A bruxa e o caçador
3 Final
Notas iniciais
As noites se passaram, e a amizade entre a bruxa e o caçador logo deu lugar a um sentimento mais profundo: o amor.
Na penúltima semana de dezembro, Sunset, desanimada, aguardava Swirl. Ela tinha uma notícia triste para compartilhar.
Agachada à beira do lago, envolvia os joelhos com um braço, enquanto o outro se erguia, com a mão à altura do rosto. Observava cinco pequenas borboletas dançando ao redor de seu dedo indicador, que apontava para o céu.
— Ahá! — exclamou o caçador, surgindo da mata, divertido ao avistar a linda moça. — Trapaceira!
Sunset se levantou e virou-se para encarar o loiro que se aproximava.
— Trapaceira? — riu graciosamente, colocando as mãos na cintura e esperando uma explicação.
As borboletas se dispersaram lentamente pelo ar.
— Eu te peguei no flagra! É por isso que você sempre ganha nossas competições de captura de grilos. — Uma das borboletas se aproximou de seu rosto, tentando tocá-la, mas logo bateu as asas, fugindo dele. — Você atrai insetos usando magia.
— Oh, isso... — Sunset riu ainda mais. — Desculpe, é a minha conexão com a natureza. Faz parte da essência de todo bruxo da floresta; não é algo que possamos interromper.
— Significa que você sempre atrairá insetos? — perguntou ele, curioso, já bem próximo dela e sentindo o doce aroma da moça.
— Sim, qualquer ser vivo da floresta. E a quantidade que atraio pode aumentar se eu me concentrar.
— Qualquer ser? Incluindo ursos, lobos e cobras grandes? — ele indagou, com um leve temor.
— Não se preocupe. Eles só atacariam se se sentissem ameaçados. Não consigo concentrar energia suficiente para chamar criaturas desse porte. Meu pai e meu primo conseguem, mas meu avô, o mais experiente da família, é capaz de invocar bandos inteiros.
— Estou com medo da sua família — ele riu nervosamente.
Sunset sorriu, mas logo se lembrou da notícia triste que precisava dar a Swirl.
— O que foi? Falei algo errado? — ele percebeu rapidamente o desânimo dela.
Ela negou com a cabeça, respirou fundo e disse:
— Amanhã irei para a casa do meu avô. É muito longe daqui e retornarei apenas no dia primeiro de janeiro... — uniu as mãos diante do corpo, as palmas voltadas para baixo. — Minha família quer comemorar a entrada do novo ano lá.
As esperanças de Swirl desmoronaram. Ele havia planejado várias atividades para a virada do ano e queria implorar para que ela não fosse, mas se sentia sem esse direito. Aqueles dias seriam torturantes, já que havia se acostumado com as noites que passavam juntos.
— Uma semana é pouco tempo... — riu nervosamente, coçando a nuca para esconder seu desespero.
Sunset percebeu que ele não estava sendo autêntico. O sorriso dele era forçado, e seus olhos revelavam seu verdadeiro estado.
— Sentirei saudades — disse ela, com sinceridade.
Swirl apagou o sorriso forçado.
— Eu sentirei mais.
— Voltarei na primeira noite em que retornar, prometo.
— Estarei aqui — ele a fitava, apaixonado. — O que houve? — notou uma leve tristeza nos olhos dela.
— Temo não ser a mesma quando voltar, de não ter o mesmo vínculo com você, de perceber que tudo o que tivemos foi... — o tempo com Swirl parecia um sonho do qual ela não queria acordar. Quis explicar a possibilidade de sua mente mudar, mas era um assunto complexo que levaria a noite inteira para esclarecer.
Ele avançou dois passos, extinguindo a distância entre eles.
— Shiii... — ele disse, colocando o dedo indicador sobre a delicada boca dela. — Escute-me: enquanto estivermos distantes, nossa relação continuará a mesma. Apenas pense nos dias maravilhosos que tivemos. Eu faço isso quando quero me animar, especialmente quando estou em casa. E pensarei ainda mais em você quando for para a casa do seu avô. — Ele segurou o rosto dela entre as mãos. — Eu te amo...
Ao ver a expressão surpresa que sua declaração provocou, ele sentiu que havia exagerado e começou a se retrair, mas, rapidamente, ela o segurou pelos braços.
— Swirl... eu também te amo.
Emocionado, o caçador aproximou seu rosto do dela.
A bruxa quase se alarmou ao perceber a intenção do movimento, mas as mãos dele, que a seguravam carinhosamente, trouxeram a segurança que ela precisava.
Ela confiava nele, assim como ele confiava nela.
Iniciaram um selinho que gradualmente se transformou em um beijo. Um beijo moderado, sem pressa, onde as emoções eram transmitidas através do afetuoso contato. Os corações sorriram, conversando na mesma língua de um amor puro que dançava em suas vidas.
Os dois começaram a levitar. Tinham noção de que seus pés não estavam mais no chão, porém não interromperam o beijo. As borboletas regressaram, borboletas coloridas.
Yeast, escondido ao longe, não conseguia acreditar no que via. Paralisado, assistia seu irmão beijar a estranha sob a luz da lua cheia, enquanto as borboletas dançavam em um fluxo espiralado ao redor do casal.
— "Mano, o que você está fazendo...?" — pensou consigo mesmo.
Com o coração pesado, voltou para casa, onde seus pais o aguardavam. Eles haviam sido os responsáveis por mandá-lo seguir Swirl naquela noite.
****
— Desembucha, Yeast! Viu a moça com quem seu irmão vem se encontrando?
A mãe perguntava pela terceira vez desde a volta do filho, que preferia o silêncio enquanto tentava assimilar o que vira na floresta.
— Vi... — respondeu ele, enfim, virou o copo meio cheio de água, molhando a garganta.
— Como ela é? — a mulher insistia, enquanto o marido se sentava em um canto da sala, desembaraçando uma rede de pesca.
Yeast permaneceu calado por um tempo, esgotando a paciência da matriarca. O que ele esperava encontrar era seu irmão namorando uma moça comum da cidade; no entanto, o que presenciou ultrapassou sua imaginação.
Quando Swirl começou a apresentar mais bom humor, a família aceitou bem a mudança, acreditando que, finalmente, o loiro deixara para trás a perda na caça de aniversário. Mas tudo mudou quando foram questionados sobre para onde ele saía todas as noites. O jovem respondeu que se encontrava com alguém, e a mãe insistia em conhecê-la, mas Swirl sempre afirmava que não era o momento certo. Os parentes deduziam que era uma mulher. O pai se orgulhava da ideia de que o filho estava se afirmando como homem, mas começou a achar que a moça era uma péssima influência, uma vez que, desde que começou a vê-la, Swirl mudara seus hábitos de caça, trazendo apenas um animal por vez e dizendo que era suficiente.
