A busca pela Estrela Gelada
1 1. Um dia anormal
Notas iniciais
A médica, que parecia apenas um esqueleto de jaleco para Emily, pegou o clássico estetoscópio gelado e encostou no tórax dela. Para a mãe da garota aquilo era um estetoscópio e o medico era apenas uma mulher loira, de pele bronzeada e profundos olhos azuis escuros que tinha a beleza digna de uma modelo, mas a jovem ruiva estava se controlando para não sair correndo enquanto um esqueleto aproximava um chicote cheios de pequenos espinhos e na ponta tinha a cabeça de uma serpente que parecia adormecida.
A garota desde pequena sempre viu o mundo de uma maneira não usual, tudo que as pessoas consideravam comum para ela era algo quase enlouquecedor. Parques de diversões eram verdadeiros pesadelos, casas de torturas mediáveis. Quando ela reclamava quando pequena e começou a visitar psicólogos que falavam que tudo que ela via eram apenas alucinações, maquinações de sua mente infantil, e quando notou os olhares estranhos sobre si ela parou de falar sobre isso. Agora as vésperas dos seus quinze anos as alucinações estavam ainda mais freqüentes e cada vez mais reais fazendo com que Emily quisesse voltar a ser uma criança tola e começasse a chamar a mãe para afastar os monstros que ela via pela rua.
Quando a cabeça da serpente tocou o tórax da garota ela viu os olhos da criatura se abrirem e um chiado reptiliano cortou o ar. A língua da serpente fazia cócegas sinistras na região entre os seios dela e Emily se controlava para não gritar enquanto o esqueleto movia a serpente pelo seu corpo e os espinhos tocavam sua pele.
A ruiva encarou sua médica e então viu algo mudar no rosto esquelético dela, o lado direito de sua face começou a ganhar músculos e órgãos.
Glóbulo ocular com íris azul escuro, mas com a escléra negra, fibras musculares, uma boa quantidade de fios de cabelo loiros escuros, sebosos, quebradiços e cheio de pontas duplas e triplas. Uma língua inchada e escura começou a surgir lentamente naquela boca que aos poucos também ganhava gengiva e então um som ecoou dali:
-Pode por a blusa querida, já acabamos disse a medica com calma abrindo um sorriso que para Emily era a coisa mais macabra que já viu, um rosto com metade esquelética e a outra metade lembrando um manequim de laboratório de biologia que mostrava apenas os músculos
Emily passou quase um minuto para processar a frase dita, mas para ela pareceu uma pequena eternidade e então apressadamente colocou o sutiã e a blusa. Normalmente a visão deturpada da garota durava apenas alguns momentos e então sumia, mas por mais que todo o resto do consultório já estivesse voltado ao normal a médica e seu estetoscópio continuavam alterados:
-Ela vai precisar tomar esses remédios aqui mamãe falou a médica preenchendo a receita médica e assinando o documento onde havia apenas uma lista de antialérgicos e então abriu um largo sorriso
-Obrigada, Doutora Lokyson disse a mãe de Emily cumprimentando a médica
-Lembre-se senhora Evergreen, caso ela não melhore em três dias a senhora traga ela de volta
-Sim, claro, não esquecerei
Emily não tirava os olhos da médica e a cada instante um terrível arrepio percorria sua espinha como se fosse um alerta. Ela sabia que sua repentina alergia não era alergia coisa nenhuma e agora agradecia por finalmente poder ir embora por mais que soubesse que daqui a sete dias estaria de volta. Seus caroços coçaram, a ruiva sabia que isso não tinha nada a ver com doença nenhuma, algo dentro de sua mente dizia que era apenas o seu corpo de garota finalmente se tornando o de mulher as vésperas dos seus quinze anos.
A jovem observou o céu pela janela do consultório antes de descer da maca onde estava sentada e viu o céu lá fora bem diferente do usual, o que antes era azul celeste agora era vermelho como sangue e as nuvens eram todas cinzentas como se carregassem terríveis tempestades.
