A conspiração
1 .................. A fuga.
O Superintendente desliga o telefone visivelmente preocupado. Esse não é um caso qualquer, a morte de dois agentes em uma missão tão fácil quanto a escolta de uma prisioneira faz levantar uma série de suposições e questões de ordem de segurança. Quem teria conhecimento do andamento de operações secretamente planejadas? A partir daí aparece apenas uma resposta: um infiltrado. Não há dúvida, que a melhor maneira é colocar a organização em alerta. O homem examina atentamente a pasta com uma tarja vermelha impressa: “NÍVEL 5”. O nível 5 de um agente é considerado o máximo, com total aproveitamento nas missões que participou.
— Agente especial Zina,...hum, perfeita para o trabalho! — Um contato telefônico e ele determina que a agente compareça a sua sala.
Em uma situação normal ele não se envolveria com o caso, para isso existem pessoas encarregadas, mas dadas as circunstâncias, isso exigia seu acompanhamento pessoal. Um agente duplo dentro da Guarda era motivo mais que suficiente para por toda estrutura de sigilo e segurança da organização por terra.
A agente se apresenta e sem rodeios o Superintendente expõe a situação e as suspeitas de envolvimento de membros da organização na fuga de Najara.
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Marcus é Diretor-geral de informática numa agência de espionagem de âmbito mundial, sob seu comando estão os melhores técnicos e analistas do mundo informatizado. Sua principal função é recolher e analisar informações obtidas em tempo real que possam fornecer informações para uma missão. O grau de confidencialidade varia conforme a missão, mas se enquadra sempre num dos cinco níveis, sendo que apenas o quinto é exclusivo do Superintendente-geral da Guarda.
Onde você se meteu? Vamos lá, só um sinalzinho!— Marcus pensa.
Dos dois telefones que se encontram sobre sua mesa um deles toca, Marcus hesita em atender.
— Merda! — Olha o aparelho que insiste em tocar. Uma das piores coisas que pode ocorrer a qualquer serviço de inteligência espalhados pelo mundo é não ter informações. Seu antecessor sempre dizia: — Quando o telefone tocar convém que se tenha tudo que eles querem ouvir, caso contrário, é bom ter uma imaginação muito fértil.
Nessa situação concreta a imaginação não será útil, não se pode dizer que se encontrou uma pessoa sem provar tê-la encontrado. Por fim ele atende, um rápido cumprimento frio e a voz do outro lado pergunta: — Alguma notícia?
A conversa desenrola-se com Marcus tentando desculpar a falta de informação sobre o alvo.
— Ela apareceu. Movimento de cartão de crédito num terminal bancário na Estação Central. — Avisa um técnico à porta do gabinete.
— Avise o pessoal! — Ordena o diretor.
— Já avisei, estão indo para lá nesse exato momento. — Responde o homem.
Marcus informa ao Superintendente, recebe algumas instruções e desliga.
— O chefão quer trabalhar com a agente especial. Vamos ficar na retaguarda. — Marcus determina ao agente.
— O quê? — O agente parece surpreso, mas o olhar fulminante do diretor é resposta suficiente.
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Ela sabe que o uso do cartão deve ter disparado algum alarme na central da Guarda. Um cartão de crédito com a senha displicentemente guardada junto aos documentos do agente morto veio bem a calhar.
Para quem quer fugir a Estação Central é a opção mais acertada. A compra de um Day Travelcard permite que Najara use um transporte rápido que lhe dá direito a entrar e sair em qualquer estação, portanto o número de alternativas para fugas é muito maior. Sem dúvida eles saberão seu ponto de partida e continuarão rastreando cada passo seu.
Ela introduz o bilhete na roleta, desce a escada até a plataforma e aguarda o trem. A plataforma tem um pequeno grupo de jovens ouvindo música com fones de ouvidos ou mexendo nos celulares completamente alheios à realidade em volta e alguns homens de terno e gravata conversando discretamente.
Najara vê os faróis se aproximando, um zunido e um ranger de ferros se atritando indica que o trem já freava chegando à plataforma. As portas se abrem, deixando sair alguns passageiros. Najara entra e se acomoda, o vagão está quase vazio, talvez devido ao horário, já passa de uma e meia da madrugada.
A primeira vista parecem dois executivos vestidos com ternos pretos que acabaram de chegar na plataforma oposta, mas a atenção com que olham em todas as direções é que chama atenção de Najara. Olham constantemente uma foto para se certificar se alguém na estação corresponde ao retrato. Isso é motivo suficiente para que ela se afunde no banco do vagão.
O trem continua parado sem dar sinal de partida. Ela levanta ligeiramente a cabeça para olhar os dois homens, um deles coloca a mão no ouvido e fala indicando que está em contato com pessoas em outro lugar.
Apitos anunciam o fechamento das portas, o trem acelera, Najara suspira aliviada e logo que a composição entra no túnel ela se endireita no banco. Subitamente o trem começa a frear, até parar totalmente no meio do túnel. Ela olha assustada em todas as direções observando as pessoas nos outros vagões. O comboio arranca novamente com um solavanco, é então que ela vê o homem de pé no outro vagão e reconhece a tatuagem na mão dele quando o homem coloca o dedo indicador nos lábios, indicando que fique calada. Ele começa a andar na direção do vagão onde ela está, Najara corre abrindo e fechando as portas entre os vagões e seu perseguidor faz o mesmo. Os demais passageiros assistem aquela movimentação toda sem entender o que está acontecendo. Apenas uma mulher está atenta ao fato.
O trem diminui a velocidade, para na estação e abre as portas, Najara salta para a plataforma correndo a toda velocidade para a primeira saída que aparecer. O homem também pula para a plataforma e vê a mulher afastar-se, saca a arma e aponta com a perícia de um profissional. Um alvo fácil de acertar.
Os apitos anunciam a partida do trem. Najara é derrubada violentamente. Dois disparos são ouvidos quase simultaneamente. Um corpo cai pesadamente na plataforma ensanguentando o chão, causando pânico e correria entre os usuários. De arma em punho a mulher levanta-se rapidamente obrigando Najara a se levantar também.
Refeita do susto Najara olha surpresa para sua salvadora. — Você?
— Vamos embora daqui! — Diz a mulher rispidamente.
Elas não se importam com a mulher gorda que foi atingida na perna por uma bala perdida, ela que aguardasse o socorro que chegaria em breve. Agora a prioridade era saírem dali.
................... A fugitiva e o espião.
Elas aproveitam a situação de pânico e correm para a saída da estação. A mulher segura Najara firmemente pelo braço e se encaminham para um carro estacionado numa rua transversal à avenida principal. Najara tem os pulsos amarrados e é empurrada para dentro do carro, a mulher acomoda-se ao volante, partindo pela rua que dá acesso a ponte.
— O que está acontecendo? — A loira pergunta, mas não tem resposta.
A morena está carrancuda, era visível que a companhia de Najara não a agradava nem um pouco, mas ela era a chave para se descobrir quem era o espião que transitava pela Guarda. Ela seria caçada por duas organizações poderosas, era sua missão manter aquela mulher viva.
Najara percebe que não irá ouvir nenhuma palavra da agente, com um olhar intrigado, ela diz: — Que irônico..., na última vez que nos vimos você queria me matar e agora me salva de ser morta. — A sirene de um carro de polícia passa zunindo junto ao carro da agente. Zina olha pelo retrovisor e vê mais um veículos da polícia e uma ambulância na entrada da estação de onde acabaram de sair.
