A coragem de encontrar-me

19 Capítulo 18: Quem precisa de resgate agora?


Notas iniciais
POV Zelda

A água da Fonte da Coragem é morna. Suponho que seja por conta do vulcão que fica logo ao lado. É confortável ficar dentro dela, então me permito alguns minutos desfrutando da sensação antes de começar a meditação.

Chegamos na Fonte depois de um dia e meio de viagem, saindo de Kakariko. Viemos em uma velocidade maior do que a que costumamos viajar, para disfarçar o silêncio estranho que havia entre nós. Não que antes Link costumasse falar, mas eu geralmente preenchia esse vácuo. Não mais — se ele quiser ouvir algo, que comece a falar primeiro.

As emoções dentro de mim brigam entre si, em um caos para decidir qual vai se sobressair. Primeiro sinto desejo de estar próxima dele e ouvir sua voz; depois, quero que ele simplesmente cale a boca e não diga mais nada. Quero sentir suas mãos em mim me fazendo sua; no segundo seguinte, quero fazer ele sentir tanta dor quanto eu senti quando partiu. Quero conversar banalidades e ouvir sua risada, mas então quero xingá-lo de todos os nomes.

Estou uma bagunça e não sei se foi uma boa ideia trazê-lo junto nessa viagem. Mas, assim como ele colocou, eu também não consigo mais ficar longe. E se for para ser assim, que seja. Pela primeira vez em anos eu me sinto viva — então vou aproveitar cada segundo.

Link está aguardando na base da escadaria da Fonte, me dando espaço e privacidade. Fecho os olhos e repito o processo que fez com que eu conseguisse me conectar da última vez. Hoje é mais fácil e em poucos segundos eu sinto a água subindo pelo meu corpo novamente. Minha consciência se expande e logo eu escuto aquela voz, já conhecida.

Ele está aqui — diz, feliz e distraída.

Franzo a testa, aturdida.

— Quem?

Muito bem, Zelda — prossegue, ignorando minhas perguntas como de costume. — Vejo que aprendeu mais sobre a Triforce e resgatou uma das memórias. Você e Link precisarão cooperar para conseguir juntar todos os pedaços dessa história. Não vai ser fácil se lembrar do que transcorreu, e eu espero que vocês tenham empatia para entender o porquê de tudo ter acontecido da maneira como foi.

— O que você quer dizer com isso?

Voltando à Triforce. Como você já aprendeu, ela foi uma relíquia deixada como presente aos povos terrenos pelas deusas da criação. Quando alguém que não está com as qualidades de Coragem, Sabedoria e Poder balanceadas dentro de si tenta tomá-la, ela se divide em três partes. Cada uma delas se destina ao indivíduo que tiver a habilidade correspondente mais aflorada. Por exemplo: muitos dos que carregaram o Espírito do Herói, também carregaram o pedaço de Coragem da Triforce. Bom, era assim que funcionava antes, pelo menos.

— Antes do quê?

Para entender isso, primeiro vocês precisam entender a história que estão descobrindo.

E, assim como da última vez, a conexão é interrompida. Prevendo a queda de energia que virá a seguir, fiquei mais próxima do pedestal onde está a pequena estátua de Hylia dessa vez. Me apoio nele, aguardando a tontura se dissipar.

— ZELDA, CUIDADO! — Link grita.

Me viro e vejo um soldado Yiga caminhando na minha direção. Ao contrário dos que me emboscaram nas outras ocasiões, que eram pequenos e ágeis, esse é gigantesco. Deve ter o dobro da minha altura, e três vezes o meu peso somente em músculos. Os outros Yigas costumam carregar pequenas foices como armas. Este soldado carrega uma espada enorme — sua lâmina com mais de um metro de comprimento — e ondulada. Deve ser pesada, pois ele a carrega com as duas mãos.

O Yiga levanta a espada para me acertar e uma flecha de Link voa, o acertando no ombro. Ele olha para o ferimento com desdém. Para o que está fazendo para retirar a flecha de si mesmo, como se não sentisse dor alguma. Ouço os passos de Link chapiscando na água, mas a profundidade da Fonte é suficiente pra que seja difícil correr. O soldado observa a situação despreocupadamente. Aterrorizada, vejo ele estendendo o braço, pegando Link pela garganta e o erguendo; e, ao ser acometido pela falta de ar, Link deixa suas armas caírem na água.

