A criança Amaldiçoada

2 Capítulo dois: O filho das trevas.


Alvo observa seus pais e tios desaparecerem quando o trem começa a fazer a curva. As casas começam a passar rapidamente pela janela até se tornarem apenas cores borradas em sua visão. A ansiedade, que ele já tentara afastar, retorna ao seu corpo. Os relatos de Tiago sobre Hogwarts o deixaram preocupado sobre o que encontraria além dos portões da escola — fantasmas, bichos-papões, testrálios e dementadores. Ele realmente torce para que mais coisas ditas por Tiago sejam desmentidas, assim como a possibilidade de ser selecionado para a Sonserina. Se isso realmente acontecer, ele espera que o conselho de seu pai seja suficiente para ajudar.

— Nós precisamos nos concentrar. — A voz de sua prima o retira de seus pensamentos.

— Concentrar em quê? — Alvo a olha, curioso.

— Em quem vamos escolher como amigos. Meus pais conheceram o seu pai indo para o primeiro ano em Hogwarts, aqui no Expresso.

Alvo revira os olhos e se encaminha até a bruxa do carrinho de comida, que está parada em frente a uma cabine.

— Então nós temos que escolher agora de quem seremos amigos para sempre? Isso não parece assustador. — Ele para em frente ao carrinho da bruxa. — Ou loucura.

— Querem alguma coisa do carrinho, queridos? Torta de abóbora? Sapos de chocolate? Bolo de caldeirão?

— Sapos de chocolate, por favor. — Pede Alvo.

— Alvo, pense. Eu sou uma Granger-Weasley e você um Potter, todos vão querer ser nossos amigos. Podemos escolher quem quisermos. — Explica Rosa, com um sorriso. — Isso é maravilhoso.

Alvo, que nunca foi muito sociável, principalmente por ter Tiago como irmão — que sempre consegue chamar atenção para si mesmo — pensa que ter pessoas implorando para ser seu amigo pode ser uma boa ideia para seu primeiro dia de aula.

Pensando por esse lado, poder escolher seus amigos a dedo não parece uma má ideia.

— Então como vamos decidir? E em qual compartimento entrar? — pergunta ele, interessado, após pagar pelos sapos de chocolate. — Ou vamos esperar eles virem até nós?

— Avaliaremos todos e tomaremos uma decisão.

A bruxa do carrinho parte em retirada, e Alvo se atenta ao compartimento que está parado em frente. Pela janela, ele consegue ver uma criança loira e solitária, rodeada por doces. O interesse de Alvo pelo menino o faz abrir a porta. Estar sozinho vai fazer esse menino querer ser seu amigo.

— Oi. Este compartimento está...

— Está livre! — O garoto responde rapidamente. — Só eu estou aqui.

— Ótimo. Então nós podemos entrar... por um tempo, se estiver tudo bem?

— Sim. — O garoto organiza os doces ao seu redor, dando espaço ao seu lado.

— Eu sou Alvo.

— Oi, Escórpio. Quero dizer, eu sou Escórpio. Você é Alvo e eu sou Escórpio. E você é...? — pergunta ele, se dirigindo para Rosa, que está com a feição séria e fechada.

— Rosa. — Responde ela, seca. Alvo franze as sobrancelhas em estranheza para sua prima. Ela já tinha descartado o garoto como opção para ser amigo?

— Você aceita um pouco das minhas Fantasias Debilitantes? — oferece Escórpio, pegando alguns doces.

— Acabei de tomar café da manhã, obrigada.

— Eu tenho outras coisas se você quiser. Tudo ideia da minha mãe. — diz ele. — Ela sempre diz: Doces sempre te ajudam a fazer amigos.

Alvo segura a risada quando Escórpio canta a última parte.

— Provavelmente foi uma ideia estúpida. — Ele solta uma risada sem graça, e suas bochechas começam a ficarem vermelhas.

Alvo se sente mal pelo garoto e decide aceitar algum doce, mesmo que já tenha comprado o seu.

— Eu quero. Minha mãe não me deixa comer doces. Qual você comeria primeiro?

Rosa o cutuca discretamente, o que ele resolve ignorar.

— Diabinhos de pimenta, como o rei do saco de confeitaria. Eles são aqueles doces de menta que fazem sair fumaça das orelhas.

