A busca pela Estrela Gelada
3 3. Chegada ao novo mundo
Notas iniciais
3. Chegada ao novo mundo
Se antes Rose pensava já ter visto de tudo agora mais uma vez se surpreendia com o que via. A sua frente estava uma enorme feira, tão grande quanto uma cidade normal, cheia de tendas e as mais diversas criaturas. Homens com pernas de boda, mulheres de pele esverdeada e com cabelos das mais diversas cores, criaturas baixinhas com corpos finos e longas orelhas como as de Lia, além de diversos outros seres incluindo homens metade animal. Aquele lugar era como um pedaço dos contos de fadas, mas no mundo real:
–Escute bem o que vou dizer – falou Lia se aproximando de Rose e segurando firmemente sua mão – Está é Arcádia, ou uma pequena parcela dela, este local é conhecido como a Feira do Amanhã, aqui se pode encontrar tudo que se deseja, ou é o que os boatos contam.
–Interessante – disse a garota fascinada e olhando para todos os lados.
–Sim, muito, e por isso vou lhe dar alguns conselhos, esse lugar mágico é muito sedutor e muito cheio de péssimas intenções, nunca se afaste de mim entendeu? – Rose apenas balançou a cabeça concordando – Tome cuidado com estranhos, isso não é um conselho infantil qualquer, isso é serio aqui, jamais coma nada ou aceite qualquer presente ou favor com que eu não concorde, repito para não fazer perguntas sem que eu permita e tome cuidado com seus modos porque aqui ofender-se é muito fácil, me obedeça e talvez consiga chegar viva ao castelo.
Pela primeira vez a ruiva sentiu algo na voz de Lia, medo. Era quase como se aquela mulher de cabelos dourados temesse aquele local mais do que uma médica-maluca-mercenária com um chicote com cabeça de serpente:
–Feéricos são cheios de artimanhas e se não tomar cuidado pode ficar presa aqui para sempre servindo alguém com intenções horrendas – disse Ulf ainda com o rosto coberto pelo capuz de seu manto negro, seu punho direito tocava na espada naquele momento porque ele sabia os perigos daquele local – Não estou ajudando você se foi isso que pensou, meu senhor quer você viva e livre, só isso.
Rose sentia na voz do homem que ele não mentia, diferente de Lia ele não parecia se importar com ela ou qualquer outra criatura:
–Como se juntou a ele? – perguntou a garota observando os diversos objetos brilhantes que eram vendidos ali.
–Ele não é tão mal quanto aparenta, na verdade é um amor de pessoa por detrás dessa mascara maligna dele, um dos melhores campeões do rei ao qual sirvo e sem dúvidas o melhor amante que uma mulher pode desejar – a ruiva sentiu seu rosto ficar tão vermelho quanto seu cabelo e a loira apenas soltou um leve riso – Não estou brincando, mas não diga isso para ele, seu ego já é inflado demais sem precisar de meus elogios.
O homem encapuzado andava a frente da dupla e não pareceu escutar a conversa, seus sentidos estavam concentrados em outras coisas como possíveis inimigos a espreita, naqueles dias os reis só obtém cada vez mais inimigos entre si e nada mais.
Rose observou que todas as árvores ali pareciam ter suas folhas das mais diversas cores parecendo oscilar por todos os sete tons do arco-íris, mas a minoria tinha as folhas verdes e algumas também pareciam marrons. O trio caminhava com calma em meio aquele pedaço do paraíso quando foram separados pela chegava abrupta de um amontoado de pessoas. Meretrizes puxaram Ulf pelo braço e começaram a falar no seu ouvido enquanto um comerciante puxou a dupla de moças para próximo de sua barraca:
–Vejam só, duas jovens moças – disse o homem sorridente, vestia-se como um nobre da realeza durante a renascença, mas não utilizava calçados – Acredito que adoraram os itens de minha humilde tenda.
Dentes pontiagudos brotavam de sua boca enquanto ele exibia um largo e falso sorriso. Lia queria ter se socado por não ter percebido a aproximação do homem, mas seu lado feminino lhe dizia que não tinha sido tão ruim assim, tinham chegado cedo e tinham tempo e dinheiro para fazer algumas poucas compras. Por sorte seu lado de serva de seu rei falou mais alto e o vulto que já as estava seguindo a alguns minutos a auxiliou:
–O que tem a nos vender? – Lia perguntou observando o vendedor e o movimento do vulto enquanto apertava com ainda mais força o braço de Rose para que ela não fizesse nada além de observar em total silêncio.
