A biblioteca da escola pegou fogo!

5 A curiosidade matou o gato



Após uma pesquisa, foi constatado que eu sou, sim, enxerida. E quando percebi isso, tive vontade de morrer.

Talvez Dennis ter dito aquilo na minha cara tenha me deixado um pouco mexida (e talvez isso também tenha a ver com a minha aversão em relação a ele, será?), mas como é que eu vou dizer que ele tá errado se ele, na verdade, não está?

Depois daquele primeiro dia de aula horrendo eu segui minha vida normalmente. Minha mãe me perguntou como foi (eu tive a pachorra de mentir e dizer que foi normal, sem mencionar atropelamento nem nada) e logo me tranquei no quarto dizendo que precisava estudar, mas na verdade eu precisava era mesmo de um tempo para absorver tudo que tinha acontecido.

Nos dias que se seguiram, nada de tão estranho aconteceu. Minha rotina era basicamente ir para a escola, babar por Giselle e me estressar por causa de Dennis que sempre dava um jeito de me atrapalhar em todas as aulas (fosse batucando na mesa com o lápis, ouvindo música ou roncando!), no geral, tudo tranquilo.

Até que um incidente aconteceu e eu descobri que Dennis é meu vizinho.

Tudo começou na quinta-feira, no final da aula, quando eu achei que ele estava me seguindo, mas na verdade ele estava indo para a casa do vizinho. Então eu fiquei pensando como assim o Dennis é meu vizinho? Eu nunca vi ele naquela casa antes, e foi assim que eu tomei uma decisão imprudente.

Comecei a espiar a casa do vizinho pela janela do meu quarto.

Eu sei que poderia gastar meu tempo fazendo qualquer outra coisa, mas meu cérebro se recusava a pensar em qualquer outra coisa que não envolvesse Dennis morando na casa vizinha, ainda mais depois do que eu ouvi de Gabriel e de Giselle na reunião de segunda-feira.

E falando em Giselle, a cada dia que passa eu me sinto mais e mais caidinha por ela. Ela é como um raio de sol e durante a semana inteira eu senti que estávamos cada vez mais próximas. Ela ria das minhas piadas, falava o quanto estava triste por causa da tal de Emily e me contava as fofocas mais quentes sobre as pessoas da cidade. Pessoas que eu nem conhecia, mas que amava fofocar sobre.

Talvez por causa disso que eu continuei espiando pela janela, esperando ver alguma coisa que me contasse um pouco mais sobre Dennis. Até eu perceber que eu não era a única enxerida naquela casa.

— Vó! — Desci as escadas correndo e dei de cara com Mel fazendo as tarefas da escola na mesa da cozinha enquanto Vó Alice tomava a décima xícara de café do dia. — Vó, a senhora sabe quem mora ali naquela casa?

— Conheço. — ela respondeu, tomando um gole do café. — É o Paulo, fi do Zé Amaro. Corre um boato que ele é fornecedor.

— Fornecedor... fornecedor de quê?

— Ora de quê, de droga, meu bem. — E mais um golinho de café.

Quase tive um passamento. E mil perguntas tomaram de conta da minha cabeça. Dennis tinha parentesco com o tal fornecedor? Ou Dennis foi lá pra comprar coisas com o fornecedor?

— O que que é droga, vó? — Melissa perguntou, muito mais interessada na conversa do que na tarefa da escola. Minha família é cheia de enxeridas, não tem pra onde correr.

— Não, peraí. Esse é o vizinho dali da frente. O do lado é o Luiz, foi professor, mas hoje é aposentado.

Precisei de um tempo pra repensar tudo de novo. Dennis não tinha entrado na casa do fornecedor chamado Paulo e sim do ex-professor chamado Luiz.

— Ah... a senhora sabe se ele tem filho? — Perguntei, já sabendo que minha avó era capaz de me preparar um dossiê completo de qualquer pessoa se eu soubesse o nome e sobrenome. Bastou eu falar Dennis Flores que ela me disse tudo o que sabia.

Eu poderia ter perguntado sobre Giselle, sobre Emily (pra conhecer minha rival no amor, óbvio), mas não. Eu estava mais focada em saber por que meu colega de classe (barra, dupla de carteira) era tão mal falado (e, de quebra, descobrir como ele tinha se tornado meu vizinho do dia pra noite). E enquanto isso eu ainda pensava em argumentos plausíveis para apresentar à Luzia e fazer com que me mudassem de lugar.

