A coragem de encontrar-me
14 Capítulo 13: Na minha cama?
Notas iniciais
Faltam algumas horas para o nascer do sol quando vejo a costa de Loshlo Harbor aparecer no horizonte. Tradicionalmente, as embarcações atracam diretamente na vila de Lurelin, um pouco mais ao sul; mas após uma conversa com o capitão — e alguns rupees desembolsados —, uma nova parada foi adicionada à rota para que eu pudesse descer mais próximo de Hateno.
— Mas lá não tem porto — reclamou o capitão ao ouvir meu pedido inicialmente. Eu garanti que ele poderia parar um pouco longe da costa, na ilha de Tenoko. Sempre tinha uma jangada largada ali, e seria suficiente para que eu conseguisse chegar até meu destino.
Ao chegarmos perto da pequena ilha, o navio é parado e jogam uma escada para que eu possa descer da embarcação. Como esperado, há uma pequena balsa abandonada ali. Organizo minhas bolsas nela e parto em direção à praia. Em pouco menos de duas horas, alcanço a orla e meus pés tocam as terras de Hyrule pela primeira vez em anos.
Eu não tinha noção de quão longe eu tinha viajado. Foram quase seis meses para retornar de Koholint, mesmo vindo o mais rápido o possível e sem desvios. Precisei pegar embarcações em dois momentos diferentes, e cruzar quilômetros e mais quilômetros de terra.
Cada passo que eu dava diminuía minha distância em relação a Zelda. E era só nisso que eu pensava em todos os dias da jornada. A saudade doía, machucava, e eu não conseguia fazer mais nada além de esperar pela chegada. A Ocarina que recebi do herói do Tempo permaneceu intocada, no fundo de uma de minhas malas. Eu sabia que precisaria voltar a essa tarefa em algum momento, mas minha cabeça se recusava a focar em qualquer outra coisa que não fosse Zelda.
Não posso dizer que foi um erro partir de Hyrule. Não tendo conhecido Koholint, eu provavelmente nunca teria conseguido encontrar novas pistas para aprender mais sobre o passado. Não teria aprendido sobre a existência do Espírito do Herói. No entanto… foi um erro achar que eu precisava estar sozinho para conseguir fazer estas descobertas. Não que Zelda pudesse ter me acompanhado. Mas eu não poderia, no mínimo, ter mantido contato por correspondência? Ou voltado com mais frequência?
Desde que decidi retornar a Hyrule, não se passou uma noite em que eu não sonhei com Zelda. Seu sorriso, sua sagacidade, a paixão que ela tinha em aprender coisas novas, sua risada, seu cheiro. Meus braços doem com o desejo de abraçá-la novamente.
Sem conseguir esperar nem mais um segundo, inicio a pé a subida pela estrada que leva direto a Hateno. Como o sol está nascendo agora, tudo ainda está muito silencioso e tranquilo. Hyrule — este pedaço, pelo menos — está exatamente como eu me lembro, e, por um segundo, é como se eu nunca tivesse partido.
Em poucas horas eu chego na entrada de Hateno, e sou atingido por uma onda de nostalgia. Entro na cidade devagar, absorvendo tudo ao meu redor. Percebo que a Torre Sheika da região desapareceu, bem como o Templo Sheika que ficava dentro do vilarejo. Zelda e os pesquisadores devem ter optado por destruí-los mesmo, então.
Acho que deve passar pouco das 8 horas da manhã, agora. Vejo algumas pessoas saindo de casa para iniciar o dia. Alguns me olham com curiosidade, mas ninguém parece me reconhecer. Talvez seja por eu ter deixado a barba crescer livremente nos últimos anos, sem energia para a menor manutenção dela.
Me dirijo direto ao meu antigo chalé. Imagino que Zelda ainda deve morar por lá; conhecendo ela, provavelmente a reconstrução do Castelo será uma de suas últimas prioridades. Ela vai querer garantir o bem estar do seu povo, primeiro.
Atravesso a ponte que leva até a casa. Meu coração está pulando no peito com tanta força que parece querer saltar para fora. As palmas das minhas mãos estão suando. Minha respiração se acelera mais a cada passo. Vejo que o interior da casa está iluminado, mas não sei se ela acabou de acordar. Decido esperar até que saia, ao invés de bater em sua porta.
Vou até a árvore que fica à esquerda da casa, e me sento ao seu pé. Depois de alguns minutos, me levanto novamente — a ansiedade torna impossível permanecer sentado. Começo a andar de um lado para o outro com as mãos nos bolsos, tentando fazer o tempo passar mais depressa. Estou de costas quando ouço a porta se abrindo.
Me viro imediatamente, pronto para me dirigir a Zelda. Mas, ao invés dela, vejo um homem saindo do chalé. Pego de surpresa, me escondo atrás da árvore, preocupado de estar invadindo a privacidade de alguma família estranha. Será que Zelda se mudou de volta para o castelo, afinal, e cedeu a casa para novas pessoas? No entanto, em poucos segundos sou provado errado e meu coração afunda. Congelado, sem conseguir deixar de assistir à cena como se fosse um pervertido curioso, vejo Zelda, ainda de pijama, parada à porta falando com aquele homem.
