A coragem de encontrar-me

7 Capítulo 6: Existem outras terras?


Notas iniciais
POV Link

— LINK! HÁ QUANTO TEMPO NÃO NOS VEMOS! COMO VOCÊ ESTÁ? — nos recebe Sidon, daquela sua usual maneira entusiástica.

Ele ainda está no alto da escadaria da cidade Zora, mas corre para nos receber. Dou risada, como em todas as vezes que nos encontramos.

— E quem está com você aí…? Não pode ser… PRINCESA ZELDA? — grita, entusiasmado.

Zelda fica ligeiramente desconfortável com tanta… animação. Ela se esforça para reconhecê-lo — o que faz sentido, considerando que ele ainda era uma criança da última vez que eles se encontraram.

Os Zora são uma espécie aquática, mas conseguem viver em terra firme. Sua expectativa de vida é absurdamente mais longa do que a dos hylians — ou mesmo dos Sheika. Sidon já passou dos 130 anos de idade, mas, como o amadurecimento de sua espécie é muito lento, ele ainda está no início de sua fase adulta. Na última vez em que ele e Zelda se encontraram, apesar de já ter mais 30 anos, ele ainda mal tinha aprendido a andar e tinha um terço de nossa altura. Hoje, ele tem quase o dobro do nosso tamanho.

Sidon é príncipe dos Zora. Sua irmã mais velha, Mipha, estava em nossa equipe de Campeões na luta contra a Calamidade. Quando tudo aconteceu, ela infelizmente foi uma das fatalidades. Mipha era a responsável por pilotar a Besta Divina Vah Ruta. Cada uma das 4 tribos de Hyrule tinha sua própria Besta. Eram máquinas gigantescas, com formato de animais, que foram construídas com o objetivo de auxiliar na luta contra Ganon.

Sua construção não foi no nosso tempo, e sim na Calamidade que aconteceu 10.000 anos antes da que nós lutamos. Naquela guerra, elas, em conjunto com os Guardiões, foram essenciais para derrotar Ganon facilmente e sem muitas baixas. No entanto, ele aprendeu com esse evento. Então, quando chegou a nossa vez, a primeira coisa que fez ao despertar foi invadir e corromper todas estas máquinas com sua energia demoníaca. Os Guardiões se voltaram contra nós e destruíram as cidades, deixando milhares de mortos por onde passaram. Em cada uma das Bestas Divinas, Ganon conjurou um demônio diferente. E os Campeões, que estavam presos dentro delas neste momento… morreram.

Uma das etapas da minha missão para derrotar a Calamidade foi justamente me infiltrar dentro de cada uma delas e derrotar as monstruosidades criadas por Ganon, retomando o controle delas. Foi neste momento que “conheci” Sidon — pois àquela altura ainda estava sofrendo de amnésia —, e foi ele quem me auxiliou a acessar a Besta do domínio Zora: o gigantesco elefante Vah Ruta.

Nos demos bem imediatamente. Sua alegria constante e otimismo inabalável me ajudaram naquelas difíceis semanas. Hoje, o considero um grande amigo e aliado.

Zelda finalmente o reconhece e seus olhos brilham de alegria, mas logo ela se retrai. Ela ainda se culpa pela morte de Mipha, e estava com ansiedade em relação ao encontro com o rei Dorephan, pai dela. Provavelmente não tinha antecipado que também teria que lidar com seu irmão.

— Sidon… Como você está grande! — diz, sem jeito.

— E você não mudou NADA! — responde Sidon, animado. — Está EXATAMENTE como eu me lembrava!! QUE INCRÍVEL ISSO. Venha, vamos subir até o sala do trono! O papai PRECISA TE VER!

“Sala” é um termo interessante, considerando que o domínio Zora é completamente aberto, construído sobre uma região repleta de água, e é composto por várias plataformas conectadas entre si por pontes ou escadarias.

Vendo como Zelda está desconcertada com toda a energia de Sidon, tento desviar o assunto enquanto subimos as escadas.

