A coragem de encontrar-me

25 Capítulo 24: Deusas também sentem tédio


Notas iniciais
POV Zelda

Meu olhar pula de um Link para o outro, ainda sem conseguir lidar com a presença de vários deles. É inquietante a maneira como eles são tão parecidos com o Link que conheço tão bem… e ao mesmo tempo tão diferentes.

— Devemos partir de volta para o Castelo então? — pergunto.

— Eventualmente, sim — responde o Link que se apresentou como Tempo. — Mas antes vocês precisam do final da história.

— Enquanto a aventura de Céu desencadeou o ciclo de caos e destruição maligna praguejada por Demise, a minha teve… ramificações um pouco mais confusas.

“Durante minha missão, eu fiquei selado no Domínio Sagrado por 7 anos antes de poder reclamar a Master Sword. Tive sorte: a maioria dos que não estão preparados, ao tenter portá-la, morrem; eu apenas fui… colocado em modo de espera. Os detalhes da minha jornada não relevantes para o tópico em discussão, então pulemos para o final. Uma vez com tudo resolvido, a Zelda da minha encarnação, ao ver que eu havia perdido minha infância em troca de salvar Hyrule, se compadeceu e me mandou de volta para o tempo em que eu era uma criança, usando esta Ocarina.

“O problema foi que ao fazer isso ela criou várias ramificações na linha do tempo. Uma abrigando o cenário onde eu voltei a ser criança e preveni a destruição de Hyrule no passado. Outra, abrigando a situação onde eu salvei Hyrule no futuro mesmo. E o caos cósmico nesse momento foi tão grande que uma terceira linha do tempo surgiu como colateral, abrigando uma realidade paralela onde eu morri em batalha e não consegui evitar a queda de Hyrule.”

Encaro Tempo aturdida, pois isso não faz o menor sentido.

— Sim, não faz sentido — suspira. — Mas foi como aconteceu, então não vamos gastar energia discutirmos o quão plausível isso é.

— E… em qual dessas linhas do tempo estamos agora? — pergunto. Essa discussão está muito interessante e me distrai das preocupações que inundaram minha mente nos últimos dois meses, então me indulgencio na história que estão me contando.

— Em todas — responde Tempo, sucinto.

Ao ver minha expressão desnorteada, ele prossegue.

— Veja bem… as deusas são, primariamente, as responsáveis pela criação dos mundos. Mas uma outra função que elas tem é a de cuidar da linha do tempo dos ditos mundos. E, via de regra, tal linha costuma ser una. No entanto, como vocês devem ter percebido pelas memórias de Hylia, as deusas às vezes ficam entediadas com a redundância dos dramas mortais. Então uma linha do tempo tripla foi como um presente para elas. E, durante centenas de milhares de anos, elas se divertiram mantendo as três linhas paralelas. Até que isso, também, se tornou maçante.

— E o que aconteceu então? — pergunto, intrigada.

— Cansadas de manter as linhas separadas elas, simplesmente, resolveram unificá-las novamente. Dessa maneira, tudo o que aconteceu nas três linhas separadas passa a acontecer em um único passado — mesmo que algumas coisas deixem de fazer sentido. No processo de unificar as linhas, elas acabaram destruindo a Hyrule original também. Os habitantes da terra foram mantidos, mas a energia liberada por não existirem mais três linhas paralelas fez com que elas conseguissem, finalmente, introduzir uma nova raça mortal. Infelizmente, eles não permaneceram muito tempo ali; mas, durante o período em que estiveram ativos, conseguiram fazer coisas grandiosas. As deusas acabaram oferecendo a eles a opção de ir para outro plano, mais adequado com suas capacidades intelectuais. A maioria escolheu ir e os poucos que sobraram morreram após poucas gerações. A tribo em questão ficou conhecida como Zonai.

Fico surpresa e animada com a informação, e me sinto ansiosa para compartilhar esse dado novo com Purah e Tauro.

— Certo… tudo isso é muito interessante, mas qual o impacto disso para nós? — diz Link, perturbado.

— Quando as deusas fizeram o… vamos chamar de reset da linha do tempo, elas também mexeram na Triforce. Depois de tantas Eras com mortais brigando por conta desta relíquia, elas decidiram que seria melhor remová-la da terra e mantê-la fora do alcance de todos. Hoje, apenas as Zeldas conseguem utilizá-la; a partir deste momento, quando manipulam o poder de Hylia, elas também passaram a canalizar a Triforce — amplificando ainda mais suas capacidades. Você deve ter percebido, Zelda, que o símbolo dela brilha em sua mão sempre que você usa o poder de Hylia com toda a intensidade.

Balanço a cabeça, compreendendo.

