Depois de toda aquela conversa com Dennis, o primeiro passo para começar uma investigação era bolar um plano bem detalhado para que nenhum de nós se perdesse no caminho.

Precisaríamos estudar a situação, organizar ideias, conversar com pessoas e manter o foco, assim poderíamos encontrar provas que poderiam inocentá-lo da pena — de suspensão.

Como detetive principal do caso e, também (já que Dennis, além de estar suspenso, também estava de castigo) advogada, me prontifiquei para agilizar todo o processo. Essa foi minha primeira missão.

Comecei com pesquisas básicas, anotei tudo numa lista durante a primeira aula de terça-feira e organizei algumas ideias do que eu poderia fazer em seguida.

Não cheguei a falar com ninguém — afinal, ninguém estava disposto a falar comigo. Tudo o que eu conseguia ouvir eram sussurros acusatórios, felizmente eu não tive tempo para me preocupar com aquilo.

Depois da aula, corri até a casa do avô de Dennis e entrei no quarto dele sem bater (um péssimo costume, aliás) e ele imediatamente se levantou da cama, quase pulando em cima de mim.

— Alguma novidade? — perguntou, atordoado. Os efeitos do castigo já eram óbvios, ele não podia usar computador ou celular também.

— Não necessariamente — me sentei na cama dele, já confortável. — Mas eu dei uma pesquisada e fiz uma lista do que a gente precisa fazer. Primeiro, vamos focar em provar sua inocência.

— E como a gente faz isso?

— Com provas de que você não estava na escola durante o início do incêndio. Vamos pedir a gravação das câmeras de segurança da lanchonete — falei, entregando o papelzinho com as anotações.

Mas ele não pareceu interessado.

— E cê acha que vão dar pra gente? Assim, do nada?

— Se não funcionar, tudo bem. Podemos procurar alguém que tenha sistema de segurança aqui na rua e pedir as gravações...

— Nós não temos autoridade pra fazer isso. E outra, não precisa se meter, eu já fui suspenso, daqui a pouco as duas semanas passam e eu tô de volta.

Estava acontecendo o que eu mais temia. Dennis estava arregando. E eu não podia deixar isso acontecer!

— O diretor Paiva quer te expulsar da escola, sabia?

Ele deu de ombros, como se realmente não ligasse.

— Eu estava atrás da biblioteca quando você estava com a Giselle... pode ser que eu tenha acendido o isqueiro do Gabriel e... sei lá...

— Dennis...

— Foi mal, mas não vai dar certo...

— Cala a boca. Para de inventar história! Os horários não batem. Eu estudei cada passo dado pela gente naquela noite, fiquei um pouco confusa depois das dez, mas tenho certeza de que lembro de tudo. E, a não ser que você tenha voltado pra escola e incendiado a biblioteca depois de ter me dado boa-noite, eu não acho que tenha sido você, nem mesmo por acidente.

Coloquei tudo pra fora, sem aguentar mais um segundo daquele papo furado.

Aquilo pareceu deixar ele chocado, como se fosse a primeira vez que alguém visse algo positivo nele. Ou como se nunca ninguém o tivesse o defendido. E mesmo que eu já estivesse lotada de coisas pra resolver (sobre meus próprios sentimentos) eu senti que precisava apoiar Dennis antes que ele desabasse.

— Tem certeza? — ele perguntou, com um brilho nos olhos que me diziam que ele quase poderia chorar.

— Absoluta — respondi.

— Então... você fora em achar o culpado, pode deixar que eu mesmo provo a minha inocência.

Fiquei perplexa.

— E como cê vai fazer isso? — perguntei, obviamente, mas só de olhar pra ele eu sabia que não dava pra esperar uma explicação muito clara.

— Confia em mim?

E eu decidi, mais uma vez, confiar nele. O que de pior poderia acontecer, não é mesmo?

Durante toda a tarde de terça-feira eu procurei mais sobre o assunto, li trechos em livros de autoajuda, li partes de artigos criminais e procurei até o fim da internet sobre como identificar mentiras, afinal, eu precisava me preparar para ter uma conversa com cada um dos principais suspeitos.

Só que... eu ainda não tinha nenhum suspeito.

Na escola, todo mundo comentava sobre a biblioteca carbonizada e em como a quantidade de livros queimados foi desesperadora — muita gente falava sobre tudo aquilo ser um protesto contra a falta de liberdade de expressão por meio de livros, o que eu não consegui entender muito bem — e, claro, continuavam a sussurrar por aí como se não se dessem conta de que eu estaria ouvindo tudo o tempo todo.

