A biblioteca da escola pegou fogo!
8 Parceiros de crime
Eu não queria tomar uma decisão precipitada e acabar me ferrando, por isso decidi pensar bastante. E pensei. Pensei muito. Mas mesmo assim, quando o dia seguinte chegou eu ainda não tinha me decidido.
Era certo ou não me juntar ao Dennis naquele plano horrível de vingança? O diabinho no meu ombro já tinha a resposta, mas eu não.
Cheguei na escola bem cedo, esperando encontrar Dennis pra discutir um pouco mais sobre aquele assunto — já que eu estava disposta a investigar mais sobre aquele caso pra tomar alguma atitude —, mas ele não apareceu.
Pensei que ele pudesse estar na biblioteca por ter chegado atrasado e que logo apareceria, mas não. Nem sinal de Dennis Flores pela escola.
Quando o sinal do intervalo apitou eu percebi que talvez aquilo tenha sido um sinal para que eu não me precipitasse, até pensei se valia mesmo a pena me meter nesses assuntos sabendo que eu poderia muito bem chegar em Giselle sozinha e ainda evitar uma possível confusão.
O que eu não estava esperando era que Giselle chegaria em mim primeiro.
— Oiê, posso sentar aqui? Parece que o Dennis não vem hoje mesmo. — Ela disse, se sentando do meu lado com aquele mesmo sorriso meigo de sempre. O cheirinho de melancia no ar. — Quero falar contigo sobre ontem.
Por um momento meu coração parou.
— Ontem?
— É. Quando cê perguntou pro Gabriel sobre a história dele com o Dennis e todo esse lance de ódio entre eles.
— Ah, sim...
— Assim, não que eu seja fofoqueira — assim que ela falou isso eu já sabia que vinha fofoca por aí —, mas essa história deles já é velha. Todo mundo sabe que eles não se suportam. E era ainda mais insuportável antes, mas agora que estão em salas diferentes até que dá pra aguentar. E quando a gente se formar o Gabriel vai provavelmente se mudar pra Capital pra fazer faculdade ou algo do tipo, então meio que todo mundo tem um acordo silencioso em não se meter nos problemas deles.
Até aquele ponto eu não sabia aonde Giselle queria chegar com aquilo. Era até difícil respirar estando tão perto dela, mas assim que uma luzinha piscou no fundo do meu cérebro me fazendo pensar, eu percebi.
— Ah... — soltei uma risadinha sem graça. — eu tô sendo enxerida por me meter né?
Mas ela arregalou os olhos.
— Não, claro que não. Eu acho que cê tá é certa, eles não podem agir assim que nem bicho pra sempre, têm que ao menos aprender a conviver como seres humanos. E eles são meio que família, gostando disso ou não poderiam pelo menos fingir que se aguentam.
— É... mas fingir é complicado — respondi, sem ter muito o que dizer.
— Eu sei — ela suspirou. — Mas é que antes de tudo acontecer a gente era amigo...
— Quê? Eles eram amigos? Gabriel e Dennis? Eles dois?
— Isso faz tempo, mas é que praticamente todo mundo aqui estudou junto desde criança, naquela época eles pelo menos conviviam sem esse drama todo envolvido.
— Entendi. E é meio chato a alguém que chegou agora tentar resolver, né?
E ela sorriu. Ela sorriu.
— Até que não. Aliás, tu tá se adaptando bem, sabia? Não deve ser fácil fazer amizade em escola nova.
— Acho que as pessoas aqui valem o esforço — eu disse. Na minha cabeça foi bem aqui que uma musiquinha romântica começou a tocar. Aquela frase melosa pairou na minha mente por alguns segundos até perceber que talvez estivesse rolando um clima entre nós.
Até que o sinal tocou. Giselle se levantou para voltar ao lugar dela e quando eu achei que tinha feito besteira, vi ela voltar com o caderno e o estojo nas mãos.
Nem questionei, até porque não conseguia falar uma palavra de tão nervosa que fiquei.
— Então... sabe por que o Dennis faltou hoje? — Ela sussurrou bem no meu ouvido enquanto o professor anotava a matéria no quadro. Arrepiei todinha.
— Não. Cê sabe?
— Também não — ela disse, desenhando as palavras numa caligrafia enrolada com uma caneta rosa brilhante. — Eu fico preocupada, às vezes... sabe, ontem quando o Gabriel contou aquela história de que o Dennis se candidatou pra presidente do grêmio só pra irritar? Tem muito mais coisa nessa história do que o que ele disse. Naquela época, ele montou uma chapa e o Dennis perguntou se poderia ser o vice-presidente, Gabriel disse não. Então o Dennis montou a própria chapa, fez campanha e tudo até ser desclassificado por causa do pendrive roubado da sala dos professores. Acontece... que o Gabriel quem botou o pendrive na mochila do Dennis.
Fiquei em choque. Suspeitar que alguém é uma pessoa merda é totalmente diferente de ter certeza disso. Será se aquele tipo de coisa era comum em Mandacaru e eu não estava sabendo?
— E como foi que ele fez isso? Ninguém desconfiou?
