A bruxa que não estava no roteiro.
4 Capítulo 4.
Apesar disso, conseguiu sair do escritório de Snape mantendo alguma aparência de dignidade.
Chegou até a primeira curva do corredor, encostou as costas na parede de pedra e ficou ali por alguns segundos, olhando para o teto como se ele pudesse oferecer alguma explicação razoável para as escolhas que havia feito desde a noite anterior.
— Era para ser um ano calmo.
Em menos de vinte e quatro horas, tinha quebrado o toque de recolher, encontrado Pansy carregando um objeto suspeito, sido arrastada por Draco para uma alcova, presenciado uma explosão, voltado ilegalmente à Ala Norte com Harry e, como se tudo isso ainda não fosse suficiente, acabado de informar a Severo Snape que passara parte da madrugada beijando Draco Malfoy.
Talvez tranquilidade já não fosse uma meta particularmente realista.
Sarah deixou o corpo escorregar pela parede até se sentar no chão.
— Um ano calmo. Excelente planejamento.
Passos surgiram no corredor.
Ela não se deu ao trabalho de levantar a cabeça.
As botas pararam diante dela.
— Pelo amor de Salazar, Griller. Você decidiu virar parte da mobília do castelo?
Sarah fechou os olhos.
Claro.
— Vai embora.
— Não.
— Malfoy.
— Griller.
Ela finalmente ergueu o rosto.
Draco estava parado diante dela com a expressão de quem, por algum motivo, considerava perfeitamente normal encontrar alguém sentado no chão das masmorras e começar uma discussão.
— Você está me seguindo?
— Não. E, para registro, se tivesse lido o bilhete que decidiu afogar no suco do Weasley, saberia que eu estava tentando falar com você desde o café da manhã.
Sarah franziu o cenho.
— Você viu aquilo?
Draco apenas a encarou.
— Você enfiou meu bilhete inteiro num copo de líquido laranja enquanto olhava diretamente para mim. Foi difícil perder.
— Eu estava cansada.
— Percebi.
— E irritada.
— Isso também ficou bastante evidente.
Sarah tornou a apoiar a cabeça na parede.
— O que estava escrito?
Draco demorou um instante antes de responder.
— Que precisávamos conversar sobre ontem.
Sarah fez uma pequena careta.
— Certo.
— "Certo"?
— Nós conversamos.
— Apesar de você ter feito todo o possível para impedir.
Ela olhou para ele.
— Eu não sabia o que tinha no bilhete.
— Porque não leu.
Sarah abriu a boca, percebeu que não tinha argumento e desistiu.
Draco continuou observando-a sentada no chão por alguns segundos antes de estender a mão.
— Levanta.
— Estou confortável.
Ele olhou para o piso de pedra.
— Você está sentada no chão de uma masmorra.
— Meus padrões caíram bastante nas últimas horas.
A mão continuou ali.
Sarah olhou primeiro para ela, depois para o rosto dele.
— Você pretende ficar assim até eu aceitar?
— Provavelmente.
Ela soltou um suspiro e segurou sua mão.
Draco a puxou de volta para os pés com facilidade e a soltou assim que ela recuperou o equilíbrio.
Informação completamente inútil: a mão dele era quente.
Sarah não fazia ideia de por que seu cérebro considerara necessário registrar aquilo, mas decidiu não investigar.
Draco esperou até que ela ajeitasse as vestes.
— Pronto. Agora me conta o que aconteceu.
Sarah evitou seu olhar.
— Nada.
Ele olhou para o lugar onde ela estivera sentada.
— Você saiu da sala de Snape e resolveu ficar no chão encarando o teto.
— Talvez eu tenha desenvolvido apreço por pisos.
— Você é uma péssima mentirosa.
Sarah imediatamente tornou a encará-lo.
— Não sou.
— Sete anos de evidência dizem o contrário.
Ela cruzou os braços.
— Cite uma.
Draco suspirou, como se já estivesse arrependido de ter começado.
— No quinto ano, você disse que não tinha encostado no caldeirão do Finnigan menos de dois minutos antes de ele começar a soltar fumaça roxa.
