A criação
5 Impactos
Notas iniciais
Eu estava desestabilizado.
Os ferimentos em meu corpo começavam a doer cada vez mais. As chamas não conseguiram me consumir, mas deixaram queimaduras horríveis em minha perna. Foi então que, na tentativa de me levantar, percebi que não conseguiria o fazer. No meio dos destroços, próximo a minha irmã, senti a fraqueza me agarrar com força. Os olhos lacrimejaram de dor e olhei para cima mais uma vez.
Era quase indescritível. Parecia uma grande bola de aço flutuante com dois pequenos triângulos em cada lado, semelhante a asas, três turbinas no fundo, lançando chamas esverdeadas. Era uma nave. Eu tinha certeza disso.
— Will, você consegue andar? — Sara perguntou ao meu lado. Ela estava em pé, o rosto pálido, as mãos vasculhando algo dentro da mochila.
— Não. — As palavras saíram da minha boca como um urro de dor. Pressionei as pernas involuntariamente e senti uma carga quente subir por mim. — Acho melhor você ir, por favor, vá. Não se preocupe comigo, estou apenas te atrasando. Não conseguirá nos tirar daqui assim. Eu te imploro, vá!
Ela me olhou com um uma expressão irritada e disse duramente:
— Não vou deixá-lo aqui sozinho. Deixe de drama e venha. — Ela puxou a minha mão e eu passei o meu braço pelo seu ombro. Preferia que ela me deixasse ali. Já estava me acostumando com a ideia de morrer a qualquer momento.
Nos arrastamos pela rua, a nave flutuando acima de nós, se movimentando lentamente. Me senti uma formiguinha, correndo ao máximo para longe dos braços de um humano que, embora não estivesse sendo rápido, poderia me matar com apenas um toque. Estávamos vulneráveis.
Um buraquinho se abriu na nave e uma garra, assim como aquela que as pessoas usam para pegar ursinhos em parques, deslizou até nós, uma velocidade assustadora. Tentamos acelerar os passos e, por isso, acabei me desequilibrando. O tombo foi horrível, minha perna ralou contra o concreto e a queimadura ardeu ainda mais.
— Merda! — Sara puxou um facão de dentro da mochila e desceu-lhe contra o tubo que prendia a garra. Não aconteceu nada durante os primeiros minutos. A garra tentava acertá-la e a faca, quando acertava o tubo, não causava muitos danos.
Ela precisa de ajuda. Pensei.
— Ei, bocó! — Gritei para as garras como se elas fossem um ser vivo. Peguei uma pedra no chão e arremessei contra ela. O objeto se virou contra mim e o tubo guiou-o com velocidade até o local em que eu estava.
— O que você pensa que está fazendo? — Sara gritou.
Manquei até a esquina seguinte, a garra mais próxima de mim do que nunca. Imaginei que o tubo era pequeno e que uma hora ele não me alcançaria, mas, naquelas circunstâncias, pareceu mais interminável. Fui para trás de um carro, esperando que Sara estivesse o atacando agora, já que a minha corrida tinha lhe dado tempo.
— Eu não posso morrer assim, não posso morrer assim... — Sussurrei para mim mesmo, a perna latejando como nunca, o corpo abaixado. Como uma serpente, a garra deu um bote por cima do carro e o tubo se enrolou em meu pescoço. Meu corpo foi levantado e depois arremessado contra uma lata de lixo.
Envolvi as minhas mãos no tubo e o puxei. Estava sem ar, aquilo estava me sufocando. Vi pontos no canto do olho e depois um estouro, um tiro seco. O tubo e a garra perderam a força e se desvencilharam do meu pescoço. Quando levantei, vi uma van preta ao lado de minha irmã, dois rapazes saíram de dentro dela, um mantinha a arma apontada para o tubo do outro lado, que agora estava cortado pela metade. O outro tinha um arco nas mãos, uma flecha grande acoplada no cordel.
O garoto com o arco veio até mim, ele tinha um sorriso no rosto, uma expressão de diversão o possuindo. Tinha cabelos ruivos bagunçados, uma pele branca cheia de sardas, os olhos castanhos brilhantes, o corpo magricela e baixo.
— Uau, então você é o Will. Sempre quis te conhecer. — Ele disse empolgado. — Nos atrasamos por causa do trânsito, desculpe-nos. Sua irmã nos contou sobre você, que bom que está vivo. — Uma zombaria atrás dele o interrompeu, estreitei os olhos e vi o homem com a arma gritando algo como “A bolona ainda está ativa! Prepare-se!”.
— O que ele quis dizer com isso? — Perguntei com cautela, o corpo trêmulo. Aquele parecia ser um pessoal legal, mas o medo ainda me dominava.
— Você verá. — O garoto ruivo se virou e ergueu o arco. Percebi que outro rapaz tinha saído da van, da porta do motorista, precisamente. Os quatro, incluindo Sara, ergueram as armas contra a nave flutuante e começaram e disparar contra ela freneticamente. Assustei-me com a forma rápida que o garoto na minha frente puxa as flechas e as atirava, sem medo e com uma mira muito boa.
— E-eles vão atacar. — Gaguejei ao notar que, do pequeno compartimento de onde a garra e o tubo haviam saído, um cano grande aparecera, semelhante a um canhão. Não demorou muito até que ele atirasse. Um jato esverdeado explodiu na nossa frente, levantando o concreto e nos jogando para trás.
— Continue abaixado. — O garoto com o arco disse, levantando-se sem esperar.
— Acredite, não faria isso de forma alguma. — Meus olhos captaram o momento que outro jato esverdeado partiu da nave e destruiu a calçada onde Sara estava. Por sorte ela não estava mais ali. O estrondo dessa vez tinha sido mais forte e a destruição também fora maior. Notei que mais tiros partiam do outro lado, todos acertando a nave. Não podia ver de quem partiam, já que a fumaça formava uma cortina entre os dois lados da rua.
O arqueiro subiu no carro em que eu estava antes. Assumiu uma pose heroica e erguei o arco com firmeza. Havia algo de diferente dessa vez. Algo vermelho apitava na ponta da flecha, como um explosivo. Ele contou até três em voz alta, o braço esticado ao máximo, fazendo força na flecha e no cordel. Ergui os olhos para a nave e percebi que o cano estava para o nosso lado agora, pronto para atirar.
O ruivo precisava disparar primeiro ou estaríamos fritos. E foi isso que ele fez. A flecha partiu na direção da nave com violência. Acertou-a bem na ponta do cano e, depois de alguns segundos, fez tudo se explodir. As chamas esverdeadas das explosões que a nave provocava mesclada ao vermelho vivo do fogo provocado pelo aparelho na flecha. A parte restante da nave perdeu o controle e se chocou contra um prédio de vidro, destroçando-se enquanto caia. Quando finalmente tombou, a única coisa que vi foi o corpo do ruivo se aproximando de mim e a explosão crescendo atrás dele, no fim da rua. Então ele disse, um sorriso cafajeste no seu rosto.
— Aliás, meu nome é John Philiphs, mas pode me chamar de destruidor de bolonas alienígenas.
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