A besta que habita em nós
2 Prólogo
Notas iniciais
13 de setembro de 2019 – Retiro São Aquino
Cristina Ziegler entrou na sala imponente, como sempre. A postura impecável, os cabelos castanhos ondulados acima dos ombros, a pele pálida contrastando com os olhos azuis, características que a definiriam como uma bela mulher. Em mãos carregava uma pasta azul marinho. Ela parou o seu elegante andar ao observar uma moça sentada em uma poltrona de couro marrom, que fazia conjunto com outras duas poltronas e que cercavam uma mesinha de centro, em madeira vernizada. Sorriu em um misto de simpatia e satisfação. Finalmente estava envolvida em algo maior, algo que poderia alavancar sua carreira na ala da psiquiatria.
— Elizabeth Alencastro, seja bem – vinda ao Retiro São Aquino! — Cristina abriu o seu melhor sorriso, enquanto deslizava com um pouco de dificuldade, uma das poltronas para uma posição que ficasse mais a frente de onde a menina estava sentada. Tudo o que tinha de fazer era ganhar a confiança daquela jovem, porém pela expressão vazia da mesma, isso seria bem complicado. Elizabeth mantinha o rosto baixo, olhava para qualquer ponto no chão, suas mãos tremiam e suavam num ápice de nervosismo. Cristina percebeu as marcas vermelhas pelos braços pálidos da garota e perguntou-se, quem tinha feito aquilo. – Como se sente? – A psiquiatra esperou alguns segundos pela resposta, até perceber que possivelmente Elizabeth não estava interessada em conversar.
A garota suspirou, buscando por mais ar. Quem visse, acharia que estava com dificuldades para respirar. Ela levantou a cabeça e pela primeira vez, Cristina pode ver o rosto de sua paciente. Olhos castanhos claros com uma mescla esverdeado, a pele branca e sem vida contrastando com as profundas olheiras, os lábios finos ressecados e a mancha roxa em seu pescoço, desnudo pela regata preta, apresentavam uma Elizabeth depressiva, contando seus últimos dias de vida. Parece morta, pensou Cristina.
— É claro que você deve estar se perguntando o porquê de estar aqui – Cristina suspirou, enquanto escolhia as palavras certas para prosseguir – Se acredita que está aqui para ser castigada, lhe asseguro que esse não é o meu propósito e nem o dessa instituição. Você é uma garota muito especial e está aqui para ser protegida.
— Isso é um hospital psiquiátrico, então não espere que eu vá confiar em alguém daqui – Elizabeth queria demonstrar todo o seu descontentamento com aquela situação, ser áspera e ácida como um limão eram formas de dizer que não queria conversar. Ajeitou-se na poltrona e entrelaçou as pernas, em posição de lótus. Começaria a meditar se fosse necessário, para que a deixassem em paz.
— Não é um hospital psiquiátrico e sim, um retiro. Um retiro para pessoas com problemas mentais. Nós a ajudamos de forma não convencional.
— Então eu preciso de ajuda? – Elizabeth riu de forma escandalosa e irônica – Engraçado, porque quem realmente tem que ser ajudado, vocês não movem uma palha para ajudar.
— Se refere á alguém especificamente?
— Eu deveria?
Cristina abriu a pasta, desistindo de insistir naquela conversa que não levaria a nada. Leu algumas informações e dirigiu seu olhar a menina. – Quem vê esse rostinho bonito, não imagina as atrocidades que foi capaz de fazer.
— E as atrocidades que as pessoas já foram capazes de fazer comigo? – Elizabeth sussurrou, mais para si do que para a doutora. Seus olhos encheram-se de lágrimas prestes a transbordar.
— Sei que você deve estar traumatizada com tudo o que aconteceu recentemente, deve ter sido horrível perder tantos familiares e amigos por um maníaco – Cristina inspirou o ar, estava chegando onde queria – Acredito que toda essa perseguição implacável e o seu sequestro, são fatores cruciais para compreender o que você fez. É por isso que está aqui. Para que possamos compreender e te ajudar a lidar, com toda essa experiência traumática.
— Não foi uma experiência traumática – Elizabeth secou rapidamente uma lágrima que ousou deslizar por sua face. – Tudo o que fiz, não teve nada haver com ele.
— Você o protege? – Cristina soube logo que encontraram Elizabeth vagando perdida em um bosque, que ela não contou a ninguém o que houve durante o seu sequestro, ou como escapou de Anthony Brustolin. Não havia pronunciado nenhuma palavra. Apenas chorava. Logo depois, todo o “incidente” que ocorrera na chácara dos Alencastro deixava claro que a convivência da menina com o maníaco havia lhe deixado algumas sequelas graves e talvez, uma Síndrome de Estocolmo.
— Ele não precisa da proteção de ninguém – Elizabeth levantou da poltrona e andou até a janela, sobre o olhar atento da doutora. Vislumbrou todo o cenário que tinha após as paredes brancas do retiro. Gramado verde, árvores e bancos de cimento por todo o pátio. Um lugar muito bonito – Isso é tão ridículo!
— O que é ridículo?
— Você não está aqui para me proteger ou tentar compreender o que houve comigo durante a minha vida. Não está preocupada comigo. Só quer tirar de mim todas as informações que nem mesmo a polícia possui. Informações que podem encarcerar Anton – Elizabeth cruzou os braços, emburrada.
— Anton? – Cristina deu seu melhor sorriso enigmático, enquanto se locomovia para o lado da moça – Esse é o apelido dele? – Não houve resposta, para a frustração da mulher – Escute Elizabeth, se você me contar tudo o que aconteceu, poderá ser livre de tudo isso que você odeia.
— Não...
— Ele não abriu a porta e simplesmente deixou que você saísse. Ele jamais faria isso! Um predador jamais abandona sua presa – Cristina queria deixar claro para Elizabeth que ela corria perigo, Anthony estava solto, e hora ou outra, viria atrás dela — Ele poupou você uma vez, mas talvez ele esteja te salvando para outra hora. Isso já aconteceu antes. Eles ficam com uma obsessão doentia se a vítima for forte o suficiente para sobreviver ou ser mais esperta do que eles. Eles gostam de voltar e testar sua inteligência contra os sobreviventes em uma caçada, para provar a si mesmos quem é o predador. A segunda vez é geralmente pior que a primeira. Não confie nele.
— Ele não virá atrás de mim...
— Por que você não me conta tudo o que aconteceu? – Cristina necessitava de informações sobre o caso que envolvia Elizabeth e Anthony, e somente a menina poderia ajudar.
— Para se capturar um predador, primeiro você deve deixar de ser a presa. — Elizabeth sorriu, comprimindo os finos lábios. Olhou para Cristina, complementando – Quando uma pessoa passa a vida inteira sendo uma vítima, ela tem duas opções: morre sendo uma presa ou torna-se uma besta, e sobrevive.
— Você é uma sobrevivente, certo? – Cristina compreendera o que a moça queria explicar, e como já acreditava, era tudo questão de seus traumas.
— Não... Eu sou uma vítima – Elizabeth pensou durante toda aquela conversa, se deveria ou não, pela primeira vez, falar a verdade – Sabe, senhora Ziegler, eu me mantive calada por muito tempo... Talvez esteja na hora de esclarecer algumas questões sobre a besta que habita em nós.
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