A criação
6 Sangue Derramado
Notas iniciais
Levanto-me com cautela após a queda da bola exterminadora. Tento esquecer as inclinações monstruosas na minha pele e preocupar-me com o que acabara de acontecer.
— Vamos nos juntar aos outros. — John deixou o arco no ombro e me ajudou a levantar. A rua ainda estava carregada de poeira e chamas crepitavam por todos os lados. Quando atravessamos a rua, consegui ver onde Sara e os outros rapazes com mais nitidez.
— Você está cada vez melhor com a flecha, John. — Sara apontou para o ruivo, exibindo uma expressão de satisfeita. — Por pouco a nave não caiu em nós.
Um homem de pele escura e careca brilhante concordou com Sara, resmungando algo que eu não consegui entender. Ele tinha traços grossos e o corpo atlético coberto por uma roupa preta de guerra.
— Will, esses são as pessoas que eu disse que iriam nos ajudar a escapar. Você já deve ter conhecido o John. Este é o Jimmy — Ela apontou para um rapaz de pele morena, o cabelo negro despenteado. Ele estava recostado na van, os lábios finos com filetes de sangue. — E o carequinha ali é o Ritho. Mostrou-me o carrancudo com estilo militar.
— É um prazer conhecê-lo. — Jimmy estendeu a mão e eu a apertei com cuidado. Lembrei-me no instante que ele usou sua arma para cortar o tubo da nave. Se não fosse por ele, eu seria morto asfixiado, sem sombra de dúvidas.
— Obrigado por ter me ajudado... — Continuaria falando, mas Ritho me cortou com sua voz assustadora.
— Não é sempre que conseguimos fazer coisas como essas. — Ele se virou para a nave destroçada no fim da rua. As chamas consumindo-a. — Precisamos comemorar! — Ele esticou o braço para dentro da van e puxou algumas latinhas de refrigerante pela janela. Jogou uma para cada um de nós.
— É disso que eu estou falando! — John comemorou, animado.
— Precisamos ficar atentos, podemos comemorar em um lugar mais seguro. — Ela deu uns goles no refrigerante e deu uma olhada rápida em mim. Caminhou até a porta da van e a abriu. — Podemos fazer uma pequena festa enquanto o Ritho dirige até o esconderijo.
Passei o meu corpo para dentro do veículo, depois Ritho foi para o banco de motorista, John sentou ao meu lado e Sara na frente, no banco de carona. Jimmy comentou algo como “motoristas não podem beber”, mas não continuou a falar. Parou subitamente, um ar de exclamação em sua voz. Ele não tinha passado o corpo todo para dentro da van e nunca mais passaria. Quando me virei para ajudá-lo já era tarde. Uma lança negra tinha atravessado o seu corpo lateralmente, furando-o de ponta a ponta. Seus olhos estavam vidrados em mim e os dedos agarrando o forro do acento que ele usaria. Seu corpo tombou para o lado de fora, uma poça de sangue formando-se ao seu redor.
— JIMMMM! — John gritou ao meu lado. Ele passou por mim, tentei segurá-lo, com medo do que havia feito isso com Jimmy ainda estivesse lá fora. Mas ele foi mais rápido. Alguns segundos depois, estava ao lado do garoto, berrando ao seu lado e pedindo que voltasse.
— Puta merda... — Ritho estava em pânico e, depois que vi, também fiquei. No final da rua, entre as chamas da nave destruída, via-se algo enorme, colossal. O corpo se movendo no fogo, arrastando-me para fora dele. Lembrei-me da criatura com garras que me atacou no acidente com o carro. Mas aquele era mil vezes pior. O corpo tinha o formato humanoide. Grande e forte. A pele tinha uma tonalidade azul fraca. Uma espécie de triângulo de cabeça para baixo cobria o seu peito e o local onde deveria haver seus membros íntimos. Os braços eram extremamente fortes e estavam cobertos por grandes bolhas avermelhadas. À medida que andava, o estrondo se tornava maior. O nariz quase que inexistente, assim como a boca. Tinha olhos enormes, arregalados, focados em nós.
Eu precisava fazer alguma coisa.
— John, você precisa sair daí! Entre! — Fiquei dentro da van, perto o suficiente da porta. O ruivo agora estava em pé, mirando a flecha no monstro. Antes de larga-la, percebi que se tratava de mais uma daquelas explosivas. Meu coração batia como nunca, como se fosse pular para fora.
— Olhe o que você fez com o meu amigo! Eu vou destroçá-lo, seu monstrinho de maiô. — John atirou e eu vi, pelo canto do olho, a flecha explodir contra a cabeça da criatura. As chamas tomaram conta da rua mais uma vez. Puxei o garoto pela gola, jogando-o contra uma das cadeiras da van. Fechei a porta do veículo e ouvi Sara gritando para Ritho.
— Dê ré, rápido! — Ela estava segurando a mesma arma que antes. Ritho começou a manobrar o carro, tentando escapar. Senti o aço gelado do facão que Sara acabara de me entregar. Eu realmente precisava me proteger com algo.
