A coragem de encontrar-me

21 Capítulo 20: Pelo menos a janta vai ficar fenomenal


Notas iniciais
POV Zelda

— Não se preocupe, eu tenho um plano — digo, confiante, enquanto pego a espada de volta para protegê-la até a batalha. O instruo a reunir os exércitos e retornar para cá o mais rápido o possível. Para me provocar, ele faz uma reverência e então se retira. Fico preocupada ao vê-lo sair em direção à batalha, mas não temos outra opção. Faço uma pequena prece silenciosa, abençoando-o — o que vai aumentar sua resistência, ainda que pouco.

Tenho outra questão com a qual lidar agora. Olho para a esquerda, de onde emana uma energia viva, e levanto a voz.

— Você, escondido atrás da coluna. Apareça agora — digo, com firmeza.

Após alguns segundos, percebo um brilho tremeluzente aparecendo de trás da coluna. Com um gesto, quebro o encantamento; naquele ponto, aparece um jovem vestido com estranhas roupas azuis.

— Aproxime-se — ordeno.

Há pânico em seu olhar, mas ele caminha na minha direção sem hesitar — com as mãos erguidas para demonstrar que está desarmado. Acho uma gracinha o gesto, considerando que poderia destruí-lo com um estalar de dedos, esse pequeno hylian. Tanta coragem em um corpo tão diminuto… como um herói em miniatura.

— Percebi sua presença assim que apareceu por aqui. Mas vi que seu coração é puro e não existe má intenção em sua observação curiosa. Não quis que ele te visse… então aguardei até que se retirasse antes de falarmos — digo, sem conseguir evitar a ternura em minha voz quando falo dele.

Me aproximo do jovem, estranhando a sensação de familiaridade. Parte da alma dentro dele vibra em pura coragem e determinação.

— Eu te conheço. Sua energia parece…

Mas me interrompo. Deve ser apenas uma grande coincidência, cogito, mesmo sabendo que coincidências não existem.

Enquanto encarnada, cada alma tem uma característica única. Após a morte, quando se fundem novamente ao tecido do universo, elas perdem sua individualidade e se misturam de volta aos elementos primordiais. Então tornam-se uma nova alma e encarnam em um novo corpo, como uma pessoa completamente diferente.

E, ainda assim, parte da alma desse jovem me lembra… balanço a cabeça, descartando o pensamento.

— Não é possível. Diga-me, soldado. De onde você veio? O que está procurando aqui?

Ele fica em silêncio por alguns segundos. Faço um gesto encorajando-o a continuar.

— Eu… sou de um tempo muito distante. Eu vim do futuro — diz, hesitante.

Do futuro? Pelas suas vestimentas, eu suporia algo desse tipo. Na maior parte da minha existência eu não experiencio o tempo. Passado, presente e futuro se fundem em uma única coisa, como uma dimensão separada da qual eu não faço parte. No entanto, mesmo que, em teoria, eu devesse conseguir saber de todas as Eras que virão… algo nessa batalha impede que eu veja além. Mesmo quando estou no Domínio Sagrado, não consigo acessar o que acontecerá a partir de hoje. Isso tem me preocupado cada vez mais.

— Curioso… Quando não estou materializada, eu estou sentada à beira do Tempo. E, ainda assim, não consigo reconhecer sua origem. Me pergunto como seria possível…

Ele apenas me encara, sem fornecer mais informações.

— Retornando à minha pergunta. O que está procurando aqui?

O jovem parece incerto ao falar.

— Respostas? Não sei. Me instruíram a vir aqui aprender sobre o que tinha acontecido no passado… — ele começa, mas é interrompido por estrondos do lado de fora.

A energia demoníaca de Demise está se aproximando do templo, provavelmente escoltado por suas hordas. Ele ainda não retornou, e fico em pânico ao pensar que pode ter cruzado, sozinho, com esses monstros em seu caminho.

— Não! — me ouço gritar em pânico. — Pensei que tinha mais tempo… vá, vá, volte para seu tempo! Essa batalha não é sua — ordeno e corro de volta à sala onde está o portal, sem esperar para ver se o jovem me obedeceu, mas logo sinto que sua energia desaparece.

Completamente desorientada, deixo a espada cair no chão enquanto tento descobrir o que fazer.

Meu plano original era o de mover a entrada ao Domínio Sagrado para algum outro lugar. Pensei que teria mais algumas horas, então iria transferi-lo para Fonte Sagrada aqui em Faron Woods.

Desesperada, ouço os estrondos na porta principal aumentando. Eu havia colocado um selo nela para evitar a entrada de qualquer um que não fosse ele. Mas as investidas de Demise são intensas, e não sei quanto tempo a proteção irá aguentar.

