A besta que habita em nós
12 Somos os monstros embaixo da sua cama - 16 de abril
Notas iniciais
16 de abril de 2019 – Mascarado
— Vou embora desse lugar – Rodrigo gritava exasperado e com razão, as ações de Jorge eram doentias – Levarei Elizabeth comigo e irei a chamar a polícia, se arrependerá do que fez, seu doente!
Era o aniversário de sete anos de Elizabeth, a pequena menininha que Jorge e Rodrigo haviam adotado. Bem que Rodrigo sempre suspeitou do repentino afeto que Jorge disse sentir ao adotar Elizabeth, afinal, ele odiava crianças. Estava encostado na parede, ouvindo a discussão dos dois homens no quarto, não poderia me intrometer na conversa, por mais que quisesse. Era tudo tão absurdo! Bethânia apareceu no corredor dos quartos, na habitual saia marrom e blusa bege, com seus sapatos scarpam. Ela parou ao meu lado, com um olhar questionável.
— Que gritaria é essa? – Ela bateu na porta três vezes, mas ninguém abriu – O que está acontecendo? – Beth, como gostava de ser chamada, me fitava curiosa esperando por uma resposta.
— Jorge fez merda – Pronunciei sem vontade, não seria eu quem contaria a ela, o que realmente houve.
Ouvimos um grito muito alto, nos entreolhamos preocupados – O que estão fazendo? – Bethânia estava prestes a começar a gritar e chorar de preocupação, quando resolvi invadir o quarto. Na quarta vez em que me joguei contra a porta, ela se escancarou e a cena a minha frente, não era nada bonita. Jorge sangrava muito e Rodrigo, bem, ele não estava mais no cômodo.
O túmulo de Rodrigo estava esquecido por Deus naquele cemitério, as folhas secas, as gramíneas altas escondiam a lápide dele. Morto em uma caçada, por um javali. A polícia sabia que não tinha sido um animal o causador da morte de Rodrigo, mas preferiam esconder o verdadeiro assassino e evitar um escândalo. Os Alencastro haviam desembolsado uma boa quantia para que a mentira fosse encoberta. Todos eles estavam envolvidos, todos sabiam o que tinha acontecido, todos haviam matado Rodrigo e eu faria com que cada um deles pagasse com suas próprias vidas, com exceção de Jorge. Seus crimes eram outros. Percebi uma movimentação no cemitério e resolvi sair dali, ajeitei o capuz mais sobre o meu rosto, para que ninguém visse. Não poderia sair por aí com uma máscara, entretanto, também não podia deixar que alguém visse meu rosto. Eu era um foragido e para todos os defeitos, havia massacrado minha família.
Andei calmamente entre os túmulos sem chamar a atenção, iria até uma agência clandestina próximo de onde estava. Bethânia estaria lá, planejando sua fuga com o seu amor. Mal sabia Augusto, o que ela era capaz de fazer, caso rejeitasse ela. Visualizei as horas no relógio de pulso, eram quase 15:00 horas. Bethânia já deveria estar chegando. Encostei-me em uma árvore aguardando. Se me lembro bem, ela costumava ser bem pontual.
Dez minutos depois, Bethânia desceu de um Corolla preto. Antes de entrar na pequena casa, ela olhou para os dois lados da rua quase deserta, verificando se alguém a seguia. Curvei levemente os lábios em um sorriso. Ela entrou no local em seguida, esperaria ela sair e a pegaria para me divertir um pouco.
Estava entretido demais observando o nada, quando uma figura idosa apareceu do nada cercando o carro de Bethânia. Forcei os olhos, pela distância, apenas para ter certeza de que era Ibelza. Sim, era. Parecia estar bem brava. Gargalhei internamente. Aquilo seria bem mais divertido do que tinha planejado. Para caçar ratos, o gato esconde sua presa. Ibelza era uma felina e sabia que tinha que dar um fim em Bethânia, impressionante como ela sempre surgia onde eu estou. Sempre na cena do crime comigo. Era tão satisfatório lembrar de sua face quando viu o que fazia com Marcondes e com Vera.
Dirigi-me em direção a Ibelza. Quando notou quem eu era, começou a gaguejar, tentando dizer alguma coisa – O que... Não... Não eu – Ela estava implorando por sua vida e entregaria a de Bethânia, para poupar a sua. Ibelza agia tão ignorante, no fundo ela sabia, que eu não pouparia ninguém. Então por que tentar se iludir com falsas esperanças?
Puxei ela pelo braço e abri a porta da agência. Ela não tentou dizer nada. Sabia que devia ficar em silêncio quando eu estava presente. Uma mulher loira, vestida com roupas sociais, nos fitou alarmada – Desculpa, não temos mais horários – Ela levantou-se da cadeira giratória que ficava atrás da escrivaninha – Vocês devem ligar para o nosso número e agendar um encontro.
Observei-a com pena. Como eu deveria matá-la? Voltei minha atenção para a porta, a fechadura estava com as chaves, as girei trancando-a e colocando as chaves em meu bolso. A secretária estava bem assustada – Senhor, por favor!
Tirei o capuz deixando meus cabelos longos e compridos caírem sobre minha face. Estava na hora de caçar. Peguei a loira e a joguei contra a parede com força, forcei minhas mãos sobre o seu pescoço, ela se debatia desesperada por ar. Lágrimas escorriam por sua face pálida. Ela cravava suas longas unhas nos meus braços, tão tola, ela não havia percebido que estava de casaco? Depois de longos segundos que pareceram horas, a secretária resolveu abraçar sua morte. A aceitação de que ninguém salvaria sua vida. Senti seu corpo amolecer e sorri com prazer. Coloquei seu corpo magro em cima da escrivaninha. Era uma mulher bonita demais, merecia ficar em algum lugar melhor que o chão.
Ibelza estava encolhida no canto da pequena sala, chorava absorta, penalizando-se. Achando-me o que eu era, uma besta. Segui meu destino, surpreso por não ter encontrado nenhum intrometido querendo evitar o meu lazer. Abri uma porta amarela, que dava passagem para escadas. Deveriam estar todos lá embaixo. Comecei a descer os degraus, quando um homem venho me interceder. Não estava mais com paciência. Puxei a faca do meu cinto e cravei em seu abdômen. Uma, duas, três, quatro vezes. Sem parar. Larguei seu corpo robusto e continuei a descer os degraus.
Deparei-me com outra porta, finalmente. Abri e entrei no cômodo, encontrando Bethânia e um homem desconhecido. Ela fitou-me amedrontada. Que satisfação. O homem olhou diretamente para minhas mãos. O sangue escorria por cima das luvas pretas. Larguei a faca, seu tilintar sobre o chão acordou Bethânia de seu transe. Estava espavorida, apática.
— Paulo? – Gritou o homem aterrorizado pelo silêncio que se seguiu. Acenei negativamente com a cabeça. Paulo não viria. O homem recuou alguns passos, procurando pela pequena sala, algum objeto que pudesse me acertar.
— O que você quer? Dinheiro? Podemos negociar – Ele tremia.
— Não, ele não quer nada disso – Bethânia teve coragem para aceitar em voz alta que morreria naquela tarde.
Dizem que o terror dá asas aos pés. Não foi diferente com aquele homem. Ele correu na minha direção enfurecido, tão rápido e confiante que conseguiria escapar. Ele empurrou seu corpo contra o meu, com uma força inútil e saiu correndo desesperado pela porta. Olhei para Bethânia e sorri dando as costas para ela. A sensação de ver sua presa correndo pela vida, esperando poder se safar da morte, era única. Sentia meu sangue ferver nas veias, não havia saída. Para nenhum deles.
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