A biblioteca da escola pegou fogo!
9 Um milhão de planos
Depois daquele dia as coisas ficaram um pouco menos bizarras. Sempre que Dennis vinha me perguntar sobre o tal plano de vingança eu inventava um compromisso só pra ganhar tempo e com isso acabei arrumando compromissos de verdade.
Com a quermesse chegando e o grêmio cheio de coisas pra fazer e só dois membros saudáveis — comigo três, mas eu era mais como uma estagiária, um quebra-galho — as reuniões passaram a ser duas vezes por semana, o que desregulou completamente minha rotina que já era o desorganizada o suficiente.
Eu tinha muitas coisas na minha cabeça. Tudo o que eu pensava era no grêmio, na quermesse, no plano doido do Dennis, no meu plano doido de fazer o plano doido do Dennis dar errado, na minha paixão pura e sincera por Giselle e nos gatos da Vó Alice que aprenderam a abrir a porta do meu quarto e arranharam minha poltrona nova.
Eu estava prestes a colapsar e por isso foi um choque pra mim ver Emily na biblioteca quando cheguei um pouquinho atrasada na primeira reunião de quinta-feira.
— Foi mal, gente, tive que passar no banheiro — falei, tentando ignorar o olhar dela e focar em Giselle, mas Emily tinha uma presença tão intimidante que seria capaz de derrubar alguém com um único empurrãozinho.
A sorte é que eu sabia que eu não era a única a morrer de medo dela, dava pra ver que grande parte dos alunos evitava fazer contato visual. Mas por algum motivo, eu sentia que aquele olhar de ódio que ela lançava pra todo lado tinha um alvo.
Eu. Eu era o alvo.
Depois de um tempinho separando e cortando os milhares de crachás, eu percebi que Emily não estava fazendo absolutamente nada além de me olhar fixamente — dando pausas algumas vezes quando eu olhava, mas eu sabia que ela estava olhando pra mim, era super desconfortável — e foi por causa disso que a paz da reunião foi jogada no lixo.
— Emi, cê pode ajudar cortando isso aqui enquanto eu vou buscar o restante na secretaria? — Giselle perguntou, já entregando a tesoura e as folhas com os crachás impressos.
— Eu não, já disse que vim só olhar.
Parei o que eu estava fazendo na mesma hora, e Gabriel também. Era como se a tensão pairasse no ar, o clima ficou tão pesado que até respirar virou uma tarefa difícil.
— Se não for ajudar, então pode ir pra casa — Giselle bateu a tesoura na mesa e empilhou os papéis antes de sair.
Eu e Gabriel nos olhamos, quase usando telepatia pra saber se já poderíamos respirar normalmente com aquele climão.
Depois de um tempinho, Emily pegou atesoura e uma das folhas para começar a cortar os crachás, mas parou depois de picotar as beiradas do papel, sujando a mesa e o chão. E ainda teve a coragem de ficar bufando como se estivesse sendo obrigada a ficar ali, com aquela pose de madame.
Eu não me aguentei.
— Folgada — resmunguei alto o suficiente para que ela ouvisse, o que ela iria fazer? Cuspir em mim e me chamar de pobre imunda?
— O quê que cê disse?
— Eu? Nada. Só é desconfortável te ver fazendo birra como se a Giselle tivesse a obrigação de fazer tudo que cê quer.
Senti o horror no olhar que Gabriel me lançou, mas eu não estava nem um pouquinho preocupada.
— Ninguém te perguntou nada, garota.
— Cê acabou de perguntar o que foi que eu disse. Eu disse que você é folgada. Só isso. Eu menti?
Ela riu. Riu com deboche que provavelmente era a única forma dela rir.
— Ai, sinceramente, eu nem sei por que eu ainda tô aqui — ela falou, se levantando e colocando a mochila nas costas pronta pra ir embora sem olhar pra trás.
— E eu nem sei por que a Giselle ainda é tua amiga.
Ela se virou. Eu jurei que levaria um murro.
— Quê?
Me tremi todinha, mas não desci do salto. Minha mãe já me disse que meu atrevimento um dia vai me deixar na merda.
