A caçadora de ilusões
9 Annete Butzke
Às vezes me perco em pensamentos e naquele momento, de forma oculta, estava pensando em quanto o que nos interessa é o que nos desinteressa. Ou talvez nem seja interessante, mas nos atrai. Atrai de tal forma que não conseguimos nos conter, mesmo sabendo que auto-controle é tudo. A tal resposta do enigma está bem na sua frente, mas você se perde nas entrelinhas. Acabamos vivendo o incerto, o duvidoso. Esse quase, quase sempre, sempre nada. E de uma certa forma, em analogias você olha pra frente e só vê a silhueta, sendo que você quer mais do que a metade. E eu me dei conta de que eu queria muito mais. Muito mais dela e daquele misticismo. Eu estava em uma luta interna entre o prazer e o orgulho; o prazer sendo o meu beijar, meu amar, meu sorrir, meu dizer, meu dar e receber. E o orgulho sendo o meu controle, minha subjetividade, o meu não ceder, o meu não ousar querer.
Afinal, o que se pode esperar de uma órfã herdeira de uma empresa multimilionária? Talvez riquezas, festas, ilusões. Não. Não comigo. Eu sou centrada. Não importava quem eu sou, o que faço, o que quero e o que preciso. Eu sempre farei o que é necessário, sempre utilizarei a razão. E naquele momento -ali- aquela pequena brecha que dei no banco de trás do carro, destruiu todos os muros que demorei anos para construir.
O fato é que eu já havia me alimentado dela em um dia, o suficiente para um mês inteiro me manter satisfeita. Quando utilizo da analogia (pode-se perceber que sou uma grande fã) da fome, eu me imagino como um vampiro. Sou uma vampira do século XXI. Eu sugo cada momento e característica única das pessoas, para me alimentar e me deixar mais forte, bonita, saudável e cada vez mais fria. Eu demorei ANOS para montar todo esse meu alter ego, para ele ser completamente destruído por uma cigana. Pela Luna. Mas o que ela tinha de tão especial para me deixar assim?
– Chegamos. — Disse por fim. Não estávamos mais próximas. Eu precisava de uma reunião em meu QG interno, para descobrir de quais planos e estratégias eu iria utilizar. Ela foi a primeira inimiga que conseguiu me derrotar tão facilmente.
– Graças aos Deuses, eles já chegaram!
– Então está entregue, mädchen.
– Não vai ficar para o espetáculo? — Ela já estava fora do carro, pendurada na janela com um semblante de expectativas quebradas, algo do qual eu costumava me alimentar.
– Ich kann nicht... Digo, não dá.
– Mas por que? Me comprou tudo isso para não me ver tocar?
– É que a faculdade vai começar e vai ficar tarde, preciso dar uma revisada nos materiais e nos livros...
Ela parou por uns segundos e me encarou através da janela, que dava luz, cor e vida para o seu eu. Eu abaixei a cabeça, estava despreparada e não podia deixar que me visse assim.
– Tem certeza? — Ela me encarou mais, despendurando do carro.
– Jonas, vá. — Ordenei o motorista e o carro arrancou.
Sem beijos, abraços ou qualquer tipo de adeus que pudêssemos dar. Cortando o mal pela raiz.
Puf.
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