A busca pela Estrela Gelada
18 18. Uma Noite Tumultuada
Notas iniciais
18. Uma Noite Tumultuada
Todos aproveitaram com calma o jantar. O anfitrião foi o primeiro a acabar e logo se despediu de todos. Estava cansado pelo dia de trabalho e também queria descansar. Sentimentos demais queimavam dentro dele e se não saísse dali poderia surtar. Indicou às duas onde seriam seus quartos e então subiu para o andar superior.
Não demorou para os três convidados logo terminarem também e Ulf se oferecer para levar e lavar os pratos na cozinha enquanto as duas poderiam ir para seus quartos. Mesmo com comida tão deliciosa Rose não conseguia parar de pensar o quão melhor era a de Arcádia. O quão mais saboroso era cada prato. O quanto o clima era mais ameno. As pessoas mais felizes, bonitas e festeiras. A própria iluminação de lá parecia melhor.......
Os quartos eram bem próximos um dos outros ficando todos próximos do começo do corredor do segundo andar com exceção do de Robert q ficava ao fim do longo corredor. Lia foi calmamente ao quarto da esquerda enquanto Rose entrou no da direita.
O quarto da ruiva tinha paredes num lilás bem claro, com uma cama de solteiro com uma colcha florida como se fosse um campo na primavera. Perto da cama havia um criado-mudo e nas paredes alguns desenhos de locais selvagens adornavam tudo. As luzes do quarto se acendiam pelo bater de palmas, um para ligar e dois para desligar.
Não demorou para Rose se deitar na cama que ela percebeu ser absurdamente confortável assim como seu travesseiro. A colcha da cama era quentinha e perfeita para o ar frio que inundava a casa tornando tudo muito mais aconchegante.
Assim que ela bateu palmas duas vezes as luzes se apagaram um verdadeiro e novo espetáculo se iniciou. O anel em seu dedo começou a brilhar como se fosse uma bola de fogo, mas as luzes que se comportavam como línguas flamejantes não a queimavam, apenas iluminavam e nada mais. O anel de pedrardente e ouro finalmente mostrava seu verdadeiro potencial iluminando o quarto escuro. Sombras se formavam, mas sendo iluminadas por aquela pequena e fria “estrela” pareciam ainda mais aconchegantes.
E ela se lembrou do aconchego de sua casa antiga. Do cafuné que seu pai sempre fazia antes de começar a lhe contar alguma história para ninar. Lembrou do sabor de cada prato já preparado por ele e por sua mãe. Lembrou de cada gesto. De cada frase. Do calor das cobertas. E apenas a dor a dominava agora.
Tinha que descobrir o que acontecera a seu pai e a seus amigos de maneira urgente. Fugira dessa responsabilidade por tempo demais. Talvez Ulf e Lia entendessem e pudessem ajudá-la com isso, já estavam perdendo tempo mesmo estando ali, poderiam perder mais indo ajudá-la com isso.
Rose não se aguentava mais e acabou por levantar da cama. Precisava falar com eles logo sobre isso, mas a questão era que ela não sabia qual era o quarto do moreno então foi em direção ao de Lia.
Não ouvia nenhum som então presumiu que a elfa talvez já estivesse dormindo. Bateu na porta e chamou pela mestra, mas não ouviu nenhuma resposta então resolveu entrar. O desespero dentro dela não iria ser parado por uma falta de resposta. Aquela necessidade de voltar para os prazeres de Arcádia...... Aquela necessidade de permanecer e reencontrar seus familiares e amigos...... Era sensações conflitantes demais. Enlouquecedoras demais.
Mas quando a porta se abriu ela preferiu que tivesse continuado fechado.
Ela já podia imaginar a cena. Lia por diversas vezes a avisou da amizade cheia de benefícios entre a ela e Ulf. Mas ela não conseguia acreditar naquilo ou em qualquer outra história sobre ele. Ou não conseguia até aquele momento.
Uma coisa era saber que duas pessoas tinham um relacionamento mais intimo. Outra era vê-las durante o ato.
Os olhos de Ulf pareciam brilhar animalescamente enquanto a luz do anel de pedrardente inundava o quarto e os corpos dos dois amantes. Por um momento Rose não soube como reagir e então por puro impulso bateu a porta e correu de volta para o seu quarto. Suor frio escorria e suas pernas tremiam. A visão do corpo do moreno completamente nu........