Até que chegou o dia em que os pais pediram a Yeast que seguisse o irmão, para que pudessem tirar satisfações com a moça que estava conquistando Swirl.
— Por que faz essa cara, Yeast? — O pai, cansado de desembaraçar a rede, fitou o loiro, que tinha os dedos entrelaçados à frente da boca.
— O que descobri é muito grave... — começou o jovem, com um ar pesado. — Meu irmão está enfeitiçado por uma bruxa.
A primeiro momento, o casal não levou a sério. O pai exigiu que o filho falasse logo a verdade, e o filhou repetiu que o irmão estava enfeitiçado por uma bruxa. E continuou seriamente calado.
O casal não retornou a falar. Esperava o filho desmentir o que disse. Todavia, Yeast apenas confirmou mais:
— Eu vi Swirl flutuar com ela sobre um lago que reluzia de forma estranha. — Sua inquietude era evidente, passou a mão pela testa, limpando a quantidade excessiva de suor que se acumulou na pele.
As feições da mãe passaram a expressar horror, assimilando que seu filho falava sério.
— Me-meu filho enfeitiçado... Deus!
— Não acredite nele, mulher! — O pai gritou, apontando para Yeast. — O que diz, filho?! Não quero esse tipo de brincadeira nunca mais, está me ouvindo? Sabe o que fazem com as pessoas que ousam falar de bruxas? Se brincar por aí dizendo que seu irmão se encontra com uma bruxa, sabe o que farão com ele?! Sabe...
— PAI! — Yeast o interrompeu, levantando-se e batendo com as palmas na superfície lisa da mesa. O copo vazio caiu e rolou pela madeira, quase atingindo o chão, se a mãe não tivesse se apressado para pegá-lo.
— Ele não mente, querido. — A mãe voltou seu olhar para o filho. Colocou o copo de volta no lugar e juntou as mãos em um gesto de oração. — Sei quando ele diz a verdade.
O pai precisou de um tempo para refletir, analisando as feições de Yeast até chegar à conclusão de que tudo o que ele dissera era sério. Com uma dor de cabeça, decidiu:
— Então temos que agir o quanto antes... eu tenho ideia do que podemos fazer.
****
A modesta habitação do avô de Sunset situava-se ao pé da montanha que dividia a floresta. A casa, azul-cinza, era feita de tábuas de madeira dispostas horizontalmente, com o teto de cada cômodo formando um triângulo e uma chaminé de tijolos se destacando ao centro.
Sunset adorava o cheiro de torta de maçã que permeava o lar do idoso, um aroma que a fazia lembrar da infância. Os dias ao lado do avô foram felizes, repletos de sonhos esplêndidos que a faziam sentir seu corpo envolto em magia. E, em muitos deles, o jovem caçador estava presente. O desejo de reencontrá-lo crescia a cada dia, junto com a tristeza de ter que deixar a casa do avô, especialmente após os acontecimentos em Salém.
Naquela noite, ocorria o último jantar em família da semana, e o clima de paz reinava, como nos dias anteriores. Durante a conversa à mesa, Screw falava sobre seu trabalho, dividido entre aceitar uma proposta para se mudar para uma cidade maior. Mas isso significaria se distanciar da natureza, algo nada recomendável para um bruxo da floresta.
— Você tem falado da sua profissão todos esses dias, Screw. Não deve se deixar cegar pelos negócios — disse o tio, orgulhoso do sobrinho, mas preocupado com seu exagero. — Muito sucesso lhe renderá atenção exacerbada, e atenção é o que devemos evitar para manter nossas verdadeiras identidades.
— Há uma bruxa solteira no sul da floresta, de uma família que cultiva os mais belos campos floridos da região; seria uma boa pretendente para você, Screw — sugeriu o avô. — Acho que formariam um belo casal; um tempo para amar o fará descansar de tanto trabalho...
Screw se alarmou, tentando reverter a situação.
— Não é necessário! E-eu descansei bastante nesta semana. Na verdade, acho que descansarei por mais alguns dias...
— Eu gostei da ideia — assentiu o tio, apoiando a mão no queixo. — Agendarei um encontro. Me passe as informações dela mais tarde, pai; marcaremos uma reunião com a família da pretendente.
Pai e filho concordaram, enquanto Screw fazia uma expressão de descontentamento.
Sunset abafou a risada com a mão.
— Flower, como anda seu aprendizado do livro de feitiços que lhe dei?
A menina, antes alheia à conversa dos adultos e empanturrando-se de sobremesa, terminou de engolir para responder:
— Estou no nono capítulo! Quando eu usar magia pela primeira vez, já serei uma bruxa poderosa! — levantou o punho cerrado, com os olhos brilhando.
Flower sentia a magia em seu corpo, mas ainda não conseguia liberá-la. Sempre ouvia que só conseguiria quando se tornasse mocinha, por isso desejava crescer rápido. Até lá, contentava-se em preparar poções mágicas com elementos encantados, que não duravam mais que dois minutos.
— Tenho que comer mais para crescer logo!
— É a minha netinha, determinada como é o costume em nossa família — disse o avô, com orgulho.
No final do jantar, Sunset insistiu em lavar a louça e foi ajudada pelo pai. Flower, depois de lavar as mãos e a boca, arrastou o primo para o quarto, ansiosa para que o jovem bruxo fizesse magia para ela. Screw e Sunset se revezavam todas as noites para mostrar magia à pequena bruxa, e, na última noite da estada da família na casa do avô, a vez era do primo.
****
O idoso bruxo preparou chá para seu filho e neta. Na sala de visitas, ele se sentou na cadeira de frente para os dois que também sentavam.
Os três permaneceram em silêncio, saboreando o chá. Quando terminaram, o idoso inclinou o tronco para frente, estendendo o braço e abrindo os dedos na direção da jovem.
— Deixe-me examiná-la, querida Sunset.
Finalmente chegara o momento, pensou a bruxa. O pai recolheu o conjunto de chá e levou-o para a cozinha, deixando os dois sozinhos.
Sunset ficou diante de seu avô, que a analisava de cima a baixo. Ele tocou na mão dela, virando-a para cima, e traçou o indicador pelo fino pulso, acompanhando a veia que se destacava em um tom azul-esverdeado.
Fechando os olhos, ele escutou os batimentos cardíacos e o compasso da respiração. Usando magia, captou a energia que exalava do corpo juvenil, conectando-se à alma para identificar os danos e as feridas que cicatrizavam... Tudo o que era ruim se cobria por um novo véu de luz.
Esperança.
No seio da jovem, germinava esperança.
No demorado silêncio de avaliação, Sunset foi tomada pelo nervosismo. Sabia que seu avô percebia, mas se concentrou e pensou em Swirl, em toda a segurança que ele lhe transmitira na noite de despedida. Todo seu ser foi invadido pelas boas vibrações que o jovem caçador lhe trouxera por meio das lembranças.
