Notas iniciais
Não tem muito conteúdo nesse capítulo comparado ao outro. Demorei um pouco para postar por conta da preguiça (hihihi), me desculpem, espero que gostem! :)

Continuo segurando a mão de Mike. Não sei dizer ao certo o que estava acontecendo, só tinha a certeza de uma coisa: Não fomos atingidos pelo carro no meio da confusão.

Meu corpo está flutuando, depois rodando, girando para baixo, como se estivesse sendo sugado pelo ralo de uma pia. Tudo acontece muito rápido, até que tudo para de se mover. Meus pés estão firmes, mantenho os olhos fechados e sou invadido por cheiros e sentimentos variados.

Uma palavra estranha surge na minha cabeça como uma faísca. Não sei o que ela quer dizer, mas se repete com uma frequência assustadora.

“Etropelet, etropelet, etropelet, etropelet”.

Foi como se eu tivesse batido o dedinho do pé na quina da escada, a única diferença era que a dor acontecia em todo o meu corpo. Ainda estou com os olhos fechados, com medo de abri-los. Uma sensação desconfortável tomando conta de mim, o horror de não saber o que está acontecendo. “Estou morto?” A pergunta surge em minha mente e eu não sei nem quando a formulei. Então, como resposta, uma mão suada me puxa para a realidade, um perfeito “sim” para indicar que eu ainda estou vivo.

— O que foi que aconteceu? — A voz de Mike está trêmula, com uma pitada de horror claríssima. Sem mais delongas, abro os olhos e encaro a realidade ao meu redor. Uma penumbra nos rodeava, a poeira densa e negra. Cinzas se formavam abaixo dos meus pés. O forte cheiro de material queimado se alastrando como serpentes em meu nariz. Recuamos pelo nada, vagantes aprisionados pela escuridão da tragédia.

— Eu não sei. Uma hora estávamos para ser atropelados, então...

— Um milagre.

Ficamos ás cegas por muito tempo. Limpava os olhos toda hora, tentando não deixa-los irritar.

***

— Estou vendo algo, venha! — Acelero os passos, tomando o máximo de cuidado com os escombros pelo chão. Ao longe, estendiam-se rochas enormes, a poeira ficou mais densa e então tudo ficou mais claro: Um montão de escombros formavam um tabuleiro desorganizado e repleto de sangue, a imensidão de prédios que acabara de cair. Blocos enormes espalhados pelo que outrora era o meu apartamento, vigas pontudas presas por fios de alta tensão no alto, a pista completamente rachada, com crateras absurdamente grandes.

— Puta merda. — Digo assustado, uma sensação de tontura me consumindo.

— Acha que tem mais alguém por aqui? Algum sobrevivente? — Ele pergunta com cautela, os cabelos loiros completamente encardidos.

— Eu não sei. — Respondo para Mike alguns minutos depois. Fico surpreso com o tom de minha voz. Rígida, resistente.

— Meu Deus. — Ele diz ao meu lado, encarando tudo aquilo. Partimos alguns minutos depois, procurando entre as rochas se havia alguém, mas nada. Também gritamos por ajuda, mas ninguém aparecia. À medida que andávamos, víamos, com os olhos lacrimosos, a extensão da destruição.

— Era tudo tão... Cheio... — Sussurro com delicadeza, prendendo a respiração, fazendo de tudo para não chorar. Olho para a pilha de objetos, apartamentos caídos, vidas que se foram. Silêncio. Vislumbro o corredor antigo de prédio, os carros passando em alta velocidade e as pessoas saindo sorridente de seus imóveis. Poucos edifícios continuavam de pé, a metade destruída, outros prestes a desabar. Silêncio.

— Por favor, alguém nos ajude! — O grito de Mike chega a me assustar, seu desespero me contagia e juntos clamamos por socorro.

— Tem alguém aí? — Grito horrorizado e é então que, no momento seguinte, uma sirene explode dentro de nossos ouvidos. Arrastando-se por todos os cantos, mas ao mesmo tempo não parecendo vir de lugar algum.

— Estamos aqui! — Luzes de faróis surgiram ao nosso lado e eu me senti como na situação anterior. Ainda não sabia o que havia feito para escapar do outro carro, felizmente, esse estava com a velocidade completamente reduzida. Com o tempo, percebemos que se tratava de uma ambulância.

O veículo freou com tamanha violência. As duas portas do fundo se abriram e uma mulher de cabelos loiros nos puxou desesperada para dentro. Deixo-me levar pelas suas mãos lisas e fortes, notando que Mike também não demonstrara resistência.

— O que está acontecendo? — Perguntei para a mulher, não tendo resposta.

Ela se virou para o rapaz que dirigia e pediu que ele adiantasse. Não nos botaram em uma maca nem nada do tipo. E foi então que notei que realmente não havia uma maca, o fundo estava liso, com apenas nós três. O motorista virando o volante com frequência.

O veículo sucumbiu e acelerou, se movendo com uma velocidade aterrorizante, driblando obstáculos a todo instante. Continuamos calados, o silêncio sendo quebrado com os barulhos suspeitos que vinham do lado de fora.