Ela está sorrindo, e se comunica com ele com facilidade e familiaridade. Observo enquanto ela levanta o braço para encostar no ombro do homem e escorregar sua mão até a dele, segurando-a, em um carinho mais íntimo do que se estivessem nus na minha frente. Ele, muito mais alto que ela, se abaixa e deposita um beijo suave em sua boca.
É demais e eu não consigo continuar olhando. Escorrego pela árvore, caindo no chão. De onde estão, eles não conseguem me ver. Mas ouço quando o homem diz, confuso.
— Ouviu alguma coisa?
Eles ficam em silêncio por alguns segundos.
— Acho que foi só o vento — diz Zelda. Ouvir sua voz, tão clara, tão familiar, tão inalcançável, faz com que meu coração se contraia em uma batida dolorosa.
Ouço a porta se fechando, os passos dele se afastando da casa e atravessando a ponte. Parece que ele para por um instante, mas segue logo em seguida.
Atordoado e sem saber o que fazer em seguida, me escondo entre os fundos do chalé e o paredão da montanha que o circunda. Espero até que Zelda saia de casa — depois de algumas horas — e se afaste, antes que eu possa sair daquele lugar.
Com o cérebro enevoado, resolvo ir para o último lugar onde imaginariam que eu poderia estar.
. . .
Hyrule está muito mais movimentada do que eu me lembrava. Muitos rostos novos misturados aos já conhecidos. Pessoas carregando material de construção de um ponto a outro, todos extremamente ocupados.
Estando a pé e com malas, demorei 3 dias para chegar até o estábulo de Dueling Peaks. O atendente de lá me encara com curiosidade quando chego, como se tentasse me reconhecer. Depois de alguns segundos desiste, mas continua me olhando com incerteza durante o atendimento.
Pergunto se eles têm algum cavalo para eu comprar. Não estou com energia para capturar um selvagem nos campos. Eu deixei Epona no estábulo de Lakeside — ao sudeste de Hyrule — antes de seguir viagem a pé junto com Kass até Lurelin, quando parti naquela maldita missão. Não imaginei que ela ainda estaria sob os cuidados da rede de estábulos, mas, em um golpe de sorte — tão raro, ultimamente — não só ela está com eles como também está neste mesma unidade.
Pago 2000 rupees para reavê-la. Eles pedem apenas 400 na venda, mas insisto. Ao vê-la, percebo que ela foi muito bem cuidada desde a minha partida. Seu pelo cor de chocolate está brilhante e macio, e ela parece muito feliz. Então faço questão de cobrir todo e qualquer gasto que eles possam ter tido com ela durante minha ausência.
Mesmo com minha aparência diferente, ela me reconhece assim que me vê. Trota feliz em minha direção e baixa sua cabeça em meu ombro, como se estivesse me dando um abraço. Minha garganta dá um nó ao receber essa recepção, e preciso refrear as lágrimas. Faço carinho em seu pescoço, e depois ofereço uma maçã que estava na bolsa. Colhi algumas antes de passar no estábulo, caso precisasse fazer amizade com algum cavalo novo: o caminho mais fácil para cair nas graças deles é pelo estômago.
— E aí, garota — digo, fazendo carinho em seu rosto comprido. — Senti sua falta.
Epona dá um relincho feliz, como se compartilhasse do sentimento. O atendente do estábulo observa a cena com curiosidade, mas não diz nada. Depois que ela termina de comer, monto em cima dela e sigo diretamente para o Castelo.
. . .
A cidade do Castelo ainda está em ruínas. Confirmando minhas suspeitas, tudo indica que Zelda decidiu deixar a restauração deste pedaço do reino por último. O que é ótimo, pois posso me esconder aqui até decidir quais serão meus próximos passos.
Atravesso os portões ainda montado em Epona, e nos dirigimos até a primeira portaria. Esta é uma construção que, no auge da Calamidade, costumava estar infestada de monstros. Mas imagino que agora deva estar deserta.
No entanto, assim que atravesso sua entrada, vejo que estou errado. Não é um demônio que me espera, mas por um instante eu desejo que fosse: seria mais fácil de lidar com esse tipo de problema.
— Como você é previsível — diz Purah, me encarando com os braços cruzados.
Frustrado por não ter o silêncio e isolamento que desejava para conseguir processar minhas emoções, desmonto de Epona e fico de frente para Purah. Vejo que ela não é mais uma criança, e sim exatamente a mulher de que eu me lembro da época pré-Calamidade.
— Oi para você também — respondo.
Apesar de estar levemente irritado pela invasão, uma alegria amarga em ser reconhecido por alguém me atinge. Caminho até ela e a abraço antes que ela possa responder. Percebendo que eu preciso disso, ela retribui o gesto e aguarda até que eu solte. Demora alguns minutos.
— Caramba, Linky, que situação, hein — diz, e percebo que ela já está ciente de que eu sei do novo relacionamento de Zelda. Em seguida, faz uma careta. — Quanto tempo faz que você não toma banho?”