O carro para no sinal, uma loja de aparelhos eletrônicos mostra os mais variados tamanhos de TV, que exibem vários canais de entretenimento, mas o que chama mais atenção é a exibição do noticiário com as informações sobre o atentado no metrô: “Uma mulher ainda não identificada abriu fogo agora de madrugada na Estação Central do metrô. Temos notícia de uma mulher ferida e uma vítima fatal, um homem ainda não identificado”. — A apresentadora continua. — “A polícia iniciou as investigações, mas até o momento não tem pistas sobre a mulher”.
— É querida, você agora está em todos os noticiários do país. — Najara diz com tom sarcástico.
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Elas seguem até o prédio de setenta andares com acesso controlado da AGT — Software and System, que esconde sua verdadeira finalidade que é manter a base central de operações da Guarda. O carro estaciona na garagem quase vazia. As mulheres são recebidas por dois agentes que as levam diretamente para o elevador de uso restrito do Superintendente.
No último andar do prédio são conduzidas a sala no final do largo corredor. A sala tem uma decoração prática e moderna típica de um escritório executivo. O homem sentado numa confortável cadeira executiva, olha atentamente para as quatro pessoas que entram em sua sala.
Ele parabeniza a agente por ter recapturado a fugitiva e ordena aos agentes que a mulher seja mantida vigiada na ala restrita de segurança. Os agentes se retiram da sala escoltando Najara.
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Um agente de uma organização como a Dragão Verde infiltrado na Guarda era desastroso. Após uma demorada ducha quente para relaxar os músculos tensos, Zina sai do banho enrolada na toalha e senta-se na cama. Sua mente funciona incessantemente trabalhando as informações que o Superintendente lhe passou.
Existem muitos fatores a serem considerados: nomes, datas, a outra organização, assassinatos, vazamento de informações. Todo seu trabalho de investigação terá que ser feito sem levantar suspeitas, principalmente por que na lista de suspeitos tinha gente do alto escalão. Ela tinha sido liberada do protocolo para agir da maneira que achasse necessário.
Zina desliga a luz do quarto e deita-se. Tentando relaxar deixa escapar um suspiro com a lembranças de sua doce Gabrielle aninhada em seus braços após momentos de entrega em que seus corpos e almas mais uma vez se uniram. — Espero que ela não se meta em apuros.— Pensa. — Envolvida pela lembrança e saudade de sua amada que não via a quase dois meses, ela finalmente adormece.
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Zina entra na ala restrita de segurança trazendo autorização para levar a prisioneira ao serviço médico para os exames necessários. Após checar as credenciais e a autorização o agente abre a porta da cela. As mulheres saem, mas tomam o rumo da garagem do prédio, seguem para o carro. Zina segura firmemente o braço de Najara, abre a porta e quase a empurra para dentro do veículo, se acomoda ao volante e parte com o carro.
Seguem pela Sétima Avenida até chegarem à ponte e de lá tomam o rumo da estrada que tem um grande fluxo de veículos. Rompendo um silêncio de horas, a mulher pergunta: — Para onde estamos indo? — Nenhuma resposta.
A mulher insiste. — E agora o que você vai fazer? Ou melhor, “nós” vamos fazer?
Sem desviar o olhar da estrada, Zina responde friamente. — Agora? você vai desaparecer.
A mulher analisa as palavras tentando descobrir o que aquela frase realmente significava. — Me matar? Não era o caso se não ela já teria feito.— Pensa Najara. — Ela era valiosa para a Guarda, se não eles não teriam designado sua melhor agente para protegê-la.
Continuaram por mais algum tempo seguindo pela estrada, a noite já ia adiantada. Muitos quilômetros depois a rota é desviada para uma poeirenta estrada de terra, andam mais alguns quilômetros e param no portão de uma isolada casa de madeira totalmente apagada, com um grande galpão abandonado. Zina sinaliza com os faróis, passados alguns segundos uma fraca luz é acesa na varanda da casa. O carro entra lentamente e estaciona próximo ao galpão.
O que a princípio parecia um galpão abandonado, na realidade é um hangar com um container, caixotes, uma picape e tonéis de combustível. Um homem se aproxima, cumprimenta a agente e conduz as duas mulheres à picape. A partir daí seguem na direção de uma pequena cidade no sul do estado de Nova York.
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A agente pede que Marcus passe a rastrear todas as ligações da divisão de operações, celulares dos funcionários, agentes e inclusive do diretor. Alegando questões éticas e de segurança, ele se recusa atender ao pedido da agente. Sem maiores explicações Zina pega o telefone da linha especial e liga para o Superintendente, explicando rapidamente a situação, passa o fone para Marcus que fica visivelmente embaraçado.
Ele ouve em silêncio as ordens de seu superior direto: — Trate disso pessoalmente, não quero mais ninguém envolvido além de você, alguns agentes de sua confiança e ela, estamos entendidos? — Ordenou o Superintendente.
Marcus limita-se a responder um “Sim senhor”. — Ela tem carta branca. — Foi a frase com que o Superintendente encerrou a ligação.
Marcus se apressa em atender sua “chefe” temporária. Ele digita alguns códigos de acessos e desbloqueia alguns sistemas e programas com a experiência de quem conhece o assunto.
— Isso levará alguns minutos, afinal não é sempre que vigiamos nossos próprios funcionários. — Dá uma rápida olhada para a agente que continua encarando-o em silêncio. Logo que o sistema de rastreamento começa a funcionar, uma ligação chama atenção dos dois.
— E então? — A voz conhecida pergunta.
— Nosso agente foi morto no metrô, uma mulher fugiu com ela e desapareceu. — Responde o segundo homem.
— Desapareceu? Como desapareceu? Temos que encontrá-la. — Esbraveja a voz conhecida.
— Estamos fazendo o possível senhor, mas... — A frase é interrompida bruscamente.
— Não me interessa suas desculpas, tratem de encontrá-la! — A ligação é encerrada.
Simultaneamente Marcus acessa um programa e imediatamente aparecem na tela os números restritos dos aparelhos e suas localizações. Ele fica visivelmente surpreso.
Sem qualquer comentário, a agente anota os dados e se retira da sala, limitando-se a um “obrigada”.
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Thomas Febber aparenta sessenta e poucos anos e tem uma leve cicatriz na sobrancelha esquerda, conhecido como “Operações” está ao telefone. Percebe-se pelo tom de voz que está falando com um subalterno, seu cargo de Diretor lhe dá o poder de ordenar, controlar e supervisionar as operações, além do conforto de não ser mais necessário “por a mão na massa”, agora tem quem faça o trabalho por ele.
Cada vez mais a irritação vai crescendo dentro dele, com certeza seu fracasso terá repercussão. Desliga o telefone e recosta-se na cadeira clicando nervosamente a caneta.
Uma digitação rápida no telefone e um agente se apresenta no gabinete: — Senhor?
Durantes alguns instantes o diretor pensa. — Avise aos outros, o primeiro que ver o peixe o fisga.
— Certo Senhor. — Afirma o agente.
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Time Square, nesse famoso centro nova-iorquino onde a publicidade luminosa enche os olhos dos turistas com luzes ofuscantes, um homem caminha em meio à multidão que transita pela rua sem perceber que está sendo seguido há várias horas. Alguns metros depois de um cruzamento entre a Broadway e a Sétima Avenida, ele entra num restaurante e senta-se numa mesa reservada no final do recinto.
A agente pega o celular e faz uma ligação, momentos depois um carro preto para ao seu lado, ela entra, mas o veículo permanece estacionado. Agora a ação se resume a ser paciente.
Após alguns minutos a Central avisa de nova ligação interceptada. — Alguma novidade? — Diz a voz conhecida.
A resposta é negativa. O homem diz irritado. — Cambada de inúteis, incompetentes! Quero isso resolvido para ontem entenderam?!