— Que bela sensação, minha neta — o avô finalmente falou, com um tom harmonioso. — Você está saudável. Confesso que desconfiei que estivesse fingindo a semana inteira para eu não ter que apagar partes de sua memória... até esperei que seu primo fizesse alguma magia para lhe dar boa aparência.
Sunset sorriu sem graça, lembrando que Screw realmente sugerira tal ideia.
— Eu pude conferir minuciosamente o bom sentimento que fortifica sua essência. As saudades que sentiu de mim, o amor que engrandeceu, a paz que encontrou... são tantos sentimentos fortes.
Por um momento, a bruxa se sentiu mal. De fato, sentira saudades do avô, mas o que ele descrevia relacionava-se mais a Swirl.
— Parou de pensar no ocorrido em Salém?
— Sim, avô... estou conseguindo superar.
— Mas não esquecer.
— Esquecer é impossível.
— Está pronta para conviver em sociedade novamente?
— Sinto-me preparada.
Enquanto Sunset terminava de responder, percebeu que o idoso pretendia se levantar e prontamente o ajudou. O bruxo caminhou até a prateleira ao lado da porta e, de um pote prateado, retirou um cordão roxo e rosado. Ao trazê-lo perto da neta, estendeu-o na altura dos perolados esféricos dela.
— Nesse cordão reside a alma de sua avó.
A revelação a assustou, fazendo-a piscar freneticamente.
— Ham? — foi só o que conseguiu pronunciar enquanto tentava digerir a informação.
— Sua avó não me amava, infelizmente. Mas tivemos uma boa relação; pedi permissão para tê-la depois que morresse. Quando uso esse cordão, sinto a companhia dela. — Ele sorriu. — É um segredo; não conte para Screw e Flower.
— Me-meu pai sabe?
— Não, a mãe dele pediu-me para não contar, pois disse que a cabeça dele era dura demais para entender. Ela não se importava com qual caminho sua alma percorresse, contanto que, no fim, parasse na correnteza das almas. — Um brilho nostálgico se manifestou nos olhos do velho, fazendo os prateados redondos marejarem. — Sua avó era uma mulher incrível.
— Ela confiava plenamente no senhor, mesmo sem amor — a jovem falou, impressionada com a possibilidade de um elo desse tipo. — Uma pena que eu não cheguei a conhecê-la. — Observou a pedra do cordão, que conservava um sereno fulgor. Assim como Screw e Flower, conhecia a avó somente através de histórias.
O avô sorria, pois a admiração da neta o lembrava da esposa quando mais jovem, encarando diversas situações inusitadas.
— Depois que eu partir deste mundo, meu desejo é que você liberte a alma dela do cordão e a jogue na correnteza das almas. Não é necessário magia para libertá-la; apenas parta a pedra do cordão ao meio.
— Vô...
— Me prometa. — Ele colocou o cordão no próprio pescoço e apertou as mãos de Sunset. — Você é quem mais me lembra de sua avó, e eu desejo que isso seja feito por você.
— Por que não faz isso, vô?
— Eu quero ficar com o cordão até morrer.
Ele apertou as mãos da jovem bruxa, que suspirou.
— Sim, vô... eu farei. — Seria uma grande honra. E naquele momento, ela percebeu o quão poderoso seu avô era. Ele não só conseguia trabalhar com mentes, mas também com almas.
****
Na noite do reencontro, Sunset não se continha de anseio. Sorria diante do lago, pensando no que diria primeiro a Swirl sobre tudo o que lhe aconteceu enquanto esteve na casa do avô. Tantas emoções para compartilhar!
Apeteceu-lhe contar que as noites foram as melhores por ter sonhado com ele. Seu corpo atraía mais borboletas do que o normal, e elas a seguiam durante todo o percurso desde que saiu de casa.
Refletidamente apaixonada, foi despertada pelo som de alguém.
— Swirl! — Sorriu ao ver o loiro surgir por entre as árvores.
— Oi! — Ele acenou, apressando-se até ela.
A bruxa o abraçou, e as mãos dele, devagar, foram parar nas suas costas.
— Algum problema? — Sunset o achou hesitante.
— É que estou nervoso... Tenho uma surpresa para você e não sei se gostará. — Ele sorriu sem jeito, parecendo envergonhado.
— Uma surpresa? É claro que gostarei. — Sunset respondeu carinhosamente, segurando a mão dele. Era apenas uma impressão achá-lo um pouco diferente; talvez ele estivesse pensando no beijo que trocaram na despedida, bastante intenso.
Corando, ela sentiu a pele esquentar só de supor que ele quisesse beijá-la daquele jeito novamente, mas estaria sendo impedido pela timidez.
— Que bom! — O caçador sorriu abertamente. — Peço que feche os olhos.
A bruxa assentiu e fechou as pálpebras, preparando-se para o contato esperado. Infelizmente, o beijo não veio, e, após um tempo que parecia interminável, ela ergueu lentamente as camadas de cílios.
Mal teve tempo de visualizar o que havia à sua frente, quando sentiu dor pelo corpo. Uma rede farpada foi jogada sobre si, fazendo-a cair ao chão. Enquanto gritava, distinguiu vários pés rodeando-a; pessoas haviam saído da escuridão da floresta, agora iluminadas por tochas e o luar. Eram os habitantes da cidade mais próxima, na qual Screw atuava como médico.
— Swirl?! — Levantou a cabeça, enxergando o caçador loiro a olhá-la de longe. Ele a observava com severidade, transmitindo-lhe toda a frigidez do mundo. — SWIRL!
Nada ele fez. O nojo que ele demonstrava esmagava o coração da bruxa, uma dor que se assemelhava ao tão falado e temido inferno dos humanos.
— É verdade, os olhos dela são da cor do servo do diabo! — gritou alguém.
— É como os olhos dos outros da família; são todos bruxos! — outros falaram em coro. Algumas pessoas comemoravam por finalmente terem capturado a jovem que consideravam uma criatura demoníaca.
— Não acredito que o nosso melhor médico é um bruxo, parente disso aí. — Um homem disparou. — Pena que ele fugiu.
— O acharemos logo; temos o tio e a prima dele, é um grande ganho.
As conversas continuavam, amedrontando a bruxa.
— O que fizeram com minha família?! — Sunset questionou, aflita, com os olhos ardendo e lágrimas despontando. Sentiu o gosto de sangue nos lábios, que escorria em três linhas verticais pelo seu rosto.
— Não finja que tem sentimentos, bruxa! — Um homem a apontou. — O agouro que sua existência traz às nossas vidas terminará. Você será a primeira!
Dominada pelo temor de perder seus parentes, rasgou a garganta em um grito brutal. O som atraiu um bando de cervos, que se jogaram contra os cidadãos que a cercavam.
Os gritos de pânico e a correria se instauraram na multidão, que começou a se dispersar pela floresta. Sons de tiros se tornaram audíveis repetidamente.
Um desenfreado fluxo de animais começou a pôr todo mundo para correr.