— Peste insolente — diz o Yiga, com a voz grave e clara, fazendo meu sangue gelar. — Você já nos trouxe problemas demais, nos atrasou demais. O renascimento do Mestre está próximo e vocês não impedirão que ele alcance seu objetivo dessa vez.

Ele fecha mais sua mão, estrangulando Link — que debate seus pés no ar inutilmente.

— NÃO — grito, furiosa. Meus braços tremem e uma energia quente que parece irradiar desde o meu coração desce por eles, os iluminando de dourado.

Pela primeira vez, presto atenção no que está acontecendo; noto que três triângulos dourados brilham intensamente no dorso da minha mão direita. Estendo minhas mãos na direção do agressor e um feixe de energia denso surge a partir das minhas palmas. Mas, antes de ser atingido, ele solta Link, surpreso. E, no segundo em que a energia o alcança, ele se desmaterializa instantaneamente, sumindo em fumaça. Não sei se eu o matei ou se ele escapou, mas não importa.

Corro — ou melhor, tento correr — até Link, que está desmaiado no chão. Sua cabeça está recostada na pedra mais alta, e seu corpo flutua na água. Chego até ele e puxo seus ombros tentando fazê-lo se sentar.

— Link — chamo, assustada.

Não recebo nenhuma reação.

— LINK — grito mais alto tentando acordá-lo, em vão.

Desesperada, dou um tapa em seu rosto. Dessa vez, suas pálpebras se movem. Depois de alguns segundos ele recobra a consciência, tossindo. Vejo, aflita, que seus olhos estão vermelhos, como se vários vasos tivessem estourado.

— Precisava do tapa? — brinca, com a voz rouca e baixa.

O alívio desarma todas as minhas defesas. Me jogo em seus braços, sem conseguir segurar o choro. Link solta um suspiro, como se estivesse prendendo a respiração há muito tempo. Ele leva uma de suas mãos até minha cabeça e começa a fazer um carinho reconfortante em meu cabelo.

Ficamos assim por alguns minutos, antes que eu me afaste.

— Desculpe — digo, olhando para a água sem conseguir fitar seus olhos. — Eu não deveria… eu achei que tinha te perdido mais uma vez. Pela terceira vez. Não sei se suportaria novamente.

Levanto o olhar, me sentindo vulnerável pela confissão. Link me encara com um olhar triste.

— Não peça desculpas — diz, e sua voz falha.

Percebo que ele está fazendo muito esforço para conseguir falar. O estrangulamento deve ter ferido os músculos de seu pescoço e suas cordas vocais.

— Eu que… preciso… me descul… — tenta dizer, mas não consegue terminar.

Ele dá um sorriso frustrado e faz um gesto com a cabeça na direção da estátua de Hylia. Entendo que ele está perguntando se eu consegui fazer a conexão.

— Consegui sim. A voz falou comigo novamente…

Explico o que ela me disse sobre a Triforce. Ele franze a testa, tão confuso quanto eu.

— Precisamos voltar — diz, com dificuldade. — Não estamos seguros aqui.

Concordo, e o ajudo a se levantar. Ele parece ter torcido o pé na queda também, pois está mancando um pouco. O auxilio a sair da Fonte Sagrada até chegarmos em nossos cavalos, iniciando o caminho de volta.

— — -

Estou sentada à mesa do chalé. Meu diário está aberto sobre ela e eu tento escrever sobre os últimos meses, mas não consigo focar.

Já se passaram mais de três meses desde o dia em que Link e eu visitamos a fonte do Poder em Akkala. Desde então, os ataques dos Yigas voltaram a acontecer e estão aumentando cada vez mais. As estradas já não estão mais tão seguras quanto costumaram ser nos últimos anos.