— Senhor, estamos fazendo todo possível, mas ela está muito bem escondida, alguém a está protegendo. Não temos nada dela, nem um sinal. — A outra voz responde.
— Pois façam o impossível, eu quero aquela mulher morta. — A voz conhecida fala em tom ameaçador e desliga o celular.
...................O infiltrado.
Um grupo escolar excursiona pelo prédio comandado por um guia que explicava a história do lugar. Um antigo convento para frades franciscanos com uma pequena igreja que tinha uma torre com sino. A aura antiga do convento, as enormes e pesadas portas, os castiçais e as pinturas, instigavam a imaginação do grupo.
Zina deixa que o grupo se afaste até sair de vista e se dirige a porta de acesso às catacumbas do convento. Ela abre a porta de madeira e desce uma escada estreita em caracol que se estende vários metros abaixo, iluminada por fracas luzes nas paredes. O ar é pesado, cheira a mofo. Chega a um portão que pelo ranger das dobradiças mostra que é pouco usado. Um túnel escavado na pedra leva a uma porta de metal, a passagem de um cartão magnético por um dispositivo de leitura seguido pela digitação de um código destrava a porta de aço, dando passagem para um mundo futurista totalmente diferente do existente na superfície. Várias colunas de aço sustentam o peso da gigantesca estrutura acima de sua cabeça. Do teto pendem tubulações que renovam e refrigeram o ar ininterruptamente.
A porta se fecha automaticamente. Dezenas de pessoas transitam de um lado para outro alheias a sua presença. Um incessante digitar de dados nos inúmeros terminais faz aparecer informações e imagens mapeadas de vários lugares do mundo nos vários telões mostrando que ali funciona uma base de operações. Um homem magro de cabeleira grisalha, óculos e feições tensas comanda as simultâneas operações que se desenrolam naquela sala. Ele ordena a um subordinado que assuma as operações por alguns instantes e se encaminha para a mulher, se apresenta como Klaus Vance, Diretor de informática da célula Pensilvânia.
Zina vai direto ao motivo de sua ida ao local. O homem informa que a Central já o tinha avisado e as ordens é que ela teria total acesso às informações.
— Tem alguma novidade? — Pergunta a agente.
O homem a conduz para uma sala reservada. Klaus liga um terminal e imagens aparecem no telão e começa a explicação. — O Diretor Marcus nos informou que foi descoberto um programa espião nos sistemas da Guarda. Esse programa é basicamente uma “casca” criada para coletar informações em uma base de dados criptografada. A Guarda tem...
Zina interrompe bruscamente o homem. — Klaus, que tipo de informações?
— Certo..., — Klaus digita uma série de códigos e senhas, abrindo o sistema de monitoramento da Guarda. Em milésimos de segundos aparecem listados bilhões de códigos identificadores de todos os agentes da organização em todo mundo.
— Apesar de toda nossa segurança o programa implantado conseguiu acessar nosso imenso banco de dados que enviados numa sequência específica permitiu não só parar o relógio do sistema, como também controlá-lo, ou seja, executando os comandos certos se tem acesso ao servidor, a partir daí o programa deu acesso a todos os arquivos com as identidades dos agentes, as missões, as localizações das agências, planos e bases de operações da Guarda no mundo.
Depois de um silêncio Zina diz: — A fuga de Najara foi usada para desviar a atenção criando uma crise nas linhas da Guarda, somente uma pessoa com livre acesso e grande conhecimento em informática colocaria um programa tão bem escondido nos nossos sistemas. — Diz a agente e continua. — As informações chegaram a ser retransmitidas?
— Até onde sabemos não totalmente, o sistema de defesa da Central detectou a tempo um acesso de fora que foi bloqueado. — Klaus responde.
— Conseguiram identificar a origem do acesso? — Pergunta a agente.
— Ainda não, uma sofisticada rede de hackers burlou a identificação do IP que acessou o sistema, estamos tentando quebrar os acessos às bases, acredito que em meia hora devemos ter a rede totalmente segura novamente. — Klaus informa.
— Não creio que tenhamos esse tempo até eles começarem a agir. Localize as bases e os agentes mais próximos de nós e peça que nos mantenham informados sobre os movimentos dos agentes deles. — Diz Zina.
.................. Fabricando a notícia.
Thomas sai do carro acompanhado de Marcus e outro homem, aparentando trinta e poucos anos. Com certa dificuldade eles passam pelas pessoas que se aglomeram em torno do cordão de isolamento da polícia.
Chegando próximo a um dos policiais, ele manda que avise ao capitão que comanda a operação que o diretor e o negociador chegaram. O capitão ordena que os deixem passar.
— De quanto tempo vai precisar? — Pergunta o capitão ao negociador.
— Não sei. — Responde o homem.
Thomas e o capitão se afastam para uma conversa mais reservada. — Quantos homens temos lá dentro? — Pergunta o diretor.
— São dez policiais no total, sendo quatro dos nossos! — Responde o homem.
— E a bomba? — Thomas pergunta.
— Foi colocada no CPD. — O capitão responde.
— Ótimo, mande o negociador e o diretor entrar no prédio e passe essas informações para os repórteres. — Thomas entrega um papel ao capitão.
A tensão do lado de fora aumenta. Repórteres de vários jornais e de três redes de televisão já estavam na área cobrindo o caso. O capitão faz uma declaração para as mídias.
— Tudo que sabemos é que com estão com uma bomba e mantém alguns reféns. Eles tomaram o centro de informática, o resto do prédio já foi evacuado. Não sabemos se pertencem a algum grupo terrorista.
Os repórteres insistem em maiores informações, ao que o homem responde: — Até agora não fizeram nenhuma exigência, exceto a presença do Diretor-geral de informática Marcus Hosea e do negociador que já estão dentro do prédio.
As perguntas se sucedem, deixando o capitão desconfortável, quando são interrompidos por uma grande explosão, seguida pela fuga de várias pessoas de dentro do prédio. Uma densa fumaça negra sai pelas janelas do oitavo andar do edifício.
..................Uma má notícia.
Após passar algumas horas na estrada poeirenta Gabrielle chega à Amphípolis, a cidade mais próxima do sítio arqueológico onde trabalha nas escavações. Está quase dois meses isolada da civilização, escondida naquele recanto esquecido do mundo moderno, onde nem sequer existia sinal de celular. Nas raras idas à cidade, ela aproveita para usufruir dos confortos que a modernidade oferece, como uma cama confortável, um bom e relaxante banho de banheira, TV, boa comida e telefone.
Após instalar-se no quarto do hotel procura o telefone, mas suas tentativas de contato com Zina ficam frustradas. Vinte minutos depois, saindo do banho liga a TV no noticiário.
— “...no atentado de hoje pela manhã nas instalações da AGT foram confirmadas as mortes de Marcus Hosea, Diretor-geral de informática, Borias Csokas, o negociador...” — A tela passou a mostrar fotos das vítimas do suposto atentado terrorista e o trabalho dos bombeiros retirando os corpos do prédio. A repórter continua com mais informações.
—“... acredita-se que esta mulher estava envolvida no atentado...” — A foto de Zina aparece em destaque. Gabrielle abafa o grito de terror com as mãos, não acredita no que está vendo.
— Não pode ser, tem que haver algum engano! — Diz a si mesma.
Nesse momento o telefona toca, é da recepção avisando que seu marido acabara de chegar.
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O casal conversa no restaurante do hotel, nervosa a loira fala sobre o noticiário. — Autolycus eu preciso falar com ela, saber se está bem!
Autolycus responde: — Não se preocupe, ela está bem.