Seu coração parecia quase explodir dentro do seu peito de tão rápido e forte que pulsava. Ela conseguia ouvir o som da sua pulsação ecoando pelo quarto e não tinha idéia de quanto tempo havia se passado, só sabia que em algum momento ela caiu de joelhos de costas para a porta e pouco depois alguém bateu na sua porta:
–Não quero falar com ninguém! – se alguém havia ouvido o grito dela não reparou, apenas bateu novamente – Eu já disse que não quero falar com ninguém, droga!
Mas a batida não parou. Na verdade a ruiva começou a reparar que as batidas assumiam um certo ritmo. Alguém estava batucando a clássica e quase mística batida de We Will Rock You da banda Queen na sua porta e na mesma hora ela soube que tinha ido ali falar com ela:
–O que você quer? – perguntou a garota só querendo ficar sozinha naquele momento.
–Não falar comigo não vai lhe ajudar a superar o vazio que está sentindo.
A voz do Nomeador chegou aos ouvidos dela e lágrimas começaram a cair, o choque com a cena anterior tinha sumido e as saudades de tudo e todos começou a voltar. Além disso, as sensações de Arcádia voltavam gerando um ardente conflito dentro dela. O que era melhor? O calor do abraço da sua família e de suas cobertas ou o gerado por uma emocionante missão e uma pedra rara mística? Tudo aquilo estava a sufocando.........
A porta então se abriu e seu corpo foi empurrado lentamente para o lado e logo um par de braços a abraçou de lado e sua cabeça caiu sobre o ombro esquerdo do moreno:
–Quanto mais tempo você passa lá mais torturante é a volta – disse Ulf com uma calma que teria assustado Rose numa situação diferente, nem mesmo a lembrava o mesmo rapaz de antes, o esnobe de quando se conheceram, o sedutor do baile, o choroso de pouco antes ou até aquele com aquele olhar sobre Lia...... – As coisas daqui parecem mais desgostosas, as cores mais mortas, os sabores mais azedos, os cheiros mais fracos, as texturas menos sedosas, os sons mais irritantes...... Nossos sentidos demoram muito a se acostumar de novo, dependendo do tempo dizem que nunca voltam, e isso é só o começo. Nosso corpo quer retornar pra aquele mundo tão prazeroso, mas nossas memórias parecem explodir de volta, dizem que é nossa mente lutando contra o retorno ao mundo alienígena, qualquer pequeno prazer nos leva a nossas lembranças mais afetuosas e amadas tentando nos manter aqui enquanto todo o resto nos arrasta de volta para lá, não é a toa que poucos são aqueles conhecidos como Viajantes, como eu.
Não havia esnobação na sua voz dizendo mais algum titulo, havia apenas consolo e uma onda de tristeza como se ele entendesse aquilo melhor do que ninguém:
–É exatamente por ser difícil que eu sempre fico a viajar por entre os mundos, não me pus em aventuras por ai apenas por um desejo infantil ou sede por conhecimento, Rose – a voz dele parecia estar embutida de algum tipo de Arte e logo ela começou a se acalmar, mas então ela notou atentamente que não era nada disso, ele estava apenas sendo sincero.
–Você simplesmente não fazia ou faz tudo que quer? – perguntou a jovem pouco se interessando por suas próprias duvidas, ela só não queria que ele parasse de falar, ela gostava tanto do timbre da voz dele, do calor....
–Só pessoas estúpidas fazem tudo que querem – por um instante ela jurou que ele falaria com escárnio, mas não, ele parecia apenas uma mãe repreendendo um filho – Um pessoa que vive fazendo tudo que deseje porque acredita que assim no final da vida não terá arrependimento nenhum é um dos mais estúpidos dentre todos, no final pessoas assim são as que mais tem arrependimentos carregando cada erro, cada impulso infantil e estúpido, pensando apenas em NÃO ter arrependimentos. O ser humano não tem que viver cada segundo como se fosse último, mas sim cada segundo com bom-senso e honra, fazer não tudo que quer, mas sim tudo que presta. Pode parecer clichê, mas lhe garanto que é o melhor possível.
