A casa na colina
5 O que você quer ?
Notas iniciais
Boa leitura! ❤
A empresa já não ia muito bem há algum tempo, a venda de vinhos locais caíra com a chegada de marcas estrangeiras, além da temporada fraca para uvas. A pequena fortuna que a família fizera nos últimos anos parecia cada vez menor e Gregório era o mais novo de três irmãos, a herança não seria grande coisa. Pensar nisso tudo só aumentava a raiva que queimava-lhe o peito, casar com a filha do Marquês parecia sua saída mais agradável, ela era a única herdeira além de possuir uma aparência desejável.Gregório parou de andar, uma ideia iluminou a face do homem. Ele saiu do quarto com pressa, ia fazer uma visita a um amigo.X-----X Eleonora desceu as escadas lentamente, o sol refletia nas vidraças laterais da casa em estilo vitoriano do Marquês de Vogel. A moça caminhou até a sala com intuito de juntar-se aos pais para o desjejum, contudo um ruído de vozes masculinas chamou sua atenção; parecia vir do escritório que ficava próximo a sala de visitas. Eleonora parou por um instante, reconhecendo a voz do pai e a do Conde Hendeston, ficou tentada a ficar e ouvir o que falavam, mas os homens conversavam em voz baixa e sua educação não permitia tal atitude.O desjejum foi feito rapidamente e sem uma palavra da moça, em parte devido a mãe. A Marquesa falava dos preparativos para o baile com vivo entusiasmo, os olhos verdes brilhantes enquanto gesticulava demonstrando os locais onde os enfeites ficariam. Eleonora concordava com pequenos acenos e sorrisos. A mãe era uma mulher alegre e vivaz, o Marquês costumava dizer que bastava um sorriso da esposa para iluminar o ambiente com leveza, Eleonora concordava plenamente; lembrava de quando era criança e ficava doente, a marquesa contava histórias sobre princesas e bruxas, mundos mágicos e bailes encantadores, os movimentos usados e a mudança no tom de voz para as cenas que descrevia, tudo isso encantava a filha.— Temos que providenciar o seu vestido também. – afirmou a Marquesa encarando a filha.— Sim, já pensei em algumas coisas. Podemos ir amanhã ao centro com Cecília? — Claro! Mandei uma carta para a senhora Bentley pedindo para que Cecília viesse hoje a tarde. Preciso da opinião dela a respeito da decoração, a menina é tão boa com isso. – exclamou a Marquesa lançando um olhar pensativo pela sala. – Não ofenda-se, querida. Os olhos voltaram-se para a filha carinhosamente.— Não fico ofendida. Cecília é incrível com tais planejamentos. Muito melhor que eu. – disse Eleonora com sinceridade dando um sorriso para a mãe. — Nesse caso, assim que ela chegar daremos início aos preparativos.A porta do cômodo foi aberta interrompendo a conversa.— Desculpe- me, minha querida. A conversa estendeu-se mais do que intencionávamos. — exclamou o Marquês.— Já esperava por isso, quando homens falam de seus negócios o tempo é esquecido facilmente. – respondeu a Marquesa com um sorriso.O Marquês caminhou até a esposa depositando-lhe na testa um beijo. Não era comum um casal demonstrar afeto em público, mesmo que fosse a própria filha e um amigo, mas esta era uma das poucas convenções que o Marquês não compartilhava.—Sente- se, senhor Hendeston. Faça a refeição conosco. – disse o Marquês.— Infelizmente não poderei fazê-lo, senhor. Tenho que ir ao Porto, gostaria de começar hoje mesmo. — Ora, sendo assim faça como parecer- lhe melhor. Vejo o senhor em breve. – respondeu o Marquês chamando um criado para acompanhar o Conde até a saída.O Conde despediu-se das senhoras e Eleonora percebeu que ele deteve, alguns segundos a mais, seus olhos negros nos dela e saiu em seguida.X-----XO Porto estava calmo quando Edgar chegou na porta do escritório, o cheiro salgado e a visão azul esverdeada faziam o coração do Conde vacilar entre a beleza da paisagem e a melancolia que ela trazia ao lembrar do que o mar havia tirado-lhe.Ele entrou no pequeno escritório, um homem de cerca de cinquenta anos, de olhos pequenos e cabelos grisalhos levantou a cabeça com a entrada do rapaz, ele estava sentado em uma mesa de madeira talhada elegantemente. — Imagino que o senhor seja o Conde Hendeston, o novo sócio. — disse o homem brevemente, a voz denunciava algum desagrado.— Exatamente, senhor. — respondeu Edgar.— Pelo que sei o senhor já veio ao Porto anteriormente para assinar as papeladas da sociedade. Na ocasião não estava presente, permita que apresente-me: sou Augustus Clark, cuido da parte administrativa.