— Então é esse que vou querer. — Alvo sente outro cutucão de Rosa. — Rosa, quer parar de me cutucar?

— Não estou te cutucando. — Ela fala com a voz aguda.

— Está sim, e me machucando.

A excitação de Escórpio desaparece. Os doces que ele estava prestes a entregar para Alvo retornam para o banco.

— Ela está te cutucando por minha causa.

— O quê?

— Eu sei quem é você, então é justo que saiba quem eu sou também. — Escórpio não olha para eles enquanto fala. — Eu sei quem são seus pais; eles são os heróis do mundo bruxo. Meus pais são Astória e Draco Malfoy. Nossos pais não se davam muito bem...

— Está tentando suavizar as coisas. Seus pais eram Comensais da Morte! — Interrompe Rosa, com um olhar furioso.

— Meu pai era, mas a minha mãe não. — Rebate Escórpio, afrontado.

Alvo, sem perceber, acaba se afastando de Escórpio após a revelação. Apesar de seu pai ter sido responsável por capturar bruxos como o pai de Escórpio, ele nunca comentou a respeito dos crimes do passado nem dos Comensais da Morte. Ele só sabia das ações de Draco Malfoy por causa das histórias que ouvia e dos jornais que falavam sobre os antigos seguidores do Lorde das Trevas.

Escórpio deve ter notado o afastamento de Alvo, já que começa a se explicar.

— Olha, o que meu pai fez está no passado. Ele não é mal. E ele estaria livre se não fosse inocente?

Alvo considera a pergunta. Se Draco Malfoy fosse realmente perigoso, seu pai teria feito de tudo para colocá-lo em Azkaban.

— E sobre o rumor? — Questiona Rosa, com mais desconfiança.

Escórpio vira o rosto para a janela, parecendo bravo e constrangido.

— Qual deles? — Retorna ele. — Que sou filho de Voldemort ou que sou amaldiçoado?

— Como assim? — Alvo está confuso. Ele não sabia que Voldemort tinha um filho.

— Dizem que os pais dele não podiam ter filhos. E como o pai dele estava desesperado para a linhagem dos Malfoy não acabar, ele viajou o mundo todo para conseguir um vira-tempo para a mãe dele voltar no tempo...

— ISSO É MENTIRA! — Escórpio grita. — Meu pai estava procurando uma cura para minha mãe.

Alvo e Rosa ficam paralisados com a mudança brusca do menino. Ambos o encaram com os olhos arregalados, enquanto a tensão desconfortável se estabelece na cabine. Alvo repensa sua escolha de tornar Escórpio seu amigo; ter um garoto com um rumor tão ruim ao seu redor não ajudará em sua imagem e popularidade. No entanto, fazê-lo seu amigo pode trazer uma boa imagem para si mesmo, como o garoto bom e corajoso, igual ao seu pai: o garoto que não se importa com as opiniões dos outros para fazer o que é certo.

— Provavelmente é uma besteira. — Ri Alvo, tentando aliviar o clima. — Quero dizer… olhe, você tem um nariz.

O comentário quebra o clima ruim. Escórpio parece relaxar e dá um pequeno sorriso.

— E é igual ao do meu pai! Eu tenho o nariz dele, o cabelo dele e o nome dele. Não que isso seja grande coisa também. Temos problemas de pai e filho. — Comenta Escórpio. — Mas eu prefiro ser um Malfoy do que um filho do Lorde das Trevas.

— Você ainda vai me dar um doce? — Alvo ergue a mão, pedindo outro.

— Sim, claro. — Escórpio entrega-lhe a embalagem.

Rosa limpa a garganta para chamar a atenção dos dois.

— Bem, foi bom te conhecer. — Diz ela para Escórpio. — Mas nós vamos para outro lugar. Vamos, Alvo.

— Não. — Alvo morde um pedaço do doce. — Estou bem, você pode ir.

— Alvo, não vou te esperar.

— E eu te pedi para fazer isso?

Rosa o fuzila com o olhar antes de sair do compartimento.

— Tudo bem! — Ela fecha a porta com força.

Alvo mastiga o doce despreocupado. Ele sabe que Rosa encontrará amigos, ela sempre consegue o que quer.