— Tem alguma coisa errada, isso só pode ser um grande mal entendido. Ela jamais faria isso. Vou para Atenas pegar o primeiro voo. — Gabrielle diz.
— Ah não, nem pense nisso. Zina vai arrancar minha pele e eu pretendo continuar com ela até morrer. — Diz Autolycus.
— Escute, se você não quer vir comigo, eu volto sozinha. — Diz a loira exaltada.
— Gabrielle, seja razoável..., se voltarmos para Nova York agora, vamos... — Autolycus se cala arrependido por ter falado além do necessário.
— Vamos...? — Gabrielle aguarda a frase ser completada.
— Ela quer você segura entendeu? E você sabe que às vezes é melhor fazer o que a Zina manda. — Autolycus desconversa.
A teimosia da loira deixava Autolycus desesperado. Quando ela cismava com uma ideia, ninguém conseguia dissuadi-la. Ele sabia que não conseguiria mais segurá-la, um profundo suspiro encerra a resistência do homem. — Está bem..., vamos arrumar as malas.
Gabrielle se abraça a Autolycus: — Eu sabia que você tem um bom coração! — Exclama a loira.
— Ok, vamos para o quarto. — Diz Autolycus.
A loira o olha espantada, ao que o homem responde: — Lembre-se que somos um casal viajando por esse belo país. Você não vai querer que seu maridinho querido durma na recepção, vai?
................... O pacto.
Zina passa a ser alvo de uma caçada pela polícia de Nova York, por isso agora a sua prioridade era se manter escondida. No dia seguinte num esconderijo numa cidade no sul do estado duas mulheres assistem ao noticiário onde o atentado ainda é manchete, subitamente Zina dá um pulo na poltrona, o rosto de Gabrielle aparece em close na tela da TV, a angústia é visível no semblante da loira. A imagem ao fundo é o prédio da universidade de Nova York.
— Não é possível..., ela está em Nova York? — Diz para si, incrédula. — Mas como..., Autolycus eu vou matar você! — Zina esbraveja.
Os repórteres cercam a loira insistindo em uma declaração sobre as acusações de sua amiga estar envolvida no caso do atentado na AGT. Embora assustada com o assédio da mídia, Gabrielle deixa claro que não acredita em nenhuma palavra que foi dita contra sua amiga. Com dificuldade ela rompe o cerco ajudada por um homem que não é Autolycus. Zina sente o sangue gelar.
— Deixem a moça em paz! — Thomas segura firmemente o braço de Gabrielle levando-a para o Mercedes preto estacionado em frente à universidade.
As câmeras não filmaram um homem sendo agredido por outros dois. Uma violenta coronhada e Autolycus desmaiado é arrastado para trás de uma coluna.
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Isso muda meus planos. - Pensa a agente, enquanto examina as armas; guarda uma no coldre, outra na cintura às costas e a faca na bota. — Vamos. — Ordena a Najara.
Dirigem-se para o carro. Zina liga o sistema de rastreamento especificando um determinado sinal. Aparece na tela um ponto verde movendo-se pelas ruas de Nova York, seguindo em direção a estrada. Ela reconhece o trajeto. — Miserável! — Pragueja.
A fisionomia séria e os músculos tensos, são claros sinais que ela não hesitará em matar ninguém para salvar Gabrielle. Zina acelera sem poupar o veículo, cada minuto é precioso, enquanto dirige vai elaborando um plano arriscado; corta o nylon que amarra os pulsos de Najara e lhe faz uma proposta.
Najara escuta o plano atentamente enquanto massageia os pulsos doloridos. Intimamente a ideia de Gabrielle como refém de assassinos também não lhe agrada. Num subentendido pedido de ajuda, Zina diz: — Se alguma coisa me acontecer, tire Gabrielle de lá!
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Tudo calmo nas imediações da casa, Zina para o carro e aguarda. Um homem de cabeça raspada, sai da casa armado com uma submetralhadora, ele as olha com expressão carrancuda. — Entrem. — Ordena o homem.
Zina e Najara com olhos treinados observam o local enquanto caminham. — Esses homens são da Dragão Verde. Tem um do lado esquerdo junto à árvore e dois próximos ao Mercedes. — Najara sussurra, ao que Zina completa. — Eu sei, vi as tatuagens. Tem dois próximos ao portão, dois próximos a casa e dois junto do galpão.
Quando entram na casa se deparam com mais três homens, Thomas e Gabrielle entre eles visivelmente abalada.
— Olá Zina..., você demorou. — Diz Thomas com um sorriso sarcástico e continua. — Que bom que você nos poupou trabalho trazendo ela com você. — Diz se referindo a Najara.
O homem de cabeça raspada dá uma pancada na nuca de Zina, ela cai, mas não perde os sentidos. Instintivamente massageia o local, Gabrielle tenta socorrê-la, mas é impedida por Thomas. Um dos homens se aproxima e puxa Zina pela gola do casaco enquanto outro a revista. Tiram as duas armas, a faca e soca seu rosto, cortando seu lábio. O sangue imediatamente escorre pelo ferimento, em seguida outra pancada na cabeça a devolve para o chão.
Najara assiste a tudo sorrindo. Ela também é revistada. — Nada. — Informa o homem afastando-se.
Gabrielle se debate com toda força que é capaz tentando se soltar, mas não é páreo para homens fortes e treinados como eles. Impaciente Thomas a esbofeteia violentamente jogando a cabeça da loira para trás.
— DESGRAÇADO! — Zina grita tentando se levantar, quando é atingida com um chute no abdômen. A agente se encolhe emitindo um urro abafado. Najara solta uma gargalhada, voltando atenção para ela.
As lágrimas rolam pela face de Gabrielle, que tenta se soltar. Uma distração de segundos é suficiente para que Najara num rapidíssimo giro de corpo acerte um chute entre as pernas do homem as suas costas. O corpo do homem já atinge o chão crivado de balas de sua própria metralhadora. No segundo seguinte outra rajada esfacela a cabeça do agente que chutou Zina. A partir daí perde-se o efeito surpresa e começam as reações.
Simultaneamente Zina ainda no chão, pega a outra arma e acerta o homem à direita de Thomas. Najara se esconde atrás de uma poltrona próxima, enquanto dá cobertura a Zina. No alvoroço Thomas agarra Gabrielle tentando usá-la como proteção, mas tropeça no cadáver soltando a loira.
— DEITA NO CHÃO! — Zina grita para Gabrielle.
Thomas e o outro agente se agacham atrás de uma mesa virada, respondendo aos tiros. As balas zunem em todas as direções, estilhaçando vidros, tirando lascas de móveis e paredes. Um tiro atinge de raspão o braço de Najara. Um agente vê Gabrielle rastejando até as mulheres, mas antes que o homem possa mirar nela, seu peito é transpassado por dois tiros dados por Zina. Numa atitude de desespero Thomas se levanta e corre se atirando pela janela para fora da casa.
— VAMOS SAIR DAQUI! DEPRESSA! — Grita Najara, descarregando as últimas balas no agente que acabara de entrar. As duas pegam as armas e protegendo Gabrielle correm para os fundos e se abrigam no galpão se ocultando na escuridão.
Thomas ordena que cerquem o galpão. O homem que entrou sorrateiramente pela janela dos fundos do galpão não foi rápido suficiente para se defender quando Zina saindo da escuridão o agarrou por trás e quebrou seu pescoço. As três mulheres se comprimem contra a parede, depois correm rapidamente em direção aos tonéis empilhados que dão acesso ao teto do container, Zina e Najara sobem e ajudam Gabrielle. Já sobre o container se deitam e esperam.
— Não estou gostando disso. Está muito calmo. — Zina sussurra.