— Recebemos informações de que Vah Ruta está com mau funcionamento. Você sabe o que houve?

— Ah, sim, sim. Parece que ela, na verdade, está sem… energia? Confesso para você, Link, eu não faço ideia de como essas tecnologias Sheika funcionam e o que alimenta elas. Acho que só está acabando o combustível mesmo — diz, dando risada.

Troco um olhar com Zelda, preocupado. Não é a primeira vez que percebemos que algo está acontecendo com todas as construções que usam a tecnologia ancestral Sheika. Desde que a Calamidade foi derrotada, não conseguimos mais usar a função de teletransporte entre as Torres Sheika. Os Templos Sheika de treinamento também ficaram inacessíveis. De todas as Runas que estavam na Tela Sheika — o dispositivo com uma tela responsiva ao toque que usávamos para diferentes ações, inclusive o dito teletransporte —, apenas a câmera está funcionando normalmente.

Zelda desvia o olhar. Se passaram algumas semanas desde o dia em que admiti estar pensando em deixar Hyrule. Apesar de estarmos nos comunicando melhor — estou me esforçando para falar mais —, não tocamos neste assunto novamente. É como se eu estivesse suspenso, como se alguém tivesse pausado minha vida. Ainda não decidi se irei partir ou ficar, mas sinto como se nós dois estivéssemos prendendo a respiração até que a escolha seja realizada.

Chegamos ao andar superior, onde rei se encontra sentado em seu trono nos fundos da sala. Seus olhos brilham com o reconhecimento ao ver Zelda.

— Princesa Zelda! Não pode ser… Você está viva? — diz, surpreso.

— Rei Dorephan — cumprimenta-o, fazendo uma reverência. Abaixa a cabeça antes de continuar. — Eu… sinto muito por Mipha.

— Zelda… se aproxime, por favor — pede. Sidon e eu nos afastamos um pouco para dar espaço a eles, mas ainda é possível ouvir sua conversa. — Mipha sabia de todos os riscos quando concordou em pilotar Vah Ruta. Não se culpe pela queda dela. Ela partiu lutando bravamente para defender nosso reino, e eu não poderia estar mais orgulhoso dela. E de você também. Todos vocês cumpriram seus deveres da melhor forma possível — completa, se dirigindo também a Sidon e a mim. Faço uma leve reverência, agradecendo seu reconhecimento.

— Mipha foi muito corajosa sim — concorda Zelda. — Passamos muito tempo juntas, principalmente nos últimos meses antes de…

— Não vamos falar sobre tragédias, Zelda. Mas fiquei interessado em suas histórias. Já faz tanto tempo que não ouço novas memórias sobre a Mipha… Podemos conversar um pouco? Gostaria muito de ouvir mais sobre ela — pede, emocionado.

Entendo isso como uma deixa para darmos privacidade para que ambos possam compartilhar histórias, ajudando no luto. Olho para Sidon e concordamos silenciosamente em nos retirar.

— Onde está Vah Ruta? — pergunto depois que saímos da sala do trono. — Posso dar uma olhada nela… Não que seja de muita valia, pois é Zelda quem é especialista nas tecnologias ancestrais.

— A trouxemos de volta pro reservatório aqui perto há algumas semanas. Ela ficou parada desde então, e então, quando tentamos acessá-la novamente, não conseguimos. Nem suas luzes estão funcionando bem… geralmente ela tem um brilho constante azul, mas agora elas apenas piscam algumas vezes e depois se apagam.

— Zelda comentou por esses dias que acha que o ideal vai ser destruirmos todas essas máquinas, incluindo as Bestas. Ela e Purah estavam poderando sobre isso ontem mesmo.

— Interessante — responde Sidon. — Suponho que isso faça sentido… sabemos tão pouco sobre como essas coisas funcionam.

— É. Purah concorda também, mas está dividida. Seu lado “Cientista Maluca” acha que é possível aprender mais se mantivermos tudo como está.