— O Gabriel... ele é inteligente. E muito competitivo. Eu não sabia disso na época, mas com o passar do tempo eu fui trabalhando no grêmio com ele e os podres foram surgindo.
Era incrível como Giselle conseguia copiar a matéria e fofocar ao mesmo tempo. A caligrafia impecável, o tom de voz baixinho e a organização dos assuntos (tanto sobre a aula quanto sobre a fofoca) era muito bem trabalhada. Cada vez mais eu me sentia sem ar.
— O pior de tudo, foi que — ela continuou — além de ser desclassificado da eleição, Dennis não só tomou uma suspensão como quase foi expulso. Por causa do roubo do pendrive e da invasão na sala dos professores. Gabriel ficou arrasado, disse que se sentiu culpado, mas nunca pediu desculpas.
Pelo que fofocamos — de uma forma edificante — descobri que Gabriel e Dennis faziam de tudo para chamar a atenção dos pais durante a infância. E isso acabou se tornando uma competição doentia.
Giselle contou da vez em que Dennis empurrou Gabriel numa aula de educação física, contou da vez em que Gabriel rasgou os cadernos de Dennis, contou da vez em que os dois caíram no soco num intervalo, a lista era imensa.
— Como é que eles aguentam morar na mesma casa desse jeito? — Perguntei, fingindo anotar tudo, mas já tinha me perdido da aula fazia tempo.
— Boa pergunta. Eu acho que eles nunca sentaram pra conversar de verdade — Giselle comentou. — Acho que se eles conversassem, dava pra resolver metade dos problemas.
— E se alguém trancasse eles numa sala fechada igual naqueles experimentos comportamentais? — Falei, rindo só de pensar na cena.
— Quem conseguir fazer isso vai ter meu amor e gratidão pro resto da vida, porque eu não aguento mais.
Amor e gratidão?
A ideia surgiu na minha cabeça um pouquinho antes daquela aula acabar e, não que eu estivesse pensando apenas no que Giselle havia dito, mas talvez fosse uma boa investir um pouco do meu tempo naquele tipo de atividade.
Claro, sem pensar em receber amor e gratidão em troca, mas sim, ajudar um amigo.
No fim da aula eu já tinha tomado uma decisão. Iria ajudar Dennis a resolver suas diferenças com Gabriel e fazer com que eles dois voltassem a ser amigos. Saí da escola me sentindo ótima com a ideia de ser altruísta, o mundo pareceu até mais colorido e perfumado.
Durante o caminho de volta, pensei em como poderia começar a mexer os meus pauzinhos para fazer aquela irmandade entre Gabriel e Dennis acontecer, por sorte, a resposta caiu do céu: Dennis estava sentado no alpendre da casa do avô dele, totalmente despreocupado.
Rapidamente pensei em algumas estratégias, uma mente brilhante precisa de um plano A, um plano B, um plano C e mais um reserva, pra ter certeza de que tudo vai estar sob controle.
O plano A era o mais simples e óbvio, persuasão.
Caminhei até lá, bem tranquila, esperando que ele percebesse que eu estava chegando. Não aconteceu. Então eu puxei um dos fones dele e quase matei o coitado de susto.
— Caralho, que isso? — Ele deu um pulo e quase caiu do parapeito, só quando me viu que voltou a fazer aquela cara feia de puro tédio. — Ah, que foi?
Nem tirou os olhos do celular.
— Por que tu faltou hoje? — Perguntei, sem nem pensar direito.
— Não tava muito afim — ele falou. Aquilo tinha muita cara de ser mentira, mas eu não tinha tempo pra discutir. — Por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu só tava pensando — me sentei no parapeito também, fingindo estar totalmente despreocupada assim como ele. — se eu te ajudasse naquele assunto lá, como cê iria me ajudar com a Giselle?
Imediatamente vi ele levantar os olhos pra olhar pra mim.
— Que foi? Tá interessada agora, é?
— E se eu tiver?
Ele colocou o celular de lado me dando total atenção.
— É até que bem simples...
— Não gostei — interrompi.
— Eu ainda nem falei nada.
— Mas disse que é simples e eu não quero simplicidade.
Dennis soltou uma risadinha. Aquele tipo de risadinha que me dá ódio.
— Já pensou em terapia?
— Vai falar logo ou não vai?
— Calma, é brincadeira! — Ele disse, mas ainda sim ouvi ele resmungar algo sobre terapia ser tudo de bom. Como se eu já não soubesse. — Sobre a Giselle eu posso te falar o básico, tem duas coisas que ela ama, dorama coreano e aquele desenho francês da menina joaninha. Se quiser puxar assunto, já sabe.
Fiquei calada um tempinho esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Ele não disse.
— É só isso?
— Como assim?
— Ajudou porra nenhuma. Tá bom, ela gosta de dorama coreano, mas quais? Será que gosta de dorama japonês também? E chinês? E tailandês? Quais os atores favoritos dela? Qual o tema de dorama que ela mais gosta? Qual signo? Qual MBTI? Posicionamento político? Comida favorita? Ela lê as regras da embalagem de UNO? O que ela acha de pessoas que tocam ukulele? Ela gosta de brega funk? Se não, por quê? — Respirei fundo. — Eu preciso saber esse tipo de coisa pra não falar coisa errada e acabar fazendo ela me odiar.
