Cassie

Tens que matá-lo. Tens que matá-lo. Repeti-o para mim mesma milhares de vezes na esperança que eu entende-se que era algo que eu tinha que fazer e que não podia simplesmente virar as costas.

Tens que matá-lo. Tens que matá-lo.

Eu era uma caçadora e o meu dever era matá-lo de uma forma cruel e fria sem nenhum pingo de bondade ou bom senso. Mas o meu dever não significava propriamente que o quisesse fazer.

Ele estava mesmo á minha frente. Bastava pegar na minha arma e disparar um único tiro, seguidamente, ele morreria e eu deixaria de estar presa a um momento do passado que tanto se fazia presente nos meus dias.

“Nem todos somos monstros” esta frase ecoava na minha cabeça fazendo-me relembrar o meu passado. Não tinha a capacidade de saber quais o eram e quais não os seriam de todo; a ordem que eu tinha era de matar – matar todos aqueles que cruzassem o meu caminho.

— Estás á espera de quê? – Perguntou. A sua voz suava fria, abatida e surpresa. Os seus olhos encontraram os meus no meio da escuridão e achei que teria visto um sorriso no seu rosto.

Coragem! Pensei. Peguei na minha arma e apontei-a para ele. Fixei o meu alvo – o seu coração. Monstros não o teriam. Mas nem todos o eram… Tinha-o na mira. Era só disparar e em questão de segundos tudo acabaria.

— Uma caçadora sem coragem de me matar… – A sua voz agora soava com um tom heroico e convencido.

— Não me queiras ver tentar… — Respondi.

Avançou rapidamente para mim. Aproximou-se tanto que eu conseguia sentir o seu hálito nojento. Tocou com um dedo no meu rosto e deslizou-o até ao meu pescoço.

Senti-me assustada, perdida e como se aquele fosse o meu fim. Em tempos eu tivera passado pela mesma situação mas tinha sido salva mas, agora, talvez não fosse. A sorte não é algo que acontece todos os dias na vida de uma simples caçadora.

Quando pensei que ele me ia morder e eu iria acabar por morrer heroicamente na mais mãos de um vampiro que era suposto eu ter morto assim que o visse, ouvi um tiro e aquele monstro caiu aos meus pés.

Olhei para trás. Eram o Guy e a Terry. Sierra e Finn estavam logo atrás caso um deles falhasse. Guy baixou a sua arma e sem olhar para mim virou as costas. Finn e Sierra correram para mim.

— Cassie estás bem? – Perguntou-me Sierra abanando-me pelos ombros enquanto Finn examinava o meu pescoço.

Eu não respondi. Apenas observava Guy indo-se embora sem se preocupar comigo. Não, ele preocupava-se, eu é que tinha falhado mais uma vez.

Terry aproximou-se afastando Sierra e Finn de mim chamando-os de “Irmãos Patéticos” e pedindo para falar comigo. Não a achava nada simpática com eles, aliás, com ninguém para além de ela mesma.

Agarrou-me pelo braço e afastou-me ainda mais de ambos que a olhavam de sobrancelha franzida.

Terry mantinha a sua pose de arrogante, despreocupada com o que eu tinha feito mas eu sabia que até mesmo ela não queria que eu fosse expulsa, que todos ficassem prejudicados pelo meu problema. Terry era assim. Arrogante, fria, manipuladora mas quando sentia que ela mesma estava em risco tinha uma palavra a dizer.

— Ouve lá, mas qual é o teu problema? – Perguntei quando nos afastámos.

— Isso pergunto-te eu. Porque não mataste aquele vampiro? Ele estava mesmo á tua frente! – Gritou.

— Foi tudo muito rápido… — Menti – Mal tive tempo de pegar na arma e disparar…

Mentir não era algo que eu gostasse propriamente de fazer mas se contasse a verdade não iria suportar a Terry sempre a fazer-me lembrar de todas as vezes que eu deixara um vampiro escapar ou colocara o grupo em perigo pela minha indecisão e falta de coragem – pelo meu passado.

— Oh pelo amor da minha mãezinha… Não venhas com essas desculpas para cima de mim… — Sacudiu o seu cabelo loiro e depois sorriu sarcasticamente – Nós vimos tudo. Nós íamos avançar mas o Guy disse para só o fazermos se não o conseguisses fazer ou se corresses perigo… Bem, como a primeira deu origem á segunda… aqui estamos…

— Vocês viram? – Perguntei incrédula. Agora sim eu podia dizer o que quisesse que jamais alguém acreditaria em mim. Especialmente o Guy.