— Ela te pediu ajuda e tudo que eu te vi fazer aqui foi reclamar. Sabe o quanto a gente tá trabalhando nessa quermesse...?
— Eu não ligo pra essa merda de quermesse, ninguém liga. Eu já falei mil vezes pra Giselle, mas ela nunca me escuta...
Poderia não parecer uma briga já que todo mundo ali falava num tom de voz aceitável, mas eu sentia minhas veias pulsando quase como se eu estivesse num ringue de luta.
— Emi — Giselle tinha voltado. E aparentemente já estava ali há um tempo. — Vai pra casa, vai.
— Gi... a gente combinou de...
— Eu tô ocupada, Emily. E eu te chamei pra ajudar pra, quem sabe, a gente acabar mais rápido, mas já que tu não se importa com essa merda de quermesse pode ir. Não tô te obrigando a me ajudar, não.
Emily saiu, batendo os pés no chão feito criança e deixando o clima pior do que antes. Giselle precisou cortar uns vinte crachás antes de parar e respirar fundo.
— Desculpa, gente. A Emi esses dias tá impossível. Desculpa, Mia.
— Relaxa, eu falei besteira também. Fiquei irritada sem motivo — comentei, mas por dentro não estava nem um pouquinho arrependida. O que eu queria mesmo era dar uma rasteira naquela garota.
— Não foi sem motivo, ela foi folgada sim em vir pra cá e não fazer nada, — suspirou de novo, voltando a cortar os crachás — eu deveria ter previsto isso, mas olha a quantidade de coisa que a gente ainda precisa fazer! Vai levar um tempão pra terminar tudo isso e o orçamento do grêmio não cobre a gráfica...
— Eu fiquei sabendo que a Vanessa e o Lucas já foram liberados e voltam a frequentar as aulas normalmente semana que vem — Gabriel falou, ainda concentrado em preencher as fichas e planilhas dos voluntários da quermesse.
E eu não fazia ideia de quem eram Vanessa e Lucas, mas não achei importante perguntar. Ainda mais depois do sufoco que eu passei.
— Eu soube. Mas eu não pediria pra Vanessa ajudar com os crachás, lembra daquela vez quando ela foi cortar os moldes de natal?
— Lembro — Gabriel fez careta. — E o Lucas já vai me ajudar a organizar o material das barracas, o pai dele disse que ia dar desconto então eu entreguei a pasta da decoração pra ele.
— Então a gente vai continuar com essa tortura? Até quando, Brasil?
Acho que a adrenalina ainda percorria livremente pelo meu corpo, eu já nem me lembrava direito do que eu tinha que fazer e sobre o quê aquela conversa era.
Tudo o que eu pensava era em como eu poderia me exibir para Giselle e mostrar que sou uma pessoa prestativa. Ao contrário de Emily.
— Eu posso levar pra casa e cortar tudo lá — falei sem nem perceber e me arrependi na mesma hora. Eram muitos crachás.
Mas já era muito tarde pra voltar atrás.
— Sério? — Gabriel perguntou, olhando para Giselle.
E Giselle olhou pra mim.
— Cê não precisa fazer isso, Mia. A gente é um time.
Aquela era minha chance de me livrar, mas eu estava disposta a cavar minha cova ainda mais.
— É que eu não sou super ocupada igual vocês. E se eu precisar de ajuda eu falo, sem problemas.
E eles concordaram.
O que eles não sabiam é que eu nunca pediria ajuda nem mesmo se meus dedos sangrassem de tanto cortar papel.
As coisas que a gente faz por amor...
Como se já não fosse muito trabalho ter que lidar com todos os meus planos e estratégias, a Vó Alice decidiu que seria dar banho no Farofa, o gato obeso dela que não consegue se limpar direito. Mas como ela tem problema nas costas, eu que acabei tendo que colocar o coitado do gato na banheira e dar banho no bichinho.
A minha surpresa foi que o danado do Farofa é um folgado. Nem ligou pra água e ficou quietinho como se tivesse num spa. Nessas horas eu queria ser um gato. Um dos gatos da Vó Alice de preferência. Imagina só ter a folga toda desses bichos que tem camas mais macias que a minha?
