A conquista de Pérola
2 Primeiro
Notas iniciais
De todos os lugares possíveis para levar uma turma de adolescentes prestes a ingressar no mercado de trabalho, um supermercado era, sem dúvida, o mais deprimente. Matheus escondeu o desgosto atrás de um sorriso motivador ao pastorear seus alunos rumo à área administrativa do Supermercado Ibituruna. Não que o trabalho em si fosse uma coisa ruim, mas ele torcia para os garotos conseguirem algo melhor do que a escravidão da escala 6x1 em troca de um salário-mínimo.
Matheus se apresentou na recepção como um dos professores acompanhantes. A recepcionista, uma senhora de cabelos grisalhos, ergueu as sobrancelhas.
— Professor? Com essa carinha de bebê?
Matheus apenas aquiesceu enquanto os alunos riam ao redor. A brincadeira não era novidade. Aos 26 anos, conservava os traços suaves da adolescência, destacados por grandes olhos castanhos e covinhas nas bochechas. Os cabelos escuros emolduravam seu rosto com cachos bagunçados, contrastando com a pele branca que tendia a ficar vermelha com constrangedora frequência. Para quebrar a imagem infantil, cultivava uma barba curta, aparada diariamente, para sombrear o queixo e criar um elegante visual desleixado. Contudo, nada podia fazer para disfarçar sua altura, só podia aceitar que a maioria dos rapazes do ensino médio era mais alta do que ele.
Desde o primeiro dia de aula, três meses atrás, já fora confundido com um aluno vezes suficientes para a diretora lhe dar um crachá escrito “Professor de Artes”.
Nenhum outro professor tinha crachá.
A recepcionista os conduziu por um corredor de paredes brancas, o qual se ramificava em várias direções, por onde circulavam funcionários com diferentes modelos de uniforme — camisa verde clara para os atendentes de caixa, conjunto branco para os atendentes do açougue e da padaria, colete verde-escuro para o pessoal da administração. Todos ostentavam o logotipo da empresa: um desenho estilizado do Pico da Ibituruna coroado por um radiante sol nascente.
Matheus residia em Governador Valadares há tanto tempo quanto dava aulas, mas já sabia que a Ibituruna e o sol eram características definidoras da cidade. A montanha era o maior ponto turístico da região; erguia-se sólida e imponente sobre uma população de pouco mais de 200 mil habitantes. O sol reinava em um céu que raramente derramava chuva, tornando o clima quente e seco muito favorável para curtir uma praia.
Claro, não havia praia em Minas Gerais, e esse poderia ser o único ponto negativo de Valadares. Nada que a boa e velha comida mineira não compensasse.
Matheus chegou ali após uma conversa online com um antigo colega de faculdade. A promessa de salário fixo foi um bom motivador para tirar o diploma de licenciatura da gaveta. A aventura de morar em um cenário inteiramente novo apenas impulsionou a ideia.
No geral, estava satisfeito com os rumos da vida. Sentia falta de algo, mas viveria um dia de cada vez até descobrir o que esse algo era.
O corredor desembocou em uma pequena sala de descanso. Dois garotos com camisas de jovem aprendiz ocupavam o sofá escuro, conversando aos cochichos. O cheiro de café fresco flutuava no ar gélido. Em algum lugar, o ar-condicionado zumbia ininterruptamente. Uma planta de folhas grandes e brilhantes enfeitava o canto da sala, ao lado de um aparador no qual uma moderna máquina de café piscava. Próximo ao móvel, dois quadros decoravam a parede cor de creme.
Os olhos de Matheus se fixaram nas obras. Eram pinturas de retrato e, à primeira vista, pareciam muito bem executadas.
Valéria, a experiente professora de português, liderou a turma para o interior do auditório. Matheus ficou para trás para garantir que os retardatários não se desviariam do caminho. Quando todos os alunos se acomodaram nas cadeiras, ele escapou pela porta e se aproximou das pinturas.
Pintar retratos era o tipo de desafio que dava a si mesmo de tempos em tempos. Captar a essência de um modelo vivo era mais difícil do que as pinturas de paisagem com as quais estava acostumado.
Ambas pinturas eram de tinta a óleo. Cada uma revelava a imagem de um homem em pinceladas firmes e seguras, com poucos pontos de correção. A estrutura dos rostos era proporcional e harmoniosa; a construção de luz e sombra criava volumes tridimensionais, dando a impressão que o modelo saía da tela. As expressões eram dignas de nota. Quem quer que fosse o artista, conseguiu dar vida aos olhos, transmitindo as personalidades dos retratados com primor. Nas duas obras, o cenário de fundo apresentava as formas distintivas do Pico da Ibituruna, mantendo o estilo hiper-realista consistente.