— NÃO DEIXEM A BRUXA FUGIR! — gritou um caçador, correndo e completamente ignorado pelos cidadãos desesperados. O som de ossos quebrando ecoou enquanto desviava de corpos caídos. Ele flagrou pessoas sendo pisoteadas tanto pelos cervos quanto por outros cidadãos.
Dois homens se queimaram com suas próprias tochas, espalhando as chamas em quem esbarravam.
Pele queimada.
Pele furada.
Uma verdadeira carnificina acontecia.
Sunset teve a rede tirada de si por um dos cervos, que encaixou a ponta do chifre no material e o puxou para o alto. Ao se levantar, a bruxa reconheceu o cervo que possuía chifres brancos e olhos diferentes. Ele não demorou ao seu lado, saltou pela confusão, escapando por pouco dos tiros que continuavam.
Sem perder tempo, a bruxa fugiu, passando por corpos de cervos e humanos espalhados pelo solo, todos banhados em sangue.
****
Sunset não se deu tempo para lamentar pelos cervos mortos ou agradecer aos que sobreviveram. Fugiu para casa, mas, de longe, ajoelhou-se ao ver a casa toda incendiada.
— NÃÃÃO!
Desacreditada, viu a noite se transformar em um pesadelo maior em questão de minutos. A história de Salém se repetiria. Todo o sofrimento se alimentaria de si, mas em maior escala. Mil facadas, mil enforcamentos, mil tiros... nenhuma descrição competente seria adequada para traduzir sua dor. Seu coração imergia em um infinito martírio.
— Swirl... — murmurou, brotando o nome do caçador com doçura e dor.
Entregara seu coração a um humano; eis o que aconteceu. Não seria forte o suficiente para carregar essa culpa; não merecia entrar na correnteza das almas depois que morresse.
— Sou indigna...
Tapou as orelhas; a garganta doía.
Como tudo o que viveu com ele pôde ser uma inverdade? A noção de que fora traída por ele não cabia em sua mente; precisaria de quase uma eternidade para aceitar. Só de reviver a cena dele fitando-a com frieza, a angústia a fazia sentir ânsia de vômito.
— “Será essa a maior arma dos humanos? Iludir?” — Sabiam fingir perfeitamente.
O piado do corvo a arrancou de sua lamentação. Era o mensageiro da família.
Pegou o bilhete preso na fina pata e o desenrolou.
“Estou com Flower. Fugimos para a casa do nosso avô. Se estiver lendo isso, venha imediatamente.”
Reconheceu a letra do primo.
"Temos o tio e a prima dele, é um grande ganho" ela pensou na fala do homem. Considerou que seu pai deu um jeito de libertar Flower, mas permaneceu capturado para atrasar os inimigos e impedi-los de a alcançarem.
A mãe de Sunset também se entregou para um bem maior. Sunset tinha apenas oito anos e demorou quatro anos para entender que a mãe se oferecera como isca para distrair a multidão enfurecida. A mãe tinha plena consciência de que seria queimada na fogueira. Mas foi um sacrifício que valeu a pena, dizia o pai da jovem bruxa. E agora, era a vez dele se sacrificar, distraindo a multidão para dar tempo à família de fugir e se mudar para um lugar longe.
— “Ele não usará magia.” — Nunca usou magia para o mal, os bruxos da floresta seguiam fervorosamente essa regra. — “Ele também não a usará para fugir, já que pretende sugar a atenção do povo até o fim...” — Os humanos adoravam assistir os corpos de bruxos queimando; levaria um tempo significativo para seus parentes se distanciarem.
Entretanto, Sunset não estava disposta a aceitar perder alguém que amava por um erro que cometeu. Reergueu-se e, séria, cravou suas duas luas no céu da noite, gritando:
— Levitate et levitis me levitated!!!
Flutuou bem alto e concentrou energia. Um bando de corvos, incluindo seu mensageiro, bateram asas em sua direção. Ela foi coberta por uma nuvem negra deles e esperou que todos os pássaros da floresta a envolvessem, engolida por uma gigantesca nuvem negra, rumando para a cidade.
****
O bruxo amarrado em um tronco, cercado por lenha prestes a ser queimada, observava a cena com a frieza de quem já não se importava. Quase todos os cidadãos estavam ali, mas ele não sentia pânico, tristeza, desesperança ou medo. Seu rosto, marcado pelo tempo, expressava uma indiferença profunda. Ele vislumbrava o futuro com clareza, ciente do que o aguardava além da vida na Terra.
Um homem baixo e robusto, segurando uma tocha pronta para atear fogo no acusado, discursava vigorosamente para o público, que observava o bruxo com olhares pesados, julgando-o da pior maneira possível. A indignação e o desprezo eram palpáveis.
— O sobrinho dele é o médico mais famoso da nossa cidade! Quem nos garante que o dito cujo não usou magia em todos os pacientes que atendeu? Vários de nós estamos propensos a morrer por bruxaria!
Os cidadãos arremessavam fúria em gritos, enquanto os adultos erguiam tochas e armas, ávidos para ver a justiça sendo feita.
— Eu fui atendida por Screw, Santo Cristo! E se eu estiver enfeitiçada? — exclamou uma mulher em prantos.
— Meu filho também! — gritou outra, revelando-se igualmente tomada pelo desespero.
— Se matarmos os bruxos, a praga deles se exterminará junto!
— Mate-o logo!
O homem robusto levantou o braço, fazendo sinal com a mão para que a multidão se silenciasse. Assim que o barulho cessou, o baixinho girou os pés gorduchos e parou em frente ao bruxo. Apontando a tocha para ele, lançou sua raivosa interrogação:
— Você, Greatsun! Terá a cara de pau em desmentir? Ao menos retirará a maldição de sua família da cidade?
— Não existe maldição. Eu nunca usei magia em ninguém, nem em minha família. Somos bruxos da floresta e zelamos pelo bem de todos. — As pessoas vaiaram-no, e risadas ecoaram entre as vozes. Como esperado. No entanto, Greatsun permanecia calmo, confortando-se com a ideia de que sua família se distanciava a cada minuto, ficando mais segura.
— Um bruxo do bem? Não nos faça de palhaços! — gritou um dos presentes.
— Mentiroso! Bruxos são traiçoeiros! — ecoou outro.
A falta de expressividade de Greatsun apenas alimentava a crença de que ele mentia. Sem emoções, parecia desprovido de sentimentos, e sua natureza o impedia de mostrar qualquer traço humano que pudesse apaziguar os ânimos da multidão.
— Joguem suas tochas! — O homem robusto foi o primeiro a lançar fogo na lenha.
Os habitantes foram se aproximando formando várias filas e depositando na fogueira suas contribuições para engrandecer as chamas.