Sarah ficou olhando para ele.
Por alguns segundos, esqueceu completamente o assunto principal.
— Por que você lembra disso?
Draco pareceu achar a pergunta absurda.
— Porque foi uma mentira ruim.
— Não justifica por que você lembra dela dois anos depois.
— Griller, eu tenho memória.
— Muito conveniente.
— E você continua tentando mudar de assunto.
Ele permaneceu olhando para ela.
Sarah sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois desviou.
— Para.
— O quê?
— Isso que você está fazendo.
Draco olhou rapidamente para si mesmo.
— Estou parado.
— Você sabe muito bem o que eu quero dizer.
— Estou esperando você me contar o que disse ao Snape.
Sarah não respondeu.
O silêncio entre os dois mudou.
Draco percebeu.
— Sarah.
Ela tornou a olhar para ele.
O próprio nome soou estranho vindo daquela voz.
Draco nunca a chamava assim.
Sarah piscou.
— Você acabou de me chamar de Sarah.
Ele fechou os olhos por um instante.
— E já estou arrependido.
— Achei importante registrar.
— O que você disse para Snape?
A pergunta voltou mais séria.
Sarah abriu a boca.
Fechou.
Se contasse naquele momento, Draco provavelmente surtaria.
Se não contasse e Snape resolvesse perguntar a ele, Draco negaria tudo e Sarah estaria acabada.
Nenhuma das alternativas parecia especialmente promissora.
— Eu consigo explicar.
Draco passou a língua pelos dentes e soltou o ar devagar.
— Essa frase nunca precedeu nada bom vindo de alguém.
Sarah estava prestes a responder quando ouviu passos no corredor transversal.
Lentos.
Regulares.
Familiares.
Ela parou.
A sombra surgiu primeiro na parede.
Snape.
Sarah sentiu o estômago despencar.
As últimas palavras dele voltaram imediatamente à sua cabeça:
Espero que o senhor Malfoy tenha uma memória tão romântica quanto a sua.
— Merda.
Draco franziu o cenho.
— O quê?
Sarah não respondeu.
Não houve tempo para pensar numa explicação, muito menos numa boa.
Ela agarrou a frente das vestes dele, puxou-o para si e o beijou.
Não houve planejamento suficiente para aquilo ser bonito.
Foi rápido, desajeitado e executado com toda a precisão romântica de alguém tentando apagar um incêndio com as próprias mãos.
Draco ficou completamente imóvel.
Sarah sentiu o tecido preso entre os dedos, o cheiro familiar de cedro e hortelã e, por uma fração de segundo inconvenientemente longa, a maciez dos lábios dele contra os seus.
A informação entrou no cérebro.
Sarah recusou-se a processá-la.
— Senhorita Griller.
Ela abriu os olhos.
Snape estava alguns metros adiante.
Sarah soltou Draco imediatamente e deu um passo para trás.
Ele continuou parado por um instante, como se ainda estivesse reorganizando mentalmente a sequência dos acontecimentos.
Snape olhou para Sarah.
Depois para Draco.
Então voltou os olhos para ela.
— Entendo.
Draco pareceu finalmente recuperar a capacidade de falar.
— Diretor, isso não é—
Snape ergueu uma mão.
— Não tenho qualquer interesse em explicações.
Sarah desejou, com bastante sinceridade, que a parede atrás dela se abrisse e a engolisse.
Snape tornou a encará-la.
— Pelo menos uma parte de sua versão parece ter algum fundamento, senhorita Griller.
Muito devagar, Draco virou o rosto na direção dela.
Sarah percebeu.
Fingiu não perceber.
Snape continuou:
— Considerarei o assunto encerrado por enquanto.
Por enquanto.
Aquilo não soou nem de longe tão tranquilizador quanto deveria.
Snape passou pelos dois e continuou pelo corredor.
Sarah ficou imóvel.
Draco também.
Ela contou mentalmente até três antes de se atrever a respirar direito.
— Sua versão?
A voz dele veio baixa.
Sarah ofereceu um sorriso cauteloso.
— Então...
Draco virou-se completamente para ela.
— O que você disse para ele?