–Então está me dizendo que tudo que você faz tem um motivo? Que sempre age com bom-senso e honra? Incluindo as suas infinitas aventuras sexuais?
E por um momento Rose pensou que iria destruir todo o clima da situação. Mas nada aconteceu. Na verdade ela viu apenas tristeza no olhar de Ulf e sua voz depois confirmaria a ela isso:
–Você acha que me orgulho de tudo que já fiz, não é? Que adoro cada transa que já tive com cada criatura? Que sou uma máquina de luxúria movida a puro sexo e tesão? – os olhos da ruiva responderam por ela e quando ela percebeu o moreno já estava por cima de seu corpo quase a devorando com o olhar – Você acha que se eu fosse alguém assim eu já não teria te possuído até cansar, algo que nunca acontece?
A jovem não queria, mas sabia que seus olhos verdes e cada centímetro do seu corpo arrepiado devia estar dando a resposta por ela. Os lábios dele encostaram nos dela e por um momento ela quis agarrá-lo ali mesmo ignorando completamente que ele estava deitando com sua própria mestra a poucos instantes atrás:
–Viu como acontece? Não controlo isso – o corpo dele aos poucos se distanciou do dela enquanto as suas palavras se aproximavam, as mãos dela queriam ter parado seu movimento, mas ela nada fez – Só aprendi a usar o que tenho de bom a meu favor, eu precisei aprender usar para obter diversas coisas que não poderia obter apenas com o uso da força. Uso meu bom-senso para medir cada ato meu PRINCIPALMENTE com minhas habilidades, como também deveria ser necessário a muitas pessoas e suas virtudes. Ser sincero sem medida pode acabar se tornando ignorante. Honestidade em excesso vira tolice. Tudo no mundo sem bom-senso é estúpido. Se eu não fosse alguém sensato, diferente do que você pensa, acho que nunca poderia ter me tornado o Campeão que sou com a vida que tenho.
–Por que você vive assim? Por que passar por tudo isso? Apenas títulos e imagem? Sede por aventura? Você mesmo acabou de me dizer que pessoas assim são as mais idiotas de todas – aquelas palavras pairaram entre eles até que o Nomeador se sentou na cama e fez um sinal para que ela sentasse ao seu lado e assim ela fez com calma.
–Paola........ – por quanto tempo eles ficaram em silencio absorvendo ambos aquela palavra nenhum deles soube, mas Rose em algum instante não se segurou mais e se pôs a abraçá-lo como ele fizera antes, ambos banhados pela luz da pedrardente que refletia nos olhos dele – Pouco tempo após a morte de Feänor, Lola e Galamion resolvi tomar uma atitude, desistir da vida e me matar......
A ruiva podia ver a sinceridade na voz dele, o quanto ele realmente em algum momento de sua vida quis fazer aquilo........:
–E pensei comigo mesmo, qual a pior forma de fazer isso? Depressão e loucura – a voz dele saiu tão carregada de tristeza que a garota ainda não entendia como aquele homem conseguia passar por tudo aquilo sem chorar ou sequer se abalar visivelmente – Então vim para a Terra, após cinco anos sem jamais pisar aqui. Havia passado um ano morando nessa casa naquele quarto onde estava com Lia, tinha sido meio que adotado por Robert e criado por ele como um filho. Mas eu não aguentava ficar aqui, tinha que descobrir tudo sobre mim mesmo e o passado daquele monstro que me gerou então depois de um ano fugi de casa. Acabei entrando no vértice por acidente e então Galamion me encontrou, mas isso já é uma outra história pra outro dia. O importante é que depois de todo esse tempo em Arcádia resolvi voltar.
Rose tentava a todo custo tentar entender como fora o retorno dele, mas ela não conseguia. Com poucos dias longe ela já se sentia daquela maneira imagine então com cinco anos de diferença. Talvez o lado de Arcádia já tivesse vencido e ele não tivesse mais memórias daqui tornando o processo mais simples. Ou talvez não:
–Quando cheguei aqui fiz questão de reviver minhas piores memórias então me pus a andar pela cidade – falou o moreno respirando fundo, a ruiva sentia cada gota de esforço no seu corpo tentando por aquilo para fora, ele talvez nunca tivesse contado aquela parte de sua vida antes.
