A busca pelo Girassol.
7 De onde veio os girassois?
Notas iniciais
Não acreditava que tinha sido convencida a ir para Rodorio.
Seraphina estava duvidando seriamente de suas faculdades mentais. Nada daquilo tinha lógica, mas ser uma pessoa ressuscitada parecia desafiar a coerência naqueles tempos onde deuses reencarnavam na terra em receptáculos humanos, vivos ou não.
Calvera parecia muito animada em descrever como elas iriam para uma feira fascinante que só tinha naquele lugar em toda a Grécia. E foi aí que Seraphina percebeu que não estava mais em casa, que tudo o que conhecia como casa, lar ou qualquer outra ideia romântica de lugar seguro tinha desmoronado. A única coisa que tinha agora era a mera lembrança de tudo o que viveu, quando ela receptáculo de Poseidon, quando estava viva e era apenas ela mesma, quando ainda convivia com Degel...eram apenas lembranças efêmeras que agora possuíam aquele caráter de alicerce mental, aquela âncora que nos mantém no mar da sanidade.
Porque antes Seraphina vivia no modo de ação total, sempre foi uma pessoa de realizações, de ações, mesmo que não fossem bem sucedidas, ela sempre estava agindo, sempre à frente, mesmo sendo mulher tinha sua opinião respeitada e seguida, algo inexplicável devido à época. Realizava negócios, transações, tinha ideias, via o mundo se transformando nem que seja bem pouquinho sob seus dedos. Contudo, quando virou o receptáculo essa perspectiva mudou completamente. Passou apenas a observar.
Aquela era uma transformação não muito bem vinda, finalmente tinha se tornado a mulher que todos queriam, linda e não influente. Se bem que ser um deus não era um sinal de não influência, muito pelo contrário...só que a deusa não era bem ela...era um ser diferente, com ideias diferentes que estava sendo manipulado pelo seu irmão, parecendo cada vez mais irritado em relação a isso e se sentia cada vez mais afeita à causa dele. Não era bom ser usado daquele jeito, mesmo ela viabilizando esse uso, caso o corpo dela não estivesse disponível, Poseidon não estaria mais aqui.
Sentiu-se suja.
Seu irmão, cada vez mais transtornado se afastava cada vez mais de quem ele era, cada vez mais seduzido por um poder que não lhe pertencia, mas pertencia a ela. E deparou-se com a terrível verdade: Unity também a via como um utensílio. Era a única realidade. Não tinha como ele não querer todo aquele poder. Seraphina sentia naquela época e podia sentir um resquício agora. Então percebeu que o irmão queria controla-la. Enfureceu-se.
Quando Degel veio junto com o seu amigo, ela não sabia mais diferenciar quem era Seraphina e quem era Poseidon. Era como se ambos fossem um e um fosse ambos. Um desses mistérios religiosos e profanos que ninguém sabia explicar. Contudo, sentia uma espécie de luxúria ao olhar para Degel e sabia que teria que controlar o deus para que ele não o machucasse. Sentiu a mão dele em seu rosto, a ponta dos dedos fazendo uma carícia inocente e começou a chorar. Foi quando ele os congelou. Ele queria encerrar Poseidon, acabou matando a ambos, tamanho era seu amor por Athena, não conseguiria competir com isso.
Só podia suspirar e aproveitar essa vida estranha e nova que estava se desdobrando em sua frente e realmente se sentir feliz por estar se dirigindo a uma feira qualquer sem nenhum motivo em mente, apenas para se distrair.
Com tantas mudanças em sua vida em um período tão curto, não tinha percebido que o seu maior objetivo, que era libertar BlueGard das prisões gélidas tinha esvanecido. Não pensava mais em voltar, não tinha nem pensado em Unity nos últimos dias, mas tinha a impressão que ele estava vivo. Sentia isso na realidade, mesmo sem entender como podia sentir...
Esse suposto realinhamento dos planetas não parecia mesmo coisa de olimpianos porque querendo ou não, as consequências não foram desastrosas, foram estranhas só. Ela estava se sentindo estranha, com sensações estranhas. Queria que ela e Degel tivessem se beijado, sendo que nunca havia pensado em beijar alguém.
Começou a se lembrar dele com muita força, como ele era realmente um homem bonito, um homem inteligente e ela...era apenas uma força errante dando murros em ponta de faca tentando fazer um reino gelado sobreviver.
Conforme estavam caminhando, ela se deparou com um campo de girassóis e ficou maravilhada. Correu, correu e ficou bem no meio do campo. “ O que é isso Calvera? Que flores são essas? Estão ao alcance da mão e parecem com o sol!!!!!!!!!!!”
“São girassóis Seraphina. São chamados assim porque eles parecem com o sol e se viram buscando sua luz.”
“Se viram?”
“Sim, conforme a luz incide sobre eles, eles se direcionam a elas.”
“Como eu.”
“Como?”
“Como eu. Eu sou assim! Eu corria atrás do sol, para trazê-lo para BlueGaard! Minha vida toda foi em busca dessa luz, mesmo que fosse impossível, porque eu era uma planta, tanto quanto essas flores aqui. Mas não tinha esses campos verdes para contemplar. Era tudo gelo, tudo branco, não é à toa que Degel se foi. Não foi à toa. Eu nunca quis ir. Mas talvez era tudo o que eu precisasse. Sair do gelo e ver alguns campos verdes, não?”
Calvera ficou em silêncio, esperando Seraphina se recompor, realmente concordando que ela parecia com um girassol, mesmo que seus cabelos não fossem realmente amarelos e mais prateados, era bem semelhante à flor. E era bem interessante ver aquela moça sisuda, séria, se divertindo como uma criança no meio do campo de girassóis.
Seraphina sentiu-se exultante de felicidade. Como se pudesse fazer qualquer coisa de sua vida...uma vida sem muitas regras, não tinha pensado muito bem sobre o que fazer, mas queria ficar próxima de girassóis.
“Calvera, Rodorio tem girassóis?”
“Tem sim Seraphina.”
“Ah, então vamos pra lá, certo?”
“Claro que vamos.”
“Ótimo.”
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