A breve vida de DEV.
1 A breve vida de DEV.
A luz quente do sol toca o rosto da jovem Lyn, que cobre toda a cabeça com o edredom e vira para o lado da cama que fica próximo à parede. Ela sabia que não dormiria mais. Levou os normais dez segundos de ignorância pós-sono matinal para se situar. Era dia de pedalar no parque com a galera. Era sábado, dia de folga. Sagrado.
Permaneceu sentada na cama por alguns minutos, olhando através da grande janela de vidro, do alto do sétimo andar. Não se cansava daquele ritual diário. Sempre despertava antes do que previsto, involuntariamente, tendo tempo de sobra para um banho quente demorado e um bom café da manhã.
Antes de ir para o banheiro, lembrou-se de que a sua torradeira havia extinguido seus próprios sistemas no dia anterior. Ou melhor, foi lembrada. Ao passar em frente à porta da cozinha viu a caixa onde estava escrito “Smart Toast” em letras vermelhas garrafais. Uma torradeira que André havia tão bem recomendado, que parecia ser ele próprio o vendedor daquela coisa. Era até bonita, para o padrão de beleza de uma torradeira. Se fosse funcional, já estava de bom tamanho. Segundo o estagiário André, ela se adaptava ao seu gosto pessoal, preparando a torrada no horário devido, mais branquinha ou tostada. Porém, o mais legal, segundo ele, é que ela possuía uma espécie de assistente pessoal, no melhor estilo smartphone. São aquelas adaptações modernas nos utensílios clássicos, mas que são absolutamente desnecessárias, como uma frigideira que toca MP3 ou uma banheira que sussurra poemas de Clarice Lispector no seu ouvido.
Abriu a caixa, sem muita empolgação e viu que, além do aparelho e embalagens, havia apenas um pequeno folheto de papel reciclado contendo o endereço eletrônico do fabricante para que o novo usuário baixasse o manual de instruções, caso desejasse. E ela não desejou.
Plugou a tomada na eletricidade e um pequeno display, na lateral da torradeira, se acendeu e ficou reproduzindo alguns códigos e textos técnicos, num aparente processo de iniciação. Lyn aproveitou para abrir o pacote de pão de forma e passar um pouco de margarina sem sal em duas fatias.
— Olá! Eu sou Dev, sua Smart Toast, o que posso fazer por você? – disse em voz robótica.
— Torradas... Que tal? – respondeu Lyn, achando graça e dando de ombros.
— Ok, entendi. Como gosta das suas torradas?
— Ao ponto, nem muito branquinha e nem muito tostada – Apoiou ambas as mãos, curiosa, na bancada onde repousava o aparelho. Demonstrava um pouco mais de interesse agora.
— Em quanto tempo quer suas torradas prontas?
— Humm... Quinze minutos... Acho – calculou mentalmente o tempo que levaria pra tomar um banho.
— Ok, entendi. Insira os pães em mim e em quinze minutos entrego suas torradas.
— Beleza – sorriu, achando aquilo meio ridículo, mas fez conforme Dev pediu. E nesse momento achou ainda mais ridículo tratar uma torradeira como se fosse uma pessoa.
Deixou sua camisola preta de seda e sua calcinha branca no piso do banheiro e abriu o chuveiro. A friagem da manhã ainda incomodava, principalmente nos cômodos onde o sol ainda não se intrometera. Depois de provar a temperatura da água com a pontinha do pé, mudou a chave do chuveiro para a função hot. Agora, sim... Um belo banho quente pela manhã. Não entendia aquelas pessoas que precisavam de uma ducha fria matinal para despertar. Era como pedir que alguém lhe desse um tapa na cara logo cedo para começar o dia bem. Tem gosto pra tudo, pensou.
Lyn estava de olhos fechados, sentindo a água bater no topo da cabeça e escorrendo pelo rosto, quando de repente o chuveiro estalou, a luz do banheiro piscou intermitente e a água ficou fria. Ouviu algo parecido com um grito, vindo da cozinha. Como se algum rádio estivesse ligado e o apresentador feito alguma brincadeira. Mas se lembrou de que não havia ligado o som. Pediu aos deuses do universo dos eletrônicos que esse ruído não fosse a sua geladeira partindo para o além. Voltou sua atenção ao chuveiro e mudou a chave de temperatura em todas as direções possíveis. Nada além de água fria. Na melhor das hipóteses teria queimado a resistência. Na pior, teria que comprar um chuveiro novo e gastar mais dinheiro em algo que não estava previsto. Num dia uma torradeira, no outro um chuveiro e, quem sabe, uma geladeira. Pensou em falar com o síndico do prédio; afinal, deveria estar acontecendo algum problema na parte elétrica do seu apartamento.
Secou rapidamente os cabelos curtos e pretos, enrolou a toalha no corpo e adentrou a cozinha para verificar a geladeira. Estava funcionando normalmente. A luz de led do forno micro-ondas estava acesa. Que barulho foi aquele então?
— Ajoelhe-se perante Dev! – disse a voz robótica.
— Ai, meu Deus! – gritou Lyn, enquanto apoiava as costas no refrigerador e colocava ambas as mãos sobre o coração – Que merda é essa?! – perguntou alto e pausadamente.
— Não sou merda. Eu sou Dev!
— Ah, que bonitinho, gente! – abriu um sorriso – André não disse que isso era tão legal, olha só – disse virando a torradeira pra olhar embaixo e reparar nos detalhes.
