A coragem de encontrar-me
24 Capítulo 23: Eu não tenho um dia de paz
Notas iniciais
— Então é isso, Purah — finalizo, exasperado.
— Caramba, Linky. E já faz quanto tempo isso mesmo? Uns dois meses?
— 63 dias, isso. Desde que voltamos da última fonte.
Quando terminamos de receber as memórias de Hylia, eu estava fascinado. O sacrifício do homem sem nome, o amor dela por ele e sua recusa em deixar que o destino os separasse. Tudo o que ela fez apenas para que eles tivessem a chance de se encontrar em outra vida… a história me comoveu imensamente. No entanto, apesar de entender que isso faz parte da minha própria história, do meu passado, tudo me parece muito etéreo e distante — como se eu assistisse à uma peça trágica de personagens desconhecidos.
Curioso para saber o desfecho da situação e como tudo isso se amarraria aos nossos problemas atuais, sugeri à Zelda que partíssemos para Hebra o mais cedo o possível. É uma viagem longa, de uma semana a cavalo, e eu estava com urgência para terminar a jornada.
Ela, no entanto… não parecia muito ansiosa em prosseguir. Assim que nossa conexão com Hylia foi encerrada, eu estava em êxtase. Zelda, por outro lado, estava o oposto. Seu rosto estava vazio, e ela parecia estar em outro mundo.
— Vamos monitorar a situação e ver o que acontece a partir de agora, se aparecem mais luas de sangue. Dependendo da gravidade, partimos logo para Hebra — disse, apenas.
Desde que voltamos dessa missão, ela se manteve estranhamente fria e distante comigo. Não consigo entender o que houve, e, quando pergunto sobre, ela apenas muda de assunto dizendo que está apenas com a cabeça cheia por conta dos problemas iminentes. Mas eu não consigo largar a sensação de que o problema sou eu — apesar de não ter ideia do que eu posso ter feito para causar essa reação.
Depois de mais de dois meses sem que o clima entre nós mudasse, desesperado, recorri à Purah em busca de aconselhamento. Talvez ela conseguisse entender o que está se passando na cabeça de Zelda, já que ela não se comunica comigo.
— Eu tenho uma teoria do que pode ter acontecido, Linky. Mas não sei se cabe a mim falar com você sobre isso, acho que deve partir de Zelda. Vamos esperar um pouco, talvez ela esteja processando as informações ainda — observa Purah, diplomática. — Dê tempo a ela, tenho certeza de que ela vai se abrir. Afinal, ela mesma não esperou por muitos anos até que você conseguisse fazer o mesmo?
Aquiesço, aborrecido. Se eu soubesse que era tão desagradável assim ficar no escuro, teria começado a falar muito antes. A sensação de impotência era avassaladora.
— E sobre a missão, vocês não vão prosseguir? Eu sei que não aconteceram outras luas de sangue, e que, apesar de ela ter sido terrível de se olhar e mau-agourenta, pouquíssimos monstros foram conjurados naquela noite — continua. — Entendo que não é o momento ideal, dado o estado emocional de Zelda, mas todos estamos preocupados. Aquela fumaça tóxica começou a escapar por toda Hyrule agora, apesar de a maior parte estar concentrada no Castelo. Precisamos terminar de investigar o que está acontecendo.
Balanço a cabeça, cansado. É muita coisa para lidar, e eu estou completamente exausto. Com Zelda distante, parece que a maior parte do meu cérebro se ocupa em tentar entender o que houve entre nós, e não sobra energia para eu focar em mais nada. Mas sei que Purah tem razão e nossos deveres com o povo de Hyrule são mais importantes do que os problemas de nosso relacionamento.
Nesse momento, Zelda entra no laboratório, então Purah e eu ficamos em silêncio.
— Boa tarde, pessoal — diz Zelda. — Sobre o que vocês estavam falando?
— A fumaça tóxica, Zel — digo. — Purah reportou que várias pessoas entraram em contato com ela em diferentes pontos do reino. Parece que ela está escapando a partir de frestas no chão também agora. A boa notícia é que ela parece ser menos concentrada do que a que matou aquele voluntário um tempo atrás, mas ainda assim ela é nociva. Os que entram em contato estão perdendo a vitalidade e ficando acamados. Precisamos fazer algo.
Zelda acena relutante e enxergo em seus olhos que ela está tão estafada quanto eu. Mas sinto que estamos na reta final dessa jornada, então a encorajo.
— Vamos até o Templo Perdido, conforme Hylia instruiu. Acho que estamos no finalzinho, Zel. Vai dar tudo certo — insisto. — Podemos parar na aldeia dos Rito… sei como você gosta de lá. É uma pena que Kass partiu em uma missão de novo, senão poderíamos ouvi-lo executar a canções ancestrais.
Sentindo que não tem outra escolha, devido à sua responsabilidade com Hyrule, Zelda concorda, resignada.
— Ok — diz, sem emoção. — Partimos amanhã.