Quando parei de falar percebi que Dennis estava me encarando de um jeito estranho. E percebi também que me deixei levar pelo momento e acabei falando mais do que devia. Eu precisava dar um jeito naquilo antes que eu mesma estragasse tudo.
— Tu tem problema com autoconfiança, né?
Pulei do parapeito, não dava mais pra aguentar.
Eu poderia mandar um deixa de ser otário e conversa com teu meio irmão garoto, mas eu não tenho capacidade pra isso, então apenas falei:
— Vocês já tentaram conversar? Tipo, cara a cara, pra tentar resolver esses problemas?
Ele fez careta.
— Não. E só de imaginar eu já sinto vontade de morrer. Por quê?
Eu que senti vontade de morrer, mas me contentei em só revirar os olhos.
— Nada. É que eu sou a favor da paz, entendeu? Não faz bem pra mente incentivar intriga. Ás vezes, eu até gosto de ver barraco, briga e essas coisas, mas no geral, eu sou muito pacifista.
— Não tô gostando dessa conversa — ele cruzou os braços, sem expressão.
— Como já disse um grande pensador: a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.
Dessa vez, ele riu baixinho. Mas logo fechou a cara quase me chamando de ridícula.
— E daí?
— E daí que, em vez de brigar com o Gabriel, vocês podiam conversar. Me falaram que vocês já foram amigos, vocês podiam sair juntos, tu pode ajudar no grêmio! Sabe, fazer coisa de irmão...
Foi como cutucar onça com vara curta. Até o anjinho no meu ombro me disse que eu estava exagerando.
— Ele não é meu irmão, — ele começou, sério demais pro meu gosto — não sei quem foi que te contou que eu já fui amigo desse cara, mas é mentira. Não suporto nem ficar na mesma casa que ele, por que tu acha que eu fico direto aqui na casa do meu vô?
Pensei em mudar de estratégia, mas eu precisava tentar mais.
— E se for só uma conversinha? Só pra se conhecerem mais, dizem que se conhecer é o primeiro passo pro nascimento de uma amizade.
— Se conhecer é o primeiro passo pra se odiar ainda mais — ele retrucou, já colocando um dos fones no ouvido pronto pra me ignorar. — Aliás, eu já conheço ele. Conheço ele muito mais do que você.
— Ih... já pensou em fazer terapia? — Resmunguei, mas percebi que ele ficou remexendo muito no bolso da calça de moletom que estava usando, e eu sabia que não poderia ser coisa boa.
— Olha aqui o que eu achei — ele tirou uma caixinha do bolso e estendeu a mão pra me entregar, achei que tivesse um bicho ali dentro, mas era uma carteira de cigarro. — Achei nas coisas dele.
— Tava fuxicando as coisas dele? — Peguei a carteira, o cheio forte com certeza iria impregnar nas minhas mãos.
— Não, eu só fui guardar a roupa limpa e tava lá. O meu plano continua o mesmo, vai me ajudar ou não?
Imaginar Dennis dobrando e guardando roupa limpa era engraçadinho, chegava ao ponto de ser bizarro até, mas não parecia mentira. Foi então que eu percebi que meu plano A de persuasão tinha ido pro ralo.
Por sorte, eu já tinha pensado em tudo.
— Calma aí, cara, eu vou te ajudar sim, mas com uma condição.
Ele foi logo revirando os olhos.
— Ela não tem preferência, mas os doramas favoritos são coreanos, acho que o que ela mais gosta é sobre um grupo de médicos que tem uma banda. O signo é libra e eu acho que a lua é em aquário. A comida favorita provavelmente é cachorro quente ou hambúrguer, tá satisfeita?
Fiquei totalmente sem palavras.
— São duas condições, então — falei, já sentindo meu coração acelerar. — A primeira, como parte do trato, tem que me ajudar com a Giselle. A segunda... é não fazer nada sobre o plano antes de falar comigo, a gente precisa planejar essa pegadinha direito pra nada dar errado. Eu não quero me dar mal e ser expulsa.
Por um momento achei que ele não fosse comprar aquela ideia, mas assim que vi o sorriso surpreendentemente sincero que fazia os olhos deles se fecharem em meias-luas eu sabia que tinha dado certo.
— Por mim tudo bem.
Era até confuso pensar que eu estava me comprometendo a duas coisas completamente diferentes como tentar construir uma amizade entre dois inimigos mortais enquanto ajudo um deles a destruir a reputação do outro, mas o plano B era simples.
Eu precisava segurar aquele plano de Dennis para que ele não estragasse os meus planos, então fingir participar era a melhor maneira de fazer isso. Algum dia, Dennis iria me agradecer.
— Parceiros de crime, então?
Eu estendi a mão.
— Parceiros de crime.
E ele apertou.
Pela primeira vez na vida eu me senti no comando e eu não ia deixar que nada desse errado.
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