— Antes de ficar bravo—
— Griller.
Sarah respirou fundo.
Não havia mais como melhorar aquilo.
— Eu disse que a gente estava se beijando.
Draco ficou quieto.
O silêncio foi muito pior do que se ele tivesse gritado.
— Você fez o quê?
— Eu estava sob pressão.
Ele passou alguns segundos apenas olhando para ela, como se precisasse ter certeza de que tinha ouvido direito.
— Eu pedi uma coisa. Uma única coisa, Griller.
Sarah já sabia exatamente onde aquilo ia chegar.
— Eu sei.
— "Não mencione meu nome."
Ela levantou as mãos.
— Sim, essa parte ficou bastante clara.
Draco passou a mão pelo rosto e se afastou dois passos, como se precisasse criar distância antes de continuar.
— E você não apenas mencionou meu nome. Você decidiu dizer ao diretor da escola que nós estávamos nos beijando.
— Eu precisava explicar por que estávamos escondidos juntos.
Ele voltou a encará-la.
— E essa foi realmente a melhor explicação que conseguiu inventar?
Sarah abriu os braços.
— Nós estávamos praticamente grudados.
Draco parou.
Sarah ouviu a própria frase tarde demais.
— Por causa da patrulha — acrescentou rapidamente. — Era esse o contexto.
— Sim. Eu me lembro. Eu estava lá.
— Então sabe exatamente o que eu quis dizer.
Draco respirou fundo, claramente se obrigando a não responder à primeira coisa que lhe vinha à cabeça.
— Isso ainda não explica por que você acabou de me beijar.
Sarah apontou na direção em que Snape desaparecera.
— Porque ele disse que você teria de confirmar a história.
Draco piscou.
— E?
— Você não sabia da história.
Ele abriu as mãos, incrédulo.
— Evidentemente eu não sabia da história que você inventou sem me consultar.
— Exatamente. E ele estava vindo.
— Continuo esperando a parte racional.
Sarah achou que a lógica era bastante óbvia.
— Então eu providenciei uma prova.
Draco ficou olhando para ela.
— Você me usou como evidência.
Sarah pensou um pouco.
— Tecnicamente... sim.
— Isso não melhora.
— Funcionou.
— Para você.
— Para nós.
— Não. Definitivamente para você.
Sarah inclinou a cabeça.
— Trabalho em equipe?
Draco fechou os olhos e massageou a ponte do nariz.
— Você é inacreditável.
Sarah aproveitou o breve silêncio para respirar.
Infelizmente, o beijo ainda estava recente demais para desaparecer apenas porque os dois haviam começado a discutir.
Ela conseguia lembrar do cheiro dele, da sensação dos lábios contra os seus e, principalmente, do fato bastante estranho de Draco ter ficado imóvel em vez de afastá-la imediatamente.
Não significava nada.
Ela decidiu isso com rapidez suficiente para deixar claro que provavelmente não queria pensar a respeito.
Draco tornou a abrir os olhos.
— Você não faz a menor ideia do que está fazendo, sua sang—
Ele parou.
Sarah também.
A palavra morreu antes de se completar.
Não precisava.
Ela sabia qual seria.
Durante sete anos, Draco Malfoy encontrara praticamente todas as formas possíveis de provocá-la, irritá-la e insultá-la.
Aquela, não.
Nunca aquela.
Por alguns segundos, o corredor pareceu silencioso demais.
Draco desviou os olhos primeiro.
Quando tornou a falar, a voz estava diferente.
— Sua imbecil.
Sarah não respondeu.
Os dois sabiam exatamente qual palavra havia morrido ali, e nenhum deles parecia encontrar uma forma confortável de atravessar os segundos seguintes.
Foi Draco quem rompeu o silêncio.
— Se isso chegar ao meu pai, vai dar problema.
Sarah ainda o observava.
— O beijo?
Ele balançou a cabeça.
— A história inteira.
— Achei que o problema fosse a grifinória envolvida.
Draco soltou o ar pelo nariz.
— Isso certamente não ajuda.
— Que reconfortante.
Ele não acompanhou a provocação.