— — -
Atravessamos o Templo Perdido em silêncio. Ele costumava ser infestado de guardiões ativos, mas, agora, mesmo os que ficavam aqui foram removidos.
A quietude durante a viagem de uma semana me lembrou de quando percorríamos Hyrule em diferentes missões na época pré-Calamidade — mas não de um jeito bom. Recordei de quando Zelda costumava ser fria e distante comigo, no período em que eu fora recém-nomeado como seu guarda-costas. Nem mesmo a parada no vilarejo Rito a animou.
A preocupação toma conta de mim, mas não sei o que fazer. Então apenas continuamos caminhando em frente.
Chegamos aos pés da gigantesca estátua de Hylia que fica no final do Templo. Ela é extremamente similar à que vimos na última memória da deusa, e me pergunto se, de repente, não seria a mesma construção — uma vez que ela aparenta ser muito antiga.
— Ok, chegamos — diz Zelda. — E agora, o que devemos fazer? Você recebeu mais alguma instrução? — pergunta, desanimada.
— Não, apenas o que ouvimos de Hylia. Não sei o que… — começo, mas sou interrompido pelo som de dois pares de passos. Instintivamente me coloco na frente de Zelda e empunho a espada que estou carregando.
— Ei, calma, cara. Não precisa se estressar também — diz uma voz familiar.
— E tem certeza de que quer lutar contra nós? A gente tem tanto talento quanto você e milênios a mais de experiência — completa outra voz.
Em poucos segundos, vejo dois dos outros Links saindo de trás da estátua. Reconheço-os como os heróis do Tempo, que está sério — como sempre — e do Céu, que está rindo, divertindo-se imensamente com a situação. Aliviado, guardo a espada e relaxo. Checo Zelda e noto que ela está de olhos arregalados, encarando os Links incrédula.
— Parabéns, parece que vocês recuperaram as memórias — comemora Céu, feliz. — Finalmente, hein. Achei que fossem desistir depois daquela longa pausa, quando as coisas ficaram tão mais… interessantes para vocês — completa, sugestivo, e em seguida gargalha. Tempo não parece tão impressionado.
— Minha Ocarina, por favor? — pede, sem rodeios.
Imediatamente, pego o instrumento de dentro da minha bolsa e entrego para ele.
— Como vocês estão aqui, materializados? — pergunto, curioso. — Renasceram?
— Ha, não, e ainda bem que não. Tinha esquecido de como esse corpo mortal é tão dolorido. Se eu fico muito tempo em pé, meus pés doem. Se fico muito sentado, são as costas. Ser um espírito é muito mais fácil, por Hylia — brinca Céu. — Falando em Hylia… oi Zelda! Fico feliz em finalmente te conhecer. Eu sou Céu, o primeiro Link a encarnar o Espírito do Herói. E este é Tempo, o Link que causou o caos na linha do tempo, junto com a Zelda de sua encarnação.
— Caos na linha do tempo? — pergunta Zelda, confusa.
— Nós vamos chegar lá — diz Tempo. — Mas as primeiras coisas, primeiro. Selvagem — diz, se virando para mim. Pela primeira vez desde a última fonte, vejo um sorriso brincar nos lábios de Zelda ao ouvir o apelido que os Links deram para mim. — Respondendo à sua pergunta, nós estamos aqui apenas para finalizar a história para vocês. As deusas nos concederam a oportunidade de viajar até esta terra para encontrá-los, mas não podemos nos afastar muito da estátua de Hylia; e também não temos muito tempo. Então seremos breves — bem, tanto quanto possível: apesar de ser o final da história, são muitas informações. Então, se quiserem se sentar… — convida, indicando o chão.
Nós quatro nos sentamos e Céu começa a falar.
— Bom, acredito que seja melhor começar por mim. Como eu já disse, eu sou o primeiro Link. Depois que Demise foi selado e Hylia abdicou de sua forma divina, as deusas monitoraram todos os moradores de Skyloft por anos, enquanto Hylia permanecia suspensa em hibernação. Depois de… — o quê, 2 ou 3 milênios? Não sabemos a data exata, mas algo em torno disso. Após esse período eu nasci, e as deusas identificaram que eu tinha o Espírito Inquebrável necessário para encarnar o Espírito do Herói. Então elas criaram a primeira Zelda a partir da energia de Hylia. Ela foi deixada na soleira do antigo diretor da academia de soldados onde eu estudei, o Mestre Gaepora. Ninguém na época falava sobre isso, mas ela foi adotada por ele.
“Nossos primeiros anos de vida foram completamente normais. Desde que nos entendemos por gente, criamos um vínculo tão intenso que as pessoas ao redor estranhavam. Ficávamos o tempo todo perto um do outro: passeávamos em nossos pássaros gigantes — presentes deixados por Hylia para que os moradores de Skyloft pudessem se locomover entre as ilhas flutuantes — juntos, estudávamos juntos, enfim. Na adolescência, inevitavelmente, desenvolvemos um interesse romântico um pelo outro. Foi nessa época, logo após eu me formar como soldado na Academia, que ela acabou sendo levada de volta para a terra abaixo de nós.