O que eu descobri fofocando com a minha avó foi: o vizinho do lado, Luiz, é avô de Dennis. Aposentado, tem alguns problemas cardíacos, toca acordeão e gaita e participa da banda que toca no forró da terceira idade.

A história completa foi um pouco complexa e eu me perguntei se aquela fofoca edificaria a minha vida. Constatei que sim. Mas então lembrei de Dennis quase cuspindo na minha cara ao dizer “a culpa não é minha se você é enxerida”.

Pois fique sabendo, Dennis Flores, que é sim! Se eu sou enxerida, a culpa é todinha sua!

Na sexta-feira de manhã eu precisei me arrastar da cama até o banheiro pra tomar um banho bem gelado que me acordasse de uma vez. Não funcionou, então eu me arrastei do banheiro até o quarto com a toalha enrolada no corpo sem saber que isso seria o motivo do meu colapso.

Mas e de quem foi a culpa? Minha mesmo! Eu que fiquei até as quatro da manhã anotando coisas importantes sobre o que eu descobri sobre Dennis e criando argumentos na minha cabeça para apresentar pra Luzia num slide chamado “Motivos para me deixarem sentar ao lado da Giselle”.

Então obviamente de manhã eu estava derrotada. E precisava de algo pra me acordar. Um café, uma água com gelo, um energético, qualquer coisa assim já me ajudaria. Mas o que eu recebi? Um susto.

Um susto ao ver que a minha janela estava aberta e que Dennis estava me observando lá da casa do avô dele.

Tudo bem, observando é uma palavra forte. Mas eu tinha acabado de tomar banho, estava grogue de sono e a primeira coisa que eu vejo quando chego no quarto (estando quase pelada!) é um moleque descabelado me olhando do outro lado da janela, eu tenho direito de me exaltar!

Fechei a janela correndo e me sentei na cama por uns minutos pra recuperar o fôlego. Mandacaru ainda vai me matar!

Quando o susto passou, veio o desespero. Eu vou precisar sentar do lado do cara que quase me viu pelada pelo resto do ano?! Trocar de lugar antes era apenas um desejo, agora virou pedido de socorro.

Pensei em faltar. E nem foi o diabinho no meu ombro que me disse isso. Até falei pra Vó Alice que estava me sentindo mal, mas minha mãe apareceu e acabou com meu teatro. Foi assim que eu tive que sair e foi assim que eu vi Dennis sentado no batente do alpendre do vizinho e foi assim que eu respirei fundo e apressei o passo caso ele quisesse conversar sobre o incidente.

O colégio Batista de Mandacaru era uma festa antes do horário de aulas. Os corredores ficam cheios e os alunos fazem um amontoado na entrada das salas só pra ficar papeando. Tinha uma vibe divertida antes do sinal tocar. Eu não estava nem um pouco afim daquela vibe naquele dia.

Depois de passar o caminho todo quase correndo só pra Dennis não me alcançar, eu só queria sentar na minha carteira e morrer ali pelo resto do dia. Mas assim que eu entrei na sala, vi Giselle conversando com uma garota que definitivamente não era da nossa turma.

Nem precisei pensar muito, eu imediatamente soube quem ela era.

— Mia! Oi! Bom dia! — Giselle me cumprimentou cheia de exclamações, e mesmo que eu estivesse de mau-humor e bem ranzinza, ela me fez sorrir até as bochechas doerem. — Essa é a Emi, minha melhor amiga! Lembra dela?

Encarar é falta de educação! Pensei comigo mesma, mas aproveitei pra olhar bem pra tal de Emily. Ela estava encostada na mesa da Giselle e mesmo que ela estivesse toda torta dava pra sentir que ela tinha um ar... sofisticado? Talvez fosse a calça preta super justa e cheia de correntes, talvez fosse a quantidade de anéis e pulseiras que ela tinha, talvez fosse o cabelo preto liso escorrido até o meio das costas. Talvez fosse tudo. Talvez fosse a minha autoconfiança indo por água abaixo.

— Lembro — falei, bancando a bobinha simpática. — Prazer!

Antes que eu me sentisse mal por ter encarado Emily, ela fincou os olhos grandes em mim e me analisou de cima abaixo. Desde o topo do meu cabelo castanho ressecado demais até meus pés onde eu usava meias com as cores da bandeira pansexual e um tênis sujo, mas muito confortável.