— E o que você acha? — me pergunta.

Acho inusitado, uma vez que todos — Impa, Purah, Zelda e Robbie, o outro cientista de Hyrule e ex-marido de Purah — estavam discutindo esse assunto fervorosamente nas últimas semanas, mas nenhum deles chegou a pedir minha opinião.

— Eu acho… que as respostas não estão por aqui. Nos anos pré-Calamidade, a Zelda já tinha revirado todas as bibliotecas do reino em busca de respostas sobre tudo isso. E Purah e Robbie demoraram meses para sequer conseguir fazer os Guardiões funcionarem, e mesmo assim não tem certeza absoluta de como conseguiram.

— Mas se as respostas não estão aqui, onde poderiam estar?

— Ótima pergunta — dou de ombros. — Nem sei se existem terras para além de Hyrule.

— Claro que existem! — diz, entusiasmado. — Kass vive viajando para terras estrangeiras atrás de canções ancestrais.

Paro no meio do caminho. Kass. Como pude me esquecer dele?

Kass faz parte da tribo dos Rito. Eles são uma espécie descendente de pássaros, mas tem o mesmo tamanho que os hylians. Kass é um Bardo, e o mestre dele foi instrutor de Zelda na época pré-Calamidade. Por ser um Bardo, Kass vive viajando para vários lugares diferentes, dentro e fora de Hyrule, pesquisando mais sobre as músicas locais e históricas. Muitas das canções que ele descobriu foram essenciais para que eu conseguisse encontrar Templos Sheika escondidos por toda Hyrule — que foram essenciais para eu conseguir me fortalecer para a luta contra Ganon.

Fico entusiasmado com a ideia. Talvez essa seja uma maneira de eu partir e, ainda assim, ajudar Zelda.

Meu coração se aperta em aversão à ideia de deixar Zelda para trás. Mas a cada dia que passa eu me sinto mais inquieto, mais desesperado por algo que eu nem sei o que é, mais sufocado com a ideia de nunca descobrir o quê.
Eu preciso partir, antes que nós dois nos machuquemos ainda mais. Eu preciso deixá-la livre de mim, e preciso me libertar do passado também.

Decido entrar em contato com Kass o quanto antes.

Após algumas horas Zelda chega onde estamos, aos pés de Vah Ruta. Ela começa a conversar com Sidon, para coletar o máximo de informações e evidências para repassar à Purah. Eu aproveito que não precisam de mim no momento para me afastar e planejar quais serão meus próximos passos.

— — -

Caro Link,

Fiquei muito feliz em receber notícias suas! Não tivemos contato desde que a Calamidade foi controlada.

Aqui no vilarejo a vida segue normalmente. Minhas lindas filhas continuam cantando, os turistas continuam aparecendo para conhecer a cidade e não tivemos mais problemas com a Vah Medoh.

Isso é… desde que você a controlou, ela não nos atacou mais. Mas Kaneli — o velho líder aqui da tribo, acho que você o conheceu — e Teba, seu braço direito, estavam comentando que não estão mais conseguindo acessá-la. Ouvi dizer que todas as Bestas Divinas estão com mau-funcionamento. Você tem notícias das outras tribos?

De qualquer maneira, como eu já viajei muito para fora de Hyrule no passado, eles iriam mesmo me enviar em uma missão para tentar encontrar respostas. Então sua carta não poderia ter chegado em melhor hora!

Veja bem, eu sou apenas um Bardo. Todas as minhas missões anteriores foram pessoais, em busca de música e cultura. Nunca fui incumbido de uma missão para o Reino. Então sua presença não será apenas apreciada, mas também necessária! Tendo lidado com essas tecnologias muito mais que eu, você vai conseguir reconhecer as informações necessárias com facilidade. E eu posso nos guiar, pois conheço bem as terras fora de Hyrule. Eu tenho um excelente senso de direção.

