema com as estações de rádio. — Falo depressa e sem pensar, buscando ao máximo prolongar nossa conversa.

Tiffany me encara com um olhar sério, seus grandes olhos negros me analisando por inteiro. Ela continuou daquela forma por alguns segundos, as sobrancelhas quase juntas, então falou com um tremendo tom arrogante:

— Olha só Will, eu estou sendo sincera... Só estou fazendo isso por causa do que aconteceu no mês passado, o que você fez por mim, ter me salvado daquela forma no assalto. Sou muito, muito, muito grata, e é por isso que estou saindo com você. — Ela mordeu os lábios e continuou falando. — Não crie expectativa, não vai acontecer nada entre nós.

Eu deveria ter me preocupado em dirigir o carro corretamente ou até mesmo no que ela havia dito sobre o que acontecera no mês passado – um ato heroico o meu, aliás – Mas a única coisa que eu queria fazer naquele momento era beijá-la, ignorar tudo o que ela tinha falado e fazer aquilo que sempre quis.

Por um momento nossos olhos se encontraram e eu jurei que poderia fazer naquele instante, se não fosse por uma Ferrari que ultrapassou o meu fusca, buzinando com frequência. “Deixa para fazer isso mais tarde, tem gente querendo passar, seu MERDA!” O rapaz berrou de dentro do carro. Tiffany, em resposta, botou a cabeça para fora do carro e xingou o homem, gesticulando o dedo do meio com velocidade, depois se virou para mim, uma expressão irritada no rosto por conta do que eu tinha tentado fazer.

Uma fila de outros carros se estendiam atrás do meu, entrei em uma rua estreita, aliviado de ter chegado ao Flô Bella, um prédio amarelo, com apenas alguns andares, janelinhas e portas de vidro por todos os lados, emitindo a luz que vinha de lá, um ótimo lugar para se iniciar relacionamentos. Estacionei nos fundos do restaurante e juntos, eu e Tiffany, andamos para dentro do lugar.

Tiffany estava usando uma blusa preta com a seguinte frase: “Dama da noite”, uma calça azul e um sapato limpinho. Eu estava usando a mesma blusa de sempre, um uniforme do clube de jogos da faculdade, short branco e sapato preto, sempre acreditei que ficava com uma aparência forte ao usá-los. Fiquei me olhando pelo vidro da porta do restaurante, arrumando a roupa e me importando com pequenos detalhes do meu rosto. Passei a mão nos meus longos cabelos negros, estavam tão grandes que chegavam aos meus ombros. Abri a porta e puxei Tiffany para dentro.

— Will, nós estamos aqui! — Vi a garota se levantar e gritar por mim. Ela usava um vestido vermelho que ia até os seus pés, uma expressão entusiasmada no rosto avermelhado. Era a minha irmã.

O restaurante tinha um aspecto culto, as pessoas conversavam baixinho, outras liam em um canto, todas demonstrando um aspecto intelectual.

— Quanto tempo! — Tiffany e eu nos sentamos a mesa que minha irmã estaria guardando, a abracei e só então notei que ao seu lado havia um homem musculoso de terno, o rosto carrancudo, a barba muito bem feita.

— Tiffany, essa é a Sara. Sara, essa á a Tiffany. — Apresentei Tiffany a minha irmã, depois esperei que ela me apresentasse ao rapaz que estaria ao seu lado.

— Esse é o Alex, estamos namorando há alguns meses... — Sara pareceu um pouco tímida a falar aquilo, os olhos cabisbaixos enquanto Alex estendeu uma de suas mãos para nos cumprimentar, porém não disse nada nem ergueu os olhos, já que estava concentrado em sem aparelho celular.

Escolhemos as comidas e enquanto esperávamos, conversamos sobre as nossas vidas. Eu não via Sara há alguns anos e aquele fora o momento ideal para por as novidades em dia. Nos separamos quando tínhamos dezoito anos, cada um foi para uma faculdade diferente, ela cursou Biologia e eu Jornalismo. Passamos a morar em lugares diferentes e só a via quando ia para a casa de nossos pais, em NY. Aluguei um apartamento em Cleveland e ela passou a morar no mesmo estado (Ohio), porém em cidades diferentes, ela escolhera Springfield.