Ligeiramente envergonhado, lembro que a última vez foi há quase duas semanas, antes de embarcar no último trecho da viagem até Hyrule. Minhas roupas limpas acabaram após 10 dias, e eu passei a alterná-las, procurando as que estavam com o cheiro menos desagradável.
Olhando por este lado, foi bom que não falei com Zelda assim que retornei.
Ignoro sua pergunta e respondo com outra.
— Como você soube que eu estava de volta?
— Alguns dias atrás, Tauro passou em meu laboratório, como de costume. Ele está nos auxiliando na pesquisa sobre as tecnologias ancestrais, pois é historiador e conhece bastante sobre lugares fora de Hyrule. Ele disse que tinha visto um viajante desconhecido escondido atrás da árvore da casa de Zelda. Como ele conhece sua história, juntou dois mais dois e concluiu que você estava de volta.
Definitivamente mortificado por ter sido pego em flagrante, apenas balanço a cabeça concordando. Antes que eu consiga me impedir, faço a pergunta que está me atormentando a dias.
— Eles estão juntos há muito tempo?
Purah me encara com dó no olhar, fazendo com que eu me sinta ainda mais humilhado. Sei que fui eu mesmo quem disse à Zelda, antes de partir, que não hesitasse em entrar em um novo relacionamento. Mas a teoria é muito diferente da realidade. Como não consegui me envolver com ninguém nos últimos anos, acreditei, inocentemente, que seria o mesmo para ela.
— Faz diferença, Linky? — responde Purah. — Você partiu, disse que nunca mais ia voltar. Deu sua bênção para que ela se ficasse com quem desejasse. Ela é jovem, bonita, sagaz; você achou mesmo que ia não iria encontrar outra pessoa?
— Ela está feliz?
Purah suspira.
— Espero que sim. Os últimos anos foram muito difíceis para ela. Ela demorou muito até se abrir novamente, ainda mais tendo que lidar com os poderes descontrolados e… — ela se interrompe, como se percebesse que falou mais do que deveria.
— O que houve com os poderes dela? — pressiono.
Percebendo que não adianta disfarçar agora, Purah me conta sobre tudo o que aconteceu nos últimos tempos. Me sinto culpado por não ter estado presente enquanto Zelda padecia. E por ser responsável por parte desse sofrimento.
— Por que você voltou? — Purah questiona.
Então também explico sobre os meus últimos anos. Falo sobre meu tempo na ilha Koholint, minha estranha experiência no Templo do Sonho, encontrando outros jovens que também diziam se chamar “Link” e dividiam a experiência de terem carregado algo chamado “Espírito do Herói”. Percebo que Purah toma notas durante todo o tempo em que estou falando.
— Muito curioso… — diz, pensativa.
— O quê?
— Como te falei, Zelda também começou uma jornada para aprender mais sobre a origem de seus poderes. Que dia mesmo você disse que recebeu a Ocarina?
— Na madrugada do dia 22 de setembro para o dia 23.
Purah balança a cabeça, impressionada.
— O mesmo dia que os poderes dela voltaram a se manifestar. Curioso, muito curioso.
— O que você acha que significa isso, Purah?
— Honestamente? Não faço ideia. Mas vai ser divertido resolver esse mistério junto com vocês. Agora vou voltar para Hateno, e espero que você se faça — e NOS faça — um favor e tome banho. Lave as roupas também. O Castelo é circundado por um rio, caso você não se lembre. E dê um jeito na barba, esse estilo “náufrago” não combina com você.”
. . .
Purah retornou para Hateno após nossa conversa. Segui seu conselho e me limpei; realmente estava imundo. Depois de dividir algumas frutas com Epona, quando já estava escuro, me recosto na parede da portaria.
Ainda não sei se devo falar com Zelda. Por um lado, não quero me intrometer em seu relacionamento. Purah não especificou datas, mas a maneira como ela foi evasiva indica que é uma relação ainda jovem. Por outro lado, realmente é curioso o fato de que compartilhamos aquelas experiências ao mesmo tempo, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância. E a árvore Deku disse que ainda haveria mais um ataque. Imagino que teremos que lutar lado a lado novamente. Talvez seja ideal que nos entrosemos o quanto antes…
Sem conseguir tomar uma decisão quanto a isso, reviro minha bolsa em busca da Ocarina. Analiso o estranho instrumento, ainda sentado no chão. Ele parece ser muito bem feito, e, apesar de claramente ser muito antigo, está em ótimo estado de conservação. Percebo que próximo ao bocal dele existe uma faixa prateada, onde estão gravados os três triângulos dourados que parecem estar em todas as decorações daqui de Hyrule. Franzo as sobrancelhas, intrigado. O que será que este símbolo significa? Sempre que o vejo, sou inundado por uma sensação de nostalgia.
Impulsivamente, levo a Ocarina aos lábios, toco as seis notas da Canção do Tempo que me foi ensinada, e foco no primeiro destino que me instruíram a visitar.
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