— Obrigado. — Agradece Escórpio, baixinho.

— Não me agradeça. Não fiquei por você, fiquei pelos seus doces.

Ele e Escórpio riem juntos.

— Ela é nervosa. — Nota Escórpio.

— Ela é chata. — Completa Alvo.

— Você prefere Alvo ou Al? — Escórpio joga dois doces na boca.

— Alvo.

— OBRIGADO POR FICAR PELOS MEUS DOCES, ALVO!

Fumaça sai das orelhas de Escórpio e das de Alvo. E Alvo fica feliz pela sua escolha de amigo.

— Vamos abrir o saquinho de feijõezinhos de todos os sabores! — Sugere Escórpio, animado.

Eles se divertem comendo as balas, experimentando todos os sabores inusitados. Alvo tira torrada, coco, feijão cozido, morango, caril, capim, café, sardinha e morde a ponta de uma bala marrom, que tem gosto de cera de ouvido. Seu café da manhã e os doces quase vão parar no chão da cabine em forma de vômito. Para tirar o gosto horrível da boca, ele decide abrir seu sapo de chocolate.

— Quem você tirou na figurinha? — Pergunta Escórpio.

Alvo não se surpreende quando vê a imagem de um homem de olhos verdes por trás de óculos redondos, cabelos pretos bagunçados e uma cicatriz em forma de raio na testa. O homem conhecido como seu pai.

— Eu tenho várias dessas. — Escórpio aponta para a figurinha. — Deve ser legal ter um pai famoso de uma maneira boa.

Alvo assente, olhando para a foto de seu pai. Por um momento, ele sente falta dele, mesmo que seu pai tenha ficado estranhamente distante após o recebimento da carta de Hogwarts.

Alvo sempre se sentiu deslocado em sua própria família. Seus irmãos e pais eram as estrelas da casa, e ele... bem, ele era sempre o segundo plano. Tiago, com sua coragem e entusiasmo, sempre foi comparado aos pais, tão destemido e carismático quanto eles. Lílian, com seu espírito afiado e uma língua que não tinha medo de se impor, herdara a esperteza e a personalidade brigona dos dois. Já ele, Alvo, tinha o “mau humor” de seus pais, um comentário demorado e cuidadosamente pensado que seus avós e tios sempre faziam questão de destacar.

Ele nunca conseguiu ser o irmão extrovertido e alegre como Tiago, nem a filha obstinada e inteligente como Lílian. Ele era só... Alvo. Não o herói, não o grande exemplo. Só um Potter com um temperamento difícil, como se todos os elogios tivessem sido dados a Tiago e Lílian. Não era fácil ser o “meio-termo” entre irmãos tão diferentes, e isso o fazia se sentir... invisível, em certa medida.

A porta da cabine se abre abruptamente, e Alvo ergue os olhos, reconhecendo o rosto que entra na cabine. Seu irmão mais velho, Tiago, com um sorriso provocador.

— É verdade? — Tiago pergunta, seus olhos verdes brilhando de diversão. — Estão dizendo no trem que Alvo Potter fez amizade com o filho das trevas?

Alvo engole em seco. O rosto de Escórpio, ao seu lado, fica instantaneamente vermelho. O garoto parecia prestes a derreter de vergonha.

— Então é você? — Tiago continua, apontando para Escórpio com um olhar de puro sarcasmo. — O filho do grande Draco Malfoy?

— O que você quer, Tiago? — Alvo se levanta de imediato, irritado, não querendo que seu irmão transformasse aquela amizade em mais uma piada.

— Nada, irmãozinho. — Tiago sorri mais amplamente. Ele dá uma risada antes de pegar a figurinha de Alvo, que estava em suas mãos. — Eu só queria saber se é verdade. Porque, no fim das contas, isso só mostra que você realmente é da Sonserina.

— Cai fora, Tiago! — Alvo não aguenta mais. Ele empurra o irmão para a saída da cabine. Tiago se retira rapidamente, ainda rindo, e Alvo fecha a porta com um suspiro profundo. Ele não quer que ninguém fizesse escárnio de sua amizade com Escórpio.

— Você já sabe em que casa será selecionado? — Escórpio pergunta, seus olhos fixos no chão, um pouco ansiosos.

