Notas iniciais
Espero que gostem :)

— Corre mais rápido! — eu grito batendo as mãos no encosto do banco da frente.

— Para de bater no banco! — a voz de Clémence é fria, mas percebo que ela ficou nervosa com a aproximação do monstro.

— Falta pouco! — Tony estava inclinado pra frente, com os olhos fixos em algum ponto.

O carro roncou quando Clémence enfiou o pé mais fundo no acelerador, mas outro barulho foi mais alto. Olho pra trás de novo a tempo de ver o cão infernal tão próximo que quase consegue morder a traseira do carro. Eu grito o mais alto do que achei que seria capaz. Uma das patas do cachorro atinge a traseira do carro no final da subida de uma colina. O impacto me joga pro lado e o carro voa num sentido diferente e capota do outro lado da colina. Rolamos a descida e o carro para de ponta cabeça.

— Saiam do carro! — Clémence grita e puxa Tony pra fora, já que ele parece meio tonto.

Eu engatinho o mais rápido que posso pra longe do carro. Meu coração parece bater na minha garganta. Olho assustada para o topo da colina que rolamos. Nenhum sinal do cão infernal.

— Cadê ele? — eu grito de forma esganiçada. — Cadê aquilo?

Clémence está ajoelhada do lado de Tony que está deitado encarando o céu.

— Ele não pode entrar aqui. Chegamos ao acampamento. Está tudo bem agora.

Minha respiração está irregular como se eu fosse chorar. Respiro fundo várias vezes a fim de me acalmar. Não notei que uma multidão se formou ao nosso redor. Um homem com corpo de cavalo lidera o grupo.

— Curandeiros!

Duas garotas e um menino se aproximam de mim com uma maca e uma bolsa de primeiros socorros. Eu me afasto deles o mais rápido que posso.

— Ninguém vai encostar em mim até me explicarem o que raios está acontecendo!

O homem-cavalo se aproxima trotando.

— Olá, eu sou Quíron, sou responsável pelo acampamento. Sei que você está confusa, mas deixe-nos cuidar de você.

— Quíron. — murmuro. Levanto com esforço e ignoro a multidão. — Meu pai falou que deveríamos conversar. Mas quero fazer isso antes de qualquer coisa.

Apesar das minhas palavras, meu corpo todo dói e eu imploraria de joelhos por um copo d'água. Giro os pulsos para verificar se estou inteira, mas meu pulso esquerdo dói muito e não consigo conter uma careta de dor.

— Que tal conversarmos enquanto faço seus curativos? — sugere Quíron.

Assinto com a cabeça. Olho pra Tony e Clémence que estão sentados recebendo auxílio dos curandeiros.

— Clémence, Tony. Venham conversar comigo assim que se sentirem bem. — Quíron diz e então vira-se pra mim. — Desculpe, querida, mas nem sabemos seu nome ainda.

Estico a mão que não dói para um aperto.

— Marnie Simmons.

O homem-cavalo aperta minha mão.

— É um prazer recebê-la, Marnie. Me acompanha até a Casa Grande? Sinto que temos muito o que conversar.



Sento num sofá de couro numa sala ampla e aconchegante, apesar da decoração de gosto duvidoso. Quíron agora encontra-se numa cadeira de rodas, com a parte cavalo completamente encaixada dentro da cadeira. Ele me oferece um copo de refresco gelado.

— Beba um pouco enquanto eu cuido do seu pulso.

Aceito pois estou sedenta, mas fico chocada ao sentir gosto de caldo de legumes ao invés de refresco.

— Meu Deus, o que é isso?

Quíron contém uma risadinha.

— Primeiramente, acho que o termo correto seria "meus deuses". Isso que está bebendo é néctar dos deuses.

— O nome vem bem a calhar — respondo enquanto sorvo o resto da bebida. — Bom, já sei sobre os deuses, já sei que estou num acampamento de semideuses. Mas não sei quem é minha mãe. E também não sei o por quê só entrei no radar dos monstros agora com dezessete anos.

— Bom, criança, também não sei quem é sua mãe, mas você provavelmente será reclamada em breve. Sobre o "radar", não se preocupe. Cada semideus amadurece em seu próprio tempo.

— É como a menstruação? Cada menina tem no seu tempo.

Quíron reflete um tempo, levemente constrangido.

— Creio que sim. Descobrimos que você era semideusa há pouco tempo. Por isso, Tony foi designado para ficar de olho em você.

— O quê? Ele não estava lá por acaso?

Estou realmente incrédula.

— Receio que não. Ele estava cuidando para que você não fosse atacada.

