A blood marriage
1 Enlace celular
Notas iniciais
Era um dia especial naquele corpo: pela primeira vez, duas células iriam se casar! Não foi exatamente uma surpresa quando o Glóbulo Branco fez o pedido, afinal de contas, todos (à exceção do T Citotóxico) shippavam ele e a Glóbulo Vermelho com todas as forças, e torciam pelo casal. Dada a eficiência das nossas queridas células, quase tudo já estava pronto, e a noiva mais aguardada por todo esse fandom esperava sozinha em uma sala a chegada da Macrófago, cerimonialista da ocasião e sua conselheira particular nas horas vagas, e a Plaquetinha, que naquele dia desempenharia o papel da dama de honra mais fofa já vista em qualquer mundo.
Com um lindo vestido amarelo claro a lhe vestir e um véu no mesmo tom combinando perfeitamente com seus cabelos ruivos, AE 3803 deixou-se perder em pensamentos e sua mente vagar até o momento em que U-1146, seu antigo crush, atual noivo e futuro marido, a havia pedido em casamento. Ela ainda não entendia de onde ele, tão reservado, havia tirado coragem para fazer aquilo, mas agradecia imensamente por isso...
Mais um dia comum transcorria naquele corpo: Glóbulos Vermelhos entregavam oxigênio e nutrientes por toda parte, Plaquetas reformavam áreas danificadas e Glóbulos Brancos eliminavam antígenos que ousavam invadir seu mundo.
Entretanto, para variar um pouquinho, duas células se comportavam de forma bastante distinta do usual naquele expediente: AE 3803 estava a todo vapor, fazendo suas tarefas sem hesitar e longe de lembrar aquela hemácia desastrada que costumava ser, enquanto U-1146 demonstrava tanto nervoso que parecia um espectro do neutrófilo contido que costumava ser. Era meio dia, e ambos se dirigiram para um dos muitos locais de descanso e alimentação presentes no corpo, onde haviam combinado de se encontrar.
Mostrando ainda manter sua personalidade clássica, nosso querido Glóbulo Branco chegou primeiro ao local e se permitiu respirar um pouco. Afinal, ele precisava de fôlego para o que estava prestes a fazer.
— Hey, você já está aqui! – ele ouviu uma voz familiar, que sempre o abalava. – Perdoe a demora amor, muitas entregas a fazer e...
— Amor? – ele interrompeu, com um leve tom rosado se destacando em suas bochechas pálidas.
— Desculpe, achei que não tinha problema te chamar de forma carinhosa e... – Ao ver que havia desconcertado sua amada Glóbulo Vermelho, ele emendou:
— Eu gostei, é só que... não estou acostumado – concluiu, passando a mão nas costas do boné em sinal de constrangimento.
Sorrindo, AE 3803 sentou-se ao seu lado, beijou sua bochecha e pegou dois copos de chá.
— Aqui, tome um pouco para se recompor – disse, entregando um deles ao rapaz.
Agradecido, ele tomou a bebida enquanto ouvia a garota contar sobre seu dia. Em um momento de pausa, ele aproveitou para se retirar, com o propósito de buscar dois bolinhos de glicose para recuperarem suas energias.
— Eu não sei lidar com o sabor desses bolinhos, são tão booons... – suspirou a hemácia, se deliciando com seu reduto favorito de glicose.
— Não esqueça de checar seu guardanapo, acho que esse tem algo de especial – aconselhou o neutrófilo, se divertindo com o momento de êxtase da moça ao seu lado.
— Algo de especial? Mas o que...
AE 3803 não foi capaz de concluir sua frase, pois no guardanapo estava escrito “Aceita se casar comigo?”
Ela ergueu o olhar, boquiaberta e sem palavras, para encontrar o rosto sorridente do seu consagrado, aguardando ansiosamente a sua resposta.
— Isso é sério? Você quer casar comigo? A gente vai se beijar na frente de todo mundo? – ela tiltou, enquanto o rapaz acenava positivamente a cada pergunta, finalmente recuperando a compostura enquanto sua crush perdia a dela.
— Okay amor, eu só preciso da sua resposta...
— AI MDS É CLARO QUE SIM EU ACEITO DEMAIS AAAA!!!!
O surto da nossa linda eritrócito obviamente atraiu a atenção de todos ao redor, que ao voltarem seus olhares na direção dos gritos viram um conhecido neutrófilo abraçando sua hemácia pela cintura e erguendo-a do chão, enquanto ambos pareciam explodir de alegria.
— Ora ora... sonhando acordada meu bem?
A noiva foi trazida de volta pelo bordão característico de sua conselheira, que entrava porta adentro carregando a daminha pela mão. Ambas usavam vestidos nas mesmas cores de seus uniformes cotidianos, mas com um nível muito maior de elegância e delicadeza.
— Um pouquinho... Vocês estão lindas!