A aguçada audição da agente percebe o leve barulho de janela se abrindo. Pelo fundo do galpão surgem três vultos que se aproximam cautelosamente. — Pegue essa arma e dê dois ou três tiros naquela direção. — Zina sussurra para Gabrielle apontando na direção dos homens.
— Quê? — Sussurra Gabrielle.
— Não discuta, pegue a arma e atire. Espere eu descer. — Ordena a agente rispidamente.
Zina rasteja pelo teto do container e desce por trás dele, sorrateiramente caminha em direção aos homens que se aproximam.
— Não entendo..., porque ela me deu a arma e não a você? — Questiona Gabrielle.
— Por que ela sabe que você não vai acertá-los. — Responde Najara.
Dois disparos de cima do container acertam o chão e a parede próxima a eles. Tiros são dados em resposta, depois param e o silêncio retorna.
— ZINA! — ouve-se uma voz do lado de fora do galpão. — NÃO TEM SAÍDA, O GALPÃO ESTÁ CERCADO!
Um rápido brilho de aço e o arremesso certeiro crava a faca no pescoço do primeiro homem, fazendo o sangue esguichar, em segundos Zina com um pontapé parte o joelho do segundo homem e o atinge com dois tiros. O ato contínuo foi acertar um tiro na nuca do último agente que corria para se proteger junto aos caixotes.
Zina retira a faca cravada no homem, limpa na roupa do cadáver e a guarda na bota. Najara e Gabrielle assistiam a tudo de cima do container. Najara não escondia a admiração de ver a velocidade e precisão dos golpes da agente. Era realmente uma adversária excelente.
Zina retorna para o container e manda que desçam, Najara recolhe as armas e munições dos cadáveres enquanto Gabrielle olha para os corpos. A penumbra que entra pelas janelas altas do galpão, dá uns tons acinzentados aos cadáveres.
— O que tem nesses caixotes? — Sem esperar resposta Najara despedaça a tampa de um deles com o punho da arma. — Olha só que belezinhas. — A loira mostra o conteúdo para Zina.
— Ótimo, veio bem a calhar. — Zina conversa com Najara em voz baixa.
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— ENTREGUE NAJARA E NÓS MATAREMOS VOCÊS DE FORMA INDOLOR, PROMETO! — Thomas diz com sarcasmo.
— QUERO NEGOCIAR COM VOCÊ! — Zina responde agachada junto ao portão do galpão.
— NEGOCIAR? VOCÊ ACHA MESMO QUE ESTÁ EM CONDIÇÕES DE NEGOCIAR? — O homem responde.
— QUERO FALAR DIRETAMENTE COM VOCÊ! — Insiste a agente.
Gabrielle está confusa, olha para Zina como tentando entender o que se passa na mente dela. Em seguida olha para Najara e obtém como resposta o sorriso enigmático, bem característico dela.
Thomas entra no galpão acompanhado por dois homens fortemente armados. — Vamos Zina..., você não tem a menor chance. Nos entregue Najara e acabaremos com isso rapidinho. — Diz o homem.
Zina puxa Najara para si violentamente, numa sufocante “gravata” e aponta a arma para têmpora da loira. — O que está fazendo? — Pergunta Gabrielle sussurrando.
— Vagabunda desgraçada, eu confiei em você. — Najara pragueja.
Ignorando Najara, Zina se dirige à Thomas. — Você pode nos matar, mas o que dirá seu chefe quando souber que você acabou com as duas oportunidades de conhecer informações sigilosas da Guarda. Essa mulher e eu somos as únicas que estão ao seu alcance com essas informações. — Blefa a agente.
— O que você quer? — Pergunta o homem.
— Sairei daqui com elas e você dirá aos seus homens para baixar as armas e ficarem quietinhos. Deixarei Najara no início da estrada de terra e aí é com vocês. — Pergunta a agente.
— Acha que vou acreditar em você? — Thomas responde.
— Vocês estão em maior número e bem armados. Nós é que sairemos perdendo você não acha? — Zina diz.
Thomas vê uma ótima oportunidade de aumentar seu prestígio dentro da organização entregando Najara. O que será feito com ela não é assunto seu, ele sabe que o Mestre não tolera fracassos, provavelmente será torturada e morta.
— Abaixem as armas. Deixem-nas passar. — Os homens se entreolham. — Abaixem as armas. É uma ordem! — Thomas repete vigorosamente.
Elas vão recuando em direção à porta fazendo Najara de escudo. O menor gesto suspeito e tudo descambaria para uma tragédia. Após passarem pela porta juntas e com a arma apontada para cabeça de Najara, veem mais três agentes espalhados pelo terreno com as armas abaixadas.
— Você está pronta? — Zina sussurra para Najara, a resposta é um sinal afirmativo com a cabeça.
Zina solta Najara que joga duas granadas destravadas para baixo do carro de Zina. Uma explosão enorme seguida de incêndio levantou o veículo alguns metros do chão, estilhaços de vidros e ferros retorcidos voaram pelo ar causando alvoroço entre os homens. Numa ação contínua Zina e Najara disparam tiros contra os homens. Gabrielle e Najara entram no Mercedes usado por Thomas, Zina se joga no banco do motorista e arranca a toda velocidade.
Thomas determina ordens aos berros. — VÃO IDIOTAS, NÃO AS PERCAM DE VISTA!
.................. A caçada.
As três ocupantes do Mercedes permanecem caladas durante grande parte do trajeto de volta. Gabrielle olha chocada o hematoma no rosto de Zina e o corte em seu lábio inchado.
— Você está bem? — Zina pergunta preocupada, apertando ligeiramente a mão de Gabrielle.
Ainda aturdida com os fatos, ela responde num murmúrio: — Estou..., dentro do possível.
Zina sente o coração pesado. Ter trazido Gabrielle para seu modo de vida se tornara extremamente perigoso. Ela era uma agente treinada para situações de riscos extremos, viver sob pressão já era rotina, mas a mulher ao seu lado era diferente. Zina sabia que as mortes, mesmo sendo necessárias, eram coisas difíceis de Gabrielle assimilar.
— O que vamos fazer? Eles virão atrás de nós. — Diz a arqueóloga.
Zina responde olhando pelos retrovisores. — Já estão atrás de nós. Tem três carros suspeitos nos seguindo, cerca de cem metros. — Najara olha para trás e concorda.
Zina fala para Gabrielle: — Escute, tente não entrar em pânico e não gritar nos meus ouvidos. Vamos entrar numa área urbana a grande velocidade. Segure-se bem.
Assim que acabou de falar, os pneus chiaram no asfalto fazendo fumaça. Gabrielle e Najara olham para trás e veem os carros avançarem também. A perseguição começa. Zina conduz o carro ziguezagueando, evitando os outros carros que são ultrapassados sem dificuldade. Najara vai informando sobre os perseguidores.
Entram numa avenida larga de mão dupla. Os sinais vermelhos não significam nada para os quatro carros. A balburdia de buzinas em nada afetam a atenção da motorista, que aumenta a velocidade tentando se distanciar mais dos perseguidores. Quando vê empecilho de prosseguir, Zina encosta o Mercedes ameaçadoramente no outro carro com buzinadas para abrir caminho.
— SEGUREM-SE! — Zina grita.
Os carros tentam emparelhar com o das fugitivas. Com um golpe na direção Zina rodopia o carro passando para pista contrária. Dois carros fazem a mesma manobra e continuam a perseguição, o terceiro continua pela avenida perdendo contato com o carro fugitivo.
