A cidade solitária

1 CAPÍTULO ÚNICO - A CIDADE SOLITÁRIA


Lydia estava no estoque quando ouviu alguém batendo na porta, ela se virou imediatamente e se deparou com Vinicius parado entre os batentes.

— Como vai a contagem? — Ele perguntou.

Vinicius era um homem negro na faixa dos 50 anos, os seus cabelos e a barba eram curtos e já estavam brancos.

— Muito bem, vamos ter reserva depois da distribuição — Lydia respondeu levantando a prancheta que estava em suas mãos.

— Isso é ótimo — Ele torceu os lábios em satisfação — Mas nós dois precisamos conversar.

Lydia respirou fundo. Ela sabia sobre o que era.

Vinicius esticou a mão indicando duas caixas de madeira, convidando a jovem de cabelos descoloridos a se sentar.

— A sua prima não aparece na colheita já tem três dias — Ele começou — Ela disse que estava doente, mas acabei de passar na frente da cabana e ela me parece muito bem.

— As meninas da cabana também andaram reclamando — Lydia completou — Me disseram que ela não ajuda na limpeza e costuma deixar tudo jogado, além de pegar o que não é dela, por conta disso estão separando os alimentos e escondendo.

Lydia respirou fundo novamente e esfregou os olhos com as mãos.

— Você sabe muito bem como funcionam as coisas aqui, sabe que todos aqui colaboram para que tudo funcione bem — Vinicius colocou a mão no ombro de Lydia — E sabe muito bem que não é justo ela receber o mesmo que todos sem fazer absolutamente nada.

— Eu sei, já tentei conversar com ela, mas ela é uma pessoa difícil de compreender as coisas — Lydia respondeu — Tudo sempre foi do jeito dela e sobre ela, se ela não for o centro do mundo, o mundo acaba.

— Acontece que o mundo acabou e ela sabe disso — Vinicius se levantou — Entendo que quando levantamos o muro as coisas complicaram, no começo, todos levaram um tempo para se adaptar, até mesmo você, mas em um ano você se mostrou uma das pessoas mais solícitas e eficientes da cidade toda, e aos poucos todos foram, com exceção dela.

Lydia se levantou.

— Vou falar com ela novamente.

A jovem que estava na faixa dos 20 anos seguiu então o caminho para a cabana, passando pelas ruas que estavam gastas e pelas pessoas que trabalhavam.

Um pouco mais de cinco anos antes, uma doença se espalhou, no começo ninguém levou a sério e não questionaram quando os corpos começaram a ser queimados, mas chegou em um ponto que não conseguiam mais esconder do resto do mundo que estavam queimando pois os mortos estavam se levantando. Neste ponto já era tarde demais. Ocorreu uma corrida científica para se criar uma vacina, e quando ela foi feita, vacinaram o maior número de pessoas que conseguiram e as colocaram dentro de uma cidade onde os muros estavam sendo erguidos em volta do laboratório enquanto o resto do mundo acabava. Começaram a chamar aquele lugar de cidade solitária e uma pequena sociedade se formou, onde todos tinham que colaborar de alguma forma para que tudo pudesse caminhar bem.

Lydia conseguiu ser vacinada, assim como a sua prima, mas o restante da sua família já havia adoecido. Elas só tinham uma a outra. Flavia, a tal prima, ficou em estado de choque por meses, enquanto Lydia decidiu que se não ocupasse a cabeça iria enlouquecer, então se ofereceu para usar seus conhecimentos em administração e logística para ajudar no estoque de alimentos e na sua distribuição. Porém Flavia, após sair do estado de choque, pulava de função em função, muitas vezes ficando semanas sem colaborar.

A jovem respirou fundo quando chegou na porta da varanda e implorou por paciência, e após três batidas, Flavia deixou a prima entrar.

— O que foi? — Ela reclamou.

— Precisamos conversar — Lydia disse, se sentando em uma cadeira — De novo.

As cabanas da cidade eram simples, mas aconchegantes: a maioria eram feitas de madeira e tinham apenas um grande quarto, cozinha e banheiro. As famílias que conseguiram ir junto para a cidade, puderam ficar em uma cabana, os demais viviam em cabanas comunitárias, que assim como a cidade, todos tinham que colaborar. Lydia, por trabalhar na distribuição de alimentos e muitas vezes precisar fazer a contagem logo pela manhã, decidiu morar em uma cabana mais próxima do estoque e longe de sua prima, e ao ver que Flavia tirou o lençol da cama ao se sentar, notou que tomou a decisão certa.

— Vieram reclamar de você para mim — Lydia começou, vendo Flavia revirar os olhos — Eu sei que não é fácil viver do jeito que vivemos, mas se você não cumprir a sua função e isso tem atrapalhado.

— Eu não gosto da colheita — Flavia respondeu, olhando as unhas.