— Ele estava com uns amigos no bar, minha banda iria tocar lá no dia. Na última música, eu perguntei se alguém queria subir no palco para cantar comigo, daí o bêbado do seu irmão topou e depois tentou me agarrar na frente de todo mundo. — Tampei o rosto com as duas mãos, sabia que ele estava extremamente vermelho por conta da timidez e eu não queria que ninguém visse.

Conversamos por horas, comemos e bebemos. Alex ficou calado até o momento que algo perturbador lhe ocorreu: Uma das garçonetes derrubou um shake de morango em seu terno, irritado com a situação, o rapaz começou a ofendê-la, colocou o seu celular na mesa e ergueu o corpo contra a coitada que havia iniciado a confusão. Sara o segurou pelos braços, pedindo que parasse, porém já era tarde, o restaurante todo parara para ver a briga. Mas eu não estava me importando com aquilo, algo muito mais curioso me chamara atenção.

O aparelho de Alex vibrava na mesa, notificando a chegada de várias mensagens. Peguei-o sem pensar no intuito de avisá-lo, tentei não ver o que elas diziam, mas as frases já estavam passeando pela minha mente: “Estou com a cadelinha aqui, já disse que odeio o irmão dela?”, “Estou esperando você, querido. Sabe que eu preparo as melhor surpresas, não é mesmo?” Coloquei o celular na mesa mais uma vez e fingi que não tinha visto aquilo. Eu estava ficando bêbado ou acabara de descobrir que o Alex traia a minha irmã? Nunca tinha passado por uma situação tão ridícula quanto aquela, a única coisa que eu queria fazer agora era avisá-la.

Alex foi até o banheiro se limpar depois da confusão e Tiffany foi fumar um maço de cigarro do lado de fora do restaurante. É a minha chance de falar o que vi para a Sara, mas ela começa a falar sobre outra situação totalmente aleatória.

— Tem algo de errado acontecendo. — Ela fala tão depressa que percebo que estava esperando nós dois ficarmos a sós para contar.

— Sim, eu vi uma conversa suspeita... — Começo a falar sobre o celular de Alex, mas ela me corta e continua a falar com voracidade.

— Estou falando sério, os centros de pesquisa marítimos registraram um crescimento devastador no aumento do nível do mar, espécies estão morrendo, sei profundamente que você não gosta desses papos, mas acho que estamos prestes a encarar algo grandiosamente destrutível.

— É vem você com esses fatos científicos. — Não dou importância a fala de Sara, ainda imaginando a forma com que eu deveria falar a ela sobre o que li no celular de Alex. — Sério, vamos falar de outra coisa... Eu vi algo no celular...

Ela me interrompe mais uma vez.

— É melhor você me escutar, a humanidade está provavelmente perto do seu fim. Doenças estão açoitando violentamente as pessoas em todos os cantos do mundo. — Percebi que ela estava nervosa, ela ainda escondia algo.

— Você está me assustando.

— Will, eu só quero que você fique alerta, por favor.

— Conta o que está acontecendo, a verdade. Ainda não vi qual a ligação entre tudo isso que você me disse com um suposto fim do mundo, o mundo sempre teve essas coisas, oras. — Tinha certeza que minha fala havia a acertado em cheio, era fato: as pragas e horrores sempre caminharam pelo mundo, despejando a tristeza na vida das pessoas, sem misericórdia.

— Dessa vez é diferente! — Vi em seus olhos o desespero, ela hesitou por alguns segundos e depois sussurrou para mim. —Alguns amigos meus que trabalham em agências espaciais notificaram que a NASA registrou algum material espacial vindo em direção a terra, não sabem ao certo o que é, acreditam que o material vai se chocar com algumas plataformas espaciais antes, estão fazendo de tudo para descobrir. Não tenho certeza na informação que estou te passando, mas é como eu te disse... Eu te amo e só quero o seu bem.

