A conquista de Pérola
3 Segundo
O celular vibrou repetidamente sobre a mesa de Pérola a cada nova mensagem de Rubi. Seja lá o que sua irmã mais nova estivesse falando, decidiu enviar um áudio por frase.
Pérola afastou os óculos de leitura das vistas cansadas e pegou o aparelho temendo o motivo da enxurrada de mensagens. Com Rubi, sempre se esperava o inesperado. Uma viagem de moto pelo Deserto do Atacama, um curso de ourivesaria em Lisboa, um tórrido romance com o artista do momento; as possibilidades eram várias, e todas acrescentavam um item à longa lista de razões para se preocupar com a Paz e Guerra do meio.
Doze mensagens de voz até que eram uma média aceitável — se tratando de Rubi. Indicava que nenhum desastre aconteceu ou estava para acontecer.
Pérola recebeu setenta e sete chamadas da mais nova quando esta decidiu largar a faculdade de medicina, no quinto período, para investir numa carreira em arquitetura. No fim, entre arquiteta e médica, Rubi se tornou aprendiz em uma joalheria da cidade. Estava feliz, e Pérola torcia para que isso bastasse.
Clicou nas duas últimas mensagens preparando suas técnicas de irmã mais velha para entender o contexto do monólogo.
“A vó reclamou três mil e novecentas vezes, fala pra ela que vou passar a semana toda em casa pra compensar.”
“Ô, Lola! Guarda cocada pra mim, fia! Vou chegar segunda com abstinência de açúcar. Se comerem tudo, vou ficar chateada!”
A partir disso, Pérola poderia deduzir... Sua avó gostava que a família se reunisse em casa, na roça, nos domingos para o almoço. Rubi gostava de viajar nos fins de semana para qualquer destino que oferecesse adrenalina e diversão. Se a avó estava zangada com Rubi, o motivo seria outra das viagens errantes da neta, o que deixaria mais uma cadeira vazia à mesa do almoço. Sendo assim, segunda-feira de manhã Rubi apareceria na porta de Pérola pedindo comida e descanso antes de migrar para a zona rural.
Satisfeita com a conclusão, Pérola gravou um áudio:
— Liga pra vó na hora do almoço pra ela ficar tranquila. Vou deixar a casa arrumada pra você, mas não prometo guardar nada. Sabe que a Ágata come tudo antes que eu possa separar... Se cuida, espevitada!
Mensagem enviada. Hora de se preparar para o fim do expediente.
O dia tinha sido produtivo. Acertara os termos da renovação de contrato com a Itambé; o conteúdo publicitário da próxima semana já estava pronto para divulgação, e os preparativos para o lançamento do e-commerce no fim do ano seguiam dentro do cronograma. Estaria satisfeita com seu rendimento se não houvesse um incômodo latejar martelando-lhe as têmporas. Cada pulsação lembrando-a de que tinha um assunto pendente.
Desligou o computador, pegou a bolsa e saiu para o silêncio da administração pós-horário comercial. Quase todos os escritórios já estavam apagados e trancados; alguns ainda recebiam o tratamento da equipe de limpeza. O som dos saltos de Pérola ressoou no ambiente, trazendo memórias da época que passava dias sonhando em ser exatamente o que se tornou: a presidente do Ibituruna.
Na quietude da área social, parou diante dos quadros do avó e do pai.
Vinte anos atrás, parara neste mesmo ponto ao lado da mãe. Não passava de uma criança ansiosa para pertencer ao clubinho fascinante dos executivos. A empresa era uma espécie de playground — um no qual nenhuma de suas irmãs queria brincar. Sua mãe lhe plantara a certeza de que sonhos se realizavam e, no fim das contas, estava certa. Mas viver um sonho era bem diferente de sonhar.
Pérola se deu conta disso três dias atrás, ao estar ali com um professor do ensino médio.
As responsabilidades e cobranças do mundo dos adultos afogaram suas fantasias infantis. Nos oito meses desde a ascensão ao topo da hierarquia da empresa, nenhuma única vez pensou nos quadros desta pequena área de descanso. Por que pensaria? Tinha coisas mais importantes a fazer do que massagear o ego da Pérola criança.
Contudo, Pérola criança estivera ali ao lado da mãe, sonhando com uma pintura que parecia quase impossível de conseguir.
Pérola adulta estava ali sozinha, mas só precisava encontrar um pintor.
E já tinha um em mente.
À primeira vista, Matheus aparentou ser um adolescente perdido nos corredores da administração. Culpa da aura de juventude que resplandecia em seus grandes olhos escuros. Entretanto, bastou uma conversa para descobrir que esta imagem juvenil ocultava uma inteligência aguçada, própria de um homem capacitado para fazer um trabalho decente.
Pérola gostaria de trabalhar com esse homem.
***
A Praça dos Pioneiros ficava no centro de Governador Valadares, próximo à Prefeitura e à Rodoviária Municipal. Em épocas festivas, ganhava decorações especiais — árvores de Natal, ovos de Páscoa, balões de São João. Em meados de maio, a decoração se limitava aos velhos postes de luz e às árvores mal podadas. Na maioria das noites, o local ficava entregue aos moradores de rua. Às quintas-feiras, barraquinhas de artesanato e de comida de rua coloriam o cenário cinzento.