–Nessas andanças você a reencontrou não foi? – o Campeão apenas assentiu com a cabeça perante a indagação dela.
–Ela estava com onze anos na época e eu com treze, ela continuava a mesma pirralha que me lembrava mesmo estando mais velha – e então a híbrida viu seu companheiro de acidente genético fazer algo que ela nunca virá antes nele, um riso, mas um riso absurdamente feliz e gostoso digno da mais infantil das crianças, por um momento até toda a sua tristeza se esvaiu – Tentei fugir enquanto houvesse tempo, mas a desgraçada me viu antes de isso ser possível e não me deixou mais escapar. Levou-me de volta para essa casa e começou a conversar comigo sem fim. Quando vi tudo de ruim dentro de mim havia sumido.
Naquele instante Rose viu o Fluxo mais belo que ela já havia visto saído da voz de alguma criatura. Mesmo esse dom só tendo aflorado a pouco tempo ela duvidava que fosse ver algo assim tão cedo. O Feé continuava a ter seu habitual tom dourado, mas agora um rosa cintilante e claro começou a surgir também e logo ela estava envolta num baile dourado e rosa digno de um filme de princesas infantis. O próprio Fluxo tinha aumentado naquele lugar como se ela estivesse de volta a Arcádia, mas parecia ainda mais vivo, mais intenso, mais amoroso e romântico. Ela estava se sentindo maravilhosamente bem ali e por um momento suas próprias incertezas e dores começaram a sumir:
–Passei dias voltando a viver com Robert como se nada tivesse acontecido, ele não me bombardeou de perguntas ou me repreendeu, pelo contrário, me deu talvez um dos abraços mais apertados que já recebi na vida perdendo apenas para o que Paola me dera quando nos vimos. Finalmente me sentia com um lar novamente desde a morte de Galamion.
Ele estava com um sorriso na cara que Rose teve vontade de apertá-lo como faria a uma criancinha…. Mas uma criancinha mortal, sexy e com uma cicatriz no rosto que o impedia de sequer deixar claro sua própria idade. Não, ele era tudo, menos uma criança apertável:
–Mas com poucos dias lá percebi que havia algo muito errado ali – disse Ulf suspirando pesado e toda a cor que cobria o ambiente e fazia um espetáculo cintilante criado a partir da interação entre o Fluxo e a luz da pedrardente, algo digno do Cirquedu Soleil, começou a desaparecer voltando a sua quantidade e brilho normais da Terra – Robert logo confirmou minhas suspeitas, Paola estava doente. Ela estava sofrendo de uma doença mortal, algum tipo de bactéria se apossou do corpo dela e ela parecia se alimentar das proteínas do corpo humano – então toda a luz e felicidade que pareciam ter voltado ao jovem sumiram de uma vez trazendo um tom cinzento enegrecido mortal – Os médicos a davam mais alguns poucos anos de vida até que morresse e não havia nada que pudéssemos fazer para impedir......... Pelo menos usando meios humanos.
–Então foi por isso que você.......
–Sim foi por isso que saí pelo mundo de Arcádia – o Domador cortou a fala da ruiva que a observou sem acreditar – Esse foi o real motivo pelo qual comecei a andar pelo mundo e fui querer chegar ao reino dos gigantes, não achar o mapa para o mausoléu do lich, mas sim porque lá eles diziam que havia a cura para a doença dela. A bactéria que havia no corpo dela não era contagiosa e nem mesmo se proliferava, na verdade ninguém nem sabe como aquilo foi parar nela já que pelo que averiguamos ela morria fora do corpo humano, mas lá dentro ela era praticamente imortal, nenhum remédio parecia afetá-la. Estavam tentando literalmente de tudo, mas nada funcionavam. Foi então que tive essa idéia.
–Do que se tratava essa cura?
–Não era bem uma cura. Era uma maneira de controlar a doença. Se a bactéria se alimentava de estruturas protéicas eu daria essas coisas aos montes pra ela de tal maneira que ela sempre tivesse o suficiente para nunca precisar fazer mal a ela. Existe um animal no reino dos gigantes, uma gansa gigante que produz ovos com uma casca feita de ouro no lugar de cálcio. Muitas pessoas sempre se focaram na casca e esqueceram da parte interna. O ovo da gansa é um dos alimentos mais nutritivos que existem no quesito protéico, na verdade apenas um ovo dele já é o suficiente para saciar toda a quantidade de proteína de uma dieta diária de um ser humano.