Meu estômago embrulhou ao ouvi-la falar aquelas palavras. Sara nunca fora uma garota de brincadeiras, eu tinha certeza que ela estava falando sério. Fiquei calado, não sabia como eu poderia a responder, imaginar algum material vindo do espaço já era doloroso e um pouco infantil.

— Também te amo mana.

Resolvi não contar a Sara sobre as mensagens no celular do Alex. Ele e Tiffany voltaram juntos, ela estava com aquela mesma expressão irritadiça. Sentaram-se à mesa, Alex tornou a pegar o celular e o dedilhou com tanta voracidade dessa vez que fiquei imaginando que tipo de frase ele estaria mandando para a amante. Tentei controlar a minha raiva, fiz o máximo para não voar na garganta daquele homem e esfaqueá-lo ali mesmo com a faca que um dos garçons usava para cortar um pedaço sangrento de carne na mesa vizinha.

O restante da noite passou rápido, Tiffany e eu já estávamos bêbados quando Sara e Alex decidiram ir.

— Não vamos sair da cidade hoje, vamos deixar para ir amanhã de tarde. — Sara disse com cautela.

— Vocês poderiam dormir lá em casa. — Sugeri, rezando para que ela dissesse não, já que o meu apartamento estava uma bagunça.

Nos despedimos com um “Até mais”, cada um foi para um lado do estacionamento, cambaleantes, eu e Tiffany nos jogamos nos acentos do fusca. Quando Sara e Alex se foram, botei um CD bem animado para tocar e eu e a garota seguimos o conselho do rapaz da Ferrari mais cedo, uma carga violenta de álcool em nossos lábios, uma música dos anos 90 serpenteando por entre as nossas vestes. Em meio aquela situação, quando eu já estava próximo de realizar o meu desejo, escutei uma voz sibilante e aterrorizante mordiscar um dos meus ouvidos, como um animal, repetindo a mesma frase:

“O fim está próximo, prepare-se, o protocolo será ativado agora.”

***

Acordo com uma sensação horrível no estômago, um desconforto quase que inexplicável. Meus olhos ainda não se adaptaram a claridade do meu quarto, apesar das cortinas estarem fechadas. Fico me revirando na cama, rolando de um lado para o outro, tentando cair no sono. “Hoje é sábado, você pode dormir até tarde, idiota!” Penso de imediato no mesmo instante que várias outras situações começam a brotar em minha cabeça. “Já escreveu o relatório do incidente no departamento B4, senhor Roth?” Essa surge muito mais nítida que a primeira, seguida por sermões diferenciados: “Will, seu apartamento está um horror, você precisa limpá-lo!”, “Aluguel atrasado”, “Tá me devendo setenta dólares”, “Já está ficando velho, não vai arranjar uma garota?”.

Não lembro ao certo como cheguei em casa, a noite anterior havia sido completamente estranha. Sinto como se minha memória estivesse transbordando para fora de minha cabeça. Recordo-me de ter transado com Tiffany e de ter lido uma frase que ficara por alguns minutos em minha cabeça. Faço de tudo para lembra-la, mas já é tarde, as palavras haviam se perdido no ar abafado do meu quarto.

Decido que o sono não chegaria de forma alguma. Olho para o criado mudo ao lado esquerdo da cama, o relógio digital marca as horas: Cinco e quarenta. Como seria possível? O sol estava muito forte para aquele horário. Levanto o corpo depressa. Estou usando um pijama azul com miniaturas de tartarugas, os pés cobertos por uma meia cinza. Ponho os pés no chão, sem me importar o quão sujo ele estava. Minha mãe estava certíssima quando disse que eu precisava arrumar o apartamento.

Quase me esqueço da dor na barriga, mas avaliar o que estaria acontecendo com o clima parecia mais importante naquele momento. Vou driblando os livros, as roupas, os jogos de tabuleiro, os brinquedos, as caixas de mudança e tudo de estranho que havia no chão do quarto, rumando na direção da janela. Solto um ar de exclamação ao afastar as cortinas. O quarto tornou-se muito mais quente naquele instante, abafado. Fechei os olhos com medo de que eles pudessem torrar. Coloquei as mãos acima deles, evitando a luz do sol e finalmente podendo ver o que estaria acontecendo na rua.