Não havia assinatura nas telas, mas Matheus tinha certeza que foram feitas pelo mesmo artista. E adoraria conhecê-lo.
Sacou o celular do bolso e começou a tirar fotos, tanto para referência quanto para encontrar o pintor. Um clicar de saltos altos no piso ecoou no ambiente. Alguém viera pegar uma dose de café na máquina. Matheus permaneceu concentrado nos registros.
— Gosta de pintura? — questionou uma voz feminina, um tanto arroucada.
Ele sorriu, sem jeito, mas não deu o braço a torcer para a timidez. Continuou a tirar fotos. Talvez não tivesse oportunidade para isso mais tarde.
— É, sou pintor nas horas vagas. Esses retratos são uma ótima referência.
— São mesmo?
O tom dela soou mais curioso do que cético. Matheus virou-se pronto para explicar sua linha de raciocínio, mas uma pane geral o impediu de formular qualquer palavra.
Muitos detalhes para assimilar ao mesmo tempo sobrecarregaram sua capacidade de pensar. De súbito, notou que a mulher era uns dois palmos mais alta do que ele. Vestia o colete típico dos funcionários da administração, embora usasse uma saia lápis que delineava suas pernas. Pernas longas e torneadas que o deixaram muito consciente da necessidade de manter o olhar na linha do rosto. Só que o rosto dela também era uma distração. Seu perfil possuía linhas suaves e alongadas, com maçãs altas e um queixo pontudo. Um brinco prateado reluzia através dos fios do cabelo longo; a pele parda se iluminava em tons de caramelo derretido.
Os dedos de Matheus palpitaram para pegar um bloco de desenho e rascunhar aquelas feições austeras. Acrescentaria os detalhes mais tarde — o nariz reto, as sobrancelhas arqueadas e o profundo arco que o lábio superior formava.
Seria uma fonte para futuras inspirações.
Inconsciente do abalo que causou, ela analisava os retratos.
— O que você vê quando olha pra eles?
Matheus obrigou sua mente a seguir em linha reta.
— Um trabalho fenomenal — respondeu. — Percebe como os olhos são expressivos? Isso é marca de um artista habilidoso. Um retrato bem-feito não reflete apenas a imagem da pessoa, mas também a essência dela. Esse aqui... — Apontou para a tela da esquerda, na qual um senhor de bigode farto encarava o observador com o cenho levemente franzido. — Esse é um vovó sério e reservado que só aceitou posar para o pintor depois de dias de insistência. Aposto que foi a esposa que obrigou.
A mulher soltou um leve arquejar, como uma risada contida. Matheus se animou.
— Esse aqui... — No quadro da direita, um homem na faixa dos 40 anos mantinha o nariz aduncado levemente erguido; seus olhos brilhavam como se estivesse diante de algo incrível. — Esse cara sabe quem é e está muito satisfeito com isso. Ninguém conseguiria obrigá-lo a fazer algo que não quer, por isso ele parece tão feliz. Ele queria esse retrato.
Ela tocou o segundo quadro com carinho, um sorriso suave curvou seus lábios carnudos.
— Acho que você chegou bem perto.
— Ah, conhece eles?
Ela concordou com a cabeça.
— São o fundador e o antigo presidente do Ibituruna, respectivamente. Essas pinturas estão aqui há séculos. Parei de prestar atenção nelas com o tempo... Foi bom revê-las pela sua perspectiva.
Ela voltou-se para Matheus. Seus olhos não eram nada menos que espetaculares: uma mistura perfeita entre a elegância do castanho-escuro com a vivacidade do dourado que refletia a luz das lâmpadas. O escrutínio dela, atento e invasivo, o transportou para os tempos de escola, quando não sabia o que fazer com as mãos. Nenhuma das antigas professoras dele se comparava àquela mulher, mas o ar autoritário de quem sabia que merecia respeito marcava presença na postura dela.
E, quanto mais a observava, mais deslumbrante e intimidadora ela ficava.
— Como você se chama?
— Matheus.
— Matheux. — O sorriso dela reluziu. — Temos um carioca em terras mineiras.
As bochechas dele — essas traidoras — começaram a esquentar.