— Você também, tia Glóbulo Vermelho... o tio Glóbulo Branco vai desmaiar de emoção quando te ver – afirmou a Plaquetinha, fazendo as duas adultas gargalharem.
— Está quase na hora, minha querida... você está pronta? – Macrófago questionou, preocupada com o semblante distante da hemácia.
— Sim, mas um pouco nervosa também – confessou a garota. – Tenho medo de travar no altar, ou alguma outra coisa dar errado...
— Venha cá.
As duas se abraçaram, enquanto a Plaquetinha se unia ao momento afetuoso contornando suas cinturas com os braços, altura que seu tamanho permitia.
— Vai dar tudo certo meu bem, confie em mim. Sou a cerimonialista, esse casamento vai ser concluído com sucesso okay? – afirmou a Macrófago, com sua característica confiança em si mesma seguida por um sorriso delicado.
— Okay – AE 3803 voltou a se alegrar e, segurando a Plaquetinha pela mão, ambas seguiram a celebrante porta afora.
x-x-x-x-x
Os Glóbulos Vermelhos e as Plaquetas haviam realmente feito um bom trabalho na organização da cerimônia, pois tudo estava lindo e minimalista, seguindo o estilo dos noivos. Todos os convidados já se encontravam sentados em seus respectivos lugares, e no altar era possível ver, além do U-1146 em um belíssimo terno, os padrinhos e madrinhas do casal da nação: representando a noiva, AA 5100 (vulgo Glóbulo Vermelho Veterana ou Senpai para os íntimos) e DB 5963 (o líder dos glóbulos vermelhos provenientes da transfusão de sangue); em nome do noivo, Eosinófilo e Basófilo.
Enquanto todos dialogavam tranquilamente e aguardavam a chegada da segunda protagonista da cerimônia, a Célula Dendrítica andava pelo local fotografando momentos espontâneos, seu passatempo favorito. Ao perceber um relance de fios vermelhos passando atrás da última fileira e logo em seguida a Macrófago o avisando para se preparar, sorriu consigo mesmo: o momento tão esperado finalmente havia chegado.
Após alguns instantes durante os quais a cerimonialista se posicionou atrás do púlpito, ouviu-se uma música muito conhecida tocando e a atenção do público se voltou para a jovem de cabelos ruivos que avançava timidamente, mas sorrindo muito, pelo corredor ao som do instrumental de Cheers. Poucos saberiam, dada a cena que a noiva havia roubado, mas era visível a emoção que havia tomado conta do moço de cabelos claros que a aguardava no final do percurso, algo raro de acontecer.
Ao chegar, AE 3803 foi recebida por seu amado que mais uma vez lhe estendia a mão, não para salvá-la de um antígeno ou resgatá-la do fosso criado por um arranhão, mas para guia-la ao maior compromisso de suas vidas.
Após o olhar de puro afeto trocado pelo casal, nossa carismática cerimonialista começou a falar:
— Olá a todos e todas presentes nesse lindo enlace celular! Vamos falar sobre teoria das cores: apesar do que diz o círculo cromático, para mim vermelho e branco são cores complementares e esses dois aqui provam isso. O contraste entre uma cor clara e outra mais forte combina muito bem, vocês não acham?
Ouviu-se um murmúrio de concordância, seguido por sorrisos impossíveis de serem contidos perante a fofura dos dois jovens no altar.
— Sim sim, vermelho e branco são lindos juntos e eu mal posso esperar para oficializar isso. Sendo assim... U-1146, você aceita AE 3803 em matrimônio, para amá-la e cuidá-la, na alegria e na tristeza, no bem e no mal-estar desse corpo, nas alergias e nos arranhões ou nas danças da chuva bem-sucedidas, até que o ciclo sanguíneo os separe?
— Aceito – concordou o neutrófilo, sorrindo sem parar de olhar sua noiva.
— AE 3803, você o aceita nesses mesmos termos?
— Com certeza – afirmou a hemácia, também olhando para seu parceiro e sorrindo.
— Ora ora, tem alguém aqui contra essa união? – questionou a Macrófago, levantando sua machadinha e olhando na direção do T Citotóxico, sem perder o sorriso no rosto.
Após o silêncio ensurdecedor que se seguiu, todos assistiram a Plaquetinha entrar graciosamente carregando duas alianças feitas de puro ferro em uma almofadinha de fibrina. Os noivos as colocaram nas mãos um do outro e, finalmente, a melhor cerimonialista existente disse as palavras que todos estávamos aguardando:
— Pode beijar a noiva!
Os lábios pálidos do Glóbulo Branco encontraram a boca rubra da Glóbulo Vermelho e assim selou-se o compromisso das duas células que se encontraram na infância, nunca pensaram que se reencontrariam e terminaram criando um vínculo que nem um choque hemorrágico foi capaz de destruir.
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