Por conta disso, Link tem estado ocupado treinando qualquer um que esteja interessado em aprender sobre autodefesa e técnicas de combate. Ele demorou quase um mês para recuperar a voz após ser estrangulado pelo Yiga. A grande ironia foi que, agora que ele não podia falar — por conta da recuperação —, foi a partir desse dia que voltamos a conversar; e agora, muito mais do que no passado.

Começou com pequenos bilhetes, onde ele me avisava onde estaria ou o que estava pensando. A viagem de volta de Akkala até Hateno foi tranquila; mas poucos dias depois começamos a receber notícias de que os viajantes estavam sendo atacados nas estradas, por toda Hyrule.

”Acho que eu deveria ensinar as pessoas como agir nessas situações”, disse o primeiro bilhete, que ele me passou no dia em que estávamos na casa de Purah e recebemos a notícia do terceiro ataque em menos de uma semana.

— Você quase morreu da última vez — provoco. — Talvez eu devesse ensinas as pessoas.

Link revira os olhos, contrariado.

”Acho que gente normal não tem a habilidade de soltar um show de lasers pelas mãos.”

— Se eu fosse “gente normal” você estaria morto agora. Aliás, você estaria morto há um século. Então… de nada.

Ele deu uma risada rouca, mas logo fez uma careta. Os músculos de seu pescoço estavam feridos ainda. Purah observou a interação com curiosidade e uma leve preocupação, mas não disse nada.

Nas primeiras semanas, nos comunicamos assim. Ele me entregava notas dizendo coisas como ”Vou até a praça, está na hora do treinamento” ou ”Purah precisa de ajuda recrutando mais gente para destruir as Torres distantes”. Mantemos nosso arranjo acordado logo no pós-Calamidade, então eu continuei morando no chalé enquanto ele dormia nas estalagens. Ele insistiu nisso quando eu trouxe o assunto a tona, dizendo coisas como ”Essa casa agora é sua” e ”Você transformou ela em um lar, coisa que eu nunca consegui fazer”.

Apesar disso, muitas vezes, quando ele me acompanhava até em casa no final do dia, nós nos sentávamos à beira da famigerada árvore e passávamos horas conversando. Ele me mostrou seu diário enquanto me contava como foram seus últimos anos. Fiquei surpresa ao ver que ele contou cada dia desde a separação. Me diverti com o fato completamente aleatório de que ele virou cozinheiro num quiosque à beira de praia em uma ilha isolada — e o fiz prometer que iria cozinhar para mim alguma das coisas que aprendeu lá. Contei sobre os meus últimos cinco anos; falei dos avanços que fizemos em desmontar e compreender as tecnologias ancestrais; do dia em que meus poderes retornaram depois de uma noite de bebedeira. Ele riu alto quando contei sobre e Paya sua teoria bêbada de como despertar meus poderes.

Link me contou sobre Marin, a garota que conheceu na ilha e que o lembrava de sua irmã. A princípio, senti um leve ciúmes; mas ao ouvir mais histórias, ficou nítida a relação fraternal entre eles — e eu senti vontade de conhecê-la.

Eventualmente, falamos sobre Tauro. Falei de como ele me salvou do afogamento na Fonte da Coragem quando nos conhecemos. Contei sobre meu relacionamento com ele e como — apesar de nos darmos muito bem na parte intelectual — eu não consegui me conectar fisicamente com ele.

Foi nesse dia, cerca de três semanas depois do ataque na fonte, que ele tentou me beijar novamente. Não posso dizer que fui inocente — eu também queria isso, e dei diversos sinais ao longo dos dias. Depois que ele quase morreu — de novo — naquele dia, entendi que não tinha sentido em ficar fazendo jogos. Ainda existem alguns ressentimentos e coisas que precisamos trabalhar, mas eu não posso mais desperdiçar tempo — pois pode ser que morramos amanhã.

Em vários momentos, em muitas de nossas conversas, em me aproximava mais dele. Quando ele me fazia rir, eu deliberadamente encostava levemente em seu braço, mão, ou joelho. No início, Link respondia à essas investidas somente com um olhar mais intenso e autocontrole — respeitando o limite que eu mesma havia imposto anteriormente.