No fundo desta sala, em uma plataforma elevada, existe um arco de pedra que foi transformado no portal para o Domínio Sagrado. Sem conseguir raciocinar direito, movo minhas mãos em gestos fluidos, fazendo com que o portal em si se desprenda do arco — que é demolido no processo, e desaparece. Sem algo para segurá-lo esticado, o portal colapsa sobre si, virando uma esfera invisível que distorce o tempo e o espaço ao seu redor. Aos olhos de um hylian, pareceria uma lente de aumento.

Minha concentração é tamanha que, se fosse possível, eu estaria suando. A energia que gasto para manter o portal em suspensão é gigante e minhas forças se esvaem rapidamente. Ouço uma explosão do lado de fora e sei que a porta vai ceder a qualquer momento. Tomo a decisão num impulso e lanço a esfera na espada, fundindo ambas. Nesse momento, ela se torna uma entrada para o Domínio Sagrado. Sem tempo para refletir sobre as consequências que isso pode trazer, ouço a porta principal se abrir em um estrondo.

Em contraposição ao que eu imaginaria, nesse momento um silêncio mortal se faz sobre o templo. Ouço seus passos pesados caminhando no corredor principal. Não querendo demonstrar fraqueza, permaneço onde estou. Me viro lentamente para encará-lo com superioridade, reafirmando minha posição.

Demise é ainda mais alto do que eu. Seu corpo, apesar de ter o formato humanoide — inclusive sem as orelhas pontudas características dos hylians — é completamente cinza. Seu torso, braços e pernas são revestidos por uma couraça escamosa, cinza, preta e carmim. Seus olhos e cabelos brilham em chamas laranjas e vermelhas. Sua expressão é de desdém, enquanto caminha na minha direção. Ele carrega uma espada monstruosa, completamente preta, cuja lâmina que deve ter o mesmo peso que ele, dado seu tamanho.

Chegando à base da escada, ele me faz uma reverência carregada de ironia.

— Hylia. Nos encontramos novamente.

— Por que, Demise? — questiono, cortando as amenidades.

Ele sorri, divertindo-se, e dá de ombros.

— Por que fazemos qualquer coisa que seja, Hylia? Por que as deusas da criação fazem os mundos? Por que você protege a Triforce, mesmo sabendo que no final eu precisarei dela para encerrar o mundo atual? Por que eu, então, destruo tudo isso, apenas para depois começarmos essa dança novamente? São perguntas, apenas perguntas — diz, filosófico. — Mas preciso admitir… você definitivamente deixou as coisas muito mais divertidas dessa vez. Geralmente tudo termina de forma tão… anticlimática. No momento certo você se retira… eu apareço… faço a limpeza… e liberamos energia para que o ciclo se renove. Tudo muito monótono. Aí você, agora, me aparece apaixonada por um hylian?! — completa rindo, sua voz carregada de escárnio e desprezo. — Eu já destruí muitas coisas, Hylia. Mas este tipo de conexão vai ser a primeira vez. Obrigado pela oportunidade, será uma honra — conclui, com sarcasmo.

Em pânico ao ouvir suas palavras, não consigo negar suas suposições. Ao invés disso, pergunto em desespero:

— Como você sabe sobre ele?

Demise emite uma risada gutural, que sai das profundezas de seu corpo, surpreso pela minha admissão — ainda que velada — tão rápida.

— Ele tentou impedir minha entrada — explica, me paralisando no lugar. — Preciso admitir, ele foi muito corajoso. Pena que são tão frágeis, estes mortais, não?

Com um estalar de dedos, Demise faz o corpo dele aparecer caído diante de mim. Um filete de sangue escorre de seus lábios entreabertos.

— NÃO — grito, e me abaixo para ele. Estendo minhas mãos em sua direção, e sinto que sua alma ainda está aqui, mas seu corpo está fraco e debilitado.

Demise sobe as escadas lentamente.

— Ele ainda está vivo. Pensei que seria mais divertido matá-lo na sua frente.

Acordo em um pulo, o que já está se tornado um hábito. A lembrança ainda fresca corre pelo meu corpo; o terror que Hylia sentiu ao ver o corpo inerte de seu amado, o desprezo e o nojo que sentiu por Demise, a determinação em destruí-lo que a tomou.

Desorientada, noto que ainda estou no morro de Hateno, onde está o trágico lago em formato de coração partido. Link e eu ficamos conversando, sentados na grama, até altas horas da madrugada e devemos ter pegado no sono em algum momento. O sol está nascendo, iluminando Hyrule abaixo de nós.

