Ele poderia ser qualquer coisa...
Com sua energia, ele poderia ter escolhido ser um músico ou um humorista... E não é como se ele fosse ruim em seguir instruções ou se esforçar, então ele poderia ser um cozinheiro ou um mensageiro... E, se gosta tanto de lutar, não teria problema nenhum em ser um guarda. Frequentemente, eles não precisam muito mais que algum taijutsu básico...

Mas, ao contrário do que seria o esperado, ao contrário do que seria tolerado, ele se negou a aceitar as fraquezas impostas em seu corpo desde seu nascimento e escolheu, insistiu e agarrou-se a uma vontade desmedida de ser um shinobi. Por esse sonho insensato, ele enfrenta o destino, esse gigante implacável, como se sua existência dependesse disso, escondendo as lágrimas estagnadas sob um sorriso, escondendo as mãos calejadas sob um polegar que insiste em se apontar para o céu.

E não apenas isso.
Frequentemente me pego pensando se aquele sob o título de "bela besta verde de Konoha" luta contra o destino em prol do seu sonho ou se sonha apenas para lutar contra seu destino...
Não duvido de que seu sonho tenha se idealizado no momento em que tomou consciência de que nunca poderia realizá-lo... Como se sua existência se afirmasse sobre a minha com o único objetivo de reduzi-la ao ridículo.
Afinal, como o gênio da segunda família dos Hyuuga pode se curvar em frente a seu destino quando um fracassado, sem qualquer nobreza, herança de técnicas ou mesmo qualquer concepção básica da arte do ninjutsu, encara essa luta sem qualquer medo?

E é exatamente esse o motivo que me impulsiona a continuar vencendo. É por isso que preciso continuar humilhando-o e mostrando a força de uma linhagem de chakra... A força do seu inimigo, o destino, que corre nas veias de seus oponentes.
Não para minimizar a vergonha de minha própria covardia, mas porque eu preciso continuar negando... Porque preciso que aquele teimoso continue acreditando... Porque preciso daquele polegar voltado pro céu e daquele sorriso largo para, quem sabe um dia, me fazer acreditar também.

—"Eu te falei. É isso que acontece quando você tenta desafiar o destino. Sem qualquer misericórdia, ele vem e esmaga o seu sonho. Você teve sorte que foram apenas uma perna e um braço." — Encobri o coração disparado sob a voz tão ríspida quanto consegui torná-la e cenas do titio ativando o Selo na testa do papai vieram à minha mente... Tão vívidas quanto as que se seguiram dela... Papai no caixão, sem vida, sem o tão odiado Selo, morto pelos segundos que distanciavam seu nascimento do de seu irmão.

Meus olhos deitaram-se sobre Lee e eu o vi arregalar os seus por um instante... E, então, voltá-los para baixo, evitando os meus. As olheiras fundas assentavam-se na base deles, denunciando o vazio de lágrimas. Olhos que costumavam transbordar emoção ao som de qualquer frase clichê barata, agora, estavam secos de chorar sua própria desgraça.

Mas, não era isso que eu precisava... Agora, eu precisava que Lee se mantesse firme, gritasse e negasse a verdade que eu havia lhe imposto, precisava que ele olhasse pra mim, se levantasse sobre a única perna que lhe restava, agarrasse meu colarinho e enfiasse sua falsa verdade goela abaixo sob gritos eufóricos. Eu, mais do que nunca, precisava que ele me desafiasse a continuar vivendo... pra um dia vê-lo se tornar um Grande Ninja... Ou, ao menos, para vê-lo continuar sendo um.

Por alguns minutos, fiz-me estático, esperando... Numa esperança pessimista de que houvesse qualquer sinal de dúvida em suas feições murchas... Mas não havia nada. Rock Lee estava morto como ninja e eu havia pisado seu cadáver e cuspido a realidade imunda desse mundo odioso no que restara de sua esperança.

Baixei meu semblante também, em respeito ao funeral de seu espirito, que, então, percebia. E deixei o quarto, repensando minhas verdades, ponderando se realmente papai não estaria certo desde o início. Procurando qualquer pista de que eu não era apenas uma ferramenta descartável para os que decendiam do primogênito.

E, por mais que eu houvesse me dado por satisfeito anos atrás, por mais que eu tivesse aceito minha própria insignificância, naquela noite, havia sido impossível qualquer instante de sono, não importava o cansaço acarretado pelo Exame Chunnin.
Naquela noite, decidi que... Não, sequer foi uma decisão. Eu só havia sido incapaz de, tendo convivido tanto tempo com aquele traje verde, abandonar a esperança por trás do significado de tudo aquilo.

Levantei-me, então, disposto a proporcionar uma nova chance à minha silenciosa luta interna, tão secreta, mas nunca solitária. Decidi que lembraria Rock Lee de quem ele era, que revelaria sua responsabilidade sobre meu futuro, humilhando meu próprio ego e espremendo minha existência a um objeto por ele moldável.

Foi então que, chegando a seu quarto, deparei-me com o cômodo vazio. A garganta ressequida fez-me deglutir a saliva em vão, enquanto buscava por qualquer indício de sua presença na integridade do meu campo de visão.
Até que uma voz um tanto rouca, mas tão vívida como sempre, em meio a uma contagem espaçada por repetições de algum exercício monótono, interrompia minha busca, tornando minha preocupação uma tolice, aquecendo levemente a rigidez do meu coração... e lembrando a mim quem era Rock Lee.

Com o inevitável sorriso q me tomou os lábios, pousei a mão sobre a mesa ao meu lado, deitando a pequena passiflora q havia trazido em meio às dezenas que jaziam ali, todas de um certo sensei. E deixei a sala.
Dessa vez, com o espírito leve. Ainda havia esperança, papai, para mim, para Rock Lee... e para o nosso sonho. E essa esperança era muito mais forte do que o garoto de Suna, do que a medicina de Konoha e mesmo do que a realidade obscura, que esmagava nossa garganta, sufocando e nos impedindo até mesmo de gritar... Nossa esperança era um ninja fracassado, de sobrancelhas enormes e roupa de sentai, que adorava gritar as frases de efeito que copiava de seu sensei...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.