A casa com Lepra
1 A casa com lepra
Notas iniciais
Não se pode ficar sozinho por muito tempo, ser corroído pela solidão é um processo lento, doloroso, ter a cada segundo suas esperanças arrancadas de você por uma coisa que não se pode controlar. E isso cresce e consome tudo que vê, e o que não vê, até se tornar nada. é como estar dentro de um estômago. Dentro da casa, as paredes são sempre um pouco maiores que os olhos podem ver e sempre um pouco menores do que são de verdade.
Ela pode sentir quando há parasitas dentro dela, ela pode sentir quando eles vão embora. Ela pode ter raiva, e medo, e sabe quando está sozinha. Principalmente quando está sozinha.
Quanto mais fome sentir mais o estômago cresce, e ela engole tudo que puder, mas a fome não pode ser saciada. As paredes crescem e encolhem, fantasmas aparecem, e se degradam, elas crescem com fome.
Casas são maiores por dentro do que pode fora, as vezes alguns centímetros ou metros, mas sempre maiores. Sempre, sempre, querem ser maiores, se deformam, criam portas, alongam as paredes. Os buracos são maiores que as próprias paredes.
Aquela parede está apenas a alguns centímetros de mim, quando eu vou até ela, ela se distancia por metros. A cada está me devorando, eu sei que ela sente fome. Ela me olha por trás e some quando eu olho, mesmo assim sempre está ali, naquele ponto e em toda volta ao mesmo tempo. As portas não levam aos quartos certos.
O que eu faço quando a casa me odeia? Se ela já se voltou contra mim, em quem mais eu posso confiar? As casas estão tão vivas quanto nós, e elas sentem tanta raiva.
Eu sei. A casa vai me devorar.
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