Notas iniciais
Capítulo escrito ao som de Beyoncé, Chet Faker, FKA Twigs e Lana Del rey. Enjoy it!

Vrumm

O carro se foi. E com ele todas as minhas expectativas alimentadas por aquela moça branca dos cabelos pretos. Ela nem sequer olhou para trás. Me deixou lá plantada como uma estranha que com ela pegou carona. Eu fiquei ali, em pé, olhando o carro sumir no horizonte por alguns minutos. Em minha volta tudo se mexia, as pessoas começavam a chegar, me olhavam, cumprimentavam, sorriam e eu estava ali, olhando para o nada com cara de paisagem.

– Por que... — Por fim soltei, divagando em voz alta.

Deixei para pensar nisso depois e me virei para o palco, andando a direção dele, as pessoas passavam em câmera lenta, olhando para mim e eu mal as via. Ou via seus rostos. Tudo o que eu via era a Annete. Na minha mente, nos meus lábios, no meu corpo. Eu a queria e ela não dava a mínima. Ou pelo menos fingia, fugia. Talvez não soubesse lidar com isso, ou talvez o fato de eu ser uma cigana, passageira na vida das pessoas a deixe chateada. Ela era ríspida, grossa, idiota e ao mesmo tempo era carinhosa, caridosa e inteligentíssima. Eu a queria e não queria. Eu a idolatrava e a odiava. Eu a desejava e a desdenhava. Ela me fazia libertar um eu bipolar que eu não sabia que existia.

– Luna, meu amor!!!! Onde você estava, pelo amor de Gaya??

– Ah, oi mãe.

– Onde está sua cabeça, minha pequena pardal? — Ela sempre me chama desse nome. Ela diz que eu sou um pardalzinho prestes a voar.

– Está aqui, mãe.

– Quer um docinho?

Eu a olhei furiosa e ela sorriu, me dando um beijo na testa.

– É brincadeira, amor. Sei que você não gosta. — Começou a me empurrar. — Vamos, vamos, vamos que o show irá começar! Já irei dropar umzinho. — Ela colocou o pequeno papelzinho bike na língua e começou a pular. — Yay, yay, yay, VAMOS TRUPE! VAMOS MOSTRAR PRA ESSES CARIOCAS O QUE É UM SHOW CIGANO DE VERDADE!

Todos foram para o palco, inclusive eu.

– Que saia lindaaaaaaaaaaaaaaaaaa, minha filha!! — Minha mãe começou a cantarolar e dançar (ela sempre fica assim no início, durante e após os shows)

Eu peguei meu violão, o capotraste e a palheta e olhei para a saia. A Annete havia a escolhido. O locutor nos apresentou. Já estava escuro e o lugar estava lo-ta-do. Haviam todos os tipos de pessoas, segurando cervejas e conversando. Todos felizes e ansiosos pelo show. O quarteirão inteiro estava fechado para esse show, no mínimo haviam umas 600 pessoas. E eu estava ali, olhando a saia. Impossibilitada de tocar. Eu tremia, não conseguia me lembrar dos acordes.

A música começou e era o momento de fazer um solinho no violão. Minha mãe dançava loucamente com as dançarinas, todos riam e faziam uma algazarra. Os outros instrumentistas olhavam para mim com uma cara de "vai, é você!". E eu sabia disso, era a minha vez. Era agora que eu tinha que tocar. Todos parariam e eu começaria a solar loucamente, era agora.

1, 2, 3 e... Parou.

Todos ficaram e silêncio, TODOS, olhavam para mim. E eu comecei a olhar para o palco, sem saber o que fazer. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Eu nunca errava assim, eu nunca estava desconcentrada. Talvez para outras coisas, mas não para o show. O show era praticamente o nosso ganha pão, eu nunca errava. Nunca mesmo. Nunca. E já haviam se passado alguns segundos, eu tentava me lembrar e não conseguia. Lágrimas começaram a bater na porta dos meus olhos, querendo sair. Eu não as podia deixar, eu tinha que ordenar meu cérebro a lembrar dos acordes e fazê-los. Mas ali, em minha mente, só havia espaço para duas palavras: Annete Butzke.

Droga, reage Luna, reage! – Lembro-me de ter pensado.

E então aconteceu. Uma luz apareceu. No momento em que olhei novamente para o público que começava a duvidar de mim, eu a vi.

Annete estava lá. Ela, que não gostava de muito contato humano, de multidões. Ela estava lá.