–Ora vejam essas belíssimas jóias – a loira não queria assumir, mas aquelas eram realmente belas peças, diversas jóias feitas de prata, ouro e diversos outros metais adornados das mais belas pedras, mas antes mesmo que pudesse pensar em comprar ela sentiu a aproximação do vulto.
A mão leve e rápida de Lia pegou em cheio o braço do vulto antes que ele colocasse sua mão no bolso da calça marrom de linho dela. A criatura pequenina de não mais de um metro e cinco e peluda soltou um grunhido ao ser pega no flagra:
–Eu o acuso de roubo, pequeno e falho ladino – disse a loiro apertando com força o braço do gnomo que tentava se soltar e correr.
–Calunia contra a minha pessoa – disse a criatura tentando se soltar – Esta mulher está me agredindo como todos podem ver e ainda me acusa de um crime que não cometi, eu a acuso de violência e calunia.
–Que assim seja então ladino estúpido , eu convoco o guardião desta feira para avaliar o ocorrido.
–Não precisa disso tudo – disse o gnomo visivelmente tremendo – Não precisa chamá-lo.
–Por que não Pock? Qual seria o problema com a minha presença? – perguntou um surgindo.
O guardião da feira lembrava bastante o vendedor de jóias, mas vestia-se elegantemente com um smoking tão bem passado quanto sua calça, uma grande cartola e um monóculo, não tinha sapatos porque seus pés tinham dedos enormes e cheios de garras como se fosse a versão humanóide de pés de um felino enorme e segurava um cajado dourado com uma pedra vermelha na ponta. Seu olho direito, o único que tinha e que o monóculo cobria, com pupilas felinas cintilavam de raiva enquanto sua íris cor de âmbar brilhava como se fosse uma jóia vendida a poucos metros. Seu olho esquerdo estava cortado por três cortes de não mais que cinco centímetros e que tornavam seu olho uma orbita branca rasgada:
–Mil desculpas senhor Claw, não queria ofendê-lo ou algo do gênero – disse Pock se tremendo ainda mais.
–Pode reportar o ocorrido, senhorita? – perguntou o guardião observando a loira e sua colega.
–Sim senhor guardião, farei isso com todo o prazer – Rose não conseguiu deixar de perceber o ar superior que sua companheira usava enquanto falava, a mulher que antes a acompanhava havia sumido dando lugar aquela outra pessoa – Este gnomo seguiu-me e tentou roubar-me, mas o peguei antes que ele cometesse seu crime infame e agora acusa-me de calunia e violência.
Quando Lia finalmente soltou o braço da criatura o local do aperto estava roxo e a ruiva temeu que seu braço estivesse na mesma situação, mas não sentia dor alguma e por isso nãos e preocupou, na verdade ela agora se concentrava totalmente em entender a situação e em como alguém tão magro tinha tanta força:
–Se estas acusações forem verdadeiras então você será punido severamente Pock – disse o guardião observando a criaturinha – Os deuses abençoam os corretos e punem os errados.
–Não, por favor, senhor guardião, tudo menos isso – antes que o gnomo pudesse falar algo mais Claw colocou a mão em seu bolso e então a jogou para o alto fazendo o ar ficar coberto de pó dourado.
Poucos segundos depois a criaturinha começou a se coçar enquanto bolhas amarelas começavam a brotar por toda a sua pele. Mais alguns segundos depois e o gnomo não conseguia fazer mais nada além de se jogar no chão se esfregando entre as pedras e a se coçar rapidamente com suas garras:
–Acho que já sabemos que falava a verdade e quem mentia – disse o guardião com uma calma sobrenatural, mas com seus olhos brilhando de raiva – Você meu estúpido Pock será punido severamente pelo seu ato, mas antes deverá pagar algo para a elfa ofendida, não importa o que seja, satisfeita com a punição, ofendida?
Rose processou a frase do homem com calma e confirmou a teoria que já estava fermentando na sua mente a tempos, a mulher realmente lembrava algumas figuras de elfos que ela já vira quando mais nova e agora tinha certeza que ela era um membro daquele povo:
–Estou satisfeita – disse Lia de volta ao seu tom usual – Qual a jóia mais cara que possui aqui, senhor joalheiro? – perguntou a elfa se virando para o homem que abriu um largo sorriso no rosto, dessa vez bem sincero.
–Está aqui minha adorável cliente – o home pegou uma pequena caixinha e mostrou seu conteúdo.
O anel branco cintilou em contato com a luz do sol que já não sentia a muitos anos. A pedra vermelha no anel emitia um brilho como se fosse o próprio sol:
–Este é um anel bem caro, senhora – disse o vendedor com orgulho – O metal é ouro branco e a pedra é uma rara...
