Notas iniciais
"Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o." ~William Shakespeare

Aquele terror momentâneo passou e mais uma vez nos via sentados conversando – na verdade estava mais para um pedido de desculpas infinito -, deixamos de lado a briga para que pudéssemos arrumar as coisas que se quebraram ou saíram do lugar e também para nos recuperar dos ferimentos... Bom... Me recuperar dos ferimentos. Apesar de todos, menos Kai, terem se desculpado pelo ataque, eu e meus amigos sentamos juntos e um pouco separados dos outros por questão de segurança e precaução.

Meus braços e nuca ainda doíam e algumas marcas sangravam um pouco, ao perceber isso Lay se ofereceu para enfaixa-las e tratar de meus ferimentos, sua atitude era de bom intuito então aceitei sua oferta sem cerimônias – Thereza não gostou muito da ideia, pois ela que sempre cuidava de mim quando estava ferida, mas naquele caso quanto mais ajuda melhor. Ele tinha boas mãos e fez tudo para que eu não sentisse dor ou algum desconforto, podia ver em seus olhos uma boa alma e me lembrei dele durante o ataque anterior deles, Lay foi o ultimo a me atacar e também o único que hesitou por um certo momento antes de avançar para cima de mim.

– Cura... – disse e ele desviou o olhar das bandagens que enrolava em meus braços para me encarar, olhei em seus olhos e sorri.

– Cura? – perguntou voltando a prestar atenção nas bandagens e continuou a enrola-las.

– Se você fosse um marcado... Seria cura. – ele me deu uma rápida olhada e sorriu gentilmente.

–Não há como saber isto, nem mesmo a Rainha das marcas negras poderia prever uma coisa dessas – eu olhei seu rosto e descobri uma certa inocência estampada em sua face.

– Desafio aceito! – disse e segurei sua mão que enrolava as bandagens em mim, ele me encarou um pouco confuso.

Lay me olhava com um certo nervosismo, mas não tentava se soltar de minhas mãos como alguém que me temia, ele agia tranquilamente, porém seu rosto denunciava um certo receio. Eu assenti para que ele relaxa-se e ele assentiu de volta como um sinal que confiava em mim, seu rosto começou a suavizar e passou a possuir uma expressão calma e relaxada.

As marcas em meu corpo se puseram a brilhar mais uma vez, não queimavam, mas continuavam a sangrar. Em quanto me concentrava no Lay uma luz saia de minhas marcas e penetravam o braço deles, pareciam como cobras que subiam se entrelaçando em seu braço até pararem totalmente em seu antebraço um pouco abaixo do ombro. Os olhos de todos acompanhavam a luz nele, até mesmo os outros rapazes se levantaram de seus assentos e chegaram mais perto para nos observar, os olhos não desviavam do brilho no antebraço de Lay. Demorou um tempo, mas os filetes de luz se transformaram em um redemoinho e logo formaram um símbolo em forma da cabeça de um unicórnio que significava a cura.

– Viu? – disse e ele olhou para mim com seus olhos brilharam.

– Como consegue? – perguntou intrigado. Sorri.

– Uma rainha nunca revela seus segredos... – disse e soltei sua mão. Logo que a soltei o símbolo em seu antebraço desapareceu e com ele também sumiram os olhos fixados e fascinados.

– Mas o que realmente foi isso? – perguntou Lay enquanto me encarava, os outros também continuavam ao seu lado e me encaravam sem piscar.

– Eu passei minha aura pra você e ela leu sua alma, assim foi identificado a sua marcam mesmo não possuindo uma – ele assentiu e voltou a olhar o lugar em que a luz tomou forma da arca de cura, parecia estar maravilhado.

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Sem perceber já estávamos reunidos outra vez, rindo de coisas estúpidas que Thereza falava e de Chanyeol fazendo caras engraçadas em quando contava alguns micos que a “família”, que eles formavam, tinha passado ao longo dos anos, como quando Chen, um dos vampiros, se apaixonou por uma humana e tentou dar uma de “Edward Cullen” para cima dela, mas o máximo que conseguiu foi fazer a menina sair correndo de medo dele.