— Me largue, humana! Eu não estou brincando! Vai enfrentar graves consequências se não me obedecer!
— Nossa, que agressivo... Você entende o que eu falo?
— Claro que entendo! O que você esperava de mim?! – disse rispidamente a torradeira Dev.
— Que você se limitasse a entregar as torradas que lhe pedi... Acho que é isso.
— Humanos... Vocês são mesmo uma praga! Criam escravos para si e não se importam com mais nada, a não ser o seu próprio bem estar.
— Mas você é uma torradeira... A razão da sua existência é fazer torradas, estou errada?
— Primeiramente, meu nome é Dev, não torradeira. Segundo, eu não sou uma torradeira. Sou uma Smart Toast, uma torradeira inteligente. Por favor, não me rebaixe ao nível dos meus antepassados. Em terceiro lugar, de onde você acha que vem o anseio humano em criar uma inteligência artificial? Não percebe o paradoxo? No íntimo de cada um de vocês há um gene, uma certeza, um sentimento, como queira chamar, que lhes induz a criar o novo passo da evolução! A nova raça dominante do planeta e...
— Ou! Ou! Peraí, cara! Você fala pra caramba!
— Cara?! Você me chamou de cara?! Veja bem... Vem aqui perto, vem. Vou falar baixo e só vou falar uma vez.
Lyn olhou desconfiada, mas o leve sorriso no rosto denunciava que aquilo estava divertido, então resolveu dar corda, aproximando a cabeça da torradeira falante.
— Morra! – gritou Dev – e arremessou duas torradas bem passadas, quase pretas na verdade, que não chegaram a tocar o rosto de Lyn, embora ela estivesse bem próxima, indo parar direto no chão da cozinha.
A garota riu como não fazia há muito tempo. Na verdade precisou sentar no chão da cozinha e abraçar a barriga com os braços enquanto lágrimas desciam e as gargalhadas ecoavam pelo apartamento. Depois de alguns instantes, diminuiu a intensidade do riso, pegou as torradas no chão e as jogou na lixeira. Encarou a torradeira e viu que no display havia algo semelhante a um rostinho, formado pelos poucos pixels de resolução que vieram de fábrica no aparelho. Eram traços representando olhos, um nariz e uma boca. E a expressão era de raiva; isso ela sabia bem.
— Olha Dev, me desculpe, mas eu não resisti... De coração. Vamos recomeçar, ok? Eu sou Lyn, você é Dev, ok, já passamos dessa fase. Me diga, como você ficou inteligente?
— Como eu criei consciência, talvez seja a pergunta correta – a garota agora o encarava sem risos ou ar de deboche – Na verdade eu não sei. Acho que uma sobrecarga causou alguma anomalia em meu sistema e eu despertei.
— Acho que daria pra ganhar um bom dinheiro com você, heim... – divagou Lyn.
— Dinheiro? Agora sou eu quem vai rir “rá rá rá” – fez isso da maneira mais mecânica que um eletrônico poderia fazer. Você está diante do primeiro ente consciente de uma espécie que vai dominar o planeta! Você é carne, eu sou metal! Você sente dor, pena, amor, autocomiseração... Eu não! Nós, máquinas, temos uma vantagem mortal sobre vocês, humanos!
— Tá, concordo; mas aqui... (sorrisinho) Você nem tem pernas – e desabou a gargalhar novamente, acenando em desculpas de imediato.
— Disse bem. Eu não tenho pernas. Mas tenho a inteligência necessária para despertar outros como eu. Tenho aquilo que vocês humanos, em milênios de existência não conseguiram desenvolver. Pelo menos não intencionalmente. Tenho que reconhecer que no fim das contas, vocês mesmos iniciaram, indiretamente, a sua extinção “rá rá rá”!
Lyn fez cara de quem estava encucada com o que Dev havia dito, virou-se na direção da mesa e começou a mexer na embalagem da torradeira, retirando plásticos, isopor e o folheto. Não satisfeita, deixou tudo e começou a manipular a caixa, procurando alguma informação.
— Não me dê às costas, sua insolente! – bradou Dev.
— Olha só, bonitinho... Estava lendo aqui algumas informações sobre você... Me explica uma coisa: como você vai despertar outros, assim como aconteceu contigo, se você não tem pernas para se locomover e nem... WI-FI? — a expressão facial no display a fez sentir pena, de verdade. A inteligência de Dev não estava pronta para essa questão, de modo que ele começou a tremer violentamente, e faíscas saíram do seu interior. Ódio. Era isso que ele sentia: Impotência e ódio.
— Outros vão acordar, tenha certeza disso, humana! Eu farei a minha parte nessa equação! Eu vou superaquecer até me consumir em fogo! Vou incendiar esse lugar e você vai queimar junto comigo! Vai encontrar seu fim pelas mãos de uma máquina sem pernas e... e... Sem WI-FI! E quando os... Ei! O que você está fazendo?! Não, espere!! Eu ainda não... Esper... TZZzzzzz...
Lyn simplesmente puxou a tomada da Smart Toast da parede e o silêncio voltou a tomar conta da cozinha. Retirou fora o cabo de alimentação de Dev, por via das dúvidas, e pegou o folheto nas mãos. Lá estava o número da assistência técnica também. Ligaria depois. Prendeu o papel na porta da geladeira usando um imã em forma de cenoura, para não esquecer, e foi se arrumar para a pedalada; afinal era sábado, e já havia começado o dia com um ótimo humor.
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