–Pedrardente – disse Ulf aparecendo como um fantasma próximo das duas e Rose percebeu que ele nunca se distanciara de verdade – Ela absorve luz de qualquer fonte luminosa e a guarda soltando-a quando tocada pelo calor da pele de alguém, é uma pedra com propriedades místicas e ela não é rara, é raríssima, dizem que tão rara quanto ferro frio.
–O senhor parece saber muito – disse o vendedor realmente surpreso, poucos sabiam sobre aquela pedra e muito menos a possuíam – Então deve concordar quando peço por ela duas mil peças de ouro? Ou duas de ferro frio?
–As duas de ferro frio são discutíveis, talvez uma e mais alguma outra coisa, mas ainda assim ela vale as duas mil peças de ouro – disse Ulf e pela primeira vez Rose viu algo por trás das sombras do capuz, um brilho vermelho como fogo.
–Mil peças de ouro? Estão ambos malucos – disse o gnomo se coçando ainda mais como se aquilo também soasse como uma mentira.
–Deveria agradecer criatura estúpida – disse o vendedor – Ela vale muito mais.
–Também não é para tanto vendedor – disse Lia realmente preocupada com tamanha quantia de dinheiro, ela queria apenas puni-lo, mas não tanto, dois mil peças de ouro eram verdadeiras fortunas.
–Ele está correto Lia – disse Ulf com sua calma usual – Pedrardente está entre os minerais mais raros por um bom motivo, mas acredito que meu amigo aqui faria uma promoção e cobraria apenas a metade do preço se eu lhe fizesse um favor.
–Você disse um favor? – o vendedor não escondeu seu espanto, ninguém que entendia o peso daquilo escondeu.
–Sim, um favor bem especifico – o vendedor sorriu ao entender o que o homem queria dizer.
–Faz um tempo desde a última vez com um de minha espécie – o homem de feições felinas coçou seu queixo e abriu ainda mais o sorriso – Fechado, mil peças de ouro.
Rose ainda tentava entender o ocorrido e o que Ulf quis dizer quando mil moedas de ouro surgiram sobre a mesa da tenda e o vendedor as agarrou como se fossem sumir. Pock tentou falar algo, mas o guardião já o havia pegue pela língua e o arrastava para longe dali enquanto o gnomo se coçava pelas bolhas amarelas que só aumentavam em numero e tamanho.
A ruiva pode perceber uma troca de olhares entre a elfa e o encapuzado e então Lia pegou o anel e ambas começaram a sair dali. Poucos minutos se passaram quando a dupla finalmente saiu da feira e entrou num caminho de terra batida que cruzava uma campina:
–O que acabou de acontecer? – perguntou Rose enquanto caminhavam pelo caminho e Lia já havia largado seu braço.
–Você não vai querer entender tudo – disse a loira entregando-a o anel que logo pós no dedo anelar direito da garota – É seu, considere um presente de boas vindas e um presente de aniversario adiantado, aquele gnomo idiota tentou nos roubar e eu o peguei no flagra, para preservar a integridade da feira o guardião do local foi puni-lo e uma das punições foi o pagamento do anel.
–Mas e depois, quando Ulf disse que o deveria um favor?
–Bem, como eu já disse antes ele é um bom amante e ele tem um gosto bem diversificado se assim posso dizer, tão diverso quanto sua fama pelos mundos.
Novamente Rose ficou vermelha como seu cabelo e a elfa riu:
–Não se preocupe, ele não vai demorar tanto quanto pensa, talvez até chegue antes de nós ao castelo do meu rei, ele anda por caminhos que poucos conhecem e menos ainda ousariam trilhar e algo me diz que não vai ser difícil para ele agradar um vendedor de feira qualquer.
A dupla começou a trilhar seu caminho e antes que Rose percebesse o sol já estava se pondo. Ela pareia ter andado por poucos minutos e poucos metros, mas já estava de frente a um enorme castelo com dezenas de metros de altura e um enorme portão de madeira guardado por dois guardas vestindo armaduras de metal prateado:
–O que acabou de acontecer? – perguntou a ruiva entendendo cada vez menos do que acontecia naquele mundo.
–Nós pegamos o que as pessoas chamam de atalho, eles servem para andarmos muito sem sentirmos todo o esforço físico, não é a toa que já estamos quase no por do sol mesmo sem percebemos.
–Incrível – a garota observava as enormes muralhas de pedra cinzenta fascinada, era como estar numa fantasia medieval.