— Não é disso que estou falando, Griller. Meu pai não gosta de descobrir coisas sobre mim por terceiros.
Sarah inclinou levemente a cabeça.
— E você pretende contar para ele?
Draco lhe lançou um olhar que tornava a resposta bastante evidente.
— Pretendo que ele não tenha motivo para perguntar.
Sarah olhou pelo corredor por onde Snape havia acabado de passar.
— Excelente plano, considerando que o diretor acabou de nos encontrar nos beijando numa masmorra.
— Obrigado por lembrar. Eu quase tinha conseguido esquecer.
— Disponha.
Draco ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o fim do corredor antes de tornar a encará-la.
— Você não conhece meu pai.
O tom tirou parte da graça da situação.
Sarah já preparava alguma resposta sobre sobrenomes, sangue puro ou reputação quando percebeu que Draco não parecia constrangido. Parecia preocupado.
E não exatamente com o beijo.
Antes que ela pudesse decidir se valia a pena perguntar, ele tornou a olhar para o corredor vazio.
— Não transforma isso em mais uma piada, Griller.
Ela cruzou os braços.
— Você sabe que eu não planejei nada disso.
— Sei.
— Ótimo.
— Isso não torna melhor.
Sarah fez uma pequena careta.
— Eu achei que tornasse um pouco.
— Não torna.
O desconforto já tinha durado o suficiente.
Sarah decidiu que aquele domingo tinha produzido constrangimento suficiente para várias semanas.
— Certo. Eu vou embora.
Deu dois passos.
— Griller.
Ela continuou andando.
— Griller.
Sarah acelerou.
Draco veio atrás.
— Não foge no meio da conversa.
Ela olhou por cima do ombro sem parar.
— Não estou fugindo. Estou me retirando estrategicamente.
— Isso é literalmente fugir.
Sarah virou a esquina.
— Até amanhã, Malfoy!
A voz dele ainda a alcançou pelo corredor.
— Nós ainda não terminamos!
Sarah continuou andando e só diminuiu o ritmo quando alcançou um corredor mais movimentado, onde havia alunos suficientes para obrigá-la a parecer minimamente normal.
Quando finalmente chegou ao dormitório, Sarah fechou a porta e caiu sobre a cama sem nem se preocupar em tirar os sapatos.
Pouco depois, ouviu Hermione do lado de fora.
— Sarah? Como foi com Snape?
Sarah puxou a colcha por cima da cabeça.
— Depois.
Muito depois. Talvez nunca.
Protegida pelo escuro improvisado, deixou a manhã inteira passar novamente por sua cabeça: Snape, a mentira absurda que inventara sem pensar, Draco descobrindo tudo poucos minutos depois e o beijo que definitivamente não deveria ter acontecido.
Havia também aquela sílaba interrompida.
Sarah fechou os olhos. Não precisava ter ouvido o restante para saber qual palavra viria depois. Conhecia bem demais aquele insulto e, por algum motivo, o fato de Draco ter parado antes de pronunciá-lo parecia quase tão difícil de ignorar quanto se tivesse terminado.
Mas havia outra coisa que deveria ocupar muito mais espaço em seus pensamentos do que um beijo idiota ou uma palavra que nem chegara a ser dita.
Draco tentara falar com ela ainda durante o café da manhã, antes mesmo de Snape mandar chamá-la. Depois, no corredor, parecera saber exatamente o que ela deveria ou não dizer ao diretor. Não estava preocupado apenas com uma detenção ou com o toque de recolher. Estava preocupado com a possibilidade de seu nome ser associado à Ala Norte, e aquilo não começara naquela manhã.
Na noite anterior, Draco já estava naquela região muito depois de ter saído da cozinha. Quando a explosão aconteceu, não pareceu confuso. Simplesmente seguiu naquela direção.
Sarah abriu os olhos sob a colcha.
O beijo era um problema. A quase palavra também. Mas nenhum dos dois respondia à pergunta que continuava voltando desde a madrugada.
O que Draco Malfoy sabia sobre a Ala Norte?
Sarah soltou o ar e virou de lado.
Era para ser um ano calmo.
Fale com o autor