— Eu exijo uma explicação! — Grito sem pensar, demonstrando autoridade.

— Acabei de te salvar, não entende? Para de ficar fazendo perguntas, parece que tá rolando um terremoto ou algo do tipo. Cleveland está completamente destruída. — A mulher loira disse com ferocidade e arrogância, como uma tapa em minha cara. Estava vestindo um jaleco branco, o nome Ruth bordado na estampa.

Fiquei calado. No canto, afastado de todos, Mike abaixou a cabeça e começou a fungar.

Do lado de fora, explosões aconteciam com frequência. Uma delas foi tão próxima que a ambulância chegou a ser atingida na lateral por um dos destroços.

A parte da frente do veículo e a de trás eram separadas por uma parede branca, com uma janelinha que Ruth estava usando para se comunicar com o rapaz na frente. Considerando a situação, achei que não haviam chances de piorar, mas ao olhar através da fresta da janela, percebi a magnitude dos fatos. Pessoas corriam por todos os lados, fugindo de algo que não conseguia ver. O carro seguia velozmente por uma estrada que se rachava e dividia-se. Corri para duas janelinhas das portas do fundo e vi que o chão descia atrás de nós, desabando e dando lugar a canos quebrados e, vez ou outra, labaredas dançantes de fogo.

— Caramba, precisamos sair daqui! — Mike disse ao meu lado. Seu corpo espremido contra uma das portas, os olhos espantados com a visão através da janela.

— Bill, você precisa acelerar! — Ruth gritou para o motorista. Senti um arrepio e percebi que o medo estava tomando conta de mim mais uma vez. Do fundo do meu coração, soube que algo iria acontecer, um pressentimento que, infelizmente, se concretizou.

Vi um lampejo esverdeado chicotear o fundo do carro com tamanha violência. Joguei o meu corpo para trás, para perto de Mike. O barulho foi rápido e intenso: O serpenteio maligno do jato suspeito beijando a lataria do veículo sem medo, destroçando suas camadas com o fogo e consumindo-nos enquanto a ambulância capotava pela pista destroçada.

A força do impacto fazia meu corpo girar sem parar. De relance, vi os vidros se quebrarem e o corpo de Ruth ser arremessado contra o meu. Algo gelado rasgou o meu pé, depois senti as mãos fraquejarem, a visão escurecer e o cheiro terrível do sangue que saia do meu corpo como uma cascata. Minha vida estava vazando como a água em um cano danificado. O pior era que eu não podia fazer nada.

Eu ainda estava consciente quando o carro parou. O que outrora era o teto, virara o chão. Um caco de vidro estava fincado em uma das minhas mãos. Preso em minha carne ao extremo, perto de ultrapassá-la. Fico ali pelos minutos que se seguem, calado, deixando a morte me levar. Vejo Mike e Ruth em um canto. A mulher está praticamente destroçada, imersa pelos escombros, seus minúsculos olhos sem vida me espreitando pelas barras de ferro que a cobre.

Com Mike era diferente, seu corpo estava livre de obstáculos, mas não muito melhor que o de Ruth. Minha respiração começou a sufocar subitamente, tornando-se arrastada. A sensação que tomou conta da minha garganta foi horrível, tentei agarrá-la sem um motivo específico, mas a mão latejou ao movimento mais simples. Manchas coloridas dançavam na minha frente, como um ritual. Foi então que, em uma das janelas quebradas, uma sombra diferente das outras surgiu.

Um vulto voraz. Primeiro pôs metade do corpo para dentro do veículo. Uma massa aracnídea negra, o corpo curvado, uma espécie de cabeça triangular se movimentando com frequência para todos os lados. Tinha olhos enormes, vermelhos cor de sangue. Garras estralando há todos os instantes, uma bolha avermelhada no topo das costas, repleta de espinhos. Fechei os olhos, tentando acelerar minha morte, esperando que tivesse um fim antes daquela coisa chegar perto de mim.

O meu suposto último desejo não fora realizado. Uma das garras da criatura acertou a minha barriga com uma força indescritível. Queria correr, fugir, me esconder, sobreviver. A ponta gelada do seu corpo rompendo o meu tecido e invadindo intimamente o que havia dentro de mim. Meu grito não ofuscou as palavras que o monstro clamava, sem piedade. Ele continuou com aquilo, era sua forma de se divertir.

***

Estou em um hospital. Minha visão está embaçada e um tanto danificada. Acordei subitamente depois de um estalo enorme no final do corredor, uma explosão, talvez. Foi como se eu estivesse sonhando que estava caindo de um prédio, mas dessa vez a chegada até o chão foi muito mais demorada. Minha mão desliza até a barriga, buscando uma abertura. Nada.

Tento lembrar o que aconteceu, mas fazer esse tipo de coisa parece ser muito doloroso. Encontro ataduras em várias partes do meu corpo, escondendo ferimentos de um confronto nada ideal.

Outro estrondo parte do mesmo corredor, e é então que decido levantar e descobrir o que há no hospital além do monte de papel caído do setor em que estou.