Ela se aproximou para mais perto do palco, com uma blusa de frio preta e um short. Ela estava estonteante. Ela meu olhou com aqueles olhos pretos e sussurrou algo que eu tive que ler os lábios para entender.

"Toque para mim, mädchen." — Ela disse no meio daquela multidão que foi paralisada em minha mente, para que eu a pudesse ouvir.

Então eu comecei o solo, eu o fiz brilhantemente perfeito. Não errei uma nota e acrescentei mais notas, eu não parava. Os instrumentos voltaram para me acompanhar, as pessoas gritavam, esbravejavam e dançavam com a alegria contagiadora da minha mãe. E eu estava lá, brilhando. Brilhando para Annete.

–x-

Após tocarmos muitas músicas e fizermos um dos nossos melhores shows, outra banda assumiu o seu lugar no palco, dando continuidade ao evento. Eu estava completamente suada e cansada. Meus dedos estavam com calos doloridos do tanto que eu havia tocado naquela noite. Mas mesmo completamente indisposta, tudo o que eu queria era vê-la de perto. Minha mãe estava deitada no chão, respirando ofegante. Estava em êxtase, vendo de Deuses a gnomos com aquela droga. Eu a deixei sobre os cuidados do nosso motorista e tirei a saia, colocando meu short e um chinelo. Prendi o cabelo em "rabo de cavalo" e fui para a multidão. As pessoas sorriam e me cumprimentavam ainda mais.

"Você é demais!" "Que cigana linda." "Nossa, você é show!" — Elas diziam e eu as cumprimentava, sorria, mas as ignorava. Meu foco era um só. Eu a procurava e não achava, fiquei por muito tempo olhando para rostos desconhecidos e sorridentes. E nada da Annete.

"Será que ela foi embora? Ou será que era uma ilusão minha?"– Talvez. Efeito de tanta maconha que havia naquele lugar, talvez eu estivesse drogada de tabela.

Comecei a me desapontar. Realmente deveria ser coisa da minha cabeça. Talvez ela não estivesse lá de verdade.

– Me procurando?

Me virei com os olhos provavelmente esbugalhados de alegria, quando percebi que não era ela.

– Onde ela está? — Perguntei.

– Ela me pediu para te dizer que está na livraria. — Era o Jonas, com um sorriso sugestivo.

– Obrigada.

Então era sim, era verdade! Ela estava lá! Meu coração palpitava como nunca antes. Corri, corri tão rápido que em alguns instantes estava na porta da livraria, semi-aberta, com alguns cabos e fios passando por sua porta. O segurança estava na porta, de pé, me olhando com uma cara medonha.

– Preciso passar, moço. Por favor...

– É proibido entrar aqui.

– Mas eu faço parte do show!

– Não importa. Não pode passar.

– Deixe ela passar, dummkopf. — Annete falou, saindo da escuridão que acompanhava aquela livraria. — Deixe-a entrar, agora.

– Perdoe-me senhorita Butzke. Eu não sabia. — Ele saiu da minha frente e eu entrei, ficando finalmente só nós duas naquele lugar escuro.

Eu não consegui dizer nada, só ouvia a sua respiração e enxergava seus olhos brilharem em conjunto com as luzes lá fora. Ela pegou a minha mão e me puxou para mais a fundo da livraria.

Fomos parar em uma das prateleiras de livros e então ela me empurrou contra a prateleira com calma, chegando perto de mim.

Eu sentia seu coração pulsar, eu sentia ela respirar. Eu sentia seus olhos penetrando a minha alma. Nossos peitos estavam juntos, batendo nossos corações e uníssono.

– Ich will dich so böses, Mädchen.

– Quando é que você vai dizer teus pensamentos em português?

– Não posso deixá-la saber o que penso, zigeuner.

– Uh... — Minha respiração ficava cada vez mais ofegante. — Pois eu deixarei.

– Deixará o que?

– Que me beije.

Ela sorriu, eu pude sentir. Então ela veio, lentamente dessa vez, e nossos lábios se encostaram. Me fazendo girar, rodar, voar. Ela mordia meus lábios inferiores, passava a língua na minha, lentamente. Suas mãos encostavam na minha nuca, fazendo um pequeno carinho no cabelo. Ela parava de beijar e sorria e depois voltava a me beijar. E eu coloquei minhas mãos em sua cintura fina, senti a textura de sua blusa, o gosto de seu beijo, o vento que saía de suas narinas, ouvia o barulho de nossos lábios encostando. Eu sentia tudo ao mesmo tempo e cada vez, desejava sentir mais.