O homem estendeu a mão em um cumprimento. Os olhos castanhos analisaram Edgar.— O Marquês pediu que cedesse uma sala para o senhor. Espero que seja de seu agrado. Venha comigo por favor.— disse o senhor Clark.O homem levou Edgar para um cômodo adjacente com as mesmas proporções do anterior, com uma mesa de madeira talhada, uma cadeira do mesmo material e algumas estantes com livros sobre comércio, barcos e outros títulos que Edgar não pode identificar. Sua atenção se voltou para a janela que ficava diante do mar.— A lista de carregamento será entregue ao senhor no final do dia. Qualquer dúvida ou pedido, estarei na sala ao lado a sua disposição. — disse o homem tentando parecer simpático; mas Edgar sentiu a contrariedade em sua voz.— Certo. Muito obrigado, senhor Clark. – exclamou o Conde.O dia transcorreu tranquilamente, entre análise dos documentos de carregamentos e saídas de embarcações. O som do mar e a brisa suave que adentrava pela janela fez com o Conde Hendeston vez ou outra fosse tomado por lembranças de anos passados quando sua vida era diferente. O rapaz voltou sua atenção para os documentos e obrigou- se a focar neles até o fim do dia. Ao anoitecer chegou na casa de dois andares próxima ao centro de Monte Silene, Afonso conversava com uma das vizinhas na porta da propriedade. O Conde de Harrington oferecera a sua casa para o amigo hospedar-se até a sua estar pronta. — Boa noite! — disse aos dois assim que passou pela entrada. — Tenho que ir, minha querida! Vejo a senhorita amanhã? — disse Afonso dando um beijo na mão da moça.Ela acenou a cabeça positivamente mal contendo uma risadinha.Afonso lançou -lhe um sorriso cortês e entrou na casa.— Como foi o primeiro dia de trabalho? — Bem... tudo ocorreu como o esperado. — disse Edgar sem muito ânimo.— Por que ainda prende — se nisso ? É evidente que este tipo de trabalho não é do seu agrado. — exclamou Afonso sentando-se em uma das poltronas próxima a lareira.— É minha obrigação gerenciar os negócios da família, tudo o que meu pai construiu está em minhas mãos agora. — retrucou Edgar cansado.— Estamos falando de sua vida, meu caro. O que você quer ? Conheço-o desde pequeno e bem sei que trabalhar em um escritório com a burocracia do comércio não é o que quer. — disse Afonso encarando o amigo. — Espera que eu faça o que? — O tom de voz do Conde Hendeston tinha uma leve amargura.— Onde está aquele homem que via tantas possibilidades a sua frente ? Que foi o responsável pela criação das mais belas propriedades de Middlefalls, que foi reconhecido pela grande nobreza da cidade por suas belas pinturas ? Este homem que espero ver. — disse Afonso vivamente.Edgar fitou o amigo que ainda o encarava com aquele olhar entusiasmado.— Ele morreu, junto com os pais. — afirmou Edgar friamente e saiu do cômodo sem dizer mais nada.
Notas finais
Espero que tenham gostado. Qualquer dúvida ou sugestão é só falar. Até o próximo! ❤
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