–Seja bem vinda, Lia, filha de Galamion – disseram os guardas ao mesmo tempo e por um momento Rose pensou que fossem humanos, mas olhou bem e viu que seus olhos eram completamente azuis como se fossem perolas azuis e seus cabelos que desciam por trás do elmo pareciam se mover sozinhos enquanto desenhos tribais em suas faces reluziam como se fossem feitos de tinta fosforescente – Quem é essa que a acompanha?
Os dois falaram novamente junto e Lia acertou uma cotovelada no braço da ruiva indicando que ela podia falar:
–Gostaria de ser chamada de Rose – ela disse começando a entender pelo menos isso sobre esse mundo novo, eles não diziam seus nomes verdadeiros.
–Está é Rose – disse a elfa sorrindo – Ela é minha companheira e o objeto de minha saída hoje mais cedo.
–Entendemos – falaram ambos juntos mais uma vez – Podem entrar.
O enorme portão de madeira começou a se mover sozinho e então quando estava completamente aberto as duas adentraram a construção. As duas começaram a andar pelos corredores iluminados por lamparinas de óleo e adornados com estatuas, quadros e tapeçarias dos mais diversos mundos e tempos:
–Quantos anos você tem? – perguntou Rose sentindo que já podia fazer perguntas e encarou a loira, a ruiva sempre leu que elfos viviam mais que os humanos comuns.
–Setenta e cinco, sou muito jovem para o meu povo mesmo isso já sendo uma alta idade para o seu, é comum nós feéricos termos alto tempo de vida.
–Eu não sou humana – a ruiva não queria dizer aquilo, a voz simplesmente saiu como se não tivesse vindo do lado consciente dela e ao tocar o colar prateada que tinha desde bebê sentiu uma confirmação dentro de si – Eu não sei o que sou, mas eu não sou um deles, eu posso sentir isso.
–Veja bem querida, é raro para o seu povo alguém ir do childer para o ilder, mas isso não significa que seja impossível.
–O que esses termos significam? Childer? Ilder?
–São termos que usamos entre nós para designar etapas da evolução espiritual, childer seria a infância da alma, quando ela ainda não é capaz de ver a verdade por trás da realidade, ilder é quando o seu poder finalmente desperta, as vezes durante a transição o poder já desperta, mas é normal acontecer depois, para os humanos não tem uma idade certa para isso acontecer já que a sua raça com o passar dos séculos e das revoluções industriais tem se tornado cada vez mais cega.
–Mas eu lembro de você dizer que quinze é a idade normal para a transição.
–Sim, para os feéricos, por algum motivo por um instante achei que fosse uma de nós, mas é só olhar para você que vemos que não é, não tem sangue de nosso povo seja elfo, gnomo, fada ou qualquer outro.
–Talvez, mas a algo interessante.
–O que?
–Você disse que só poderia ver coisas quando fosse ilder, ou durante a transição.
–Exato.
–Mas eu já vejo isso desde pequena.
Lia parou de uma vez e Rose parou logo em seguida observando a elfa visivelmente assustada:
–Então você tem sangue feérico – o rosto da loira estava espantado – Mas é impossível, você não exala esse poder, você não tem nenhuma semelhança como nosso povo e mesmo que fosse um hibrido você teria características intermediarias, mas também tem outra possibilidade.
–Qual?
–Existem um fenômeno chamada atavismo, isso para vocês humanos quer dizer uma coisa, mas para nós feéricos quer dizer outra, é quase uma lenda entre nós, mas talvez possa ser essa a resposta, dizem que as vezes um meio-feérico pode transmitir seu sangue para as próximas gerações, mas não seu poder e apenas na décima geração após ele é que o poder volta a surgir como se fosse o poder de alguém com um quarto de sangue feérico.
–Ele simplesmente some e volta com tudo depois?
–Exato, só pode ser isso, mas se for isso... – a elfa parou por um momento e pareceu ter viajado para outro mundo por alguns instantes – Pelos deuses, você é uma lenda viva, minha childen.
–Por que será que eu não gostei desse titulo?
–Porque ele não é algo para se gostar, títulos não servem para isso – disse uma sombra surgindo a frente da dupla e logo Rose reconheceu o manto negro e o encapuzado – Atavismo feérico não é mesmo? E eu pensando que fosse o único amaldiçoado dessa geração.
–Amaldiçoado? – a ruiva queria perguntar como ele chegou tão rápido ali, mas sabia que ele não daria a resposta, provavelmente diria que ela não é digna ainda e pronto.
