A caçadora de ilusões
1 Annete Butzke
Estou viva há dezoito anos, mas, isso já faz um tempo. Nasci em Berlim, na Alemanha. Entretanto, me mudei para o Rio de Janeiro quando tinha apenas três anos de idade. Meus pais eram empresários, vieram para o Brasil abrir uma filial da empresa (que inclusive possui o mesmo nome da família Butzke) e hoje estão mortos. Moro sozinha num apartamento em Copacabana e iniciei a faculdade de medicina na UERJ. Esses dados são irrelevantes, até porque o intuito dessa história não é falar sobre o que sou e sim o que faço.
O despertador revelava-me que eram 10h da manhã e o sol já pairava forte sob os turistas que se banhavam no mar carioca. Abri uma fresta da cortina e pude sentir o mormaço daquele lugar o clima era seco demais. Cheirava a pó.
- Guten tag, Jonas. — Ao sair do quarto, pude ver meu motorista tomando café e lendo o jornal na mesa com uma grande variável (desnecessária) de alimentos. Até que ele é um cara bonito, bem vestido e estiloso. Se não fosse meu motorista, eu até pensaria que ele era algum tipo de empresário.
- Opa, bom dia Srta. Annete. — Ele se levantava tentando ajeitar o terno completamente desastroso.
- Eu estou sem fome, mas quando terminar o café, será que poderia me levar até a livraria?
- Claro, senhorita! Já terminei. Te aguardo no carro.
- Tudo bem.
Ele pairou seus olhos verdes sob os meus por um momento e saiu numa pressa constrangedora. Não sou o tipo de pessoa que maltrata ou judia dos empregados, mas eu acabara de fazer dezoito anos e de acordo com as leis, eu ainda não podia dirigir. Consequentemente, dependia do Jonas. Mas ele era um cara legal e sempre fazia tudo o que eu pedia com bastante proatividade.
Não sirvo para ser patroa de alguém. Não gosto muito da ideia de mandar em pessoas, afinal, elas possuem livre arbítrio para quê se viverem fazendo o que outras pessoas pedem? É uma ideologia capitalista barata. Eu não ligo muito para dinheiro, sempre fui bem generosa, ao contrário de meus pais. Mas também não sou o tipo de pessoa que leva desaforo para casa. Sei o meu lugar e não arredo o pé.
Ainda estava com a cara amassada e de pijama, então tomei logo um banho para me livrar dos odores de noite passada. Era um novo dia, logo, eu precisava estar preparada. Era o primeiro dia de faculdade, eu precisava comprar alguns livros que iria usar durante os 6 anos de curso. Estava animada, mas nunca demonstro demais meus sentimentos "bons".
Deixei a Rosa, minha empregada, cuidando do apartamento e entrei no elevador. Havia uma senhora de idade segurando seu pequeno poodle branco. Ela esbanjava arrogância. Aquele cheiro embrulhava-me o estômago. Era o tipo de pessoa da qual eu nunca me alimentaria. Não trocamos uma palavra. Não que eu não seja educada, mas de pessoas como aquela senhora, eu preferia o mínimo de contato possível. Soberba é um vírus que infecta o ser humano de uma forma mais rápida que o piscar de olhos.
Entrei no carro, Jonas deu a partida e seguimos em direção à livraria.
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