— Hum, eu tive babá esse tempo todo e só descobri agora? Que maravilha.

— Sinto muito, criança. Mas foi para te manter segura. Clémence está sempre a postos na região do Brooklyn, mas agora que ela trabalha, fica mais difícil cuidar de tudo.

— E onde vou ficar? Têm alojamentos suficientes?

— Não se preocupe, você ficará no chalé de Hermes, por enquanto. Vou pedir pra alguém te levar até lá. — Ele olha ao redor. — Olivia? Pode vir aqui um instante?

Uma garota de longos cabelos negros e cacheados, pele oliva e sardas pelo rosto todo se aproxima. Ela deve ter minha altura e um sorriso fácil.

— Querida, você pode acompanhar Marnie até o chalé de Hermes? Acho que até o jantar já saberemos quem é sua mãe.

Olivia me ofereceu a mão para levantar, que eu aceitei, esquecendo do pulso machucado. Soltei um meio grito de dor quando percebi meu erro.

Olivia segurou meu pulso com delicadeza e disse:

— Acredito que Elliot tenha algo para a dor. Te levo até o chalé de Apolo antes de te alocar.

Segui ela pro que parecia a área de chalés, onde tinha muita gente correndo, carregando armas e sacos de dormir de um lado pro outro.

— Você é filha de quem afinal? — perguntei.

— Hermes. — Olivia respondeu sem olhar pra mim, parecendo estar chupando limão ao falar o nome do pai.

— Você não parece gostar muito.

Ela suspirou e olhou pra mim brevemente antes de responder.

— O chalé é cheio de meninos barulhentos que não têm noção de espaço pessoal. Além disso… você vai ver. Mas antes vamos ver Elliot.

Nos aproximamos de um chalé feito de sol e puro ouro. Meus olhos chegaram a doer só de olhar. De lá saíam os campistas com arcos e flechas, flautas e harpas. Olivia tomou a frente e entrou no chalé, cumprimentando algumas pessoas ao passar. Lá dentro, em uma das beliches, estava um garoto magrelo de pele escura e com um cabelo muito bonito. Ele estava lendo um livro.

— Oi, Elliot. — Olivia cumprimenta e abre seu sorriso que percebi ser sua marca registrada. O garoto, que deve ter seus quinze anos, levanta e abraça a menina.

— Liv! Senti saudades. Como foi seu ano?

— Foi bom, tranquilo até…

— Preciso te contar das fofocas. Cheguei há uma semana e você não sabe o que tá acontecendo no Olimpo… — Elliot finalmente olha pra mim. — Desculpe, não te vi. Não te conheço. É novata?

— Sou Marnie. — Me apresento com um aceno de cabeça.

— Ela machucou o pulso quando chegou, queremos saber se você poderia… — Olivia deixou o pedido no ar.

— Mas é claro! Deixa eu pegar minhas ervas medicinais.

Enquanto Elliot abria o baú ao pé da cama, ouviu-se um estrondo do lado de fora e imediatamente senti um arrepio na nuca.

— O que foi isso? — perguntei. Pelas janelas e a porta via-se lampejos púrpuras e dava pra sentir um cheiro de coisa queimando.

Nós três corremos pro lado de fora pra ver. Um chalé tinha uma grande floresta crescendo nas janelas e porta, o que impossibilitava que qualquer um ficasse dentro. O telhado de outro chalé estava simplesmente em chamas.

Elliot suspirou.

— O chalé de Hécate. É uma retaliação pelo o que Hermes e Ares fizeram com eles ontem.

— O que fizeram ontem?

— Eles armaram algumas peças e fizeram piadas de mau gosto. Sobre aquele boato.

— Que boato? — questionei, curiosa, mas fiquei sem resposta pois no teto do chalé em chamas surgiu uma garota de oito anos soltando uma risada genuinamente maléfica, o que nem achei ser possível.

Olivia nos puxou pra dentro do chalé.

— Elliot, faça o curativo em Marnie. Vou tentar resolver o problema.

— Como?

— Vou conversar com a líder dessa revolução toda.

— Quem é a líder? — Me senti apenas fazendo perguntas que todos sabiam a resposta, enquanto Elliot fez uma cara genuína de espanto.

Do lado de fora, para além da risada da menina em chamas, um silêncio se instaurou entre os campistas. No centro dos chalés, uma garota parecia furiosa e névoa púrpura saía pela barra de seu vestido negro. Ela parecia pronta para atacar. Então um arrepio ainda mais forte subiu pela minha nuca e a garota do lado de fora se contraiu.

E então seus olhos prateados se fixaram diretamente em mim.

Notas finais
E aí? Me contem o que acharam!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.