A besta que habita em nós

11 Somos os monstros embaixo da sua cama - 15 de abril


Notas iniciais
Olá, seus lindos, como estão? A santa da Ibelza vai narrar esse capítulo e ela está tentando "ajudar" Elizabeth a saber um pouco mais sobre o seu passado. Medo hahaha Boa Leitura!

15 de abril de 2019 – Ibelza Alencastro

Resolvi naquela tarde ensolarada, que conversaria um pouco com Elizabeth. Apesar de todos os males, éramos uma família e devíamos permanecer unidos como um todo. Não era tarefa fácil conviver sobre o mesmo teto que os meus irmãos, tínhamos e temos tantas divergências que a convivência quase se torna insustentável. Contudo, Elizabeth não tem culpa do que aconteceu, mesmo que até eu olhe para ela como uma das causas de nossa desgraça. No fundo, havia apenas um culpado e eu me negava a aceitar quem era. Mas a garota precisava de algumas respostas e sinceramente, responde-las faria eu me sentir leve, não por estar dizendo a verdade, mas sim, para ver com os meus próprios olhos como ela reagiria. Amava observar as várias expressões que uma pessoa podia fazer sobre determinadas emoções e estava mais que ansiosa para saber como Elizabeth iria lidar com algumas informações repugnantes sobre o seu passado.

Elizabeth parecia em choque. Não, ela já estava em choque! Já estava bastante surpresa por eu estar lá, fora do meu “horário de visita”. Como se isso não bastasse, contei a ela sobre o acidente envolvendo os seus pais e por segundos, pensei que ela não fosse acreditar em mim. Logo em seguida, ela começou a chorar e meu coração apertou. Notei que ela tentava inutilmente proferir alguma palavra, mas os soluços a impediam.

— Nossa família sempre foi muito complicada – Estava sentada em uma poltrona bem estreita e desgastada, perto do biombo – Desajustada na verdade.

— Lembro de algumas brigas – Ela secou as lágrimas com a manga do moletom, se obrigava a estar calma – As vezes eu sonhava com ela matando-o, sempre achei que isso fosse o meu desejo sendo realizado nos sonhos e agora eu descubro que isso realmente aconteceu.

— Ele batia em você – Não era nem um pouco confortável conversar sobre Nei e suas atitudes, mas era necessário – Em você e na sua mãe.

— Desgraçado – Ela resmungou com ódio, levantou os olhos em direção aos meus – Tinha tantas formas de ela ter assassinado ele, por que justo o fogo? Por que colocar fogo na casa? Não faz sentido!

Não, não fazia nenhum sentido, pelo menos não para Elizabeth – Sua mãe queria se livrar de tudo, até mesmo da casa. Pretendia fugir com outro homem.

— O que? – Elizabeth encarava-me abismada.

— A primeira coisa que sua mãe me perguntou quando acordou no hospital foi “O Nei está morto?”, quando respondi que ele estava na UTI, ela chorou desesperada e eu percebi no momento, que ela desejava sua morte – Sorri com as lembranças daquele dia – De imediato, imaginei que ela queria se livrar dele pela forma violenta que ele tratava vocês, pois ele jamais deixaria ela ir embora viva.

— Essa era a única opção dela – Elizabeth sorriu, parecendo orgulhosa pelo ato da mãe – No fim, ela só quis nos proteger dele.

— Só há mais uma coisa nessa história, que apenas Jorge saberia dizer – Soei enigmática – Há duas teorias na verdade: a primeira de que sua mãe pegou o Nei na cama com outro homem – Elizabeth fitou-me abismada – A segunda de que ela o matou para fugir com um amante.

— E o que você acha dessas teorias?

— Não posso te afirmar nada sobre isso, eu nem fui ao velório – Odiava muito atos fúnebres e nunca me cansei a ir a um, até perder Vera e Marcondes – O que sei é que foi encontrado outro corpo na casa.

Elizabeth fez uma expressão confusa – Quem mais estaria na casa durante o incêndio?

Gargalhei alto com sua pergunta, seria cômico ver sua reação com a resposta que daria. Levantei da poltrona e peguei as chaves penduradas em um cordão, em torno do meu pescoço, já estava de partida. Elizabeth não poderia reclamar de mim, contei a ela um pouco mais sobre os seus pais. Olhei para ela atentamente e senti a curiosidade emanando por seu corpo – Inesperadamente, o nome do homem que foi encontrado morto era Apolo.

