A carta nunca entregue
1 A carta nunca entregue
Mitéra, 3º dia da dióri das Fadas, ano 2 da era brilhante
Maria...
Quanto tempo, não é?
Queria poder lhe explicar tudo que aconteceu. Queria poder mandar essa carta para você, mesmo que você não entendesse uma palavra da língua que uso para escrever; só queria poder deixar para você alguma coisa que te lembre de mim.
Tanta coisa aconteceu, Maria. Queria poder te dizer que eu não morri naquela tempestade, que o mar não me afogou como você deve imaginar; o mar me salvou, não só fisicamente, mas mentalmente também. Neró me deu uma casa, uma família e uma vida nova. Eu ganhei um propósito, e encontrei o verdadeiro amor.
Estou aqui para contar uma novidade para você, que te faria muito feliz. Estou grávida, e pela segunda vez. Na verdade, você já é avó de dois – uma menina que adotamos há alguns anos, e um menino que eu gerei três anos atrás. Dessa vez é uma menina, e eu já espero que ela seja tão bonita quanto você é; eu sempre a admirei demais, sabia? Embora eu nunca a tenha chamado de mãe, era isso que você sempre foi para mim. Vocês foram os melhores pais que eu poderia pedir, e acho que eu nunca fui grata o suficiente.
Vocês me ensinaram que família não precisa ser de sangue. Vocês me adotaram, depois adotaram Marília. Junto de Thalita e dos pais dela, formamos nossa família esquisita e imperfeitamente perfeita. E eu sinto que falhei com vocês ao deixar a Terra, mas também encontrei a minha imperfeita família aqui mesmo, em Mitéra.
Minha família atual é meio doida, bem mais doida do que minha família aí na Terra. Eu tenho 4 irmãs; uma delas é brasileira, e, você não acreditaria, era a tatara-tia-avó da Thalita! A outra é francesa, Micaela é irlandesa e a Maia nasceu aqui mesmo, em Mitéra. Nós nos unimos para trabalhar para Neró, nossa mentora, amiga e parceira. Moramos juntas por algum tempo, e acabamos virando realmente irmãs – tanto quanto eu e Marília éramos. Nosso laço já foi testado algumas vezes, mas sempre superamos as dificuldades e apoiamos umas às outras.
Quanto ao Aster, meu esposo... ele é um anjo em minha vida. Lembra quando eu confidenciei para você, depois do que aconteceu, que não saberia se seria capaz de me relacionar com alguém? Bom, o Aster conseguiu me amar, mesmo depois de eu ter gritado muito com ele na primeira vez que nos conhecemos. E, depois de muito, muito tempo... eu também consegui amá-lo de volta. Eu com certeza não estaria escrevendo essas palavras se não fosse por ele.
Aster literalmente salvou minha vida.
Quando nos casamos, foi, sem dúvidas, um dos momentos mais felizes da minha vida. Mas eu senti falta de você, do pai e da Marília o tempo inteiro; consegui imaginar vocês ao meu lado. Sei que você teria aprovado minha escolha, Maria, porque não há ninguém no mundo que me completa mais do que o Aster.
Quero dizer... era meu pensamento até virar mãe.
Você sabe que esse sempre foi o meu maior sonho. Era a única pessoa para quem confiei esse segredo, esse desejo profundo. Eu e Aster tentamos por algum tempo, mas eu não conseguia engravidar; quando o orfanato perto de casa pegou fogo, nós fomos ajudar a controlar o fogo.
E foi quando conhecemos Pamella. Ela é tão parecida com você, Maria. Não só na personalidade, mas também na aparência; por muitos anos, ela foi nossa princesinha, e sua presença me fazia sentir completa. Quando engravidei de Benjamin, Pamella ficou tão feliz por ter um irmãozinho que não parou de sorrir um minuto, assim como Aster. Por mais feliz que eu estivesse, ver meu esposo e minha filha felizes era a melhor sensação do mundo.
E, três anos depois, aqui estamos, passando novamente pela felicidade mais genuína que eu sou capaz de imaginar. Mas toda hora me pergunto como seria diferente se você estivesse comigo, me dando conselhos com sua voz calma e vibrante como o sol. Queria poder assistir o nascer do sol na praia, encostar em seu ombro e sentir que minha mãe está aqui, comigo, me apoiando sempre.
Parando agora para pensar, eu nunca conheci minha família de sangue. Por muito, muito tempo mesmo, eu culpei minha mãe biológica pelo que ela fez comigo, por ter me abandonado naquela rua. Mas, hoje, sentada aqui no jardim, ouvindo o riso do meu marido brincando com meus filhos, pensando em minhas irmãs e lembrando de vocês aí na Terra, tudo o que eu sinto por essa pessoa é uma gratidão terna.
Graças à decisão dela, eu pude descobrir o que é família.
Acho que não tenho mais o que falar por hoje... fazia tempo que eu pensava em escrever para vocês, mas só agora eu consegui um tempinho no meio das minhas missões. Não vou falar sobre elas porque isso faria você surtar, já que a maioria delas quase me matou...
Muito obrigada por tudo, Maria. Por ser minha mãe, por me apoiar, por incentivar meu sonho. Tudo que tenho hoje, foi graças a você e ao Marcos. Sinto falta de vocês, cada dia da minha existência irei sentir falta.
Com muito, muito amor e muita, muita saudade,
Paula.
L.Y.N.
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