–É claro, ou você acha que poder ver além da realidade é algo bom, garota? Não me diga que está gostando de ter sangue feérico e de vir para Arcádia? – os olhos do homem brilhavam como bolas de fogo por trás da escuridão do capuz e naquele momento a garota pode apenas assentir com a cabeça, mesmo tudo sendo tão confuso ela já ter andado por horas que lhe pareceram apenas minutos ela estava gostando, na Terra tudo era maluco e fora da normalidade, mas ali ela parecia em casa – Você realmente ainda é apenas uma childen e acho que completar a transição não vai mudar nada.
–Há quanto tempo já chegou? – perguntou Lia observando o homem e cortando sua fala.
–Menos de uma hora, já fui falar com o rei e ele as espera e parece que minhas suspeitas que falei para ele estavam corretas.
–Você disse ao rei que ela tinha atavismo?
–Sim, e acertei – o homem disse com sua calma usual como se fosse algo obvio.
–Poderia ter errado.
–Se eu errasse não estaria aqui hoje tendo esta conversa e acredito não estar errado quando digo que ela não deve visitar o rei dessa forma.
Rose olhou para sua roupa e não viu problema nenhum no seu all-star gasto, na sua calça jeans e na camisa branca com o desenho de um coração formado por diversas formas da palavra AMOR em diversas línguas e ao ver a camisa lembrou que fora um presente de sua melhor amiga e lembrou agora que tinha ido embora da Terra sem dar adeus a ela ou ao resto de seus amigos, vizinhos e até seu pai. Ela simplesmente tinha saído sem se preocupar com nada além de si mesma:
–Qual o problema com minhas roupas? – perguntou encarando feio o rapaz.
–Nenhum na verdade, talvez o rei até goste, dizem que ele gosta dos humanos e de seus costumes, mas isso não significa que o resto dos nobres vai gostar e um rei deve agradar seus súditos mais do que a si mesmo, se você já tive honrarias suficientes no reino não teria problema em ir nua ou como uma mendiga para a nobreza, mas você não tem e terá que se vestir melhor.
–E como devo fazer isso?
–Não é meu trabalho fazer isso.
–E antes que você nos atrapalhasse eu iria fazer isso – disse Lia observando com raiva seu colega – Não iria levá-la direto para o rei, antes ela iria para os meus aposentos e somente depois ela veria ele.
–Acredito nas suas palavras, mas ainda assim não pode ser apenas as vestimentas, tem a forma de agir, aquele local tem mais víboras do que o lar da mãe-serpente Naga, ou ela aprende a se cuidar ou lá será o seu fim.
–Não se preocupe, eu vou demorar o tempo que precisar para prepará-la e não vou deixá-la desamparada.
–Espero que não, quando eles souberem de um atavismo feérico vão ficar malucos, alguns até literalmente.
–Eu sei disso Ulf, não se preocupe.
–Não estou preocupado Lia, e sei que você percebe isso, só não quero ter perdido meu tempo nessa missão por alguém que vai morrer daqui a algumas horas.
–Morrer? – Rose tomou um susto ao escutar aquilo, ela não pensou que uma corte pudesse ser tão perigosa.
–Ele está lá? – perguntou a elfa engolindo em seco.
–Sim, ele está e garanto que está em um dos seus piores dias.
–De quem estão falando? – perguntou a ruiva tomando um olhar flamejante de desaprovação e tocou no seu anel em busca de calor para espantar o medo que sentia de algo ruim se aproximando.
–Do príncipe Devro – disse Ulf ainda mantendo sua absurda calma – O filho do rei e da primeira rainha, diferente de seu pai ele não gosta de humanos sejam aqueles que atingiram o ilder ou não, e gosta muito menos híbridos com seres não feéricos, imagine quando souber de um atavismo.
–Ele é mal ou algo do gênero?
–Você faz perguntas demais, faça-a controlar essa língua antes de mais nada Lia – o encapuzado deu a volta e começou a andar rumo ao local da onde viera – Aprenda logo uma coisa garota, não existe bem ou mal em Arcádia, apenas o vencedor e o perdedor, quando começar a ganhar honrarias ninguém vai se preocupar o que fez para tê-las, só vai querer quais elas são.
O encapuzado sumiu na escuridão como se fizesse parte dela e antes que Rose percebesse Lia já a puxava pelo braço por algum caminho que ela nem tinha visto surgir, antes ela via coisas que ninguém via e agora ela parecia uma das pessoas que não via nada:
–Prepare porque esta noite será longa – disse Lia e quando a ruiva percebeu elas estavam subindo um lance de escadas em caracol rumo a algum tipo de torre.
Fale com o autor