— Todos reflitam! Eu teria usado minha magia para fugir, porém estou provando que não levantarei um dedo contra vocês nem mesmo antes da morte. — Greatsun dizia em alto volume sentindo o terrível calor. — Todos que conheceram Screw! Todos que foram ajudados por ele! É o verdadeiro Screw. A única coisa que ocultamos é a nossa natureza, porque somos vistos de modo errado! Mas, por bastante tempo vivemos entre vocês sem fazê-los mal algum!
— Calado, bruxo! Não pode usar magia sem movimentar as mãos! E é por isso que não fugistes. As amarramos imediatamente quando chegamos até você, tem sorte de não termos as cortado fora primeiro como fazem em outras cidades, antes de morrer na fogueira! NÃO ENGANA NINGUÉM! — O homem robusto vociferava saturado de ódio. — Não fizeram mal algum? Tudo que dá de errado na cidade é culpa de vocês bruxos. Por isso eu digo: Queime! Queime! QUEIME, QUEIME, QUEIME!
A população repetiu as palavras assistindo o desenvolver do fogaréu o qual não demorou em alcançar a pele de Greatsun quem desceu as pálpebras... mantendo a os lábios cerrados...
O fogo o cobriu por completo.
Uma colossal nuvem negra obscureceu o luar, enquanto corvos se agrupavam em um imenso furacão no céu, criando uma espantosa rajada de vento que apagou a fogueira e arrastou para longe as pessoas mais próximas.
Os pássaros pretos despencaram por toda a cidade, e seus gritos, em uníssono, tornavam-se ensurdecedores.
Diversos tiros aconteceram.
Os primeiros corvos que identificaram perigo atacaram com seus bicos e patas afiadas os homens armados.
Nova multidão desesperada se espalhou, as pessoas correram para suas casas objetivando trancarem-se nelas.
Balançavam-se tochas violentamente na tentativa de queimarem o máximo possível das aves.
— Bruxaria! Há mais uma bruxa por perto! — Berrou o homem robusto fugindo, pulou em um barril e se encolheu nele, puxando a tampa redonda para tapar a boca do recipiente amadeirado. Passou a observar o acontecimento por um pequeno buraco. Assistiu um corvo bicar e depois arrancar o olho de um rapaz que caiu. — A arma dele... — O objeto que o rapaz carregava caiu a seis metros do barril, ficou tentado a ir lá pegá-la, no entanto, havia muitos corvos por perto. — “Droga...”.
Nos bolsos da vítima deveria ter cartuchos para recarregar o mosquete.
— Pai! — Sunset flutuando em meio aos pássaros negros, pairou diante seu progenitor e teve a alma despedaçada ao vê-lo com a pele escurecida, as roupas carbonizadas, os cabelos quase faltantes na careca marcada recentemente por terríveis queimaduras.
Greatsun ignorando o próprio estado impressionava-se com a invocação da filha. Os rastros de sangue no vestido e pele da jovem, ao serem-lhe notáveis, o feriu no coração.
— Fugir... — A voz dele saiu só na primeira sílaba, todavia ela entendeu o que ele disse.
— Eu não conseguiria fazer isso pai. Não morra como a mamãe, por favor. — Tentaria levá-lo mesmo que a força. — A culpa foi minha, eu confiei meu coração a um humano e ele espalhou sobre nós.... tenho que compensar a besteira que fiz... venha comigo por favor...
— Sunset... — Greatsun se penalizou. — “Me perdoe querida, falhei com nossa filha, eu deveria ter sido um pai mais vigilante”.
Tudo o que fez para consolar a jovem bruxa depois dos acontecimentos em Salém, foi proibir que ela falasse no assunto. Quanto menos falasse, melhor. Assim ele quis acreditar... Mas... Sunset deveria ter desabafado, exposto o que se passava em sua mente, opinando o que deveria ser feito... ela continha milhares de coisas para dizê-lo, não obstante, ele recusou a ouvi-la. Sunset precisava conversar com alguém, e a primeira pessoa que se dispôs a escutá-la foi um humano... infelizmente um péssimo humano.
— Vem pai! — A bruxa o puxava ao alto, querendo que ele voasse com ela.
Bang!
Um tiro atravessou a boca de Greatsun.
O mundo para a jovem bruxa congelou.
— PAI!!! — Devagar seu corpo abaixou, repousou os pés no chão. —Não...
BANG!
O próximo foi no peito dele.
Sunset gritou outra vez, mas agora procurando de onde viera o tiro. Acompanhou um grupo de corvos a voar na direção de uma casa a vinte e três metros para a esquerda, a bruxa distinguiu uma cabeleira loira atrás da janela, e o cano do mosquete passando por um buraco da vidraçaria.
— Conseguiu atirar na bruxa? — O pai perguntou ao filho. O primeiro disparo havia sido do mais velho que já recarregava seu mosquete.
— Não, ainda tem muitos corvos rodeando ela. Creio que também estejam envoltos por magia que os deixam mais resistentes, pois os tiros não os atravessam, morrem com a bala cravada.
Disparou novos tiros, vendo seus alvos caírem.
As aves despencavam duras no chão.
A bruxa caminhou ameaçadoramente em direção da casa, sabendo a quem a cabelereira loira pertencia.
— Ela vem para cá. — O pai repôs o cano da arma em um buraco da vidraçaria e se esforçou em mirar na bruxa, no entanto, persistentes corvos estavam incessáveis na frente dela. Eles serviam como escudo.
— Eu só preciso de uma brecha. — Disse o loiro despejando a pólvora de um novo cartucho pra recarregar o mosquete. Cessou o procedimento quando uma voz lá fora raiou:
— PAREM!
Pai e filho se atentaram, pois reconheciam a voz.
Swirl chegou ofegante à cidade, deparando-se com o caos que ali se desenrolava. Estivera inconsciente nas últimas horas, amarrado em casa, e a última lembrança que tinha era do momento em que se preparava para o tão esperado reencontro com Sunset.
Após ouvir a mãe explicar a situação, implorou para que ela o libertasse. Declarou tudo o que sentia por Sunset, descrevendo-a com carinho, narrando a maneira como ela vivia e afirmando que nunca fora envolto em bruxaria, mas sim em amor — um amor que o unia à bela jovem. Ultimou que, sem ela, não conseguiria voltar a viver normalmente. Sua mãe, como sempre, sabia quando um filho falava a verdade. Observando-o, não acreditava que houvesse bruxaria em seu filho.
Por isso, ela o libertou e pediu desculpas. Swirl a abraçou forte antes de partir. Agora, estava ali, vendo a mulher por quem se apaixonara perdidamente envolta em emoções conturbadas. Ao avançar em direção a ela, notou o homem queimado na fogueira.
A respiração do bruxo estava anômala. Ele provavelmente sobreviveria, mas não com a mesma força de antes. Para um bruxo ser realmente morto, precisaria ser reduzido a cinzas.
— Sunset! Perdoa-me! Fui descuidado! — ele gritou, sem temer os corvos. Os pássaros, sem intenção de atacar, permitiram que se aproximasse da bruxa.