— O intuito original da Triforce era ser um símbolo de esperança para os mortais. Algo que eles pudessem usar por si mesmos, sem depender de seres divinos, para resolver seus problemas. Ao removê-la da terra, as deusas criaram outros artefatos para cumprir o mesmo papel. Dessa vez, ao invés de uma única peça de poder imensurável, elas optaram por criar pequenas relíquias que amplificariam as habilidades natas de seu portador. Elas deixaram os Zonai responsáveis por cuidar de tais relíquias.

“Nós não conseguimos visualizar tudo o que acontece na terra. Mas temos motivo para supor que a última encarnação de Demise, de alguma forma, conseguiu por as mãos em uma destas relíquias. Acreditamos que isso fez com que ele conseguisse canalizar o poder de Demise quase em sua plena capacidade. Nossa teoria é a de que se vocês conseguirem liberar a energia restante deste demônio de dentro da Master Sword, este homem conseguirá terminar de absorvê-la, voltando a ser, efetivamente, Demise — mas dessa vez preso em um corpo mortal e debilitado. Temos muita confiança de que destruí-lo irá terminar de uma ver por todas com a maldição.”

O que eles dizem faz muito sentido e, pela primeira vez em muito tempo, eu me permito sentir esperança. Me animo com a ideia de finalmente quebrar este ciclo e, finalmente, libertar a alma do homem desconhecido.

Desde que recuperamos a última memória eu tenho sido atormentada pela culpa. Tenho consciência de que as decisões de Hylia não são minhas; mas, ao mesmo tempo, sinto como se fossem. A ideia de ter aprisionado a alma de uma pessoa em um ciclo eterno de sofrimento apenas pela chance de um dia encontrá-lo novamente… me parece profundamente egoísta.

E tudo isso também fez com que eu me questionasse sobre os sentimentos de Link. Ele realmente está comigo por vontade própria ou é simplesmente o efeito de uma conexão doentia forjada à éons, onde ele não tem escolha fora estar comigo? Toda vez que olho para ele sou esmagada pela culpa, como se eu estivesse impondo um destino a ele que ele nunca pediu.

— Se quebrarmos o ciclo… o que acontece conosco? O Espírito do Herói e Hylia e isso tudo? — pergunto.

— Não sabemos, Zelda. Talvez, então, esta seria a última encarnação dele e a última vez que Hylia se manifestaria em uma mortal. Mas são suposições, é impossível saber — diz Tempo.

Não fico completamente satisfeita com sua resposta, mas ainda é suficiente. Olho para Link e vejo que ele está o rosto franzido, como se não estivesse feliz com o que ouviu.

— Essas deusas… a sensação que eu tenho é que isso tudo é apenas um grande jogo para elas — reclama, irritado.

— De certa maneira… é — responde Tempo, simplesmente, e se cala em seguida.

— Bom, é só tudo isso. Mudando de assunto agora — diz Céu, se levantando. — Se me permitem, na minha humilde opinião, vocês são o melhor par Zelda e Link desde… bem, desde eu e a minha Zelda — ri. Tempo apenas dá de ombros, como se concordasse. — Mas estou sentindo que tem algum problema acontecendo e acho que sei exatamente o que é — e olha para mim enquanto fala isso.

Encaro ele de volta, confusa, enquanto Tempo também se levanta.

— Selvagem — diz Céu. — Você pode nos dar um minuto? Vamos roubar a Zelda rapidinho. Considere isso como um favor de família, por gentileza.

E, antes que ele possa dizer ou fazer qualquer coisa, Céu e Tempo seguram em minhas mãos e eu vejo que nós três brilhamos em dourado antes de desaparecer. No momento seguinte, vejo que estou em um lugar completamente branco e amplo, como a sala que Link descreveu ter visitado quando estava no Templo do Sonho.

— Como…? — pergunto, atordoada.

— Ele precisou estar no leito do Templo do Sonho porque é um hylian normal. Você tem sangue de Hylia; não precisa dessas formalidades para entrar em nossa dimensão, apenas do nosso convite — explica Céu.

— O que estou fazendo aqui? — pergunto, ficando gradualmente mais irritada com a ousadia deles de me sequestrarem. — Me levem de volta já! — exijo.

— Calma, Zelda, a gente só quer conversar — apazigua Tempo, sucinto.

— A gente percebeu que você ficou estranhamente distante depois de aprender a história completa de Hylia na última fonte — diz Céu. — A gente tem acesso às memórias e pensamentos do seu Link, esqueceu?

Me sinto enrusbecer ao pensar em quais outros tipos de memória eles podem ter conseguido acessar também. Eles percebem minha timidez mas não dizem nada, respeitosos.

— Entendi imediatamente sua preocupação pois foi algo que minha Zelda também sentiu — explica Céu. — Ela foi a única outra Zelda fora você que chegou a resgatar as memórias de Hylia. Assim como você, depois que tudo se acalmou e nós tivemos a oportunidade de conversar sobre nosso relacionamento, ela ficou preocupada de que estar com ela fosse uma imposição.