Pessoas formavam grupos nas esquinas, nas vielas e até mesmo no meio da rua. Buscavam sombras, algumas usavam chapeis e guarda-chuvas. Na porta do prédio vizinho, vi um carro do canal sete, uma mulher loira andava de um lado para o outro, murmurando sozinha. Um rapaz sai dos fundos do carro, segurando uma câmera, as pessoas se juntam ao redor do carro. Ele posiciona o aparelho na frente da mulher e começa a fazer uma contagem com os dedos.

É nesse momento que eu corro para fora do quarto. O apartamento é pequeno, tendo apenas três espaços. O primeiro cômodo era a sala, com um sofá velho, uma mesinha de centro, uma tv e alguns jarros de plantas. A parede da sala era azul, com uma aparência antiga e com alguns arranhões do gato histérico do antigo dono. O chão de todo apartamento era branco, mas acabara se tornando marrom com o passar dos cinco meses de mudança. O outro cômodo era a cozinha e o banheiro.

Sento no sofá e busco o controle remoto. Ligo a TV no canal sete e surpreendo-me ao ver que a loira era muito mais bonita pela TV. “... O estranho do fenômeno não é só o horário em que está acontecendo... Já temos dados de que essa é uma das temperaturas mais elevadas de Ohio desde 21 de julho de 1934, atingimos uma marca de 48 °C e os hospitais da região já estão notificando mais de cinquenta casos de queimaduras nessa manhã!” A mulher hesitou por alguns segundos e é nesse intervalo de tempo que fico com medo a respeito da minha dor, depois ela retornou a falar: “É quase impossível de acreditar, mas chegou uma informação agora para nós afirmando que o clima Springfield abaixou gravemente e que as outras cidades do estado de Ohio, assim como nós, estão sofrendo uma alteração climática totalmente estranha, os meteorologistas não conseguem explicar o que está acontecendo, todo o estado está em alerta, acompanhem o jornal das nove horas para mais informações, eu sou Miranda Peterson falando diretamente de Cleveland...” Miranda não terminou de falar. Um estrondo enorme havia partido da rua, a imagem na tv havia sido cortada e uma frase informava que o sinal tinha caído. Corri para a janela da sala, afastei as cortinas e vi o que havia provocado a barulheira.

Uma rachadura enorme acabara de se formar entre a câmera e Miranda, a mulher estava deitada no chão, uma parte de sua saia rasgada. Do outro lado o rapaz que segurava a câmera a olhava com uma expressão de choque. A rachadura era profunda e abaixara o chão ao redor alguns centímetros, as pessoas gritavam, uma delas ajudou Miranda a se levantar e todos se afastaram do buraco. Crianças, idosos, adultos e animais saiam do prédio da frente, os rostos cheios de terror.

— Mas que merda é essa? — Falo sozinho, notando o quão o calor havia aumentado desde a reportagem. Outro pequeno tremor abala as estruturas do prédio em que moro. Algumas coisas caem no meu quarto e escuto o som de vidro quebrando vindo da cozinha. Meu coração acelera de forma voraz, como sempre acontece em situações como essa, mas sei que dessa vez seria diferente.

Um tremor maior se inicia e eu só tenho tempo de pegar o meu celular na mesinha e de tirar as meias. Um dos vasos de planta cai enquanto eu busco a chave certa no molho de chaves e uma lâmpada estoura na cozinha. Todos os barulhos me assustam, que tipo de pessoa eu sou? Faziam minutos que o tremor não cessava e eu ainda estava buscando a chave. Quando a achei, não demorei nem mais um segundo para abrir a porta. O corredor do lado de fora estava cheio, pessoas com rostos familiares gritavam e desciam para fora do prédio. Crianças choravam no braço de seus pais, mulheres sangravam. Aquilo foi o suficiente para me aterrorizar.