Ao sentir minha movimentação, Link também acorda e se senta, imediatamente alerta.

— Você se lembrou? — pergunta, ansioso.

— Eu… Hylia… Eu vi você — balbucio, confusa. — Eu vi você na memória de Hylia — falo, e o observo com curiosidade. — Você não é tão pequeno assim.

Link me encara perplexo, como se essa fosse a última coisa que esperasse ouvir de mim neste momento.

— Oi?!

— Hylia. Ela te achou muito pequenino. “Uma gracinha”, nas palavras dela. “Como um herói em miniatura” — digo, dando risada com o absurdo da situação.

Link, na verdade, é alguns centímetros mais alto que eu. Mas eu meço meros um e sessenta de altura, então…

— Ela que é gigante feito um cavalo — diz contrariado, me fazendo rir ainda mais, o que desperta o humor nele também.

Depois de alguns minutos, após aproveitarmos a histeria, ele pede que eu conte o que houve. Explico qual foi o ponto de vista de Hylia do encontro com ele, e como ela simplesmente esqueceu de sua existência depois que ele partiu. Link suspira aliviado por não ter causado problemas na linha do tempo. Conto sobre o discurso de Demise e sua teoria de como o ciclo da existência funciona.

— Destruição cíclica… me lembra o modus operandi da Calamidade — reflete Link. — Mas nenhuma delas chegou a destruir completamente a existência… cedo ou tarde, elas foram paradas antes de engolir toda a terra. Será que elas estão relacionadas com o que Demise disse? Ou é apenas uma coincidência?

— Não sei dizer… Outra coisa que percebi foi que enquanto as Calamidades são governadas por Ganon, que parece ser apenas uma energia maligna sem percepção, Demise me pareceu muito astuto e consciente de seu papel em tudo isso.

— Precisamos levar essas novas descobertas à Impa e Purah. Talvez elas consigam teorizar o que tudo isso significa — diz, enquanto se levanta.

Link me oferece a mão para que eu possa me erguer também; e, depois que fico em pé, ele não a solta. Ele me observa cauteloso, avaliando minha reação ao gesto. E, quando eu dou um passo extra e entrelaço meus dedos nos seus, ele sorri, feliz. Rio de volta, e fazemos todo o trajeto até a casa de Purah de mãos dadas.

— — -

Gosto do isolamento do meu novo estúdio. Nos últimos meses, com a abertura da escola, as crianças do vilarejo passaram a vir, frequentemente, bater na minha porta por uma miríade de razões: pedindo ajuda com o dever de casa, se justificando do porquê não conseguiriam entregar determinado projeto na data correta, trazendo uma torta de bananas que sua mãe fez para mim. Com isso, comecei a sentir falta de ter tempo e espaço para focar em meus estudos e anotações. Então pedi à empreiteira aqui de Hateno — Bolson Construções — que construísse algum escritório escondido para mim.

Eles sugeriram usar o velho poço que existe na parte de trás da casa, e eu achei a ideia genial. Em poucos dias eles transformaram aquele espaço em um cantinho fresco e agradável onde eu conseguia me esconder dos olhinhos curiosos de meus alunos.

Devido ao teor das últimas memórias que Link e eu resgatamos — e pressentindo que a próxima rodada vai ser ainda mais terrível —, estamos protelando em dar continuidade à jornada.

Depois que constatamos que a interação com Hylia realmente não teve repercussão nos dias atuais e observamos que, com o treinamento fornecido por Link fortalecendo os jovens viajantes, os ataques Yiga voltaram a diminuir nas estradas principais, ambos relaxamos quanto ao processo de resgate das memórias.

Purah e Impa não estavam muito felizes com isso.

Nem um pouco felizes, na verdade, uma vez que daqui a poucos dias completarão 7 meses desde que fizemos algum progresso nesse assunto.

Em minha defesa, muita coisa aconteceu nesse período.

Finalmente conseguimos terminar de destruir todas as Torres e Templos Sheikah de Hyrule. Também terminamos de desmontar todos os guardiões, e vasculhamos cada canto da terra para garantir que não deixamos faltar nenhum. Sobrou uma única unidade — que estava no alto do laboratório de Purah. Ela pediu que mantivéssemos ele, como recordação.

Além disso, percebendo que a população não fazia ideia de tudo o que realmente tinha acontecido nos últimos séculos, Tauro sugeriu que construíssemos uma escola aqui em Hateno, de forma a educar a próxima geração sobre tudo o que transcorreu. Eu adorei a ideia, e liderei o projeto. Em poucas semanas a pequena escola foi entregue, e então comecei a dar aulas em conjunto com Symin, um Sheikah apaixonado por história.