— Swirl? — A jovem pasma, vendo-o ali, recebeu um esclarecimento na mente, entendendo a confusão. — E-eu sinto muito... desconfiei de ti, depois de tudo... — Sabia que o caçador tinha um irmão, ele se esquecera de mencionar que eram gêmeos. — Eu desconfiei de ti Swirl, me perdoa, me perdoa... eu notei que ele agiu de modo diferente, porém ainda sim acreditei que fosse você... — Se ajoelhou colocando as mãos no rosto, chorando. Era muita coisa para aturar, chegava ao seu limite. — Eu não aguento mais... sinto muito pai, sinto muito Screw e Flower... avô, não conseguirei cumprir o que me pediu...
— A culpa foi minha, meu amor. Eu não esperava que meu irmão fosse se passar por mim. Eu sequer lembrei de mencionar que era gêmeo.
Os corvos se afastavam da bruxa... a atração deles por ela diminuía conforme a mesma se desconcentrava por estar fragilizada emocionalmente, eles foram se acumulando sobre os telhados deixando as ruas da cidade limpa.
O caçador sofria por ver sua amada daquele jeito. Respirou fundo e assumiu uma expressão muito grave.
— ESCUTEM TODOS VOCÊS! — Swirl se voltou para os cidadãos recolhidos em suas moradias, eles assistiam através das janelas. Nas ruas, alguns desmaiados. — Eu conheço Sunset há vários dias! Eu a amo! Não estou enfeitiçado, eu tive a chance de mata-la quando a vi pela primeira vez, a observei escondido e quando fui notado, ela não me atacou. Poderia ter feito, mas não fez!
Yeast e o pai dividiam a atenção entre Swirl e a bruxa a chorar sem controle.
— É a vida dos bruxos se mudarem de cidade quando são perseguidos, vivem entre nós escondendo o que são para poderem sobreviver! Ela veio salvá-lo! — Apontava para o bruxo sem olhá-lo. — Vocês os culpam por qualquer doença, por qualquer má colheita, por qualquer enchente... talvez seja tudo isso castigo de Deus por fazerem o mau a todos que não sejam como vocês!
Bang
A jovem bruxa olhou pra baixo e viu o sangue surgir no seu peito.
— Sunset... — O caçador balbuciou.
O homem robusto de cabeça e braços pra fora do barril, recarregava o mosquete se preparando para mais um tiro, aproveitando que escassos corvos voavam perto da bruxa, obtivera a abertura que necessitava para atingi-la.
— SUNSET! — Swirl repetiu se abaixando ao lado dela, incrédulo. Pousando uma das mãos nas costas femininas, sujando-se com o sangue.
BANG!
O loiro dessa vez foi o alvo.
— SWIRL! — O pai gritou.
Yeast pálido sentiu instantaneamente o arrependimento por ter colaborado para a tragédia diante seus olhos.
— É tarde demais pra ele, está enfeitiçado pela bruxa! — O homem robusto justificou seu tiro para quem estivesse testemunhando de suas casas.
— Swirl... — A jovem sussurrante viu o sangue no corpo de Swirl.
Ele sorriu-lhe triste, existia nesse gesto simples um mudo pedido de desculpa por não protegê-la, breve deitou a cabeça no colo dela que o rodeou com os braços.
Greatsun não mais abria os olhos, entretanto escutara tudo o que o caçador falara. Tomou o domínio dos corvos para si, usou suas energias restantes para concentrar os pássaros no céu formando a imensa nuvem negra a qual mergulhou sobre Swirl e Sunset.
Os dois tão unidos...
— Amo você...
— Também te amo...
A massa de corvos cobriu completamente os dois e os levaram pelo céu da noite de lua cheia.
— Vamos caçá-los, estão feridos! Não irão pra longe! — O robusto homem saiu do barril, levando uma queda feia, mas não se importando com isso, se recompôs segurando a arma e caminhando ao centro da cidade.
— NÃO! — Yeast despontou da casa, seguido pelo pai se deteve atraindo a atenção dos cidadãos que saíam de seus lares. — Vocês não ouviram nada do que o meu irmão falou? Eu cometi um erro o amarrando e armando o plano para prender a bruxa!
Chorava de raiva, odiando a si mesmo.
— Tivemos demais por hoje. — O pai também interveio. — Olhe o que causamos, várias vidas perdidas, pessoas prejudicadas fisicamente... os bruxos fugiram, não retornarão mais. — Largou sua arma sentindo-se enojado pelo que fizera. — Alguém aqui que conviveu com o médico da família, poderia dizer que está realmente enfeitiçado, amaldiçoado? A cidade sempre foi um lugar hospitaleiro e muito feliz, por isso resolvi trazer minha família pra perto desse ambiente harmonioso, mesmo com os problemas comuns de qualquer cidade, a energia positiva que emana daqui prevalecia.
Yeast esfregou os olhos com os pulsos, perdendo o controle de suas emoções, derramando as linhas de lágrimas.
Alguém acusou:
— Estão acobertando o rapaz! São parentes deles por isso estão se tornando cumplices!
— CALADO! — Yeast vociferou. — As mortes aconteceram porque nos tornamos uma ameaça a eles... se o pai da bruxa quisesse, teria nos matado, nem teria dado tempo para as mãos dele serem amarradas. Eu soube que em outras cidades, as condenações na fogueira por bruxaria estão acabando. Comunidades por aí estão notando que eles não são uma ameaça como a maior parte da sociedade prega.
— Não deem ouvidos a ele! — O robusto já o mirava, no entanto recebeu uma apunhalada na cabeça por trás.
— Por hoje chega... estou cansado... — Foi um senhor que já não suportava aquela noite, ele só queria dormir e esquecer o pesadelo acontecido. — Screw salvou minha família, curou meus filhos e netos quando pensei que os perderia, eu vi o esforço que ele fez para deixá-los vivos.
Era um senhor conhecido por todos, respeitado por todos. A opinião dele exerceu grande impacto.
Pessoas com experiências semelhantes a dele, tinham uma grande gratidão por Screw.
****Halloween****
— As pessoas da cidade naquela noite decidiram parar o caça às bruxas, quando o pânico passou e puderam pensar com calma, todos os habitantes que conheceram Screw ampararam dúvidas se ele realmente era um ser maléfico, a verdade é que o bruxo médico fez muita falta na cidade. Mesmo carregando divergência de opiniões a respeito de bruxos, o povo sofreu suas perdas e retornou a rotina nos dias que vieram. A noite de lua cheia, marcada por mortes, ódio e talvez perdão, não foi comentada por mais ninguém.
Boruto encostou a parte posterior de seu tronco no encosto da cadeira, e conservou sorriso satisfatório por concluir a história e observar cada expressão super interessada nas suas palavras. Colocou o tornozelo esquerdo sobre o joelho direito e parou seus azuis esféricos na garota de roxos cabelos.