Realmente aquele não estava sendo um dia normal na vida daquela garota anormal:
-Ora vejam só não esperava que já fosse meio dia disse a médica observando o relógio de parede que havia no consultório, para todos era apenas um círculo de madeira com números e ponteiros, mas para Emily aquilo parecia a cabeça de algum monstro com um enorme olho e uma boca com apenas a parte superior da mandíbula e alguns dentes Não posso mais deixá-las ir embora agora, mil desculpas senhora Evergreen, não estava nos planos que minha consulta acontecesse tão tarde e acabasse tão tarde, agora não poderão mais ir embora
Antes que Emily entendesse o que a mulher falou ela sentiu tudo ao seu redor rodar, o chão pareceu líquido, o ar tão denso quanto chumbo e então a mulher soltou algo que pareceu um grunhido bestial e a serpente no seu chicote começou a silvar. A mulher meio-esquelética pegou sua arma e a apontou para a adolescente com a cabeça da criatura silvando:
-Mil perdões minhas adoráveis clientes falou a médica fingindo estar decepcionada com a situação Mas não poderão mais sair daqui, não vivas
A serpente avançou antes mesmo de sua dona e por pouco Emily não tomou uma mordida daquela cabeça cheia de escamas negra e que agora parecia soltar um denso líquido esverdeado pelas presas. A garota rolou pelo chão e viu quando a médica moveu o chicote e a cabeça da serpente acertou em cheio a garganta de sua mãe.
Emily gritou como nunca tinha feito antes e observou o olhar de sua mãe estático enquanto sangue misturado ao liquido verde escorria aos poucos da sua garganta que parecia a cada segundo mais pálida. A serpente lentamente soltou a garganta da mulher e se virou para a ruiva que nada tinha de parecido com a sua mãe morena de pele bronzeada:
-Não se preocupe, queridinha disse a médica mexendo no seu chicote e com a serpente deslizando pelo seu seio sem pele Ela nem era sua mãe mesmo
Emily já sabia daquilo, sempre soube que era adotada, mas isso não mudou o fato de que aquela cena era traumática e o silvar da serpente soltando seu veneno pelas presas não a ajudava a processar direito a cena:
-A senhora Evergreen nem deve ter entendido o que aconteceu falou a médica com calma e a serpente já tinha se metido por baixo do jaleco dela e deslizava por entre suas pernas fazendo a mulher soltar leves suspiros Humanos comuns passam a vida toda sem jamais entender o mundo que os rodeia e a ver através da normalidade, mas você não é a uma humana normal não é querida?
A ruiva queria concordar com ela e dizer que finalmente tinha encontrado alguém que via o mundo como ela e que nada daquilo era mera alucinação, mas ver áqüea maluca assassina a impediu de falar aquilo. A serpente surgiu de dentro do jaleco velozmente e novamente Emily escapou do ataque por pouco e viu quanto os dentes da criatura perfuraram e depois rasgaram a perna metálica da maca.
Rapidamente a médica moveu o chicote e a serpente voltou a atacar dessa vez acertando em cheio o ombro da ruiva. A pobre garota gritou de dor, mas em poucos instantes parou de gritar, não pela falta de dor, mas sim por não conseguir mais falar. Aos poucos sua visão começou a escurecer pelos cantos, mas não o suficiente para uma onda flamejante passar despercebida. Chamas rubras acertaram em cheio a parte direita do seu rosto, a parte onde ainda havia músculos e o olho.
O fogo devorou parte do rosto da mulher gerando enormes bolhas, cheiro de queimado e um olho inchado que estava segurado apenas por um filete muscular enquanto tentava sair do crânio. Emily caiu no chão, suas pernas não funcionavam mais e seu peito queimava enquanto uma terrível tontura a afetava e sua visão escurecia ainda mais. A jovem viu o semblante de algo vestindo um manto negro e então mãos começaram a tocar seu rosto e antes de perceber um líquido azedo descia pela sua garganta.
Aquele realmente não era um dia normal.
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