Os carros que sobem a avenida buzinam e se desviam para não baterem de frente no Mercedes ou nos dois carros que o seguem. Um dos veículos se emparelha com o delas, com golpes de direção Zina bate repetidamente na lateral do carro dos perseguidores empurrando-o contra a calçada. O som das latarias se chocando faz Gabrielle gritar de pavor. Najara atira nos pneus do carro perseguidor que derrapa e termina se chocando violentamente contra um poste. Zina recupera a estabilidade e entra novamente na pista correta da avenida. Resta somente um carro dos perseguidores.
Numa das calçadas que circundam o Central Park, um grupo de músicos de rua se apresenta; a platéia canta contagiada pela música. O momento de lazer público se transforma em pânico quando o Mercedes invade a calçada vários metros antes. Empurrões, gritos e tropeções, as pessoas tentam fugir como e por onde podem para não serem atropeladas pelos carros em velocidade. O Mercedes desce a calçada e numa guinada de direção se desvia de um ônibus. O carro perseguidor é surpreendido com a manobra, não consegue desviar a tempo e se choca com o ônibus. O impacto foi tão violento que a carcaça do ônibus pareceu engolir o carro até a metade.
— Fora do jogo! — Exclama Zina enquanto olha pelo retrovisor.
O Mercedes bem danificado reduz a velocidade. Repentinamente um carro preto sai de uma rua transversal bloqueando o caminho. Zina freia bruscamente. Elas reconhecem a picape que abandonou a perseguição vários quarteirões atrás. A agente entrega discretamente a arma para Najara.
O motorista sai do carro acompanhado de outro homem, ambos armados mirando as três passageiras. Os olhos da agente se encontram com os de Najara pelo retrovisor como se já tivessem algo planejado. Zina desce os vidros sinalizando que vai sair do veículo e abre a porta lentamente. Gabrielle ensaia também sair, mas é impedida por Najara.
— Saiam se não quiserem morrer aí mesmo! — Ordena o homem convencido de que a frase ameaçadora intimidaria as duas mulheres.
— Não podemos sair a porta travou. — Diz Najara.
O homem se aproxima da porta para abri-la, em milésimos de segundos Najara dispara um tiro entre os olhos dele, espirrando sangue em Gabrielle que grita horrorizada.
Zina aproveita o fator surpresa e com um veloz jogo de corpo, dá uma violenta cotovelada no estômago do motorista, em seguida usando o ombro como apoio quebra o braço do homem com tamanha violência que se ouve nitidamente os ossos se partindo. O tornozelo é partido por um preciso chute e em seguida o homem tem o peito transpassado por duas balas de sua própria arma.
No momento seguinte o Mercedes retoma o caminho.- E agora, o que vamos fazer? Para onde vamos? — Gabrielle pergunta.
— Agora?... Agora vou pagar uma dívida! — Zina responde enigmática olhando Najara pelo retrovisor.
...........................................
— SAIAM DO CARRO, RÁPIDO! — Zina grita para as outras duas enquanto aciona o dispositivo de autodestruição do automóvel. Já dentro do Central Park elas olham para trás, bem a tempo de ver o Mercedes ir pelos ares numa grande explosão que o transformou em estilhaços de vidros e metal retorcidos.
Aproveitando o tumulto correm para a estação do metrô mais próxima. Zina pega a mão de Gabrielle quase arrastando-a pela escadaria que dava acesso as plataformas, seguida por Najara e pegam o metrô para o Bronx.
Num quarto de hotel barato no Bronx, Najara e Zina escondidas pela velha persiana, examinam a rua com olhos treinados para detectar qualquer coisa suspeita.
A agente sai da janela e senta na cama. Gabrielle examina os ferimentos no rosto de Zina, a coloração roxa do hematoma é assustadora, o corte no lábio é grande, mas não profundo. Começa a limpar o lábio ferido com cuidado, em seguida coloca gelo na toalha e manda Zina segurar no local do hematoma.
Em seguida chama Najara. Examina o ferimento no braço da loira. — Vamos limpar isso. — Diz Gabrielle.
— Vai passar. — Najara responde.
— Não é profundo, mas tem que limpar isso. Sente aqui. — Insiste a loira.
— Não precisa, já passei por coisas piores. — Najara responde olhando as cicatrizes dos tiros que recebeu de Zina algum tempo atrás.
— Sente-se, não descuta. — Determina Gabrielle.
Najara obedece e senta-se ao lado de Zina. Gabrielle limpa o ferimento cuidadosamente, cobrindo com gaze e fechando o curativo. Quando ergue o olhar se depara com o olhar fixo de Najara. Gabrielle fica desconcertada quando percebe que Zina acompanha toda cena.
Zina pega um pacote que comprara em uma loja antes de entrarem no hotel e joga na direção de Najara. — Pinte o cabelo e use isso. — Diz e em seguida atira um estojo com lentes de contato de cor castanho escuro. Amanhã sairemos cedo do hotel, eu pago a conta. Najara, você sai logo após o café, em trinta minutos nos encontramos no Central Park, próximo à estação do metrô.
— Central Park? Não seria mais seguro nos encontrarmos em outro lugar? — Questiona Gabrielle.
— Confie em mim. O melhor lugar para esconder uma agulha é num palheiro. — Responde a agente.
Najara se dirige para o banheiro para um banho e providenciar a transformação; Zina e Gabrielle conversam em voz baixa: — Você confia nela? — Gabrielle pergunta.
— Não. — Responde a agente.
— Então porque eu tenho a impressão que vocês se tornaram “amiguinhas”? — Insiste Gabrielle.
Zina responde. — Não se trata disso. Se ela for pega pela Dragão Verde, será torturada para saber o que ela transmitiu para a Guarda e depois morta. Fiz um acordo que se ela nos ajudasse a escapar eu a colocaria no serviço de proteção da Guarda. Ela fará uma pequena plástica para modificar a aparência e terá nova identidade, um emprego e uma vida comum em outro lugar.
Najara volta enrolada na toalha de banho, já com cabelos negros e os olhos azuis ocultos pelas lentes de contato. Gabrielle a olhou surpresa.
— Que tal? — Najara perguntou sorrindo, percebendo a admiração de Gabrielle.
— Ficou linda! — Exclamou a loira.
As feições de Zina se contraíram, seus olhos fitaram Gabrielle faiscando. — Tivemos um dia cansativo, vamos tratar de dormir temos que acordar cedo amanhã. — Diz Zina cortando a conversa. — Gabrielle vem, vamos dormir! Najara você dorme na poltrona. — E joga um cobertor para ela.
Najara vira-se na direção da poltrona, é quando Gabrielle vê a tatuagem de um dragão em suas costas, a tinta verde sobressai na pele clara. — Você tem uma bela tatuagem. — Observa a loira.
— Se você voltar a ver uma dessa em alguém fuja sem pensar duas vezes. É a tatuagem da minha organização. – Najara responde.
— Gabrielle! — Zina segura o braço da loira com firmeza, puxando-a para junto de si. — Vamos dormir.
.................. O Mestre.
O Mestre está sentado na varanda de fundos de sua mansão admirando a paisagem, os olhos postos no horizonte. Sua propriedade se estende por dezenas de hectares; as plantas podadas cuidadosamente formam desenhos perfeitos, comparáveis aos grandes jardins europeus.
O celular toca, ele atende. Sua voz soa firme. — Sim?
— É Thomas senhor, está tudo resolvido. Os “arquivos” estão mortos sem vestígios. — Se vangloria o Diretor.
— Conte-me os detalhes. — Ordena o Mestre.
Thomas começa a descrever a operação acontecida no prédio da Guarda, a bomba que explodiu todo CPD, a morte do Diretor Marcus, a incriminação da agente Zina que supostamente seria agente duplo a serviço do terrorismo. O homem ouve com atenção as informações e depois pergunta: — Livraram-se de Najara?
