A caçadora de ilusões
3 Annete Butzke
Eu estava completamente irritada. Nem os óculos escuros evitavam o contato dos raios solares sobre os meus olhos. E o fato de ser impotente para resolver algo me irrita. O calor me irritava profundamente. Senti-o logo quando saí do carro e perdi o conforto do ar condicionado enquanto o Jonas me deixava na porta da livraria. Mas era para um bem maior. Eu pegaria tantos livros aquele dia, que sairia da livraria com uma biblioteca em mãos.
Abri a porta e logo fui atendida por uma funcionária simpática, mas lhe cortei sem rodeios e pedi-lhe para me mostrar a seção de biologia e anatomia. Uma pequena grande lista se encontrava em mãos e o trabalho seria árduo para ambas ao procurarmos aqueles livros. A livraria em si era bem aconchegante. Totalmente separada em seções, com um pequeno playground infantil e alguns livros importantes à mostra. Havia também uma pequena cafeteria no andar de cima, com poltronas e livros doados para a livre leitura. Pude observar tudo desde o momento que adentrei à loja. Vi também que não havia tantas pessoas naquele local. No máximo umas cinco.
Essa livraria é o tipo de livraria que ao mesmo tempo que é requintada, também é singela. Havia um sino que indicava toda a vez que alguém adentrava ou saía da livraria. E no momento que eu estava concentrada na minha lista de livros de biologia e anatomia, esse sino tocara. E se existe uma coisa que me irrita além da impotência e do calor, é ser interrompida e perder a linha de raciocínio.
Não sou uma pessoa enjoada ou mesquinha. Apenas gosto das coisas sob o total controle. Mas tenho uma pequena placa defeituosa pendurada na cabeça, na qual está escrito: "essa-pessoa-se-irrita-facilmente".
Levantei-me e em passos curtos, apressados e dominantes, me dirigi à primeira atendente que encontrei, prestes a pedir-lhe que retirasse aquela porra de sino, quando meus olhos encontraram um olhar inocente e puro.
Eu me senti... Indefesa.
O por quê? Eu não sei.
Minhas armaduras todas caíram com um olhar. Nunca me senti tão vulnerável. Nunca me senti tão emocionalmente nua. Mas eu não deveria me render à aquele sentimento de nudez. Eu me recompus e continuei seguindo a minha direção. Por sorte (ou azar) a garota também estava indo para o mesmo lugar que eu.
– Com licença... — Falamos em uníssono. Percebi que ela ruborizou.
– Desculpe, pode falar. — Ela, após um pequeno espaço constrangedor, por fim disse.
– Então, gostaria de pedir para que você retirasse aquele sino da porta. É uma coisa bem anos 50 e desconcentra a leitura dos seus clientes. Você está aqui do lado, não acha que é desnecessário um "sinal" a cada cliente que entrar? — Dirigi-me à atendente, sem olhar para a garota, mesmo sentindo seu olhar sobre mim.
– Desculpe-me senhorita, vou providenciar isso agora mesmo! — Ela respondeu-me com gentileza.
– Obrigada pela compreensão, sou muito grata. — Retornei-lhe um pequeno sorriso, até porque ela fez por merecer. Olhei para a garota. — Desculpe-me por interrompê-la...?
É extremamente constrangedor não saber o nome das pessoas. É uma total sensação de desrespeito. Lembro-me que antes de morrer, minha mãe vivia falando para mim que "antes de saber se a pessoa quer pudim ou sorvete na sobremesa, é importante saber o nome dela." Realmente não sei porque minha mãe me dizia essas metáforas ou seja lá o que isso for, mas eu gostava das meditações que ela me propunha. Até hoje a insistência de bons modos e etiqueta da minha mãe, me faz comparar cada situação da vida à uma de suas analogias.
– Ahn... Me chamo Luna. Desculpe.
– Me chamo Annete, Luna. Sehr erfreut. — Cuspi as palavras involuntariamente de minha boca, esquecendo-me que estava no Brasil. É que a beleza da Luna era tão exótica que ela não parecia brasileira.
– Perdão?
– Oh, desculpe-me. Quis dizer que é um prazer conhecê-la.
– Você não é brasileira, é?
– Sou alemã, mas vivo aqui desde os meus três anos de idade.
– Entendo. — Ela mordera o lábio inferior e olhara para o chão. Era quase que um sinal de submissão ou medo. Ou os dois.
– Você não é carioca, é?
Ela enrubesceu novamente. Eu não havia entendido o motivo da vergonha. Olhei ao redor ou se havia algo de errado comigo e olhei para ela. Me perdi no seu olhar vergonhoso. Pisquei os olhos vagarosamente e me concentrei.
– Está tudo bem? — Por fim perguntei.
– Eu sou... Cigana. — Por fim ela disse.
– Então está explicado, Luna.
– Está explicado o que?
– O motivo de seu olhar oblíquo e dissimulado. — Citei a famosa obra de Machado de Assis, Dom Casmurro. Pelo sorriso vergonhoso dela, com certeza ela entendera o que eu estava falando.
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