Os brilhantes olhos de Sumire indicavam a admiração dela.
Inclinado pra frente, Iwabee com o traseiro quase saindo da cadeira, emitiu:
— E?!
— E? — Boruto repetiu desentendido, irritando Iwabee.
— O que aconteceu com a bruxa e o caçador? — Sarada deixara a prancheta cair no chão, penetrante olhar atirava ao Uzumaki. Tão interessada e impaciente se tornou uma versão feminina de Iwabee. — A família dele? A família dela? Para onde os corvos levaram?
Os outros da roda apeteciam igualmente pelas respostas.
Boruto sacudiu os ombros, sinal de que desconhecia a informação que Sarada buscava.
— O que posso afirmar é que a história deles foi um acontecimento para várias comunidades não praticarem mais punições por bruxaria.
— Só pode ser brincadeira. — Iwabee descontente jogou seu corpo pra trás, equilibrando-se no assento.
— É uma história inventada, ele só juntou com um fato histórico, nada mais. Vocês podem inventar o final. — Shikadai se espreguiçou antes de levantar. — Está tarde galera, eu vou indo. Boa noite a todos vocês.
— Boa noite.
Os colegas responderam, exceto Iwabee que logo perguntou à morena:
— Não vai decidir quem ganhou?
Sarada lidava com o fato de não saber o final do conto que começou belo, mas terminou de maneira trágica, lembrando um pouco de Romeu e Julieta. Suspirando, exigiu:
— Votação! — curvou-se pra pegar a prancheta.
— O Uzumaki. – Shikadai escolheu, cruzando a porta.
Chocho e Denki se levantavam e votaram no loiro também, despediram-se, caminhando juntos pra fora da sala.
Iwabee enfurecido cruzou os braços, olhando para Sumire, praguejou:
— Já vi quem vai vencer, eu vô nessa.
Retirou-se do espaço estudantil a bufadas e passos pesados.
— TODOS AQUI AMANHÃ NÃO SE ESQUEÇAM!
Sarada gritou, espantando Sumire e causando um leve riso no Uzumaki.
— Parabéns, o prêmio é dois ingressos para a maratona de filmes temáticos de Halloween no maior cinema da nossa cidade. — Sarada entregou na mão do loiro. E já pronta para ir embora, perguntou: — Você vem, Sumire?
Pegou o celular da mesa do professor e esperou, pacientemente, pela resposta da amiga.
— E-eu... — Sumire se levantava.
— Eu a acompanho até em casa, sei que moramos perto. — Boruto se ofereceu.
— Tudo bem para você, Sumire? — Sarada achou que a menina estivesse insegura.
De fato a garota de cabelos roxos sentira-se vulnerável, porém ao observar profundamente o loiro, assentiu, sorrindo sutilmente. Conseguiu responder:
— Sim, está tudo bem. Até amanhã Sarada-chan.
A morena ajeitou os óculos e afirmou com a cabeça, conhecia o jeito de ambos, a relação dos dois se distanciava de amigos, porém desacreditava que o Uzumaki fosse uma ameaça à garota.
Sarada via que Sumire não demonstrava mais sinais de insegurança. Era uma menina precavida, não se poria em perigo. Por causa da menina não ter pais, Sarada, como representante de classe, dobrava sua atenção sobre ela.
Sarada queria incluir Sumire o máximo possível. E essa observação maior sobre a menina, fez Sarada aprender sobre o comportamento dela.
Sarada se despediu dos dois e deixou a sala.
Boruto se levantou, animado e confiante, convidando:
— Os ingressos são para a sexta que vem, gostaria de ir comigo?
Sumire ficou um pouco rosada. E não conseguiu responder.
— Me dou bem com meus colegas, mas eu não me tornei amigo de ninguém ainda, e estive interessado em conhecê-la. — De grande sorriso, passou a mão atrás da cabeça.
— Por que eu? O que viu em mim? —Sumire começou a mexer nas tranças do cabelo.
Abaixando o braço, os azuis do Uzumaki se avivaram como nunca.
— No meu primeiro dia na cidade de Konoha, fui visitar meu avô no hospital Godaime, passei pela ala infantil de queimados e vi um palhacinho desengonçado fazendo a alegria das crianças.
Sumire apertou suas tranças arroxeadas. Começando a corar.
— Esperei a visita do palhacinho terminar, eu me interessei em contratá-lo para entreter no aniversário de minha irmã. Mas quando fui atrás dele, o sujeitinho desengonçado foi ao banheiro e resolvi segui-lo, porém tive a surpresa de vê-lo entrar no banheiro feminino. Fiquei um tempão do lado de fora, até ver uma garota sair com uma enorme bolsa.
— Vo-você estava longe? Eu não me lembro de tê-lo visto. — De olhar caído e inquieto, Sumire sabia que sua face estava fora de sua cor natural.
— Haha eu estava do outro lado do corredor, quase na saída dele, mas você estava ocupada conversando no celular, quando passou por mim. Eu observei sua bolsa que estava fechada só pela metade e pude reconhecer o material de palhaço. Fiquei impressionado sabe, uma pena que minha irmã chegou, falando sem parar. Ela me distraiu e acabei perdendo você de vista. Fiquei desanimado... até chegar no meu novo colégio e ter a novidade maravilhosa em tê-la como colega de classe.
— Vo-você não tentou conversar comigo desde aquele dia...
Ela enrolou a ponta de uma trança no dedo indicador.
— É. Tenho meu lado tímido. Passei a observá-la, percebi que você não mencionava o que fazia fora da escola, logo saquei que era um segredo. Quando dei por mim já não sabia como chegar em ti... — “E passei a gostar de você” Boruto queria completar, mas seu lado tímido o vencia de novo. — Se estiver achando estranho, entenderei se recusar.
— E-eu aceito! Obrigada por guardar meu segredo... eu quero conhecê-lo melhor.
Sumire largou as tranças, curvando-se com as mãos unidas.
— Yeas! Dattebasa! — Boruto comemorou e gestualmente parecia uma criança de seis anos muito feliz. Quando a viu rir de seu comportamento, de um segundo pro outro ficou sério, o que fez Sumire achar mais graça. Recompondo-se, ele afundou a mão no bolso da calça, pegando seu aparelho celular para conferir o horário. — Vou me encontrar com minha família daqui a quinze minutos, gostaria de conhecê-los?
— Sua família? — Sumire dilatou as pálpebras.
— Sim, vamos jantar no Ichiraku, é um lugar muito bom e não é longe daqui. —Quebrou a distância entre os dois e ofereceu o braço direito pra ela, cavalheiro.
— Eu não trouxe dinheiro, e não quero chegar assim de surpresa...
— Relaxa, é por minha conta. — Vendo-a hesitar, achou melhor não forçar a barra, havia conseguido convidá-la para o cinema e isso já fez a noite no colégio valer cada segundo. — Se precisar ir pra casa agora, eu vou entender.