–Então você faria ela comer o ovo como alimento? Assim ela simplesmente comeria dois deles por dia acabando com a quantidade diária dela e da bactéria? – a cabeça do moreno assentiu com calma, os olhos dele então fitaram o alto como se olhasse alguma coisa.
–Esse era o quarto dela – ele então se levantou e tapou o anel de pedrardente com as mãos não deixando a luz escapar e fez um sinal para que ela olhasse para cima e no teto do quarto milhares de pontos luminosos começaram a surgir formando um céu artificial – A gente passou várias noites observando o céu pela janela desse quarto e, usando um telescópio que Robert deve ainda ter guardado, observávamos e ai íamos desenhando no teto. Foi na época que tinha obtido o mapa para a terra dos gigantes e ia para lá, mas antes fiz questão de voltar para a Terra para descansar por uma semana e aproveitar para criar algo só nosso.
E então Rose aos poucos tirou os dedos de Ulf do anel. Não por não ter amado aquele espetáculo, mas sim por não se achar digna dele. Não era dela. Não era pra ela:
–O que aconteceu com ela então? Você conseguiu os ovos, não é?
–Sim eu consegui, roubei alguns ovos e até um filhote de uma das várias gansas que havia lá. E por muito tempo ela viveu em paz com a doença, aprendi a cozinhas várias coisas de ovos diga-se de passagem só pra ela não enjoar tanto assim. Omeletes, ovos fritos, ovos cozidos e diversos outros tipos com diversos molhos e recheios.
–Você sabe cozinhar?
–É claro que sei, Rose – “finalmente”, a garota pensou. Fazia muito tempo que ele não falava o “nome” dela com aquele tom de escárnio que ela gostando ou não sentia saudade – Sei de mais coisas do que você pensa e isso não se refere a apenas coisas sexuais ou de luta ou sequer sobre Arcádia e outros reinos místicos.
–Como consegue aprender e saber todas essas coisas?
–Você também pode, Rose. Todos nós podemos, só não acreditamos nisso. Claro que ninguém é bom em todas as áreas e nunca poderá saber de tudo, mas eu sigo uma linha de pensamento que diz que sábio não é aquele que sabe muito de poucas coisas, mas sim que sabe um pouco de tudo. Conhecimento é poder, principalmente quando é diversificado. Por exemplo, mesmo não sendo bom na Arte eu conheço várias coisas e acabei me especializando na área que acabou sendo mais fácil para mim, a Arte escrita como acontece no caso dessa casa.
–Por que Robert sabe a Arte? Ele ganhou seu estigma naquela noite que seu.... – por um momento ela pensou em dizer pai, mas o pavor de vê-lo com raiva e sair dali a controlou, não podia deixá-lo ir agora que finalmente tinha feito ele se abrir – Progenitor atacou?
–Não – o silencio se fez por um momento e mais um suspiro, estavam voltando ao assunto “Paola” – Robert nunca se interessou por coisas do gênero, mas depois que voltei com a cura ele não conseguiu mais se controlar e me encheu de perguntas. Não por uma curiosidade estúpida, mas sim por necessidade, ele sabia que alguém podia ter me rastreado, que um dia poderia vir em busca da gansa ou mesmo alguém daqui ver os ovos de ouro que trouxe ou até médicos virem investigar ATÉ DEMAIS a cura de Paola, então ele implorou para que lhe ensinasse alguma coisa. Na época não sabia da arte dos Han Go Dan e mesmo que soubesse não poderia ensiná-lo e não tinha mais nada de interessante, mas havia algo de que poderia lhe ensinar a base.
–E ai você fez o estigma nele
–Sim, confiava nele o suficiente para despertar o seu dom de ver e manipular o Fluxo. Se lhe interessa o estigma dele é no peito, uma pequena queimadura que fiz no peito dele. Quase tão irrelevante quanto a sua. Então comecei a entregá-lo alguns materiais de estudo e quando notei ele já era bem melhor do que eu com a Arte.