Pérola não visitava aquela feira desde a adolescência, quando vó Glória desenvolveu uma obsessão por panos de prato com barradinhos de crochê. Atualmente, a quantidade de barracas era bem menor, assim como a de frequentadores. Um pula-pula fazia a diversão das crianças enquanto o bar da esquina oferecia música ao vivo. O clima geral era de uma tranquilidade quase monótona, embalada por uma interpretação desafinada de canções da Marília Mendonça.
Seria um bom lugar para passear com a família.
Um dia.
Quando estivesse de férias, talvez.
Em uma barraca de artigos bordados, Pérola perguntou sobre o pintor carioca. Sem precisar de mais explicações, a bordadeira a direcionou para o outro lado da praça, onde uma barraquinha de listras brancas e amarelas estava recheada de pinturas.
Telas grandes e pequenas; coloridas ou monocromáticas, retratando paisagens, animais ou figuras abstratas. As obras transpiravam uma beleza arrojada, moderna e atraente. A variedade atenderia a um amplo número de gostos e estilos, tudo o que faltava era uma pessoa para atender os clientes.
Da barraca ao lado, uma senhora falou:
— Fica à vontade, moça. Ele já tá vindo, foi só comprar um pastel.
Pérola franziu o cenho. Aquela não parecia a melhor técnica de vendas.
Conferiu a hora no relógio de pulso. Planejava resolver essa questão a tempo de ir para a academia. Se não se atrasasse, conseguiria ler o relatório do diretor de finanças ainda hoje e dormir antes de meia-noite. A perspectiva de planos frustrados despertou uma onda de impaciência.
Esperaria cinco minutos e só.
Com os braços cruzados, observou mais atentamente as pinturas. Não possuía bagagem técnica para analisá-las, mas seu senso estético dizia que o artista era bastante talentoso. Em uma das telas, o cenário urbano ganhava vida e movimento, com carros e pedestres circulando tão rápido que suas formas se misturavam às sombras da rua. No meio do caos, uma árvore de contornos nítidos espalhava galhos cobertos por flores de um amarelo brilhante.
Pérola inclinou-se para mais perto. Quanto mais olhava, mais detalhes captava: uma pessoa com fones de ouvido, o semáforo vermelho, o letreiro de uma loja, o céu nublado, as estrias da casca da árvore...
— Pérola?
Ela virou-se com um sobressalto. Matheus a encarava a três passos de distância. Um sorriso simpático se estendeu pelo rosto dele, evidenciando as adoráveis covinhas nas bochechas.
— E aí, tudo bem? Não esperava te ver por aqui.
— Olá, Matheus. — Ela deixou-se perder alguns segundos para apreciar a despojada serenidade da aparência dele.
Seus cabelos emolduravam o rosto como um sol nascente, irradiando mechas em todas as direções. Pareciam negros sob a luminosidade dos postes, mas ela sabia que eram castanho-canela, com claras nuances acobreadas. Vestia uma camisa branca simples e jeans rasgados no joelho. Em uma das mãos, carregava uma sacola se papel manchada de gordura; na outra, um copo grande do que deveria ser caldo de cana. No braço esquerdo, os riscos de uma tatuagem espreitavam a borda da manga da camisa. Pérola parou ali, nunca lhe ocorrendo que ele possuía tatuagens.
Voltou seu foco para a tela.
— O que essa pintura significa?
Ele se posicionou ao lado dela. Exalava um perfume amadeirado, tão refrescante quanto seu tom de voz ao indagar:
— O que você acha que significa?
— O pintor é você.
— A coisa mais divertida na arte é descobrir o efeito que ela tem sobre nós mesmos. O que eu penso sobre essa pintura não é mais interessante do que o que você pensa.
Pérola procurou palavras para definir a imagem.
— A rua parece um lugar impiedoso, como se prendesse as pessoas nesse ritmo frenético e cansativo. Mas a árvore permanece firme, inabalável. É como se estivesse determinada a seguir o seu próprio tempo.
— E o que isso significa pra você?
— Força. Resiliência. Autodomínio.
— Que árvore poderosa, hein?
Pérola o observou pelo canto dos olhos. A fisionomia dele transbordava diversão. As marquinhas nas bochechas permaneciam presentes. Como alguém convivia com um rosto tão apalpável? Nem mesmo ela era imune ao desejo de estender a mão e conferir se a carne era macia apesar da barba áspera em sua pele.
— Então, o que significa pra você? — ela perguntou.
— Depende do dia. Às vezes, é uma crítica ao sistema capitalista que escraviza o ser humano e degrada a natureza. Outras vezes, é só uma vista legal da janela do meu quarto.
Pérola escondeu um sorriso na palma da mão. Tinha que manter em mente o porquê de estar ali, em uma feira de artesanato, em plena quinta-feira, analisando pinturas com um homem estranhamente atraente... Por motivos profissionais, claro.
