A coisa
1 A Coisa
Dormia tranquilamente como fazia todas as noites, ou pelo menos, nas que conseguia. Seu gato de 19 anos dormia junto com ela na cama, num formato engraçado que parecia uma coxinha.
O felino havia acordado de supetão, observando sem parar um canto do quarto. Tão de supetão que acordou a garota.
— Oreo, meu filho. Que porra tu tá olhando? – disse enquanto olhava para o gato como se o felino estivesse completamente fora do tom da realidade.
A garota de cabelos claros lembrou-se de algo que leu em algum blog veterinário aleatório: “gatos olham pra parede, procurando um mosquito ou algum inseto pequeníssimo pra nossa visão”. Ao mesmo tempo lembrou de outra coisa de algo que sua avó falava “Gatos podem ver coisas de mundos que nós não conhecemos. E pode nos proteger delas, minha querida”. Seja lá como fosse, estava sonolenta demais e com preguiça demais pra pensar no que tivesse acontecendo e só voltou a dormir.
No outro dia pela manhã acordou e tomou suas pilulas para cólica. Escovou os dentes, tomou seu café, limpou a areia do gato e colocou comida nova. A rotina que tinha desde seus 12 anos.
Algo ainda pairava sua mente, o fato de Oreo ter aquela atitude diferente. Como todos os gatos olhava para a parede sem motivo, mas aquilo parecia… fora do normal.
Independente de quão preocupada estive com o que aconteceu na noite anterior, tinha que tratar suas fotos pra um cliente insuportável. Sua felicidade era que trabalhava em home office e poderia simplesmente abrir o notebook e realizar seu trabalho.
Fez o que tinha de fazer naquele dia: tratou fotos, respondeu e-mails, marcou algumas sessões de fotos. Tudo corria normal.
Após o dia de trabalho tomou o seu merecido banho de descanso se jogou na cama de lençóis recém lavados e assistiu alguns episódios de Vikings no Netflix. Acabou cochilando no meio da série e assim que acordou de seu cochilo fechou o notebook, o colocou no chão ao lado da cama. Oreo estava como de costume, deitado ao seu lado. Fez carinho no felino e dormiu.
Quer dizer, dormiu até o felino acordar de supetão novamente. Dessa vez parecia mais inquieto que da ultima. Ela acordou e olhou pro canto da parede. Enxergou uma silhueta humana, em boa forma e com cabelos arrumados; sentiu um arrepio percorrer seu corpo todo, mas piscou forte recitando um mantra mental e voltou a dormir.
A rotina se repetia: trabalho, banho, série, fazer carinho no Oreo e dormir.
E o problema estava exatamente na parte do dormir. O gato estava acordando todos os dias assustado, logo voltava a dormir mas estava sempre alerta, daquela maneira que somente os gatos conseguem fazer. Ela de outro modo, via aquela sombra assustadora se tornando cada vez mais real e cada dia mais, tinha menos tempo para dormir, ficava olhando aquilo fixamente. Era engraçado como a curiosidade humana as vezes beirava a burrice. Tinha medo, medo demais, mas queria ver no que aquilo daria.
No primeiro dia, a coisa ganhara um terno, no segundo um chapéu, no terceiro um tom de pele salmão claro. Em todos os dias a sombra não se movia, completamente estática. E sempre que queria que ela fosse embora, piscava forte e repetia o mantra. Depois desse ato, a coisa sempre sumia.
O quarto dia foi um problema. Aquela silhueta agora deixava de ser uma silhueta e se tornou alguém. Alguém cuja o rosto não existia. Claro que existia a face, mas ela não tinha olhos, bocas, nariz e orelhas. Não havia mais cabelos ou chapéu sobre a cabeça da coisa.
Em todas as noites duas coisas eram certeza: olharia paralisada para aquilo e a coisa não se moveria. Até o dia que fechou os olhos. Não dormira nem cochilava, realmente havia piscado rapidamente, sem fazer seu mantra.
Quando os olhos se abriram, a coisa havia se movido. O coração da garota batia mais forte, a respiração eram arfadas rápidas. Aquilo tinha se mexido, e bastante. Estranhamente mantinha a mesma postura ereta.
Anteriormente a coisa estava no canto do quarto agora estava na metade do caminho para a cama. Não tinha olhos, mas é como se a coisa a olhasse. Fixamente.
A burrice humana é surpreendente, acredite. Ela piscou novamente de maneira rápida, e a coisa estava mais próxima. Se esticasse o braço pra fora da cama conseguiria tocá-la, mas algo instintivo em sua mente a impediu de fazê-lo.
Olhava a coisa, a respiração era mais calma, seu corpo ainda estava extremamente tenso. Foi então que ouviu o barulho de Oreo pulando pra cima da coisa, por sorte (ou azar), o gato acertou o pescoço daquilo. Um golpe certeiro que abriu um rasgo no pescoço da coisa, mas o sangue apenas fluía, não havia gorgolejar ou qualquer sinal de que aquela vida estava se esvaindo.
Oreo deitou-se novamente na cama, calmo. Dormiu.
Ela não, ela observava aquilo sem piscar. Via o filete grosso de sangue caindo por aquele pescoço com pomo de adão bem visível. O filete era espesso e saia muito sangue. O suficiente para lotar a gola do terno e a camisa branca. Mas aquilo se mantinha imóvel.
Os olhos estavam já cheios de lágrimas dado ao tempo sem piscar, e teria que piscar. Segurou o máximo que pôde, mas mesmo assim era completamente inútil. Piscou o mais rápido que conseguia.
A coisa agora estava com o rosto próximo do da garota. O sangue pingava na cama. Ela estava paralisada de medo. Sua bexiga havia se esvaziado por conta própria.
O sangue da coisa pingou não só na cama, mas nela também. Essa gota de sangue a fez levantar de maneira tão rápida que por um segundo parecia uma acrobata treinada. A coisa permanecia parada, estática, sangrando.
O gato não parecia mais preocupado, dormia tranquilamente, como se soubesse que havia segurado a vida de sua dona e a própria. Animais não tem essa curiosidade burra que nós temos.
A garota aceitou que não teria como afastar aquilo e que a única forma de tentar vencer essa coisa era fechando os olhos novamente. Fechou os olhos, por mais de 30 segundos.
Nada. Nem uma mão estranha. Nem uma gota de sangue. Absolutamente nada.
Abriu os olhos. Com aquele tremor dos músculos, ou atacaria ou se defenderia se fosse necessário. Nenhum dos dois foi.
A Coisa não estava mais ali, nem o sangue. Pelo menos não na mobília. Olhou para Oreo e viu a patinha com sangue.
Sem opções, deitou-se na cama e apagou devido ao cansaço. Não tinha coragem de se lavar, mesmo que toda urinada.
Só queria descansar. E o fez, dormiu tranquilamente por mais de uma semana.
Na segunda semana de tranquilidade Oreo foi uma última vez no veterinário, onde foi eutanasiado graças a Peritonite Infecciosa Felina somada a sua idade avançada. Era a melhor escolha que ela tinha. Despediu-se de seu velho amigo.
Seguindo ainda sua rotina depois do ocorrido, deitou-se e fechou os olhos. Pouco tempo depois os abriu por precaução. Não havia sombra.
Mal ela sabe, que as coisas são adaptáveis. A coisa a observava dormir. A observava bem de perto.
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