Alvo bufa e se deixa cair de volta em seu banco. Ele brinca com uma embalagem de doce vazia, tentando aliviar a tensão.

— É besteira do Tiago. Ele ouviu nosso tio dizer isso no jantar e ficou repetindo. — Alvo dá de ombros, tentando disfarçar o desconforto. — Aliás, não tem como eu ir para a Sonserina. Minha família toda é da Grifinória. Está no meu sangue ir para a Grifinória.

Escórpio dá um suspiro baixo e se afunda mais no assento, parecendo desanimado.

— Bem, se for assim... — diz ele, com a voz um pouco mais baixa. — Está no meu sangue ir para a Sonserina. Então, não vamos poder ser amigos.

Alvo sente um aperto no peito ao ouvir isso. Ele não tinha realmente pensado sobre o que isso significava. Sonserina e Grifinória eram rivais há gerações, e, de alguma forma, ele acabaria passando mais tempo com os alunos de sua própria casa. A amizade entre ele e Escórpio, que havia começado de forma tão inesperada, parecia já ter um obstáculo considerável pela frente.

Antes que pudesse responder, uma voz ecoa pelo trem, fazendo os dois se levantarem apressados.

— Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor, deixem a bagagem no trem, ela será levada para a escola.

O estômago de Alvo se revira, e Escórpio, ao seu lado, está mais pálido do que nunca. Ambos rapidamente guardaram os últimos doces nos bolsos das calças e tiraram os casacos, vestindo as vestes longas e pretas.

O trem começa a desacelerar até parar completamente. Uma agitação toma conta do compartimento enquanto os estudantes se empurram para chegar à porta e descer na plataforma. Uma lâmpada balança acima deles, lançando uma luz tremeluzente sobre o grupo. E, entre as vozes animadas, uma ressoa, profunda e familiar:

— Alunos do primeiro ano! Primeiro ano aqui!

Alvo levanta os olhos e vê a enorme figura de Rúbeo Hagrid, o guarda-caças de Hogwarts, com seu rosto largo e cheio de pelos brancos, sorrindo por cima de uma multidão de cabeças.

— Tudo bem, Alvo? — Hagrid cumprimenta-o com um sorriso caloroso, reconhecendo o garoto logo que o viu.

— Oi, Hagrid. — Alvo sorri de volta, lembrando-se do cachorro velho de Tiago, que tinha o mesmo nome do gigante à sua frente.

Hagrid então olha para Escórpio, que está ao lado de Alvo, e ilumina seu rosto com a lanterna.

— E você deve ser? — Hagrid pergunta, sua voz abafada pelo tamanho da sua própria voz, mas gentil.

— O filho das trevas! — Alguém grita de dentro da multidão de estudantes.

Escórpio cora ainda mais e, com a voz baixa, responde:

— Escórpio Malfoy.

Hagrid pisca algumas vezes, claramente surpreso com a reação dos outros alunos. Mas logo estende uma mão gigante, que Escórpio aceita hesitante, sorrindo timidamente.

— É um prazer conhecê-lo. — Hagrid diz, com um sorriso genuíno.

Escórpio, agora mais relaxado, sorri de volta, sentindo-se acolhido.

— Alunos do primeiro ano, me sigam para terem a primeira visão de Hogwarts. — Hagrid anuncia, sua voz ecoando por todo o trem. — Depois, entrem nos barcos. Só quatro em cada barco!

Alvo e Escórpio não hesitam. Seguem Hagrid pelo corredor do trem até a plataforma, ambos com os corações acelerados pela emoção do que estava por vir. Finalmente, eles irão ver a escola de magia de que tanto ouviram falar durante toda a vida. A escola de seus pais, e agora, a escola deles também. Ambos têm certeza de que irão gostar daquele lugar, assim como seus pais antes deles. Mas, no fundo, Alvo sabe que a experiência de Hogwarts será muito mais do que apenas uma continuação da vida de seus pais. Ele terá que fazer seu próprio caminho, aprender a ser a versão melhor de si, sem se comparar com o que os outros esperam dele.

E, com um último olhar para Escórpio, Alvo se dá conta de que talvez, só talvez, essa amizade possa ser mais importante do que ele imagina.


Notas finais
- Espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.