— Matheus, estou precisando dos serviços de um pintor. Está disponível?
— Claro, é só dizer o que precisa.
— Um retrato — disse, e um calor invadiu o seu peito. Ecos da menina que fantasiara com aquilo a vida inteira. Seria a primeira a admitir a infantilidade do desejo, mas não se obrigaria a rejeitá-lo. De qualquer forma, estava em seu direito. Era a CEO agora. — O Ibituruna tem a tradição de eternizar seus presidentes com um retrato, aqueles que você viu na sede. Quero fazer o meu.
— Ah, é verdade. Você é a presidente... — Matheus desviou o olhar para o chão, as covinhas deixaram de enfeitar suas bochechas. — Falta o seu quadro na parede.
Ela meneou a cabeça. O tom dele soou desanimado.
— Você não faz esse tipo de trabalho?
— Sim, sim, eu faço. — Com movimentos ágeis, guardou o pastel e o caldo de cana no cantinho da barraca. Tinha algo de vago em sua expressão, algo que nublou a graça divertida de seu semblante. — Você quer um retrato no mesmo estilo dos outros dois? Por que não fala com aquele artista? O cara é muito bom.
— O nome dele é Eusébio Ferreira. Faleceu há alguns anos. Olha, se você não estiver disponível, eu vou entender.
Matheus abriu um sorriso que não alcançou os olhos.
— Pode contar comigo.
Apesar das palavras, havia um distanciamento nele. E Pérola podia imaginar a razão por trás disso. Ser a presidente de uma grande empresa, herdeira de uma família abastada e mulher com mais de um e setenta de altura, às vezes, era demais para as pessoas lidarem — principalmente os homens. Não que ela ligasse para o que os outros pensavam, mas... seria muito querer que Matheus não se intimidasse?
Suspirando por dentro, ela prosseguiu com a conversa.
— Por onde começamos?
— Me passa o seu telefone. Vou te enviar um questionário para entender melhor o seu pedido. Depois, podemos marcar um briefing para repassar os detalhes.
Muito eficiente, Matheus salvou o número dela e, logo em seguida, enviou o link de um formulário. Com base no tamanho das pinturas dos outros presidentes, informou uma faixa de preço e suas formas de pagamento. Cobrava 20% de adiantamento e disse isso sem hesitar. O prazo médio de produção era de três semanas.
Pérola apreciou as informações claras e precisas, porém o comportamento excessivamente profissional gerou um pinicar de desconforto. Boa parte do encanto de Matheus residia na personalidade leve e descontraída. Vê-lo manter as mãos rígidas dentro dos bolsos e evitar contato visual a irritou.
— Te envio o formulário no fim de semana. Quando pode começar o trabalho?
— Assim que tiver todas as referências. E o adiantamento.
Pérola aquiesceu, conferindo o relógio. Esta tarefa fora cumprida e ainda estava dentro do horário de funcionamento da academia. Restaria os relatórios financeiros, mas poderia lê-los durante o jantar. Na solidão de seu apartamento, ninguém julgaria seus maus hábitos.
Só faltava uma coisa...
— Eu vou levar — disse, indicando a pintura da árvore na rua.
***
Matheus permaneceu parado no mesmo lugar muito depois de Pérola desaparecer entre as barracas da feira. Desfilando em um elegante conjunto de blazer e calça, ela levou uma pintura e todo o sossego do pintor.
Ele fizera um esforço ativo para esquecê-la. Era uma completa idiotice perder longos minutos do dia pensando na pele castanha cremosa e nos reflexos dourados dos olhos. E, quando pensava nos olhos, lembrava da boca torcendo-se em um sorriso afiado. E, se não se distraísse com a boca, era com o corpo, feminino e longo, com pernas quilométricas que se apoiavam em saltos altos. Recordar os saltos interrompia suas divagações, afinal, do que lhe adiantava aquilo? Ela estava fora de alcance.
Até que não estava mais.
Pérola veio para a feira de artesanato. Veio encontrá-lo. Por um momento, o conceito se estabeleceu na cabeça dele como o início de um capítulo inesperado e fenomenal de sua trajetória nessa terra. Então, ela encomendou uma pintura e ele se lembrou do que não deveria esquecer: CEO do Ibituruna, herdeira rica, simplesmente inalcançável...
Matheus quase desejou ter recusado o trabalho. Dedicar horas à imagem de Pérola não ajudaria a apagá-la de sua mente. Contudo, um dinheiro extra era sempre bem-vindo. Se a experiência rendesse um coração partido, pelo menos teria grana para sofrer na praia durante as férias escolares.
Carros corriam pela avenida em frente à praça, tão rápidos quanto os sentimentos em seu peito. No céu, uma lua minguante despontava entre nuvens azuladas. Mais uma vez, sem permissão, Pérola ocupou seus pensamentos. Linda e imponente, bagunçado a vida dele sem nem perceber.
Matheus sorriu para sua própria estupidez. Quem mais, no mundo de hoje, se apaixonava à primeira vista?
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