Thomas demora um pouco para responder, como se estivesse temeroso da reação do homem. — Não senhor.
— Imbecil! Soube que você a teve nas mãos e deixou ela escapar novamente. — Esbravejou o Mestre e continuou. — Entre em contato com nossos agentes no estado. Quero cada agente nosso procurando por ela, entendeu?
— Sim senhor. — Responde Thomas e a ligação é encerrada.
.................. A farsa.
Um rápido contato pela linha exclusiva da Guarda e os planos são alterados. Continuarão hospedadas no hotel por mais três dias. No terceiro dia, Zina está fazendo os retoques finais do seu disfarce, prendendo os cabelos sob a touca, para depois ajustar a peruca ruiva. Gabrielle acaba de entrar no chuveiro.
— Precisamos conversar. — Diz Najara sentada na cama.
— Aonde você foi? — Pergunta a agente, continuando a se disfarçar.
— Fui na recepção. — Responde Najara contrariada com a rispidez da agente.
— Fazer o que? — Zina continua.
— Tenho que lhe dar satisfações? — Pergunta Najara já se exaltando.
— Não, mas se eu não souber onde você está não posso protegê-la. — Responde a agente irritada.
— Só fui na recepção andar um pouco. Já estou de volta sã e salva. — Diz Najara com sarcasmo.
A agente a encara pelo reflexo do espelho. — Pode falar. — Diz secamente.
— Já tem três dias que estamos escondidas nessa espelunca, o que estamos esperando afinal? — Questiona Najara.
— Estão trabalhando para que possamos nos mover mais livremente. Só quero sair daqui quando tiver certeza que não vamos levar uma bala na cabeça na primeira esquina que virarmos. — Zina explica impaciente e continua. — Está sendo dada prioridade aos acessos fora do país, para você poder sair e recomeçar a vida em outro lugar. Sua nova identidade está sendo providenciada.
— Não quero sair do país! — Reclama Najara.
Zina se vira repentinamente se aproximando e olha fixamente nos olhos da mulher. — O que você sugere hein? Você sabe muito bem o que vai acontecer se for capturada pela sua organização, não sabe?
Najara respira fundo, corre a mão pelos cabelos curtos, enquanto pensa mais um pouco e finalmente fala: — Está certo, estou sendo idiota...
O barulho da porta abrindo indica que Gabrielle terminou o banho. Ambas dão por encerrada a conversa. Gabrielle não pode deixar e rir ao ver Najara vestida com um casaco que “engordava” seu esbelto corpo. — Que disfarce horroroso.— Pensa a loira.
Encerrados os preparativos as três mulheres vão almoçar num vazio restaurante, a poucos metros do hotel. Um rapaz negro de óculos se aproxima para anotar os pedidos. Após troca de algumas frases, ele entrega discretamente alguns documentos junto com o cardápio.
Najara olha seus novos documentos. — Eve Alison Morris? Vocês poderiam pelo menos ter escolhido um nome melhor. — Diz sorrindo e guarda os documentos.
O que acontece em seguida é muito rápido. Um carro se aproxima como se fosse estacionar, Zina percebe a atitude estranha do passageiro, em milésimos de segundos ela pula sobre Gabrielle, enquanto a vitrine do restaurante é quebrada por rajadas de metralhadora. O carro dos agressores dispara cantando pneu no asfalto.
Zina coloca uma atordoada Gabrielle de pé, esfregando a cabeça dolorida pela pancada. A agente afasta as cadeiras e vê Najara deitada no chão com grandes manchas de sangue no peito e barriga.
— Ga...Gabrielle... — Najara gagueja.
Gabrielle se aproxima e segura sua mão. — Najara! Não...
Najara tosse, cospe sangue e diz num murmúrio. — Vo... você foi a melhor... coisa que passou..., pela minha vida.
A agente se certifica da morte de Najara, Gabrielle ainda em choque é colocada de pé à força, Zina segura os braços dela apertando-os com força.
— Gabrielle preste atenção! Najara está morta, temos que sair daqui agora, a polícia ou alguém pior vai chegar e estaremos perdidas!
Zina arrasta Gabrielle para fora, onde duas motos acabam de chegar. O motociclista sobe na garupa da outra moto. Zina coloca Gabrielle na garupa e as motos partem disparadas pelas ruas do Bronx.
De um quarto do prédio em frente ao restaurante, um homem negro acompanha a cena e informa via rádio.
— Um peixe fora, dois fugindo! Deem cobertura. — Um breve chiado, um novo contato e uma segunda ordem é dada. — Equipe dois, limpem tudo!
..........................................
Thomas recebe uma ligação da Superintendência convocando-o para apresentação do relatório da operação que culminou com a morte do Diretor Marcus e várias outras pessoas, além da destruição do CPD. Ele acomoda-se na cadeira e começa a apresentar sua versão dos fatos.
Durante o relato Thomas deixa claro que a agente especial estava envolvida no atentado contra o prédio da Guarda, apresentando como prova uma gravação — adulterada — de uma conversa em que ela falava sobre a bomba e mais alguns detalhes da conspiração. Com raras interferências em que questionava alguns procedimentos adotados, o Superintendente ouve com atenção o relato encarando o homem friamente. Terminado o relatório, o Superintendente ainda o encara por alguns segundos em silêncio, aperta uma tecla no telefone e imediatamente dois fortes agentes entram na sala e cercam o Diretor de operações. O ar arrogante dá lugar ao espanto, enquanto lhe é dada voz de prisão. Ele está realmente confuso, até que vê Zina e Marcus saindo de uma porta à direita da sala. Ele fica lívido. Seu agente tinha lhe garantido que Najara estava morta e Zina era alvo da maior caçada que a polícia já fizera. Como era possível ter sido enganado daquela forma?
— Surpreso Thomas? — Ironiza Marcus.
— Como?... Isso não é possível, eu vi os bombeiros recolhendo seu corpo que não passava de uma massa de carne disforme e ensanguentada. — Diz o homem estupefato se dirigindo à Marcus.
— Os “corpos” que você viu foram modelos anatômicos meu e do negociador. Lembra-se quando a suposta bomba explodiu e as cenas mostraram várias pessoas abandonando o prédio? Nós estávamos no grupo. — Marcus explica.
— Hoje em dia a tecnologia cinematográfica faz coisas inacreditáveis, não é Marcus? — Diz Zina com ar debochado, Marcus esboça um sorriso.
Todo processo de investigação é relatado ao Superintendente por Zina e Marcus, desde as escutas telefônicas, a prisão dos agentes infiltrados, a encenação do atentado, a “morte” de Marcus, tudo foi meticulosamente planejado.
Mesmo tendo sido desmascarado Thomas ainda abre um grande sorriso de satisfação e comenta: — Com o CPD destruído a Guarda está vulnerável, vocês perderam toda base de dados da organização.
Marcus esclarece que por precaução toda base foi transferida para célula Pensilvânia e estavam totalmente seguras. O esquadrão anti bombas tinha desarmado a bomba implantada a mando dele e explodido um artefato inofensivo que provocava apenas barulho e fumaça, como o prédio tinha sido evacuado não existiria risco de vidas e daria mais credibilidade aos fatos. As cenas exibidas na TV foram gravações editadas do atentado acontecido no 11 de setembro.
O sorriso de Thomas deu lugar a um semblante de derrota. — Podem levar! — Ordena o Superintendente aos agentes. Em seguida parabeniza o Diretor Marcus e principalmente a agente pela maneira como tinham conduzido a operação. Os dois foram dispensados.