O tremor não parava, aumentava com o passar dos minutos. Meus pés estavam pesados e as escadas estavam amontoadas de gente. Buscava espaço entre todo aquele povo, mas a única coisa que eu conseguia fazer era me afastar cada vez mais das saídas. Um mar de mãos, todas me empurrando para trás, queria gritar para que parassem, mas todos estavam desesperados e não saia som algum da minha garganta.

Mais uma mão me puxou para trás. Cerrei os punhos e virei-me depressa, pronto para acertar a pessoa no rosto, se não fosse pela expressão vergonhosa dela que, por hora, era a única que eu conhecia naquele lugar.

— O que está fazendo? — Seus grandes olhos verdes se encontraram com o meu, abaixei a mão, nervoso. — Vamos sair desse lugar.

“Vamos sair desse lugar” foi uma das frases mais confortantes naquele instante. Mike, o meu vizinho, salvara o dia. Ele era forte e alto, o tipo de garoto que seria popular, corpo sarado, pele bronzeada, cabelos loiros. Porém, diferente da maioria das pessoas com essas características, Mike nunca fora muito bem com as garotas, era atrapalhado e completamente tímido, sem ele eu nunca teria saído do prédio.

Atravessamos o mar de pessoas com pressa, o garoto na frente, andando desequilibrado por conta dos tremores. Rachaduras brotavam nas paredes, o chão de madeira parecia mais que frágil agora. Quando chegamos ao Hall, algo despencou no último andar, depois algo explodiu, provavelmente um botijão de gás. Toda aquela situação foi horrível, o medo gritava dentro de mim, o terror de morrer soterrado ou esmagado por uma daquelas paredes enormes.

Empurrei o portão que nos levava para fora do prédio, permitindo que a multidão pudesse escapar. A principio, a sensação que eu tive foi de liberdade, o sol estava tão quente que o primeiro contato que tivemos com o exterior foi marcado pela forte ardência no ar.

Atrás de mim, ouvi alguém gritar. Virei cambaleante, vendo um dos blocos de concreto do prédio cair ao meu lado. As rochas que se partiram voaram para todos os lados, uma delas me acertou na cabeça, fui tomado por uma tontura horrível. Vi as pessoas correndo para longe dos edifícios, estrondos partiam de todos os lados. Uma poeira tomou conta da rua, comecei a tossir, tentando me afastar dela e dos destroços no chão.

— Mike! — Juntei todas as minhas energias e gritei, não estava o encontrando, na verdade eu não via mais ninguém, apenas os destroços. O tremor piorou, o chão parecia dançar, jogando-me para um lado e para o outro. De repente um estalo, tão forte e violento que chegou a me deixar surdo por alguns segundos. O chão desceu tão depressa que meu corpo não teve reação de fuga. Agora eu estava caindo, não via nada, estava completamente cego pela poeira. Meu corpo rolava pelo que parecia uma ladeira. Senti uma pisada no braço direito, depois uma mão apertando o meu pescoço, outra pegando o meu braço.

— Vem! — Era a voz de Mike, ele me puxou pela mão. Agora eu estava em pé, correndo sem rumo, sentindo o chão me puxar para baixo. Minha audição foi voltando aos poucos, foi então que ouvi gritos, bizarros e agudos. A mão de Mike estava quente, senti um liquido escorrendo por ela, provavelmente sangue. Então ele parou subitamente.

Imersos na poeira, cansados, destruídos. Tinha cortes no braço e nas pernas, não precisava vê-los, a dor indicando que estavam ali, fazendo-me perder sangue. Dois pontos de luz surgiram um pouco longe de nós, imaginei que fosse alguém com lanternas tentando nos ajudar, mas estava acontecendo tudo muito rápido. Só me toquei do que se tratava quando a buzina soou. O carro não iria parar, iria nos atropelar. Senti uma vontade enorme de salvar as nossas vidas, como se soubesse o que tinha que fazer. Apertei a mão de Mike com força e então, antes que o carro nos arremessasse para a morte, uma espécie de gancho invisível nos puxou para dentro de mim mesmo, para outro lugar.