Passo a mão no pescoço, sentindo um aperto no coração.

— Sim… Não quero que ele esteja comigo somente porque o destino exige dessa maneira. Não me parece correto — confesso.

Céu me oferece um sorriso empático.

— Por isso te trouxemos aqui — começa. — Para a minha Zelda foi mais difícil acreditar em mim quando eu dizia que eu, Link, a escolhi por livre e espontânea vontade; então precisei provar isso para ela todos os dias até morrermos velhinhos um ao lado do outro — diz, e sua voz se embarga com a saudade. — Mas você tem a vantagem de que muitas iterações de Link e Zelda já passaram por essa terra. Venha, vamos te apresentar as lembranças.

Tempo se aproxima de mim e me oferece sua mão. No mesmo instante começo a receber vários flashs de sua vida enquanto mortal; de quando ele conheceu sua Zelda ainda criança, de como ela se tornou uma guerreira disfarçada conhecida por Sheik, de como eles derrotaram a ameaça de sua época. Nunca houve romance entre eles, apenas devoção e um carinho fraternal. Este Link era apaixonado por sua amiga de infância, Saria.

Outro Link surge na sala e repete o gesto. Ao tocá-lo, vejo que sua aventura foi em alto mar e que a Zelda de sua encarnação era uma pirata. No seu caso, houve interesse romântico por parte dele, mas as prioridades de ambos não se alinharam e seus caminhos se separaram após o final da aventura.

Um a um, vários Links surgem na sala, todos me oferecendo suas memórias. Assisto a dezenas de iterações de Links e Zeldas, e cada uma das relações é única. Às vezes, eles se apaixonam e ficam juntos pelo restante de suas vidas. Em outras encarnações eles apenas se toleram e a única coisa que os une é a dedicação do Espírito do Herói em auxiliar Hylia a aniquilar seja qual for o mal que ameaça Hyrule daquela vez. Por vezes, eles até sentem interesse um no outro, mas as situações não convergem para que eles fiquem juntos romanticamente.

— Percebe, Zelda? — pergunta Céu, quando termino de presenciar inúmeras memórias. — A conexão entre Hylia e o Espírito do Herói apenas faz com que as forças do acaso conspirem em aproximar as Zeldas e os Links. Mas sua relação não está predestinada; tanto você quanto ele ainda possuem livre-arbítrio. São vocês que escolhem ficar juntos.

Ao ouvir essas palavras, um alívio imenso me inunda. Link voltou para mim porque ele quis, não porque foi obrigado. Ele me escolheu, não foi forçado a estar ao meu lado. Meu coração se aperta ao pensar em como fui fria com ele nos últimos meses e uma ansiedade para retornar logo e pedir desculpas me invade.

— Acho que ela está pronta, Tempo — diz Céu, satisfeito. Ambos me estendem as mãos. — Bora lá, cunhadinha — diz, brincando.

No instante seguinte estou de volta, sozinha, na base da estátua de Hylia. Link está andando de um lado para o outro, consternado, com as mãos na cabeça. Ao perceber que eu estou de volta ele corre e me toma em seus braços.

— Achei que aqueles malditos não iriam te devolver mais — reclama, aterrorizado. — Sei que não tenho motivos para não confiar neles, mas… ELES TE SEQUESTRARAM!

Gargalho ao ver sua preocupação, e sinto que o riso termina de limpar todos os medos que tinham me possuído. Meu coração dói ao ver a alegria dele em me ouvir rir, e me sinto mal por tê-lo feito sofrer nos últimos meses.

— Me desculpe, Link. Eu… estava com algumas preocupações. Mas já passou. Obrigada por aguardar meu tempo.

Link abre um sorriso feliz. Mas, na sequência ele faz uma expressão preocupada, dá um passo para trás e passa as mãos no cabelo, como faz quando quer se acalmar.

— Zelda, eu… — começa, desconcertado. — Eu estive pensando no que os Links nos contaram… sobre a quebra do ciclo de destruição e tudo o mais. E como isso talvez signifique que não haverão outros Links e Zeldas e… bem… existe uma probabilidade de que nós sejamos a última iteração. Então eu… — tenta prosseguir, mas se interrompe.

— Você…? — incentivo, curiosa para saber aonde ele está indo com essa história.

— Eu não quero desperdiçar essa oportunidade… pois pode não haver outra. Eu te amo, Zelda. E, se essa for nossa última vida juntos… eu quero estar com você até meu último dia aqui — diz, e se ajoelha. Atônita, assisto ele pegar uma pequena caixinha de um de seus bolsos, abri-la e estender para mim. Dentro há um anel dourado, e as pedras em cima são azuis e brancas simbolizando minha flor preferida, a Princesa Silenciosa.

O tempo parece se suspender por alguns instantes enquanto ele reune coragem para fazer a pergunta, e eu aguardo ansiosamente para ouvi-la.

— Você aceita se casar comigo?