— Não é questão de gostar, você tem que fazer alguma coisa, todos fazem a sua parte, e já passou da hora de você fazer a sua.

— Você ser um ano mais velha não te torna a minha mãe — Flavia debochou.

— Sua mãe está morta — Lydia respondeu e Flavia arregalou os olhos.

Lydia se ajeitou na cadeira e cruzou as pernas.

— Os primeiros meses também foram difíceis para mim, mas, Flavia, são 5 anos morando aqui e tudo o que eu ouço é reclamação, você não gosta de ajudar.

— Eu não gosto da colheita — Flavia repetiu.

— Você não gosta de nada! — Lydia esbravejou — Não gostou de trabalhar na limpeza, não gostou de trabalhar no salão, não gostou de trabalhar no estoque, você entende que não tem mais nada além do muro, além de zumbis que querem devorar a gente? E que só estamos aqui porque tomamos a vacina, se não iríamos estar trancadas do lado de fora com eles?

Lydia se levantou.

— Amanhã você vai voltar para a colheita, você goste ou não — Ela disse antes de dar as costas a Flavia — E também ajude as suas colegas de cabana e pare de roubar as coisas delas.

— Se não o que? — Flavia questionou, irritada.

— Se não eu não vou te dar a sua parte de comida desta semana.

— Vocês comunas são engraçados — Flavia disse, fazendo Lydia parar.

— O que?

— Vocês comunistas — Flavia tornou a dizer — Vivem dizendo que todos devem ser iguais, eu deveria receber a minha parte sem ter que trabalhar igual a todo mundo.

Lydia virou para Flavia e tentou processar o que ela havia acabado de falar.

— Comunistas? — Foi tudo o que ela conseguiu falar.

— É.

— De onde você tirou isso? — Lydia estava indignada.

— Porque eu não sou tratada como todo mundo?

— Porque diferente de todo mundo, você não quer colaborar — Lydia explicou, indignada — É por isso que eu vou te punir, se o mundo não tivesse virado do avesso, se você não fosse trabalhar, você não iria receber o seu salário.

— Mas vocês comunistas…

— NÓS NÃO SOMOS COMUNISTAS — Lydia interrompeu com um grito — Meu Deus, quem te ensinou essa palavra?

Lydia respirou fundo.

— Deixe eu desenhar para você: todos aqui fazem a sua parte, até as crianças, e todos recebem alimento e quaisquer suprimento de acordo com a sua necessidade, isso não é igualdade, é equidade, e nem sempre podemos fazer isso por nem sempre tem o suficiente, e pela segunda vez nós vamos ter um estoque reserva graças a colaboração de todos, e graças a você também, pois esse estoque vai ser maior porque eu não vou te dar a sua parte da semana.

Flavia bufou em deboche.

— É assim? — Lydia perguntou.

Flavia seguiu com a cara de deboche.

— Ótimo.

Inesperadamente, Lydia saltou para cima de Flavia e começou a arrastá-la para fora da cabana enquanto ela gritava. Lydia seguiu arrastando a sua prima pela rua enquanto todos olhavam, mas não faziam nada para ajudar a garota que gritava por ajuda.

Nos muros da cidade haviam guaritas e coberturas de concreto por onde os seguranças ficavam andando para garantir que os zumbis não se aproximariam muito, e foi pela escada que dá acesso a cobertura que Lydia arrastou Flavia, fazendo-a a ficar na beira do muro, encarando o mundo que havia acabado.

— Deixa eu te explicar de novo, já que você não entendeu — Lydia estava com a voz bem macia — Todos aqui colaboram para ter o que tem, todos recebem graças ao seu trabalho duro de ajudar a manter essa cidade, se você não aparecer amanhã na colheita para fazer a sua parte, eu não vou apenas te deixar uma semana sem comida, eu vou te jogar para fora deste muro, que caso você não tenha notado, não tem acesso pelo lado de fora, e você vai virar petisco de zumbi, está entendendo?

Flavia estava com os olhos arregalados e com a respiração ofegante. O chão do lado de fora era repleto de sangue e carne podre, e enquanto Lydia a ameaçava, um dos seguranças atingiu uma flecha em um zumbi que se aproximava.

— Não precisamos de inúteis, está me entendendo? Ou você colabora, ou eu te jogo lá fora, entendeu?

Flavia assentiu com a cabeça e em resposta Lydia a puxou de volta para a escada, quase jogando-a para baixo.

— Colheita, amanhã bem cedo. — Lydia disse antes de ir em direção ao estoque.

Na manhã seguinte, Lydia estava preparando as cestas de cada cabana quando Vinicius entrou.

— Ela foi para a colheita — Ele deu a notícia — Mas por favor, não ameace mais ninguém daquele jeito.

— Ela precisava.

— Eu sei.

Vinicius riu antes de sair e deixar Lydia com o estoque, enquanto Flavia trabalhava na colheita.

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