Todo aquele tipo de atenção era diferente do que eu já estava acostumada. Da noite pro dia eu passei de aluna nova para delinquente. Todos aqueles olhares tortos e julgadores eram bem incômodos, principalmente quando vinham acompanhados de um burburinho que nunca parecia ter fim.

Na quarta-feira eu já estava quase pedindo arrego.

Giselle não havia aparecido na segunda e nem na terça, mas na quarta-feira ela entrou na sala de aula, se sentou na carteira de costume e ficou ali, sem abrir a boca, sem falar bom-dia, sem dar um sorrisinho sequer.

E quando o sinal tocou, ela saiu da sala correndo, como se estivesse fugindo de alguém. Talvez ela estivesse.

Talvez ela estivesse fugindo de mim.

Por um momento, eu quase quis ir atrás dela. Mas então lembrei de algo muito importante. Foco!

Se Giselle estava mesmo fugindo de mim, talvez aquilo fosse um sinal para que eu me concentrasse no plano de limpar a barra de Dennis de uma vez por todas, assim, todo aquele burburinho e olhares feios sumiriam e eu poderia voltar a viver minha vida em paz.

Mas foi difícil. Tanto que, o intervalo estava quase no fim quando eu finalmente me concentrei em mais uma lista superimportante: a lista de pessoas de interesse — ou seja, meus suspeitos.

A pergunta era simples e clara: quem poderia ter passado pela biblioteca e “acidentalmente” tê-la incendiado? O incêndio foi realmente acidental ou alguém planejou tudo aquilo? A quermesse foi apenas uma distração ou o incêndio foi a distração para algo a mais na quermesse?

De repente, minha cabeça virou um novelo de ideias absurdas, eu poderia escrever uma fanfic ridícula sobre alguém ter assassinado o diretor Paiva e usado o incêndio como distração.

Obviamente nada disso aconteceu, o diretor Paiva estava bem vivo, — até demais, na minha opinião — tanto que tem energia de sobra para culpar um aluno inocente de um crime horrendo.

— Ei... tá tudo bem? — alguém disse, se sentando do meu lado (na carteira de Dennis) e eu quase pulei pra longe.

Escondi todas as anotações, por impulso. Era Emily.

A encarei por um tempinho, já que não estava acostumada com aquele tipo de proximidade. Fora que, a última vez que falei com ela, meio que foi uma discussão bem feia.

Será que ela sabe que a Giselle me deu um fora e veio se gabar?

— Tá... eu acho — respondi.

Ela riu baixinho, mas não parecia ser uma risadinha de deboche. Fiquei surpresa.

— Tô vendo que o pessoal tá te olhando torto, e com o Dennis suspenso, você ficou meio sozinha...

— Olha, cê quer alguma coisa? Ou veio aqui me dizer o óbvio? — resmunguei, bem chata.

Eu não sou mal-educada gratuitamente, veja bem, só não estava com cabeça para discutir mais uma vez com o jeitinho relaxado que Emily sempre mostra ter. Morro de raiva só de pensar.

— Foi mal — ela disse, e eu fiquei muito surpresa. — Eu fui uma babaca contigo antes... só queria consertar isso...

Quase me belisquei só para ter certeza se aquilo era ou não um sonho.

— Quê?

— Queria dizer que... não liga pro que a galera fala, não. Só te fizeram de alvo porque era a escolha mais óbvia. Já aconteceu comigo... tô acostumada, até.

Estava na cara que ela não costumava ter conversas casuais, sem deboche ou sarcasmo.

— Já incendiaram a biblioteca e botaram a culpa em ti?

Ela revirou os olhos, rindo.

— Não, idiota. Mas eu já fui um alvo fácil. Sempre preferem culpar quem tá mais perto em vez de procurar o verdadeiro culpado. Não é a mesma coisa do que o que aconteceu contigo, mas é perto o suficiente pra eu ter empatia...

Empatia... quem diria. Concordei, sem querer perguntar mais sobre a situação dela. Não parecia que ela queria falar mais do que já tinha dito.

Talvez eu até quisesse ser amiga de Emily. Talvez ela também quisesse. Seria uma boa ter alguém tão expressivo e forte do meu lado caso o diretor Paiva decidisse enlouquecer de vez e me suspender assim como fez com Dennis.

E foi aí que eu tive uma ideia genial.

— Emily... você acha que incendiaram a biblioteca de propósito?