— Prazer. Seu nome é Mia mesmo? — Ela perguntou, a voz meio rouca e preguiçosa dava até arrepio. Ver ela do lado de Giselle que sempre parecia um poço de pureza era muito estranho. Mas ao mesmo tempo era interessante.

— É, igual a Mia Colucci! Né, Mia? — Giselle comentou, e eu poderia ter dito sim e corrido pra minha carteira, mas... não deu.

— É apelido, na verdade. Meu nome mesmo é Amélia.

Emily apertou os olhos.

— Legal. Vai ter uma festa lá em casa hoje de noite, tá afim?

Festa? Eu achei que essas coisas só acontecessem em filme americano!

— Ah... eu não sei... — comecei já pensando em quais desculpas inventar até perceber que eu queria muito ir numa festa com Giselle. — Quer saber? Eu vou sim!

— Ótimo então, me passa teu número que eu mando o endereço.

Eu estava prestes a fazer isso, até que vi Dennis cruzando a porta e ao mesmo tempo o sinal tocou. Não sei o que eu tinha cabeça, mas acabei entrando em pânico.

— Eu esqueci meu celular aqui, vou procurar e no intervalo a gente se fala! — Então corri até a minha carteira e afundei a cabeça na mesa, com um pouquinho de sorte ninguém iria me perturbar.

E pela primeira vez, eu tive sorte. Duas aulas se passaram e eu já estava me sentindo menos desconfortável. Dennis colocou os fones de ouvido e mesmo depois que eu levantei a cabeça pra tentar prestar atenção na aula de biologia, ele ficou na dele.

Fiquei até mais calma. Talvez tenha sido um acidente. Talvez ele nem estivesse olhando. Talvez... mas eu não queria conversar sobre aquilo, não queria me humilhar ainda mais.

E tudo seguiu bem. Tudo mesmo. Eu já estava achando estranho, até que veio o intervalo e Giselle saiu do canto dela e veio falar comigo toda sorridente, me entregando o celular.

— Coloca seu número. Aí, se você quiser pode mandar seu endereço pra gente ir te buscar.

— Me buscar? — Congelei.

— É! Pra festa hoje!

— Ah!

Tentei não passar ainda mais vergonha e digitei meu número (que escapou da minha mente por uns instantes) já imaginando como seria estar numa festa com Giselle.

— Ótimo, vou te mandar oi pra você salvar o meu, tá?

Ela mandou. Nem escondi meu sorriso besta de felicidade.

— Manda seu endereço depois que...

— Ela mora do lado da casa do meu avô.

Silêncio. Dennis achou interessante se meter na conversa.

— É mesmo? Bom, se vocês quiserem a gente pode buscar vocês. O irmão da Emi pode ir...

— Não se preocupa não, ela vai comigo.

Giselle então olhou pra mim. Mas eu estava em choque. Em choque com a cara de pau.

— Sério? Então ótimo! Vejo vocês lá, vai ser incrível!

Por fora eu estava calada. Quieta. Paralisada. E por quê? Porque a minha frustração se acumulou me deixando muda. Não consegui dizer um pio.

Não sei quanto tempo meu silêncio durou, mas antes que o intervalo acabasse eu corri até o banheiro e aquilo foi o suficiente pra me deixar um pouquinho mais calma.

Pelo menos foi o que eu pensei. Já que no meio da última aula de português, a minha paciência seria testada mais uma vez.

— Ei.

Dei um pulo. Dennis me cutucou com um lápis (que ele sempre usava pra batucar na mesa e me tirar do sério) e eu precisei me virar pra olhar pra cara dele. Aquela cara de pau.

— Que foi?

— Qual é o teu nome mesmo?

Ah, essa foi a gota d’água. Mas eu sou péssima com confrontos, então só mordi a língua.

— É Amélia, por quê?

— Nada não — disse isso e voltou a copiar a matéria da lousa como se não tivesse feito nada.

Eu quis dar um grito.

A verdade é que, não importa quanto tempo eu tenha fuxicado e investigado sobre Dennis, eu ainda assim não conhecia ele. E eu também não sabia o que ele estava planejando, mas eu tinha duas opções: confrontá-lo e correr um risco que talvez seja muito pra eu aguentar ou fugir e ficar segura.

A escolha era óbvia.