Como todos estão começando a ficar preocupados com esses problemas com a tecnologia ancestral, acho que devemos partir o quanto antes. Estou pensando em partir daqui a alguns dias, o que você acha?

Espero sua resposta com urgência. Use o serviço de correios das estalagens, eles conseguirão entregar sua carta no mesmo dia — a comunicação entre eles é excelente!

Ansioso pela aventura que nos aguarda,

Kass

Termino de ler a resposta de Kass com um misto de sensações me invadindo. Ansiedade, por estar partindo para terras desconhecidas. Resignação, pela decisão ter sido tomada. Culpa, por estar deixando Zelda para trás. Antecipação, com curiosidade do que vou descobrir.

No mesmo dia em que retornamos do domínio Zora, enviei uma carta a Kass, perguntando se ele não aceitaria partir em uma missão para investigar as tecnologias ancestrais em terras além de Hyrule. Dois dias depois, recebi sua resposta. E assim, de maneira súbita, meus próximos passos foram decididos. E, pela primeira vez na vida, a escolha foi — principalmente — minha.

Passo a mão pelo meu cabelo, preocupado em como vou contar isso para Zelda. Num raro lapso de covardia, desejo simplesmente sair correndo e evitar essa conversa difícil. Mas essa fraqueza vai tão de encontro aos meus instintos mais primais que me causa repulsa instantânea. Não, não posso partir sem falar com ela. Não seria correto.

Estou parado em frente à minha antiga casa. Zelda está morando nela desde aquele primeiro dia — inclusive já começou a decorá-la com móveis novos, coisa que eu nunca tive tempo de fazer —, e eu tenho passado as noites em lugares diferentes. Às vezes nas florestas, às vezes na hospedaria de Hateno. Mas, por falta de outro endereço, pedi a Kass que respondesse aqui.

Nesse momento, Zelda atravessa a ponte em direção ao chalé. Ela sorri ao me ver, mas seus olhos se entristecem ao ver a carta em minha mão e a expressão tensa em meu rosto.

— Oi, Link… Kass respondeu? — pergunta, ao se aproximar. Eu a informei que iria entrar em contato com ele, uma vez que estou me esforçando para ser mais transparente com ela em relação ao que se passa na minha cabeça.

Assinto, relutante.

— O que ele disse? — pergunta, e vejo que ela está tentando disfarçar a tristeza, pois já enxergou a resposta em minha feição.

— Mesmo que eu não tivesse sugerido a missão, os líderes dos Rito já estavam considerando envia-lo, pois a Vah Medoh também está com mau-funcionamento. Ele ficou feliz em ter companhia.

Assisto enquanto ela digere o que isso significa.

— Vocês partem quando?

— Ele quer iniciar a missão com urgência. Creio que eu partirei de Hateno amanhã. O vilarejo Rito é bem distante daqui, e eu ainda preciso passar na Floresta Perdida para guardar a Master Sword. Não acho que seria prudente levá-la na viagem.

Zelda assente, e um silêncio pesado de palavras não ditas cai sobre nós. Nos encaramos por alguns minutos, seus olhos verdes espelhando a dor estampada nos meus. Meu coração parece que vai se partir em dois ao vê-la sofrer, e eu me amaldiçoo por essa inquietação que tomou conta de mim nas últimas semanas. ”Por que eu preciso partir?”, questiono à Hylia. Mas não recebo nenhuma resposta. Não sei se ela está me ouvindo.

Ou sequer se existe.

As emoções se tornam insuportáveis e eu desvio o olhar.

— Eu ainda tenho alguns pertences guardados no chalé. Tudo bem se eu entrar para recolher minha bagagem? — questiono, lutando contra o aperto em minha garganta.

— Claro, sem problemas… Eu espero aqui fora — diz, compreensiva.

Assim que a porta se fecha atrás de mim, as lágrimas começam a escorrer por meu rosto silenciosamente e permanecem durante todo o tempo em que faço as malas.