— Podes crer. Por isso acho melhor pensares numa maneira de convenceres toda a gente de que foi acidental e que realmente o querias matar porque senão iram todos contar ao Alfred o que viram…

Que eu hesitei em matar um vampiro porque pensei que ele pudesse ser boa pessoa… ou Que eu deixei que um vampiro se aproximasse de mim porque achei que ele não me mataria… Nenhuma das hipóteses me ajudaria a mentir aos meus amigos quanto mais a Alfred. Suspirei.

Terry virou costas e juntou-se a Sierra e Finn que esperavam por mim, não por ela. Precisava de pensar em qualquer coisa que me ajudasse a omitir o que tinha acontecido – Eles tinham visto mas não sabiam porque não o matei – e assim Alfred talvez acreditasse. Ou não.

— Cassie! Vamos voltar para a Ordem, também vens? – Gritou Finn enquanto me acenava e me mostrava um sorriso perfeito.

Finn era um rapaz fantástico. Tinha dezassete anos mas parecia um menino de cinco anos. Era doce, amável e querido. Os seus caracóis loiros ateimavam em nunca ficar no sítio, os seus olhos pequenos mostravam a bondade que existia dentro do seu coração e da sua alma. A sua inocência de criança não se comparavam com a ferocidade com que poderia matar um vampiro. Finn era ótimo.

Acenei também e caminhei para junto deles. Finn e Terry discutiam e Sierra caminhava a meu lado falando sem parar sobre qualquer coisa como a abertura de uma loja no centro da cidade… E eu pensava em como todos os meus amigos pareciam felizes quando um vampiro era morto e eu só pensava que não tínhamos direito de o fazer. Talvez fosse eu que estivesse errada.

Ao longe avistei Guy sentado perto do muro que vedava a Ordem. Apressei-me a chegar perto dele. Precisava falar-lhe antes que Alfred o encontrasse.

Quando cheguei perto olhou para mim e sorriu-me. Não me parecia chateado mas por momentos vi culpa nos seus olhos. Sentei-me perto dele enquanto ensaiava o que dizer de modo a não mentir.

Não podes falar com Alfred porque senão ele expulsa-me e já não poderemos continuar juntos e eu prometo que aquilo não volta a acontecer.

Não. Não podia mentir-lhe.

Guy era um rapaz inteligente e achar que eu o poderia enganar com uma mentira daquelas seria duvidar dela. Teria de contar a verdade – dizer que não consegui porque qualquer coisa me fez duvidar de que aquele vampiro seria de todo mau – claro que isso foi antes de ele quase me matar.

— Cassie eu já falei com o Alfred… Contei-lhe o que aconteceu esta noite…

— Porque fizeste isso? – Perguntei.

A sua expressão de culpado juntou-se á culpa que era evidente nos seus olhos. Sabia que a culpa não era dele. Ele seguia ordens; Eu infringia-as.

— Porque é melhor assim Cassie. Porque o Alfred te pode ajudar a superar esse problema que talvez tenhas…. Mas nós não podemos continuar a proteger-te de algo que tu devias matar sem hesitar… — A sua voz era firme mas mostrava tristeza – Nós somos caçadores é isso que fazemos.

Terry, Sierra e Finn aproximaram-se.

— Vocês também pensam que eu não sirvo para nada? Que eu não sou uma caçadora? – Perguntei olhando cada um deles. Finn foi o primeiro a responder.

— Bem, a verdade é que nunca mataste um vampiro…

— E que hesitas sempre… — Sierra continuou não olhando nos meus olhos.

— Oh por favor, vocês estão com medo de dizer a verdade? – Terry cruzou os braços – Sim. É isso que pensamos. Tu não serves como caçadora nem sei como consegues ser a líder do grupo…

— Achas-te melhor? – Perguntei enfrentando-a. Claro que ela é melhor que tu! Ela mata vampiros, sabe dar ordens e decerto não pensa que os vampiros podem ser bons!

— Acho. – Respondeu firmemente – Eu mato vampiros sem hesitar, eu sou filha do dono desta porcaria toda… Eu podia ser a líder só com um estalo de dedos…

— Bem… Isso não seria bem assim… — Finn levantou o dedo como se fosse fazer uma observação inteligente mas Terry interrompeu-o – Finn, não interessa.