Depois de um período inicial de estranheza, Link e Tauro começaram a se entrosar bem. Como ambos viajaram bastante pelas terras além de Hyrule, eles tinham muito o que conversar. Tauro ficou fascinado com a lenda da ilha de Koholint e ficou surpreso por nunca ter ouvido falar nela. Link ficou intrigado com as histórias dele sobre os Zonai, a tribo mágica que viveu em Faron em algum momento do passado mas desapareceu tão misteriosamente quanto surgiu.

Falando sobre os Zonai, depois de terminar de ajudar Purah com seus estudos sobre tecnologia ancestral, Tauro sentiu vontade de retomar suas pesquisas sobre esse povo. Há alguns meses o nomeei como líder da Equipe de Pesquisa Zonai e permiti que ele recrutasse alguns historiadores para auxiliá-lo. Eles passam a maior parte do tempo explorando as florestas de Faron em busca de mais pistas, voltando em Hateno a cada poucas semanas apenas para reportar suas descobertas. Não são muitas, mas a pesquisadora em mim ama cada pequeno pedaço de informação que eles me trazem.

Link e eu estamos mais próximos do que nunca. No dia em que ele segurou minha mão, decidimos dar a notícia de que estávamos juntos a qualquer um que questionasse. Purah pareceu preocupada por ainda não termos aprendido tudo sobre o passado, mas nos deu um abraço forte e desejou felicidades.

A cada dia que passava, nossa conexão ficava mais intensa. Não havia nenhum assunto sobre o qual não falássemos. Tivemos várias discussões vulneráveis e sinceras sobre o período de separação e nossos sentimentos divididos em relação a tudo isso. Nossa parceria e sintonia só crescia e, eventualmente, percebi que a mágoa havia passado. Então, há alguns meses, depois de torturantes meses renegando o desejo, finalmente retomamos nosso relacionamento físico em sua totalidade.

E, por Hylia, como foi glorioso.

A primeira vez foi em um dia que pedi a Link que cozinhasse para mim alguma coisa que aprendeu do tempo em que ficou em Koholint. Não preciso dizer que a comida acabou queimando no tacho que fica do lado de fora da casa, enquanto estávamos do lado de dentro perdidos um no outro. Foi tão maravilhoso e intenso quanto aquela vez, antes de sua partida. Melhor, na verdade, agora que não existia mais a dor da separação iminente.

Desde então, Link praticamente voltou a morar aqui no chalé. A cama não é muito grande, mas não faz diferença — uma vez que dormimos enroscados, odiando cada centímetro de distância entre nós.

Tudo está correndo muito bem, em todos os âmbitos. Até mesmo a estranha fumaça tóxica, que vinha do subterrâneo do castelo, desapareceu subitamente. Então evito pensar nas memórias que ainda preciso recuperar. Sempre que me lembro disso, sinto um mau agouro — como se elas tivessem o poder de destruir todo esse equilíbrio. Tenho medo do que elas vão nos revelar.

Sem ter mais o que fazer aqui no estúdio e notando que a noite já caiu, escalo a escada para sair do poço. Encontro Link preparando a janta com alguns legumes que colheu e uma carne fresca que deve ter acabado de caçar, enquanto assovia uma canção feliz. Cumprimento-o com um beijo e me sento aos pés da árvore.

— Desculpe, perdi noção do tempo — digo, animada. — Estava analisando os últimos relatórios que Tauro trouxe de quando esteve em Faron recentemente. Que horas são?

— Sem problemas, Zel. Já se passaram das 11. Estava interessante? — me pergunta, concentrado na refeição que está preparando.

— Muito, ele estava formulando teorias sobre qual a relação deles com os dragões e…

Nesse momento sou interrompida pelo clima ficando gelado, como se tivessem caídos 20 graus em meio segundo. O mundo inteiro fica em silêncio, uma estranha brisa começa a soprar e pequenas partículas de luz branca e vermelha começam a faiscar ao nosso redor. Olho aterrorizada para Link, que me encara de volta com a mesma expressão. Ambos sabemos o que isso significa.

Em instantes, o céu fica completamente carmim e a lua assume um tom macabro de vermelho intenso. É a Lua de Sangue, o momento onde a energia de Ganon chega a seu pico e ele consegue conjurar seus monstros por toda Hyrule.

Desde a queda da Calamidade, quase sete anos atrás, ela nunca mais tinha aparecido. Depois de poucos segundos, tudo volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Mas sabemos que as florestas agora, provavelmente, não estão mais seguras.

Link suspira, resignado.

— Pelo menos a janta vai ficar fenomenal — diz.