— O sotaque entrega, né? Você é?
— Pérola.
— Pérola — ele repetiu, um sorriso não autorizado crescendo em seu rosto. — É elegante. Combina com você.
Ah, droga, aquilo soou como um flerte? A forma como os olhos dela estreitaram disse que sim.
— Por que está tão longe de casa? — ela indagou.
— Vim trabalhar como professor e experimentar a vida de cidade pequena.
Pérola balançou a cabeça.
— Você ainda não viu uma cidade pequena. Valadares é a maior da região. Se comparar com o Rio de Janeiro, é realmente um ovo, mas pelo menos temos um shopping.
Matheus riu, e desejou estar em um lugar onde as correntes do trabalho não o obrigassem a manter o profissionalismo.
— Olha, eu tenho que voltar pro auditório, mas quem sabe nós...
— Espera, você está acompanhando a visita escolar? — Ela franziu as sobrancelhas. — Não sabia que já tinham chegado. É professor de que?
Ele acenou para as pinturas.
— Artes.
Ela aquiesceu, e suas feições assumiram um ar pensativo.
— Você pinta profissionalmente?
— Sempre que tenho tempo. — Uma oportunidade se abriu e ele não hesitou em aproveitá-la. — Toda quinta levo meus quadros pra feirinha de artesanato da Praça dos Pioneiros. Aparece lá um dia. Posso te mostrar o meu trabalho.
Também poderia chamá-la para tomar uma bebida no barzinho da praça.
Antes que Pérola pudesse responder, uma voz ecoou no ambiente silencioso.
— Você está aqui! — A recepcionista se aproximou, sorrindo para Pérola. — As crianças da escola já chegaram. Quer falar com elas agora?
— Estou indo lá. Leva o meu café para o escritório, por favor.
O zelo com que a recepcionista pegou a caneca das mãos de Pérola ativou um alarme na cabeça de Matheus. Havia uma hierarquia ali e a mulher mais nova estava por cima. Seria uma supervisora ou gerente? Pérola bem que tinha jeito de chefe de RH.
Ela acenou para Matheus acompanhá-la. Os cabelos dela, castanhos com mechas cor de mel, balançaram em ondas ao redor dos ombros a cada passo firme e elegante em direção ao auditório. Com um esforço monumental, Matheus evitou observar o hipnótico ondular de seus quadris.
Pérola deu duas batidinhas na porta antes de abri-la.
Na primeira vez em que encarou uma sala cheia de adolescentes com expressões entediadas, Matheus encontrou dificuldade até para pronunciar o próprio nome. Pérola, ao contrário, não demonstrou qualquer sinal de desconforto ao cumprimentar a turma. Certamente, ser uma morena bonita de 1,80 de altura agia a favor dela, mas, para além do aspecto físico, Pérola emanava uma confiança fluida e confortável. Estar diante de dezenas de pessoas parecia seu estado natural.
Com um sorriso largo, o psicólogo organizacional responsável pela palestra declarou:
— Pessoal, antes de começarmos o nosso momento, vou dar a palavra para a CEO da Rede de Supermercados Ibituruna, Pérola.
Pérola assumiu o centro das atenções sob o estrondo de uma salva de palmas. No fundo da sala, Matheus orou para que um buraco se abrisse no chão ou que os céus desabassem sobre sua cabeça. Só assim escaparia da dolorosa vergonha que coloria seu rosto.
Ele flertou com a CEO da empresa.
Em um discurso sucinto, Pérola falou sobre como seu avó — o senhor da pintura — transformou um mercadinho de bairro em uma marca com presença em sete municípios. Também exaltou o comprometimento de cada um dos mais de 1000 funcionários, sem os quais a empresa não teria ganhado o prêmio de melhor rede varejista do interior de Minas. Por fim, desejou sucesso aos jovens e instruiu:
— Foquem nos seus objetivos e não se deixem desviar. O caminho vai ser difícil, mas a conquista sempre vale a pena.
Outra salva de palmas se seguiu enquanto Matheus pressentia reviver esse momento em loop infinito todas as noites antes de dormir pelos próximos 10 anos.
Ele chamou uma CEO/nepobaby/rica para visitá-lo na feira de artesanato da cidade.
Um dia, isso seria uma situação divertida para contar numa roda de amigos. Hoje, Matheus manteve os olhos no chão quando Pérola saiu do auditório. Fosse qual fosse a expressão dela, ele não queria ver.
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