Mesmo rindo e me divertindo ali entre eles, eu não conseguia tirar da cabeça a única pessoa que não estava presente naquele momento, Kai. Ele me intrigou com sua raiva monumental por mim apesar de eu nem mesmo o conhecer, e precisava saber o porquê deste ódio tão grande. Até pensei em perguntar para os meninos, porém tinha certeza que não teria nenhuma resposta sobre o assunto, eles pareciam proteger e esconder o passado dos amigos de uma forma muito estranha. Apesar da ideia não parecer a melhor de todas, decidi ir atrás do próprio Kai e descobrir por mim mesma, mesmo isso podendo me machucar ainda mais, eu não poderia continuar fingindo que tudo estava bem quando existe alguém dentro deste lugar que poderia me matar por ódio absoluto.

Me levantei e segui para o corredor sem falar nada à ninguém, apenas andei calmamente até que ninguém mais pudesse me ver, não que ir falar com o Kai fizesse os outros me olharem mal, mas é que poderiam não entender o porquê eu iria querer ver alguém que tentou me machucar. Já no corredor comecei a andar olhando em volta e procurando algum sinal de luz que mostrasse que lá estava o ser que procurava, e para a minha sorte ele estava em uma das primeiras portas daquele enorme corredor.

Cheguei perto da porta e parei para respirar fundo antes de bater, fiquei quase uns 5 minutos apenas parada pensando no que falar e em como me defender se ele tentasse me atacar de novo. Bati na porta. Não demorou nem mesmo um segundo para a porta se abrir e eu ter a visão do mago Kai sem camisa sendo iluminado, pelo o que parecia ser, bolas de luz branca que flutuavam pelo quarto.

– Se quer desculpas é melhor não perder seu tempo – ele disse, mas eu não conseguia ter nenhuma reação quanto a sua arrogância.

– Não procuro desculpas, apenas explicações... – falei o empurrando para o lado e entrando em seu quarto – Quarto legal.

– Não me importa o que você quer ou acha, apenas saia daqui. – Kai disse apontando para a porta, mas o ignorei.

– Nossa... Quantos livros você tem – disse parando em frente a uma estante cheia de livros, peguei um e comecei a folhea-lo –, Moby Dick? Amo esse livro!

“Eu não conheço tudo que vem pela frente...” – ele disse se virando para a porta e evitando me olhar.

“... mas seja o que for, vou enfrentar gargalhando” – continuei a frase dita pelo Capitão Ahab em Moby Dick.

– Apesar de detestável, parece que você tem bom gosto para literatura. – falou me mostrando outra vez a porta – Agora me deixe em paz.

– Um corpo tão lindo para um ser tão rude – falei deixando o livro em seu lugar e indo em sua direção -, por que não me fala logo o que atormenta esse coração?

– Direi o que ouvi ao procurar ajuda em seu reino anos atrás: “Magos não são problema dos marcados e muito menos seus problemas importam” – ele fechou a porta, se virou e cruzou os braços me encarando.

– Não te disse nada disso... Até porque não te conheço – ele me olhou com desdém -, e mais uma coisinha... Por que fechou a porta? – olhei para ele com uma expressão interrogativa.

– Vamos acertar as contas agora – ele disse e me empurrou, o que fez que eu caísse no chão -, você quer saber mesmo o que me perturba? – falou enquanto me levantava – Me perturba seu coração ainda bater! – Kai tentou me chutar assim como anteriormente, porém eu desviei e fiquei de pé.

– O QUE EU FIZ PRA VOCÊ? – gritei e levantei minha mão em sua direção, da palma levantada saiu uma luz ofuscante que o cegou por um segundo – NUNCA FIZ NADA! – corri em sua direção e tentei o acertar, mas ele segurou meu punho.

Antes mesmo de pensar ele segurou meu pescoço com a outra mão que começou a reluzir, ele devia estar usando algum tipo de magia já que meu corpo paralisou completamente. Não conseguia raciocinar direito e nem mesmo pensar em alguma coisa para fugir daquela situação complicada. Fiquei o observando em quanto tentava pensar em uma forma de me livrar da magia, então percebi lágrimas em seus olhos, lágrimas sinceras e sem nenhum pingo de mentira, apenas lágrimas de tristeza e raiva, de medo talvez. Finalmente tive uma ideia que o faria me soltar o que anularia a magia, me concentrei no fogo de minhas marcas e assim meu corpo começou a queimar como fogo, suas mãos não suportaram me segurar por muito tempo e logo me via livre.