Marcus voltará a sua sala e continuará seu trabalho de recolher e analisar informações obtidas em tempo real. A imprensa noticiará que houve engano no reconhecimento de seu corpo e Zina como de costume após cada missão resolvida “desaparecerá”, até ser requisitada para nova missão.
...........................................
A mulher entra no quarto trazendo o café da manhã. Gabrielle acorda, vira a cabeça para o lado se certificando que a luz que entra pela janela é da manhã. Ela se sentia muito cansada, os últimos dias de tensão e a morte de Najara tinham abalado sensivelmente seu emocional. Os sedativos ajudavam a acalmar suas noites agitadas ou insones.
Gabrielle se depara com encantadores olhos azuis observando seu despertar. — Bom dia dorminhoca! Vamos acordar? — Diz Zina abrindo um belo sorriso, apesar do rosto ainda mostrar marcas das agressões sofridas.
Gabrielle senta-se na cama e diz: — Você tem evitado responder minhas perguntas nos últimos dias, mas acho que agora já podemos conversar.
— O que você quer saber? — Zina pergunta.
— Tudo! Essa história de você ser terrorista, como Autolycus se meteu nessa história, em fim essas coisas. — Responde a loira .
— Tudo não é possível você saber, mas entenda uma coisa tudo fez parte de um plano, sou treinada para encarar que sempre os fins justificam os meios para obtermos sucesso nas missões e só isso é o que importa. — Zina responde enquanto acaricia os loiros cabelos de Gabrielle e com voz suave explica que o que ela assistiu no noticiário foi mostrado conforme a conveniência de interesses da sua organização.
— E Autolycus? — Pergunta a loira.
— Eu sabia que assim que você soubesse da notícia viria me procurar e isso atrapalharia a missão. Estou com autoridade para requisitar qualquer agente da Guarda. Entrei em contato com ele e pedi que acompanhasse você nesse período. — Zina responde.
Gabrielle interrompe a explicação. — Me protegesse você quer dizer... E como ele sabia onde eu estava hospedada?
Zina ignora a observação e continua: — Amphípolis não faz parte de roteiros turísticos e é a cidade mais próxima de suas escavações, então nada mais lógico que você ir para lá, o resto ficou por conta dele. — A verdade que Gabrielle desconhece é que tem um chip cuidadosamente escondido em sua inseparável bolsa surrada de couro marrom.
A loira olha para Zina desconfiada da explicação, mas continua questionando: — Não ouvi notícias sobre o atentado em que Najara..., eu não consigo esquecer a cena. — Zina percebe uma sombra de tristeza nos olhos verde esmeralda.
Zina diz rispidamente: — Escute, Najara está morta entendeu? Não pense mais nisso, esqueça. — Após alguns minutos de silêncio ela pergunta: — Você gostava dela?
Gabrielle a olha surpresa. — Não acredito no que ouvi! Como você pode pensar tal coisa? — A loira desanda a falar indignada com o que Zina tinha insinuado. Zina pede desculpas tentando acalmar a mulher e revela: — Não se preocupe amor, Najara morreu..., mas Eve está viva, segura e longe daqui.
A surpresa de Gabrielle foi visível. — Viva? Mas como..., então foi tudo encenação?
Zina explica que o plano funcionou como o previsto: — Estávamos sendo vigiadas a dias e o único modo de despistar seria forjando a morte dela e nossa fuga. Os atiradores eram agentes nossos e tínhamos vários agentes prontos para uma ação de despiste. Enquanto isso o “corpo” de Najara era levado por uma ambulância e depois trocado para um furgão, o resto foi limpar a cena.
Gabrielle reflete sobre as informações que recebeu, no seu entender tudo aquilo é grande demais para lidar em tão pouco tempo.
.................. Os encantos de Aphrodite.
Com extremo cuidado Gabrielle limpa com um pincel a poeira milenar acumulada sobre a ânfora. Está tão absorta no delicado trabalho que não dá atenção quando a conhecida voz a chama.
— Você não acha que já chega por hoje? — Pergunta a voz do lado de fora da tenda, mas não tem resposta. — Êi Gabrielle, olha isso... — A insistência intriga a loira que curiosa sai da tenda e se depara com um grande buquê de flores. Ela não consegue esconder a surpresa com o presente.
— Ai Zina, você..., você é um amor! — Exclama abraçando o buquê e as duas se abraçam com força.
— Agora já chega. — Diz Zina. — O final de semana é nosso, vamos para o hotel, relaxar com um bom banho, jantar e ...?!
— E...?! — Gabrielle aguarda a resposta.
— E vamos ter uma confortável e cheirosa cama nos esperando. — Apenas o olhar de Zina já seria suficiente para completar a frase. — E não aceito “não” como resposta, nem que tenha que te arrastar até lá.
Com toda essa “argumentação”, a loira nem cogita em negar o convite. Vários minutos depois elas estão percorrendo a poeirenta estrada em direção à cidade.
Elas entram no hotel, os funcionários da recepção ficam espantados com a dupla. A bela mulher de porte esguio, longos cabelos negros, olhos azuis, rosto de traços fortes, contrasta com a pequena loira de trajes empoeirados, mas de uma delicada beleza.
Elas se acomodam no quarto, tomam um refrescante banho, e saem para jantar. Vão ao Grego, famoso restaurante da cidade. Na mesa já reservada no recanto mais sossegado do ambiente as conversas se desenrolam entre sussurros, sorrisos, olhares e confissões apaixonadas. Terminado o jantar retornam ao quarto e antes que Gabrielle entre, Zina a pega no colo e entra no quarto como faria um casal recém-casado. O quarto está iluminado apenas pelas fracas luzes de cabeceira; centenas de pétalas de rosa vermelha espalhadas pelo chão e sobre a cama perfumam suavemente todo ambiente criando um clima romântico e aconchegante.
Zina anda com a loira no colo até próximo à cama, a coloca no chão, pega uma caixa finamente embrulhada sobre a cama e diz: — Feliz Solstício meu amor!
Gabrielle está maravilhada com a surpresa tanto do ambiente quanto do presente que acaba de receber. — Ai Zina que lindo..., tudo tão maravilhoso, parece um sonho. Só que eu não tenho nenhum presente para você. — Diz a loira com ar envergonhado.
Zina abre um belo e largo sorriso e responde: — Gabrielle, você é o meu presente.
A loira desembrulha a caixa. Uma linda camisola negra de seda e uma diminuta calcinha formam um sensual conjunto. Gabrielle se apressa em vestir o presente. Zina fica extasiada com a visão de sua amada na penumbra do quarto. A pele clara de Gabrielle parece se iluminar em contraste com o negro da camisola, a seda se ajusta sensualmente aos contornos dos quadris, um decote generoso deixa ver parte dos seus fartos seios, a curta camisola mostra as coxas bem torneadas. Com um andar lento e sensual ela se aproxima de Zina. Ambas se encaram por segundos sem dizer qualquer palavra. Até que Zina lhe dá um apaixonado beijo, que é imediatamente correspondido.
— Não consigo mais viver sem você! — Diz Zina num sussurro. — Você é minha inspiração Gabrielle. Quando procuro dentro de mim e faço coisas que não sou capaz, é por você.
— Quando estou com você, o vazio que senti em toda minha vida se acaba. Haja o que houver estarei sempre com você meu amor. — Gabrielle responde emocionada.- Você fez tudo para me salvar. Gostaria de te recompensar. — Diz Gabrielle, com olhar sensual bem sugestivo.
Zina responde com um olhar malicioso: — Temos todo um final de semana. Você vai poder me “pagar” por vários dias.
Envolvidas pelo sentimento pleno em que suas almas se entrelaçam, elas se entregam aos encantos de Aphrodite, afinal estavam na Grécia e a noite estava apenas começando.
Continua...
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