Fora que eles são precisam trabalhar e ainda ganham carinho sempre que pedem.
Depois desse momento único que tive com Farofa — e depois de secar ele com um secador próprio pra gatos, escovar o pelo laranja e passar perfuminho —acabou que ele virou meu amigo. Todas as tardes, quando estava pertinho de escurecer, eu me sentava no chão do alpendre e ficava ali cortando os malditos crachás. Farofa ficava me espiando, hora ou outra se revirava no tapetinho favorito dele e dormia com o barrigão pra cima.
Era um momento relaxante até. Pelo menos pra ele.
Relaxante ou não, nosso momento de paz foi interrompido quando Dennis apareceu e decidiu cobrar a ajuda que eu prometi. Foi numa terça-feira e eu não esperava que ele estivesse por aquelas bandas naquele dia já que ele só visitava o avô nos dias de quinta e sexta.
— Tá fazendo o quê? — Ele perguntou, sem nem se preocupar em ser educado. Eu me pergunto se Dennis era mesmo um estudante normal ou se vivia uma vida dupla no meio da agiotagem.
— Umas coisas pro grêmio. Tá fazendo o que aqui?
Aproveitei e fui mal-educada também. Mas sempre olhando pros lados só pra ter certeza de que a Vó Alice não estava espiando pela janela como sempre fazia no tempo livre.
— Tentei falar contigo hoje na aula, mas parece que cê tá me evitando, então eu vim aqui — ele entrou no alpendre e sentou bem do meu lado. A ousadia de algumas pessoas...
— Tô meio ocupada...
— Nem vem com essa, eu sei que o grêmio te liberou das reuniões. A Giselle me contou.
— Ela disse que eu me ofereci pra contar esse monte de crachá também? Já falei que tô ocupada.
E se eu pensei que Dennis iria se levantar e ir pra casa depois dessa, eu estava enganada.
— Ela disse sim. Por isso eu vim aqui. Tem outra tesoura aí?
Fiquei surpresa. Desconfio que até Farofa tenha ficado surpreso. Não achei que Dennis fosse do tipo que corre atrás quando quer realmente alguma coisa. Aquela cara de tédio que ele tanto exibe por aí engana muito as pessoas.
Passamos quase uma hora cortando os crachás e conversando sobre o Farofa até que Dennis chegou no assunto que realmente importava pra ele. E eu já estava esperando, mas precisava manter a calma para não perder as estribeiras e acabar fazendo bobagem.
— Ei... eu pensei aqui, faltam duas semanas pra quermesse, né?
— Se o teu plano for fazer confusão no meio da quermesse, pode esquecer. Eu nunca trabalhei tanto na minha vida, não vou deixar ninguém estragar.
Ele balançou a cabeça.
— Não no meio da quermesse. Mas no mesmo dia. É numa sexta-feira, a gente não tem aula normalmente, mas todo mundo precisa ir pra ajudar na montagem das barracas e na preparação do evento. Então a gente faz o Gabriel ser pego fumando, faz o diretor encontrar os cigarros no armário dele e todo mundo fica feliz. Menos o Gabriel, esse é o ponto.
Fiquei um tempinho encarando Dennis só pra ter certeza se ele estava bem ou não. Concluí que não.
Eu tinha muitas dúvidas naquele momento. Como assim era obrigatório ajudar na montagem das barracas e na organização do evento? Como assim Gabriel tem um armário? Como assim todo mundo vai ficar feliz? Mas decidi não questionar nada, eu ainda não tinha desistido do primeiro plano de persuasão.
— Eu ainda acho que seria melhor vocês conversarem. Ele parece ser super de boa nas reuniões do grêmio — eu falei, mas nem precisei terminar pra ele revirar os olhos e fingir que nem estava ouvindo.
— Ele é o maior duas caras que existe. Na frente do pai ele é um santo, mas é só virar as costas que vira o próprio capeta.
Não era difícil de acreditar, principalmente depois do que Giselle tinha contado. Mas eu ainda estava disposta a fazer aquela amizade acontecer.