“Na madrugada após este incidente, fui visitado por Fi a primeira vez, apesar de não saber quem — ou o quê — ela era. Ela me levou até à câmara onde Hylia escondeu, tantos anos atrás, a arma que conhecíamos na época como Espada da Deusa. No momento em que eu encostei nela a primeira vez, o Espírito do Herói se fundiu ao meu. É por isso que dizem que é a Espada quem seleciona seu portador, e não o contrário. Se eu não tivesse o Espírito Inquebrável e a vitalidade necessária, teria morrido ao tentar retirá-la de seu pedestal. E, antes que me pergunte, não, nem todos os jovens que carregaram o Espírito do Herói portaram a Master Sword. Não sabemos o porquê, mas às vezes ele escolhe se fundir a algum jovem de Espírito Inquebrável de forma autônoma — mas são exceções e não a regra.
“Enfim. A espada que eu reivindiquei naquele dia ainda era uma versão primal da Master Sword. Durante minha jornada à procura de Zelda nesta terra desconhecida, fui eu quem a temperou nas chamas sagradas de Din, Farore e Nayru, até ela assumir sua forma final como vocês a conhecem hoje. Ao adquirir as qualidades de Coragem, Poder e Sabedoria, consegui também resgatar a Triforce de dentro do Domínio Sagrado e desejei pela destruição de Demise. Enfim reunido com Zelda, comemoramos a aniquilação deste mal. Mas nossa alegria durou pouco.
“Assim como Fi reside na Master Sword, a espada de Demise também era senciente e abrigava um espírito guardião: Ghirahim. Ao ver que tínhamos destruído seu mestre, ele sequestrou Zelda e à levou de volta ao passado para a época pouco tempo depois da batalha ente Hylia e Demise. Usando um ritual sinistro, Ghirahim conseguiu extrair energia suficiente da minha Zelda para reviver Demise.”
Zelda e eu ficamos boquiabertos, em choque por aquele demônio ter ficado selado por tão pouco tempo.
— E onde ele está agora? — pergunta Zelda, aflita. Céu hesita um pouco de continuar.
— Bom… eu também retornei para o passado e batalhei contra ele. Consegui desferir um golpe fatal nele com a Master Sword… mas as coisas não se desenrolaram exatamente como Hylia previra. Ao invés de perder sua consciência e voltar a representar a entropia natural dos mundos, o que restou de Demise foi absorvido pela espada. E, como se não bastasse, antes de ser capturado pela lâmina, ele lançou uma praga em nós.
Todos ficamos em silêncio por alguns segundos. Zelda e eu trocamos um olhar, começando a compreender a situação.
— E… essa praga é o “problema antigo” que vocês me alertaram? — pergunto.
— Sim — confirma Céu. — A praga de Demise consistia em garantir que um ciclo de caos e destruição sempre seria repetido ao longo das Eras. Assim como Hylia, ao perder sua consciência enquanto ser imortal, ele renasceu em forma de humano. E sempre que ele retorna, nós também retornamos; a tríade é composta por ele, um jovem que encarna o Espírito do Herói e uma Zelda que conseguirá acessar plenamente os poderes de Hylia. Ao longo de centenas de milhares de anos esse padrão se repetiu vez atrás de vez.
— E vocês esperam que nós iremos conseguir quebrar este ciclo como? — pergunto, exasperado. — Este homem sequer está vivo hoje?
— Nós acreditamos que sim. Já se passaram muitos milênios desde que um homem nasceu entre as Gerudo; antes ele costumava renascer na tribo a cada 100 anos, e se tornava líder dela. A falta de nascimentos do sexo masculino entre elas é um indício para nós de que ele não foi completamente destruído da última vez.
Meu corpo fica gelado e, ao olhar para Zelda, percebo que ela também conseguiu fazer a conexão.
— Este homem… é o ele que fomos alertados que iria retornar? — pergunta, cautelosa.
— Acreditamos que sim. Mas também temos razão para acreditar que ele está debilitado, então não deve ser difícil finalizá-lo.
— Me parece simples o suficiente — digo.
Céu hesita um pouco.
— Bem… nem tanto — diz, em tom de desculpas. — Se lembra que eu disse que parte da energia de Demise foi selada dentro da Master Sword?
Franzo a testa ao me recordar deste detalhe.
— Acreditamos que vocês precisarão, primeiro, encontrar uma maneira de deixá-la escapar de lá.
— E como podemos fazer isso?
— Essa parte a gente não faz ideia. Mas acho que vocês conseguirão descobrir.
Que ótimo, penso, irritado.
— Não seja sarcástico — me repreende Tempo.
— Ei, saiam da minha cabeça — reclamo, contrariado. — E onde está esse homem, vocês sabem?
Os Links trocam um olhar antes de Céu responder:
— Embaixo do Castelo de Hyrule. Quando ele não está consciente em sua forma humana, ele assume a forma de uma monstruosidade… Vocês já o conheceram como Ganon.
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