–Então o que aconteceu com Paola se ela já tinha sua doença sob controle e alguém para protegê-la?
Se a explicação viria a seguir Rose nunca viria a saber, pois naquele momento Lia abriu lentamente a porta do quarto:
–Espero não estar atrapalhando nada – disse a elfa e sua pupila conseguia ver claramente que ela não falara aquilo apenas por educação, mas sim também dando uma alfinetada nela.
–Não está – falou o Campeão se levantando da cama – Só estava contando a Rose tudo que você já sabe.
–Você contou tudo pra ela também? – a ruiva não deixou de se incomodar com aquilo, pensava que aquilo fosse algo só deles, que apenas ela tinha se provado digna de saber da parte mais dolorosa do passado dele.
–Sim, mas não com palavras como fiz com você – o olhar de dúvida no rosto dela deve ter sido evidente pelo suspiro que ambos os mais velhos soltaram.
–Certos casais não precisavam conversar para interagirem, principalmente em Arcádia, Rose – a elfa falou se aproximando da pupila e se sentando onde antes Ulf estava já que agora o Domador estava próximo da porta – Alguns Artistas simplesmente unem suas mentes e compartilham memórias na medida do que se permitem e não apenas memórias.Sentimentos, desejos...... Tudo.
–Isso é possível?
–É necessário que seus corpos fiquem numa sintonia única que só é alcançada de um jeito – Lia não precisava terminar sua frase para Rose entender ao que ela referia – O ato sexual une os seres muito mais do que vocês humanos pensam, talvez por isso banalizem tanto. Talvez nós elfos também não o utilizemos da maneira correta o tornando uma arma, mas ainda assim acredito ser melhor do que algo simplesmente por “poder fazer”. Por isso disse a dias que você ser tão bela é tão útil, você pode dominar homens e mulheres na cama, entrar em sintonia com eles e usufruir de seu corpo e mente por meio da Arte já que normalmente ninguém está atento a manter sua mente protegida na hora de um orgasmo.
–É por isso então que você é assim, Ulf? – o moreno apenas suspirou pela pergunta, estava ficando cansado de tanto falar e mesmo não querendo assumir não gostara tanto assim da intromissão de Lia.
–Não apenas isso, Rose – disse ele com seu clássico escárnio – Às vezes faço porque gosto, como acontece na maioria das vezes com a sua mestra, às vezes por querer compartilhar informações como faço com Artistas, às vezes por me beneficiar como você viu no dia com para a Feira do Amanhã quando veio pela primeira vez para Arcádia. No fim isso não importa, Lola me corrompeu da pior maneira que uma pessoa pode fazer com um pré-adolescente e como se não bastasse por muito tempo essa foi a única coisa que podia barganhar. Agora por favor, vamos dormir. Já estou cansado de toda essa conversa.
O moreno deu as costas as duas e saiu do quarto indo em direção ao seu deixando elas sozinhas com a luz da pedrardente:
–Ele está certo na parte de ir dormir – falou Lia acariciando a cabeça da sua pupila trazendo-lhe memórias da mãe que agora não a incomodava mais tanto assim, na verdade até lhe serviu como impulso para se manter em pé, só assim resistiria o suficiente para passar por aquela missão e exigir a chance de rever sua família sem prejudicar o rei a quem ela jurara lealdade. Ela realmente na época não entendia nada do que aquelas palavras significaram, mas aos poucos estava mais próxima da verdade – Temos uma longa jornada para recomeçar amanhã, lembre-se disso e vá descansar logo.
A Criadora de Vida então deixou sua pupila só no quarto indo em direção ao do Campeão. Rose ainda não gostava do fato de Ulf se deitar com sua mestra mesmo que não assumisse o porquê, não podia se deixar se tornar uma protagonista de livro infanto-juvenil e cair de amores pelo bad boy.
Não demorou para a ruiva finalmente adormecer. E para ela em seus sonhos não demorou para ela acordar por mais que achasse que mesmo que tivesse mil horas ali não teria sido o suficiente para o que se sucedia na sua cabeça. Uma longa noite com ele........... Então deu um pulo da cama assustada com o barulho que vinha lá de baixo.
O som de leões atacando.
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