— Eu acho que vale a pena conversar, mesmo que acabe em briga...
— Cê não tá pensando em desistir, né? — Ele me interrompeu, quase largando a tesoura e batendo o pé pra fazer birra. — É só uma pegadinha, e eu já te ajudei a se aproximar da Giselle.
— Ajudou nada, só me contou um monte de coisa nada a ver e eu ainda tive que puxar briga com a Emily — retruquei. — Ela quase voou em cima de mim. E ainda corria o risco da Giselle me odiar pra sempre por ter implicado com a melhor amiga dela.
Eu esperava que Dennis tivesse uma boa resposta, só não esperava que ele ficasse sorrindo pra mim como se fosse o dono da razão.
— Ela ficou do teu lado por minha causa — ele disse, todo pomposo.
— Que mentira. O que foi que tu fez?
Ele cruzou os braços, todo se achando.
— Falei algumas coisas de você pra ela.
Senti meu coração acelerar. Senti também que Farofa estava me julgando com certeza.
— Tipo o quê? Tu não sabe nada sobre mim.
— Claro que eu sei. É muito fácil saber coisas sobre ti porque cê fala muito sem pensar. — Ele falou, voltando a cortar os crachás enquanto eu continuava encarando.
— Por exemplo? — Perguntei, com medo de ele responder algo suspeito e eu acabar descobrindo que ele anda me espiando enquanto eu durmo.
Felizmente não aconteceu.
— Tipo, sei que cê só gosta de usar roupas coloridas — ele apontou pras minhas roupas, que nem eram tão chamativas assim (um shortinho verde e uma blusinha amarela não machucam os olhos de ninguém!) — e quando não pode usar, como na escola, usa meias coloridas pra compensar.
Mordi o lábio, em desespero mesmo, sem saber como reagir aquele monte de informações, mas Dennis não tinha acabado ainda.
— Sei também que cê morde a boca assim quando tá nervosa e que faz umas caretas horríveis por causa disso — ele riu, eu parei de morder a boca na mesma hora. — E cê é bem enxerida também, mas eu não falei isso pra ela, não se preocupa. Só comentei da sua curiosidade saudável pelos assuntos alheios.
— Vai se lascar — respondi, enquanto ele ria da minha cara. Fiquei um tempão me perguntando quando foi que Dennis descobriu tantas coisas sobre mim.
Mas, se parar pra pensar bem, eu até que compartilho muito mais coisas do que deveria. E Dennis é meio quieto, ele tem o perfil de ser observador.
— E que saber mais? Ela ficou curiosa sobre você. Perguntou até teu signo.
— É mesmo? — Pulei, quase deixando a tesoura cair no tapetinho do Farofa.
— Sim, mas eu não sabia, então...
— Ela perguntou meu signo hoje no intervalo! — Interrompi, lembrando de uma situação bem engraçada que tinha acontecido naquele dia.
Giselle realmente tinha me perguntado meu signo meio casualmente durante uma conversa sobre os membros do grêmio que melhoraram da catapora, Vanessa e Lucas. Ela começou comentando que Vanessa era meio avoada por ser pisciana e me perguntou meu signo de uma forma tão natural e sutil que eu nem desconfiei.
— Pois então! — Ele disse, todo orgulhoso. — Fui eu que disse pra ela te perguntar.
Eu quase me joguei no chão, emocionada. Dennis realmente estava fazendo a parte dele do acordo, não seria meio estranho se eu não fizesse a minha?
— Valeu. Eu não achei que tu fosse me ajudar de verdade — confessei.
— Já imaginava. Mas eu tô ajudando, então não tem essa de desistir, tá bom?
Tá bom? Será que realmente estava bom?
— Tá, tanto faz.
Até fiquei com peso na consciência depois daquela conversa toda, mas lembrei que o plano de Dennis era humilhar Gabriel numa vingança infantil que talvez nem valesse tanto a pena assim.
E mesmo que eu estivesse um pouquinho — só um pouquinho! — emocionada, eu e Dennis não éramos amigos de fato. Nossa relação não passava de colegas de classe, meio-que-vizinhos e, às vezes, parceiros de crime.
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