A minha vida é bem incomum. Minha mãe é uma cigana e somos os nômades do mundo atual. Mês passado eu estava na Bahia, hoje, estou no Rio de Janeiro. Nós vivemos da nossa música, dança e costumes. Cada dia é um novo dia, uma nova experiência. Muitas pessoas dizem que tenho sorte por não ter uma rotina. Mas eu lhes digo que não é algo tão bom assim. Você nunca firma um relacionamento e nem pensa em ter um trabalho fixo, uma casa ou bens materiais. É uma vida repleta de experiências, sim. Mas não a recomendaria nem para o meu pior inimigo. Quero dizer, nem fico em um lugar por tanto tempo a ponto de fazer um inimigo, enfim.

E não, eu não uso aqueles vestidos bregas ou ando descalça, apenas em shows. Somos praticamente um circo sem palhaços. Minha mãe e sua 'trupe' fazem espetáculos ciganos. Somos até bastante famosinhos. E eu, nesse caso, sou apenas a violonista. Essa foi uma das vantagens de ser de uma família de ciganos, eles pagaram seis meses um intensivo de aula teórica de violão e hoje posso dizer que possuo um talento de causar inveja. Nós não usamos dos nossos costumes para ganhar fama, dinheiro ou poder. E sim para restaurar uma boa imagem dos ciganos, há muito temos sido perseguidos por etnia, religiosos e preconceituosos.

Ficaríamos um mês no Rio de Janeiro, vivendo em nossos ônibus e trailers simplórios, sobrevivendo da nossa arte. Somos um total de cinquenta pessoas. Incluindo dançarinos, músicos, cartomantes e videntes. Minha mãe é um tipo de líder e como já deve ser percebível, ela é um tanto que... Hum... Louca?! Eu amo a minha mãe, apesar dela não saber quem é meu pai, porém ela me irrita por ser tão irresponsável. Vive tomando ácido para se "encontrar espiritualmente" e volta da viagem com uma ideia mais louca que a outra.

Já eu, sou um pouco pé no chão. Trocaria nossas viagens e shows por uma casa, um emprego chato, uma faculdade, uma rotina. Deve ser reconfortante saber que você sempre vai ter um lugar de segurança e conforto. Um lar para chamar de seu. Eu realmente gostaria de ter essa experiência. Mas não se nega a raiz, não é? Pelo menos não até completar os dezoito anos.

Havíamos acabado de chegar no litoral carioca, ainda era cedo. Passamos dois dias viajando sem parar até chegar ao Rio. Geralmente, minha mãe faz um contato com o prefeito, anunciando o show e o governo agenda eventos culturais e um espaço bacaninha para nos instalarmos. Dessa vez ficaríamos em um parque abandonado na região metropolitana do Rio. E no mesmo dia, já tínhamos um espetáculo agendado em um evento que fecharia a rua de uma livraria.

– Luna, meu amor! — Eu estava sentada na primeira poltrona do ônibus, ouvindo minhas músicas, quando minha mãe chegara me acariciando. Já estava chapada.

– Sim, mãe?

– Nós teremos show daqui a pouco, mas preciso que você, meu amor, visite a livraria e veja como está o movimento e sem tem um interruptor para que possamos ligar alguns instrumentos! — Ela sorria. Minha mãe sempre ficava boba alegre quando íamos mostrar nossa cultura em lugares grandes como o Rio de Janeiro. Aquilo era o sonho dela desde pequena, quando a mãe dela contou que ela e a avó vieram para o Brasil da Índia, quando ainda era pequena. Desde que minha mãe soubera dessa história por meio da minha avó, ela venera a nossa cultura.

Inclusive acho isso extremamente bonito e encantador, só não queria que ela me colocasse na jogada também. Não é porque venho de uma família de ciganos que sou obrigada a seguir nossa cultura. Ou sou?

– Sim, mãe... Eu irei lá, não se preocupe.

De qualquer forma, possuímos deveres e obrigações a cumprir. José, o vidente que dirigia o nosso ônibus, parara o veículo numa rua deserta. Provavelmente era esse local que ocorreria o evento. A livraria se encontrava no fim da rua e estava aberta. Desci os degraus e me dirigi à livraria.

O clima era mais quente do que eu idealizava e era a primeira vez que eu vinha para o Rio. Estava com um short, chinelo e uma blusa indiana. Eu sou um pouco morena, mas os Deuses me agraciaram com um olho castanho claro, puxado para o folha-seca, que dá um contraste na minha pele. Meu cabelo era preto e liso e ele dançava conforme o ritmo que o vento carioca conduzia. O frio na barriga que senti naquele momento me dizia que alguma brincadeira do destino estava prestes a acontecer.

Abri a porta e numa visão panorâmica procurei o gerente da livraria, mas meus olhos acabaram se deparando com outra pessoa.