— Segurem-se! — O carro finalmente havia pegado velocidade. Estávamos prestes a sair da rua quando algo pousou na frente do veículo e nos obrigou a frear. Ela estava ali novamente. Seus pés rachando o concreto, os olhos ferozes como nunca.
— Você pode guardar a faca, não ajudará em nada. — John comentou perto de mim. Seu rosto estava demasiado vermelho e agora aparentava medo.
— Precisamos fazer algo antes que ele ataque. — Comentei, tentando buscar formas de escapar.
Os segundos seguintes foram angustiantes. Ambos estavam imóveis, pelo visto ninguém queria atacar. Até que o silêncio foi quebrado por palavras estranhas por parte do gigante monstruoso.
— Nunca imaginei que veria isso. Queria estraçalhar esse carro e quebrar o crânio de cada um de vocês. Esmagar esses seus corpinhos minúsculos com os meus pés, sufocá-los até deixá-los da minha cor! É, como eu queria... Mas ela ainda está me impedindo de fazer isso, quero que ela deixe, quero que ela permita que eu faça tudo isso que eu disse! — Seu semblante alternava a cada instante, as palavras sibilando como serpentes em seus lábios. — Ela acha que todos os casos até agora de pessoas como você podem ser recuperados. Mas eu acredito que não, eu acredito que você deve ser julgado como todos os outros! Eu acredito que você é um deles. Se fosse um de nós estaria fazendo aquilo que lhe foi ordenado! — Estava gritando agora, aproximando-se de nós com violência. Então buscou algo dentro do seu maiô triangular. Quando finalmente vimos o que era, entramos em um consenso único: Era hora de correr.
O monstro carregava uma espécie de bazuca entre as mãos. Estiquei o braço e abri a porta, o medo de ser queimado vivo tomando conta de mim. Estava esperando que ele obedecesse a quem quer que seja que o mandara não atacar, mas ele não estava cooperando. Apertou algum botão lateral da arma e atirou. Só tive tempo de passar o corpo pela porta e pular para longe. Pelo incrível que pareça, nada explodiu.
Ralei o joelho e o braço na queda. Fiquei deitado, esperando pela destruição, mas a única coisa que vi foram duas lâminas giratórias. Elas cortaram o carro no meio e viraram-se para cada um de nós. Éramos os alvos. Uma delas acertou a vidraça de uma loja de roupas ao meu lado, depois começou a me perseguir pela rua, ameaçando me decapitar a qualquer momento. No meio da confusão, acabamos nos reunindo mais uma vez. Cansados e exaustos.
— Não consigo mais correr em círculos. Parece que ele está se divertindo com tudo isso. — Sara apontou para o monstro. Seus braços estavam cruzados e os olhos fixos em hélices diferentes, que estavam vindo à nossa direção mais uma vez.
Os três usaram suas armas, mas as lâminas desviavam com facilidade. Nem mesmo as flechas de John funcionavam. Não havia saída, se conseguíssemos derrotar as hélices, a própria criatura daria um fim em nós. Sem aviso prévio, fui tomado pela mesma sensação que tive quando o carro estava vindo na minha direção e na de Mike. Eu precisava salvá-los e sabia como. Desaparecer em um lugar e reaparecer em outro, como fiz na outra situação. Será que eu conseguiria? Estava tudo muito confuso desde as falas do monstro.
Como um robô, ergui as mãos mecanicamente. Não parecia que era realmente eu, mas funcionou. Quando já estavam próximas o suficiente da gente, as hélices se choraram em uma espécie de parede invisível e estouraram violentamente. Meus dedos estavam trêmulos e a minha mão parecia ter carga elétrica. Ouvi Sara perguntando se eu que tinha feito aquilo. A visão falhou e foi escurecendo. O vi se aproximar de nós com a arma, não poderia defendê-los mais uma vez. Tudo ficou em câmera lenta e, quase na mesma hora, eu e o monstro de maiô desabamos, desmaiados.
***
Acordo com o mundo girando ao meu redor. Estou em um quarto pequeno e abafado, quase que sem luz. Escuto sussurros em um canto e noto que as vozes partem de Sara, Ritho e John. Sei que estão falando de mim e da minha terrível participação no que acontecera com o monstro. O que aquele bostinha estava querendo dizer com tudo aquilo?
A faca que Sara me dera estava do meu lado. Do outro lado da sala, vejo uma porta escancarada, dando passagem para um banheiro com espelho. Levanto-me subitamente, agarro a lâmina e, ignorando os outros, me tranco no outro cômodo.
Estão gritando agora, pedindo que eu abra a porta. Mas eu já estou cansado de tudo isso. Preciso mudar as coisas, os fatos. Talvez eles estejam achando que irei me matar, mas percebo que Sara sabe que não farei isso, já que não escuto sua voz. Então, sem demora ou receio, uso o a lâmina para remover as largas pontas de meu cabelo. A medida que elas vão caindo, sou banhado pela luz de uma lua avermelhada através de uma janelinha quebrada.
Quando termino, olho para o espelho e descubro que sou outra pessoa. Descubro que nunca mais terei a vida que tive antes.
O mundo mudou.
Eu também.
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