– Mesmo que o tenha feito... – ele me olhou raivoso e sem prestar atenção no que eu dizia, apenas tentou me atingir com magias que conjugava em alguma língua estranha – Eu apenas tinha medo de ser vulnerável e ser vista como fraca – continuava a não me escutar, apenas conjugou uma magia que fez ecoar um som agudo por todo o quarto, o que me fez tampar meus ouvidos tentando me proteger -, eu apenas tinha medo de que meu reino acabasse como acabou – seus olhos que transbordavam ódio puro me fitavam e um pequeno sorriso se formou no canto da sua boca, mais um feitiço foi lançado e uma pequena bola amarela se formou em sua frente sua luz me fazia sentir como se estivesse no sol. Ele estava usando minha fraqueza contra mim e provavelmente conseguiria que seu desejo se realizasse, meu coração pararia de bater se ele realmente usasse a luz do sol a seu favor, mas antes de morrer eu tinha que lhe dizer uma ultima coisa – ME DESCULPE POR TUDO QUE JÁ FIZ... DESCULPE-ME – berrei e a bola amarelada explodiu intensificando sua luz o que me dava um desconforto terrível, mas antes que eu pudesse me render à provável morte ou inconsciência que viriam, ele correu e me cobriu com seu corpo.

Abri meus olhos que havia fechado no momento de pânico e vi ele olhando para mim com um olhar assustado, preocupado e confuso de uma vez só, as lágrimas ainda escorriam por seu rosto, mas não via mais o ódio impregnado nelas. Parecia que finalmente ele havia me ouvido e acabou decidindo que não era o certo me matar, talvez não naquela hora, não sei ao certo o que passou na cabeça dele naquele exato momento.

– Você negou veementemente todas as acusações as quais impus e mesmo assim no fim você pede desculpas? – ele falou olhando em meus olhos, talvez tentasse decifrar-me.

– Mesmo negando tudo ao qual você me acusou, eu estava sentindo que precisava me desculpar por qualquer mal que tivesse feito à você – disse e seu olhar de confusão ficou mais intenso -, e o que um simples “me desculpe” causaria a mim se o dissesse? Não iria morrer por me desculpar – dei um pequeno sorriso descontraído e rápido.

Ele continuou me olhando e eu retribuía o olhar fixo, mas minha mente na verdade estava voltada para a bagunça que se tornou o quarto depois da explosão, havia folhas de livros um pouco chamuscadas voando sobre nossas cabeças e cacos de vidro debaixo de nós. Ele começou a piscar vagarosamente e parou de me encarar como se quisesse me devorar viva, Kai apenas se levantou e ofereceu sua mão para ajudar a me levantar, eu a aceitei e fiquei de pé à sua frente, estávamos tão perto um do outro que podia sentir seu calor e sua respiração forte.

– Me desculpe pelo quarto – falei com meu olhar fixado em seus olhos.

– Me desculpe pelos ferimentos – ele disse também sem desviar o olhar.

Aquele momento parecia não acabar e meu corpo parecia ter sido atingido pela magia paralisante outra vez, mas eu sabia que não era ele que me estava fazendo ficar daquela maneira, bom... Não sua magia. Me esforcei muito para me concentrar em qualquer coisa que não fosse o Kai, era muito difícil desviar a atenção dele, mas consegui afastar meus pensamentos e sair de lá sem dizer mais nada e nem olhar para trás. Assim que sai do quarto corri para o quarto em que dormi naquela noite e me tranquei lá dentro, me joguei na cama e fiquei encarando o teto escuro sem saber o que pensar ou fazer. O que tinha acontecido com o Kai podia ter sido minha culpa, mas eu não sabia como reagir diante daquela informação, até porque ao pensar no Kai meu corpo estremecia de uma forma muito estranha e nova, mas o que era aquilo que eu sentia por um cara que acabara de conhecer? Ódio? Repulsa? Era um sentimento bom, mas o único que me vem a mente não poderia ser, não queria que fosse... Será que poderia ser... Amor?

Notas finais
"Escreve logo essa droga..." BY.: Friend kkkkkkkkkkkkkkk