Eu olhava surpresa para os meus amigos. Nenhum parecia interessado nas minhas explicações ou em algo que eu pudesse dizer. Todos concordavam com o que a Terry dizia e como não concordar? Eram as evidências do meu fracasso que ali estavam.

— Está bem… — Murmurei – Fico contente em que tenham partilhado isso comigo livremente...

Virei costas e afastei-me sem olhar para trás. Terry tinha razão e como eu odiava quando isso acontecia. Guy parecia estar do lado dela, concordar com o que ela dissera e Finn e Sierra não me queriam magoar mas o seu pensamento era idêntico. Nenhum estava do meu lado, eu estava sozinha. Novamente, como quando tudo começou.

Desde que eu saíra do orfanato, após a morte dos meus pais, eu tinha apenas Alfred. Ele educara-me, ensinara-me a ser caçadora mas nunca passou disso – um orientador. Nunca tive hipótese de ter amizades fora da Ordem, longe de tudo que não fossem matar, apanhar e caçar vampiros, a minha vida era isto e agora ela voltara ao mesmo – só que agora a minha vida já não era isto ou eu já não queria que fosse.

***

— Cassie podes explicar-me o que aconteceu ontem á noite? – Alfred falava e batia de punho cerrado na mesa enquanto gritava comigo á frente de todos.

— Penso que já te tenham contado… — Respondi, olhando para Guy o qual desviou o olhar. Estaria arrependido? Talvez fosse demasiado tarde para isso.

Alfred semicerrou os olhos. Levantou-se e dirigiu-se a uma estante que estava ao lado da sua secretária. A estante parecia bastante antiga, apinhada de livros gigantes que eu duvidava que alguma vez tivessem sido lidos. Alfred esticou o braço e retirou um livro e seguidamente atirou-o para a minha frente. “Manual do Caçador”.

Não acreditava que ler o Manual do Caçador me fosse ajudar, afinal eu já o tinha lido diversas vezes durante o meu tempo de treino-iniciado.

— Cassandra Williams podes fazer o favor de abrir o livro na primeira página? – Ordenou aproximando-se da janela sem olhar para mim e cruzando os braços atrás das costas.

Resfoleguei. Alfred irritava-me da mesma maneira que aquele professor de matemática irrita sempre que diz que o teste é surpresa… De uma forma que faça o que fizer nós nunca iremos gostar dele a partir dai. Eu odiava Alfred a partir que ele traçara o meu futuro sem me perguntar se eu queria que ele o fizesse. Mas eu era grata por tudo o que ele tinha feito por mim então ir contra aos seus princípios fazia-me pensar que não estava a ser justa com ele. Mesmo que ele não o fosse comigo.

Abri o livro como ele me pediu – na primeira onde o título em letras enormes dizia “Razão á Frente da Emoção”. O meu corpo começou a suar como se eu tivesse acabado de ler uma carta de um admirador secreto e soubesse imediatamente de quem se tratava.

— Acho que terás que ler esse capitulo diversas vezes Cassie, por enquanto estarás suspensa das tuas atividades como caçadora. Podes sair.

Olhei para ele, incrédula. Como podia ele suspender-me assim? Não haveria algo sobre dar oportunidades no Manual ou assim? Resfoleguei e dirigi-me á porta de saída sem olhar para o meu grupo de amigos.

— Terry e os outros podem ficar. Tenho uma missão importante para vocês…

Parei. Como assim Alfred tinha uma missão para o meu grupo e eu não estava incluída? Pensei que se eu estava suspensa eles também estivessem! Não que eu achasse isso justo mas eu era a líder, eu tinha que ter algo a dizer sobre esta nova missão.

— Como assim eles – apontei na direção do meu grupo que se mantinha calado em pé em frente á secretária de Alfred – têm uma missão na qual eu não estou inserida? Nós somos um grupo…

— Não Cassie. – Alfred interrompeu-me — Vocês são acima de tudo caçadores. Grupos fazem-se e desfazem-se… E se tu não estás pronta como caçadora é com muita pena minha que tenho que mandar o teu grupo sem ti nesta missão… Espero que quando voltarem tu já estejas apta para acompanhá-los. Agora se poderes fazer-nos o favor de sair…

Virei costas. Ao sair ainda pude ouvir a vozinha irritante da Terry a dizer algo como “Eu poderei ser a líder não me importo nada!”.

Que raiva. Se a única maneira de eu ser aceite de novo no grupo e participar nesta nova missão, então eu iria jurar que iria fazer o que me pediam – iria matar o meu primeiro vampiro. Custasse o que custasse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.