Até o dia em que o desejo falou mais alto do que todo o controle que ele tinha. Acredito que quando falei sobre minha conexão física com Tauro, ele se lembrou da conexão física que nós compartilhamos naquela última noite. Suponho que tenha sido isso, pois foi o que se passou em minha mente no momento.

Sem restrição, Link me interrompeu no meio da frase, encostando seus lábios nos meus. E, dessa vez, não só eu não recuei, como também o puxei para mais perto.

O mundo parecia pegar fogo ao nosso redor. Enrosquei meus dedos em seus cabelos, que ele deixou crescer nos últimos anos, impedindo que ele se afastasse. Uma de suas mãos fazia um carinho acolhedor em meu rosto, mas a outra me pegava pela cintura e me puxava rudemente de encontro ao seu corpo — e eu adorava. Nos beijamos por horas mas, em um acordo não-falado, não deixamos que o ato escalasse para algo mais íntimo. Apesar da intensidade e da urgência, ainda tínhamos outras questões a esclarecer antes de darmos um próximo passo.

Quando finalmente nos afastamos, estávamos ofegantes e ruborizados. Seu olhar para mim era de tamanha intensidade — e fome — que fez minhas entranhas se contorcerem. Despedimo-nos à beira de abandonar a cautela e cedermos aos instintos. Desde então, quando estamos sozinhos, ou estamos conversando e trocando confidências, ou estamos perdidos no desejo e um no outro — sempre parando, com relutância, no limite da prudência.

Nos últimos meses, também ganhei mais confiança nos meu poderes. Estou aprendendo a canalizá-lo quando quero. Descobri que consigo fazer algumas coisas interessantes que não sabia ser possível; como, por exemplo, deixar armas um pouco mais resistentes, imbuir um pouco do poder nas flechas — deixando-as mais eficientes contra os Yiga —, ou, até mesmo, curar pequenos ferimentos.

Com o avanço da demolição das antigas estruturas Sheikah e da reestruturação dos vilarejos, decidimos começar a exploração no Castelo e na pequena cidade ao seu redor, para iniciar o projeto de tudo o que seria necessário para reerguê-lo.

Foi em uma dessas expedições, conduzidas por um pequeno grupo de voluntários, que aconteceu o primeiro caso.

A equipe, composta inicialmente por quatro jovens, retornou com apenas três. Eles estavam explorando o andar mais profundo, próximo a onde está localizada a antiga prisão do Castelo. Um deles percebeu uma estranha fumaça preta saindo por uma das frestas na parede e decidiu se aproximar para entender o que era. Ao entrar em contato com ela, ele desmaiou imediatamente. Seus colegas, ao verem o que aconteceu, amarraram tecidos no rosto para evitar inalar a substância tóxica e o resgataram. O jovem ainda estava vivo ao chegar em Hateno, apesar de estar em coma. Mas morreu poucos dias depois, e seu pescoço e corpo estavam tomados por vários riscos escuros — como se todas as suas veias estivessem carbonizadas.

Depois de algumas semanas, os outros três jovens da equipe original e mais alguns voluntários que retornaram àquele lugar — dessa vez protegendo as vias aéreas — desenvolveram uma tosse crônica e pareciam debilitados, com menos vigor do que normalmente. Com isso, decidimos interditar os andares subterrâneos até segunda ordem.

Essa decisão foi tomada ainda hoje. Então, decidi tentar anotar tudo o que houve nestes casos em meu caderno, para tentar descobrir alguma conexão no que está acontecendo.

Link acabou de sair daqui. Ele ainda não tinha retornado ao Passado para o segundo destino que lhe foi instruído. Primeiro, estava se recuperando do ataque Yiga; e logo depois se ocupou com as tarefas do dia-a-dia em Hateno e, bem… comigo. No entanto, com os acontecimentos recentes, decidimos que seria hora de avançar nessa jornada.

Passaram-se apenas alguns minutos desde que ele fechou a porta, mas logo ela é escancarada de uma vez e ele entra na sala, completamente pálido. Antes que eu possa perguntar o que houve, ele diz, completamente aterrorizado:

— Você precisa resgatar sua próxima memória agora.