****

Subi as escadas em direção ao sótão, feliz por ter plantado uma dúvida em Elizabeth. Ela deveria estar se perguntado, nesse exato momento, se o cachorro Apolo era uma homenagem ao morto no incêndio. Não que ela quisesse fazer uma homenagem para o homem, mas uma criança de cinco anos não tira o nome Apolo de qualquer lugar. Claro, que a mãe dela lhe dizia algo sobre ele. Contava histórias sobre ele.

Entrei em um cômodo enorme, que ocupava quase toda a extensão da casa. Analisei o painel a minha frente, atenta a algum detalhe que podia ter esquecido. Recapitulei mentalmente a sequência. Nei como era o mais velho, seria o primeiro a ser assassinado, pena que sua esposa tinha se ocupado dessa missão. Depois, Vera e Marcondes, com suas fotografias de faces, já marcadas com um X. Parei o meu olhar sobre as fotografias de Jorge e Bethânia, gêmeos. Qual morreria primeiro? Sorri e circulei a face de Bethânia. Ela precisava morrer. Pressenti o massacre que se aproximava. Eu estaria livre.

Meus olhos faiscavam com intensidade, não conseguia deixar de sorrir. Não há rendição. Não há escapatória. Fechei os olhos, preparando-me para o pior. Escutei assustada o telefone de linha tocar. Fui em direção a uma mesinha redonda de longas pernas, onde o telefone tocava sem parar. Ninguém quase tinha o número de Vera, ela era uma mulher muito reservada e seletivas, até mesmo em relação a amigos e me preocupava, alguém estar ligando para aquele contato.

— Alô – Atendi e esperei alguém dizer algo. Apenas um ruído. Devia ser um malandro sem nada para fazer ligando. Prestes a desligar, ouvi a voz do outro lado da linha – Residência Alencastro?

— Sim, quem deseja?

— Meu nome é Daiana Rios, sou diretora da escola em que Elizabeth estuda – Estremeci ao lembrar que Elizabeth ainda estudava, como ninguém naquela casa, tinha pensado nisso? – Você poderia passar a ligação para o senhor Jorge, o responsável pela menina?

— Bem, sou tia dela, Ibelza – Sentei na cadeira ao lado da mesinha, pensando em alguma mentira que teria de contar – Ele não está em casa no momento, o que deseja?

— Faz quase uma semana que Elizabeth não comparece a aula, aconteceu algo? – O tom de Daiana era um misto de reprovação e preocupação. Sentia-me inútil por não ter pensado sobre a escola, onde estava com a cabeça? – Ah sim, Jorge não avisou vocês?

— Sobre o que?

— Esses últimos dias foram terríveis para nossa família – Tentei embargar a voz e fingir que estava chorando – Elizabeth sofreu um acidente e como se isso não bastasse, perdemos dois grandes irmãos – Funguei – Jorge deve ter esquecido de entregar o atestado, sinto muito.

— Oh não! Sinto muito pela perda de vocês – Daiana parecia realmente mal, pelo menos imaginei isso, pelo tom de sua voz – Espero que melhorem, avise Jorge que quando Elizabeth estiver um pouco melhor para retornar à suas atividades, que traga o atestado. É importante manter-se um controle de presenças, quanto as provas e trabalhos, ela poderá recuperar depois.

— Claro, obrigada por sua compreensão diretora – Sorri em agradecimento por ela entender nossa situação – Pedirei que o próprio Jorge retorne sua ligação.

— Obrigada e até mais senhora – Daiana desligou o telefone e eu fiquei parada martirizando aquele erro tosco. Tudo o que não precisávamos era do conselho tutelar em nossa porta. Conversaria com Jorge pessoalmente. Teríamos que dar um jeito nesse problema.

Notas finais
Como Elizabeth já sonhava, o pai batia na mãe e como Ibelza mesmo disse, nela também. Elizabeth diz que lembra de algumas brigas, mas vocês já perceberam que ela não lembra de muita coisa do passado? Pois é hahaha A morte dos pais dela ainda não foi totalmente esclarecida para vocês, leitores. Mas logo será, possivelmente sobre a narração da própria Elizabeth. Bom, o que acharam? Beijos e até o próximo capítulo!!