Casa...
Não tinha ninguém esperando por ela no que deveria chamar de lar. Sumire sentia uma vibração tão boa pelo Uzumaki, que o sorriu na mesma linha de confiança, e rodeou o braço dele.
— Eu vou com você, Boruto.
Ele, felizardo, sabia que finalmente conseguiria dormir tranquilo depois de tantas noites mal dormidas por falhar em não se aproximar de Sumire.
Costumava imaginar como chegaria nela, como os dois se divertiriam juntos, como os dois dialogariam... naquela noite o que almejava se tornara real.
O Halloween dali por diante seria considerada uma época especial pra ele.
****Halloween****
Mais tarde.
— Naruto? — A bela mulher adentrou o quarto de casal, havia terminado sua ligação de trabalho e sentou na cama, retirando as sapatilhas chamou mais alto: – Querido?
— Oi, amor! — Na porta do banheiro, ele apareceu recuando um passo pra trás, inclinando a cabeça dando seu olhar carismático para a esposa. Vestido só de calça e com a boca cheia de pasta, aguardou a mulher falar.
— O que achou da acompanhante do nosso filho? — seus calcanhares chutaram os calçados para baixo da cama.
Tiveram uma grande noite divertida no Ichiraku.
O loiro, sorridente, voltou pra dentro do banheiro.
— Lembra muito você!
— Verdade?
— Sim, é por isso que ele gosta dela, puxou a mim no gosto de garotas.
A esposa riu.
— Ciúmes, Hinata? — Naruto surgiu novamente no marco da porta.
— Um pouquinho. — Confessou ela que era doida pelo seu meninão. — Mas a felicidade por vê-lo diferente hoje me foi maior, ele está tão alegre, pensei que ficaria desanimado por muito mais tempo depois da nossa mudança.
Boruto sentia falta do antigo lar e dos amigos.
— Mulher, você é demais.
O loiro elogiou cruzando o quarto caminhando sedutor até ela que risonha foi logo virando as costas pra ele. O Uzumaki não precisou ser orientado por palavras, sabia o que tinha de ser feito. Devagar afastou as madeixas azuladas e longas, segurando-as, a outra mão dele tratou de descer o zíper do vestido colado que ao escorregar mostrou a melhor parte para o marido: O vislumbro da pele alva e lisa.
O Uzumaki não deixou de passar as pontas dos dedos pela coluna, sabendo que arrepiava a mulher de sua vida.
Mesmo com os anos de casados, não perdiam a explosão daquele amor intenso até mesmo nos pequenos atos. Virou-a lentamente para si, e beijou-a. Desfrutou do incansável sabor do lábio feminino até satisfazer-se com a falta de ar que causou em ambos.
— Estarei esperando.
Naruto avisou caminhando para o outro lado da cama, desfazendo-se da calça, logo arrumando o seu lado do colchão.
Hinata sorriu ansiosa para degustar daquele corpo ardente. Desatou o sutiã e lançou a peça na direção do homem que aparou no ar.
— Para poder distraí-lo enquanto eu estiver no banheiro.
O maridão sorriu safado e pressionou a delicada peça no nariz, perdendo a vista dos seios grandes de mamilos claros no momento que sua esposa se virou desfilando as formas curvilíneas para o banho.
Enquanto Hinata se banhava, pensava na agenda da próxima semana.
Visitaria o primo Neji para o aniversário do filho dele de dois anos, levaria os filhos para verem Hanabi quem não podia se levantar da cama por estar se recuperando depois de um acidente de carro, sorte ela ter um excelente médico na família.
O dia mais importante seria no sábado, quando viajaria para o EUA visitar o bosque, onde foi a floresta na qual sua antepassada morou no século XVII.
Não deixaria de visitar o lugar um ano sequer desde quando descobriu o segredo histórico de sua família.
Quando chegou o momento do avô bruxo analisar o interior da neta, ele já conhecia o que habitava na cabeça e coração dela. Pois nos dias que Sunset dormiu na casa dele, durante as noites, ele conjurou magia para invadir os sonhos dela, e estudou a mente da mesma, conhecendo o amor dela pelo caçador e analisando os dias da memória da jovem, os quais ela compartilhou com o loiro. Swirl trouxe para Sunset o gosto pela vida, salvou-a do sofrimento no qual ela se afundou após os julgamentos em Salém. Reconhecendo a pureza do sentimento que os interligava, o idoso bruxo decidiu usar sua magia para interligar as almas dos dois, o propósito é que elas fossem atraídas não importa onde, quando ou como. Sendo assim, as almas seriam reencarnadas, a bruxa e o caçador estariam destinados a se encontrarem.
Uma bailarina famosa e um pescador de cidade pequena. Vidas distantes, se encontraram uma vez na infância, e se reencontraram velhinhos e viveram juntos os anos que restaram pra eles, os melhores anos, diga-se de passagem.
Um soldado da Alemanha nazista e uma judia... suicídio, tiraram suas vidas depois de viverem dois anos e meio de um amor oculto aos olhos da sociedade.
Um domador de leões do circo e uma pilota de avião, tiveram poucos encontros, porém foram suficientes para se amarem, viveram separadamente por tantos anos, sem filhos, cada um com sua carreira agitada, mas sempre lembrando um do outro nos melhores momentos.
Em nenhuma das ocasiões tiveram lembranças de suas vidas passadas, possuíam aparência totalmente diferente de Sunset e Swirl a cada reencarnação... Com exceção da vida que estão levando na atualidade.
No século XXI, a alma de cada um retornou para a linhagem de suas respectivas famílias do século XVII.
Foi um festejo para Screw e Flower, hoje de nomes mudados para Neji e Hanabi de sobrenome Hyuuga. Os dois esperaram tanto por esse dia, foi o primo quem se responsabilizou em contar para Hinata, mostrou a ela uma carta deixada pelo idoso bruxo, e ainda que a Hyuuga não tivesse as lembranças de Sunset... conseguia ter a mesma sensação que a bruxa.
Terminado o banho, ela não se preocupou em vestir-se, chegando à cama se enrolou no lençol e se aconchegou no corpo do loiro.
— Não fechou a janela. – Comentou com a boca raspando o peito dele.
— A lua está linda hoje, gosto quando ela reflete em seus olhos.
A cor perolada não era considerada bizarra nessa época moderna.
Eles se beijaram e apertaram as mãos de um modo que os fizeram se sentir num Déjà vu. Naruto também sabia do segredo da família e também conseguira parte do histórico dos seus parentes antigos, conseguindo complementar o conto "A bruxa e o caçador" o qual narrou para os seus filhos.
— Te amo...
Murmuraram juntos e se beijaram sem pressa, se amaram sem pressa, pois teriam a eternidade para desfrutarem desse esplendoroso sentimento.
Acima do telhado, várias borboletas. Borboletas coloridas iluminadas pelo esplendor da lua cheia.
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