A caçadora de ilusões
11 Annete Butzke
Notas iniciais
A noite foi... Maravilhosa. Durante todo o festival eu a mantive ali, comigo, sob meu domínio. Eu nunca havia feito um banquete tão satisfatório. Luna sabia preencher até os meus vazios mais profundos. Acordei com um torcicolo peculiar, estava no chão da livraria e eram umas 7hrs da manhã. Olhei para o lado e Luna não estava lá. Pensei que talvez ela tinha ido buscar um café, então me levantei, ajeitei minhas roupas e liguei para o Jonas, pedindo para que preparasse o carro, eu levaria Luna para minha casa. Eu não consegui entender o porquê daquele desespero de tê-la, mas eu gostava de mantê-la por perto. Me deixava sempre satisfeita.
Organizei as prateleiras e os livros que haviam caído no chão enquanto eu e Luna estávamos no alvoroço todo na noite anterior, deixei a livraria impecável. Ao chegar nas mesas da frente, deparei-me com um livro do Machado de Assis, Dom Casmurro. Eu sorri ao ver e quando folheei, vi uma frase destacada de amarelo:
Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e aqui está.
E meu sorriso se desfez ao lê-lo. Naquele momento pude perceber que aquela cigana oblíqua e dissimulada havia ido embora.
– Senhora? — Ouvi Jonas batendo no vitrine da livraria. — Já está pronta?
– Ach ja. — Murmurei em alemão. Peguei o livro, coloquei na bolsa e fui-me para o carro.
–x-
Antes de ir para casa, pedi Jonas que me levasse até onde os ciganos estavam acampando, mas como a vida gosta de nos surpreender, haviam desaparecido. Ela realmente havia ido embora. E eu simplesmente não sabia dizer o que estava acontecendo comigo. "Era só mais uma, certo? Mais um alimento. Irei achar outro, claro. Por enquanto, estou cheia e saudável. Não irei precisar de um alimento tão cedo..." – Era o que eu pensava. Após uma semana sem notícias, eu já estava me acostumando com a ideia de que eu jamais a veria novamente, mas ainda havia uma pequena expectativa. Ela me mudou. Onde estava aquela Annete decidida e completamente segura de si? Eu não sei.
Decidi seguir em frente, recuperar as forças. Até que a faculdade em si estava me ajudando a manter a cabeça ocupada, com tantos trabalhos, provas, células, tecidos, órgãos, doenças e tudo mais. A anatomia humana consegue ser mais complicada, detalhada e única do que um pequeno floco de gelo. Fiz amizades durante o mês que se seguiu após aquele dia, aquele único dia em que conheci a garota mais utópica em que já havia visto em tanto tempo de existência. Era um carma, uma ligação extremamente única, a qual nunca me recuperei. Meus amigos de faculdade, por sua vez, mantinham suas obrigações de me deixar completamente ocupada tanto na parte do dia, quanto da noite — onde saíamos de bares em bares, caçando novas almas para nos alimentar. Porém, foi quando se completou um mês, é que percebi que estava ficando fraca demais. Faminta demais. Eu precisava da Luna, era um caso de vida ou morte. É como água. Depois que você bebe uma vez, precisa beber para sempre. E pegando de exemplo um viajante perdido no deserto, você pode perceber que ele possui até alucinações de tanta necessidade, pela falta da bendita água. Então, em minha situação deserta, decidi procurá-la. Eu poderia abrir mão do meu orgulho de ser usada por um dia e uma noite, sem ao menos um adeus, para procurá-la e pedir respostas.
O problema é que não havia registro nem mesmo na internet, nenhum lugar, nenhuma pessoa sabia. E teimavam em me dizer na faculdade que aquele festival cigano na rua da livraria nunca havia acontecido. Não haviam respostas.
Ela não existia mais, ou será que nunca existiu?
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